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Radioterapia na infância

Quais as principais diferenças entre radioterapia em crianças e adultos?

A radioterapia é um tema central na oncologia pediátrica. Ainda que tenha potencial de salvar vida em algumas situações, ela pode também gerar efeitos colaterais tardios importantes, incluindo prejuizo ao crescimento, comprometimento neurocognitivo, desenvolvimento de neoplasias secundárias e dor crônica.

A radioterapia age especialmente sobre células que se dividem rapidamente, como é o caso das células tumorais. No entanto, células normais que se multiplicam rapidamente  também sofrem o efeito da radioterapia. Como os tecidos infantis estão em desenvolvimento e com maior taxa de multiplicação celular, elas acabam ficando mais vulneráveis aos efeitos indesejados do tratamento.

O risco desses efeitos depende de muitos fatores, incluindo:

  • Tipo e localização do tumor.
  • Área do corpo tratada.
  • Tipo e dose do tratamento.
  • Idade da criança na época do tratamento.
  • Genética e histórico familiar.
  • Outros problemas de saúde que existiam antes do diagnóstico do câncer.

A preocupação com efeitos colaterais, associado ao aumento da eficácia dos tratamentos quimioterápicos modernos, tem levado a uma redução nas indicações para a radioterapia na infância.

No entanto, ela segue sendo um pilar fundamental do protocolo de tratamento para certos tipos de cânceres, onde ela de fato se mostra superior do que outras modalidades que não incluem a radioterapia.

Quando de fato se faz necessária, os protocolos da radioterapia vêm sendo adaptados na tentativa de poupar os tecidos normais e minimizar as complicações de longa data. Como regra geral, os protocolos pediátricos vêm usando doses totais menores e volumes irradiados menores, sempre que possível.

Desenvolvimento musculoesquelético

A radioterapia na infância pode prejudicar significativamente o crescimento ósseo, com risco para discrepâncias no comprimento dos membros, escoliose e problemas articulares secundários a rigidez e contraturas. Além disso, ela está associada a maior risco de fraturas ou até mesmo a cânceres ósseos secundários.

A radiação das placas de crescimento pode retardar ou interromper localmente o crescimento ósseo, resultando em membros mais curtos ou menor estatura geral. Quando esses efeitos não são simétricos em ambos os lados do corpo, a criança pode desenvolver uma curvatura na coluna (escoliose) ou uma assimetria dos membros.

A radioterapia pode também levar à fibrose de tecidos periarticulares, como cápsula articular, ligamentos e músculos. Em função disso, a criança pode desenvolver contraturas e rigidez articular. Além de prejudicar a função e causar dor, essas contraturas podem afetar o funcionamento das placas de crescimento dos ossos e contribuir para as eventuais deformidades.

Desenvolvimento neurocognitivo

O cérebro infantil está em pleno desenvolvimento, o que torna ele mais sensível aos efeitos da radioterapia.

A radioterapia no cérebro tem potencial para afetar funções como o desempenho académico, o quociente de inteligência (QI), a memória, a velocidade de processamento e as relações interpessoais. Esses efeitos variam de acordo com a idade (com risco maior especialmente antes dos 5 anos de idade), local irradiado e dose da radioterapia.

Toda criança que realiza radioterapia na região cerebral deve monitorar regularmente a função neurocognitiva para identificar a possibilidade de eventuais intervenções.

Problemas de desenvolvimento sexual e reprodutivo

O desenvolvimento sexual e reprodutivo pode ser afetado tanto em meninos como em meninas submetidos à radioterapia.

Nos meninos, a radiação nos testículos ou abdome pode afetar a produção de testosterona e de espermatozoides pelos testículos, o que pode comprometer o desenvolvimento na puberdade, a função sexual e a fertilidade.

Nas meninas, especialmente aquelas que já menstruam, quimioterapia e radioterapia no abdome, pelve, coluna lombar podem afetar os ovários, causando infertilidade, menstruação irregular e menopausa precoce.

Para os meninos e meninas, A radiação cerebral pode comprometer o funcionamento da hipófise e / ou hipotálamo, responsáveis por regular a produção hormonal nos ovários femininos ou testículos masculinos.

Discutimos mais sobre isso em um artigo sobre Hipogonadismo pós tratamento para câncer na infância.

Segunda neoplasia

Pessoas que fizeram radioterapia ao longo da infância apresentam risco aumentado de desenvolverem um segundo câncer ao longo da vida. Não estamos falando aqui de recidiva ou metástase do câncer inicial, mas sim de um novo câncer não relacionado ao primeiro.

O risco é maior no caso de irradiação do Sistema Nervoso Central ou quando são usadas altas doses de radioterapia. Além disso, mulheres que tiveram a região torácica irradiada apresentam risco mais elevado de câncer de mama ao longo da vida.

Quais as principais indicações para a radioterapia na infância?

Entre os tumores na infância mais comumente tratado com a radioterapia, incluem-se:

Tumores do Sistema Nervoso Central

  • Meduloblastoma (cranioespinhal + leito tumoral)
  • Ependimoma (pós-ressecção)
  • Gliomas de alto grau
  • Tumor rabdóide atípico (alguns protocolos)
  • Germinomas (excelente resposta)

Sarcomas e tumores de partes moles

  • Rabdomiossarcoma (frequente)
  • Sarcoma de Ewing (pós-quimio, quando ressecção é limitada)
  • Osteossarcoma (situações raras, como ressecção incompleta)

Leucemias

  • LLA: radioterapia de SNC em casos específicos (altíssimo risco, recaída, testículo)
  • LMA: raramente usada, exceto em massa cloroma ou SNC

Linfomas

Tumores sólidos extracranianos