Oncologia pediátrica
Quais os cânceres mais comuns na população pediátrica?
Mostramos abaixo os tipos mais comuns de câncer na população pediátrica
| Ordem | Tipo de câncer | Porcentagem aproximada |
| 1 | Leucemias | 30% |
| 2 | Tumores do SNC | 20% |
| 3 | Linfomas | 10–12% |
| 4 | Neuroblastoma | 7–8% |
| 5 | Tumor de Wilms | 5–6% |
| 6 | Sarcomas (rabdomiossarcoma + ósseos) | 10% |
| 7 | Retinoblastoma | 3% |
| 8 | Tumores de células germinativas | 3% |
| 9 | Hepatoblastoma | 1% |
Diferenças no tratamento oncológico
O tratamento oncológico pediátrico é profundamente diferente do tratamento oncológico em adultos — não apenas pelos tipos de tumores, mas pela forma como crianças respondem, toleram e são impactadas pela terapia.
As crianças habitualmente toleram melhor doses elevadas de quimioterapia e recuperam medula óssea mais rapidamente, permitindo protocolos mais agressivos e com maior probabilidade de resposta satisfatória e cura. Já a Radioterapia na infância é cada vez mais evitada por conta dos importantes efeitos colaterais, embora necessária em casos selecionados.
Por outro lado, elas apresentam maior risco de recidiva no Sistema Nervoso Central, especialmente na Leucemia Linfoide Aguda, sarcomas e Tumores de Sistema Nervoso Central. Por conta disso, a profilaxia intratecal é mais intensa, sendo muitas vezes utilizadas altas doses de metotrexato.
Fertilidade e desenvolvimento
Os tratamentos para o câncer infantil podem afetar os ovários femininos e os testículos masculinos, comprometendo a capacidade de produzir os hormônios sexuais – testesterona nos homens e estrógeno e progesterona nas mulheres.
O início da puberdade pode ser afetado e algumas crianças podem precisar de tratamento hormonal para garantir o desenvolvimento físico e sexual norma durante a puberdade.
A maioria das crianças com câncer infantil crescerá e poderá ter filhos normais e saudáveis. Em alguns casos, no entanto, o tratamento pode causar uma redução na fertilidade e na capacidade de ter filhos no futuro. Isso depender da idade da criança no momento do tratamento e do tipo de tratamento realizado.
A infertilidade e os problemas relacionados ao crescimento e desenvolvimento são mais comuns em cânceres no cérebro, região pélvica ou órgãos sexuais, em crianças que realizaram radiação no cérebro ou na região pélvica ou que fizeram uso de certos tipos de quimioterápicos.
Discutimos mais sobre isso em um artigo sobre o Hipogonadismo pós tratamento oncológico na infância.
Educação e desenvolvimento cognitivo
A educação e a cognição da criança em tratamento para câncer podem ser diretamente afetadas por conta dos tratamentos realizados, e indiretamente por conta dos efeitos psicossociais do tratamento.
O cérebro infantil encontra-se naturalmente em pleno desenvolvimento, diferentemente do cérebro adulto, onde as funções já estão estabelecidas. Interferências durante essa fase podem gerar impactos permanentes, sendo que quanto mais jovem a criança, maior será o impacto.
A Radioterapia craniana é a maior causa de déficit cognitivo em oncologia pediátrica. Por isso, ela tem sido cada vez mais evitada especialmente em tumores não relacionados ao cérebro.
A Quimioterapia intratecal e sistêmica também pode ter impacto neurológico, mesmo sem radioterapia. Os efeitos geralmente são mais leves que os da radioterapia, mas não são negligenciáveis.
Do ponto de vista psicosocial, as ausências escolares prolongadas o isolamento social e o estresse familiar podem amplificar ainda mais déficits neurológicos.
O apoio pedagógico, incluindo aulas de reforço e adaptações na rotina de aprendizagem são importantes não apenas para minimizar os impactos no neurodesenvolvimento, mas também para melhora o estado emocional da criança em tratamento.
Cardiotoxicidade
A cardiotoxicidade é um efeito colateral grave relacionado ao uso de diferentes quimioterápicos na infância.
Os efeitos carrdiotóxicos podem se manifestar tanto durante o tratamento como em uma fase tardia, anos após o fim do tratamento. Pacientes oncológicos pediátricos, dessa forma, têm um risco considerável de desenvolver complicações cardíacas ao longo da vida.
Poir esse motivo, elas devem passar por monitoramento da função cardíaca antes, durante e após o tratamento, o que pode incluir ecocardiograma e biomarcadores.
Alguns protocolos consideram ainda o uso de medicamentos cardioprotetores (como dexrazoxano) para reduzir os efeitos cardiotóxicos da quimioterapia.
Risco de segundo tumor
O risco de segundo câncer é maior em crianças do que em adultos. Não estamos falando aqui de uma recidiva ou de metástase do tumor inicial, mas sim de um segundo câncer não relacionado ao primeiro.
Esse risco aumentado de deve a diferentes fatores:
- A criança recebe tratamento ainda em fase de crescimento, quando células são muito sensíveis a dano de DNA. Alguns dos cânceres com risco elevado após tratamento com quimioterapia e/ ou radioterapia incluem os tumores de tireoide, Gliomas, sarcomas, câncer de mama (principalmente após irradiação torácica) e leucemias.
- A criança tem uma expectativa de vida mais longa após o tratamento, o que significa uma janela temporal mais longa para desenvolver novos tumores.
- Alguns tumores pediátricos têm predisposição genética subjacente que pode influenciar no aparecimento de novos cânceres (ex.: Li-Fraumeni, retinoblastoma hereditário).
Um dos principais fatores de risco para o segundo câncer é a radiação ainda durante o período de crescimento. Por conta disso, sempre que possível deve-se dar preferência pelo uso da quimioterapia ao invés da radioterapia na infância. A radioterapia deve ser reservada a condições específicas, buscando-se reduzir a dose e o volume irradiado e usado técnicas modernas de radioterapia como a IMRT e a protonterapia.
Quando alcançam a adolescência e vida adulta, a adoção de um estilo de vida saudável é fundamental, evitando-se tabagismo e álcool, bem como o excesso de radiação solar. A prática regular de atividades físicas deve ser estimulada, bem como a adoção de hábitos alimentares mais saudáveis. A vacinação contra o HPV deve ser recomendada.
Por fim, esses indivíduos devem realizar uma vigilância mais próxima para dentificar precocemente eventuais tumores secundários, o que incluir um início mais precoce do rastreamento de câncer de mama, exame clínico anual para rastreamento de câncer de tireoide e realização de hemogramas de forma regular.
Adesão ao tratamento depende dos pais / cuidadores
O sucesso do tratamento para o câncer é muito dependente da aderência do paciente aos protocolos estabelecidos. Isso envolve consultas médicas de rotina, internações frequentes uso de medicamentos em casa e visitas frequentes a centros de pronto atendimento.
Cuidados com a alimentação, sono e prática de atividades físicas são importantes não apenas para a melhora na qualidade de vida, mas em muitos casos, levam a uma melhor resposta aos tratamentos primários, como cirurgia, quimioterapia ou radioterapia. O suporte psico emocional tem papel ímpar, bem como cuidados com o isolamento social, quando necessário.
Isso tudo já é difícil no adulto, mas muito mais difícil na criança que depende de uma supervisão rigorosa dos cuidadores e que não tem maturidade para uma compreensão completa de tudo o que está acontecendo. O suporte psicológico, de preferência com psicooncologistas, é importante tanto para a criança como para seus cuidadores.