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Obesidade

Visão geral da obesidade

A obesidade é uma doença crônica complexa e multifatorial, caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal.
Ainda que muitas pessoas a vejam como um problema primordialmente estético, a obesidade está relacionada ao desenvolvimento de diversos problemas de asúde, incluindo doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, apneia do sono, fígado gorduroso, osteoartrose, infertilidade, alguns tipos de câncer e redução da expectativa e da qualidade de vida.
Nem toda obesidade se comporta da mesma maneira: algumas pessoas apresentam maior acúmulo de gordura visceral — localizada principalmente na região abdominal — o que aumenta significativamente o risco cardiovascular e metabólico, mesmo em indivíduos que aparentemente não apresentam sintomas importantes. Já a gordura que se acumula atrás da pele não deixa de ser ruim, mas tem impacto bem menor nos risco à saúde.
O tratamento da obesidade deve ter como ponto de partida as mudanças no estilo de vida, incluindo melhora no padrão alimentar, prática regular de atividade física, melhora na qualidade do sono e redução do estresse. Nenhum outro tratamento terá resultado satisfatório a longo prazo quando essas medidas forem desconsideradas ou relevadas a segundo plano.
Dependendo da gravidade do quadro e da presença de complicações, outras abordagem podem ajudar a potencializar a perda de peso, especialmente os medicamentos (com destaque para as chamadas “canetas emagrecedoras”) e, em casos selecionados, cirurgia bariátrica.

Diagnóstico da Obesidade

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a obesidade com base no  Índice de Massa Corporal (IMC) (4).

Embora seja um bom teste de triagem, o resultado deve ser interpretado com cautela e outros testes devem ser considerados para uma compreensão mais completa do paciente obeso, incluindo a avaliação da Composição corporal e a medida da Circunferência abdominal.

Índice de Massa Corporal (IMC)

Índice de Massa Corporal (IMC) é obtido dividindo-se o peso pela altura ao quadrado.

A classificação atual da obesidade com base no IMC é a seguinte:

  • Sobrepeso: IMC entre 25,0 e 29,9 kg/m2;
  • Obesidade Grau I: IMC entre 30,0 e 34,9 kg/m2;
  • Obesidade Grau II: IMC entre 35,0 e 39,9 kg/m2;
  • Obesidade Grau III: IMC maior do que 40,0 kg/m2.

O IMC é uma medida fácil de ser feita, o que torna ela uma ferramente interessante como método de triagem. Entretanto, ele tem limitações importantes:

  • Não é capaz de diferenciar os tipos de tecidos, o que faz com que uma pessoa excessivamente forte possa eventualmente ser caracterizada como obesa;
  • Não é capaz de diferenciar se as variações no peso decorrem do ganho ou perda de gordura ou de massa muscular. Este é um aspecto fundamental para avaliar o sucesso de uma dieta ou treinamento esportivo.

Como exemplo, uma pessoa que perdeu 4kg em uma dieta pode ter perdido 2kg de gordura e 2kg de massa muscular. Por outro lado, ela pode ter perdido 6kg de gordura e ganhado 2kg de massa muscular, uma condição bastante diferente. 

Avaliação da composição corporal

A avaliação da Composição Corporal engloba um conjunto de técnicas que tem por objetivo caracterizar qual a proporção do peso corporal total de uma pessoa que é composta por gordura, por tecido livre de gordura ou por água livre.

Entre as técnicas mais utilizas, incluem-se a medida de dobras cutâneas e a Bioimpedância.

Embora não existam parâmetros claros sobre qual a composição corporal usada para definir a obesidade, um parâmetro muito utilizado é aquela definida pela American Council on Exercise (ACE), conforme abaixo (1):

 Mulheres (%)Homens (%)
Gordura essencial10 – 132 – 5
Atletas14 – 206 – 13
Saúde21 – 2414 – 17
Acitável25 – 3118 – 24
Obesidade> 32> 25

Obesidade central X periférica

O acumulo de gordura tende a acontecer de forma diferente em homens ou mulheres.

Os homens tendem a acumular a gordura ao redor das vísceras do abdômen, o que é denominado de gordura visceral, central ou andrógena.

Ela é considerada a mais perigosa, pois fica próxima aos órgãos vitais e do sistema circulatório.

Além disso, esta é uma gordura muito ativa metabolicamente. Ela libera ácidos graxos, agentes inflamatórios e hormônios que, em última análise, aumentam a pressão arterial, o colesterol LDL, triglicerídeos e glicose no sangue.

Já as mulheres tendem a acumular a gordura logo abaixo da pele, no tecido subcutâneo, especialmente ao redor do quadril e coxas. Essa é também chamada de Obesidade Ginecoide.

Ainda que o risco cardiovascular seja superior ao de pessoas com Índice de Massa Corporal dentro da normalidade, o risco é muito menor quando comparado com pessoas que apresentam acúmulo de gordura viceral.

Uma forma de diferenciar o acúmulo de gordura visceral do acúmulo de gordura subcutânea é pela medida da Circunferência Abdominal.

Quanto maior a circunferência abdominal, maior o acúmulo de gordura visceral e maior o risco cardiovascular (5).

A medida deve ser feita a partir do ponto situado na metade da distância que separa as últimas costelas da parte superior do osso ilíaco

A recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) é de que a cintura não ultrapasse 102cm nos homens e 88cm nas mulheres. A relação entre a circunferência abdominal e a circunferência do quadril não pode ser maior que 1,0 nos homens e 0,85 nas mulheres.

Estudo de revisão realizado na Mayo Clinic, nos Estados Unidos, incluindo 650 mil pessoas, observou que a mortalidade em homens com circunferência abdominal maior do que 110cm for 52% maior do que aqueles com circunferência menor do que 90 cm (2). Entre as mulheres, aquelas com circunferência abdominal maior do que 95cm tiveram mortalidade 80% mais alta do que aquelas com circunferência abaixo de 70 cm.

Para cada 5 cm de aumento na circunferência abdominal, houve aumento de 7% na mortalidade masculina e de 9% na feminina, dados que se repetiram em todas as faixas do IMC.

Quais as principais causas da obesidade?

A obesidade é mutas vezes associada a pessoas preguiçosas e sem auto-cuidado. Na maior parte das vezes, essa não é a realidade.

O ganho de peso está diretamente relacionado a dois fatores: quantas calorias são consumidas e quantas calorias são gastas ao longo de um dia.

Hábitos alimentares e sedentarismo, sem dúvidas, exercem uma forte influência no desenvolvimento da obesidade.

No entanto, reduzir o ganho ou a perda de peso exclusivamente a uma combinação destes dois fatores é uma atitude bastante simplista e que não necessariamente condiz com a realidade, podendo levar a decisões frustrantes e inefetivas. 

Fatores eventualmente implicados no desenvolvimento da obesidade incluem:

A genética também contribui para o desenvolvimento da obesidade. Diversos processos associados à obesidade são influenciados por fatores genéticos, incluindo:

  • Controle do apetite;
  • Controle da sensação de saciedade,
  • Regulação do metabolismo;
  • Tendência à compulsão alimentar;
  • Distribuição de gordura corporal;

A influência genética é superestimada por alguns, que insistem em colocar a culpa da obesidade na herança familiar, apesar de adotarem uma dieta inadequada e estilo de vida sedentário e pouco saudável. Vale considerar que esses hábitos também têm forme influência do ambiente familiar.

No entanto, pessoas com forte predisposição genética muitas vezes são taxados de preguiçosos, como se sua obesidade fosse simplesmente o resultado de falta de vontade e autocuidado.

Nada podemos fazer para mudarmos a genética. No entanto, pessoas com predisposição genética para a obesidade devem ter cuidado redobrado com a adoção de um estilo de vida mais saudável.

Discutimos mais sobre todos esses aspectos em um artigo específico sobre as Causas da obesidade.

Quais os principais impactos da obesidade?

A obesidade é vista por muitos como uma questão meramente estética.

Embora as características do “corpo perfeito” se modifiquem ao longo do tempo ou mesmo de lugar para lugar, o que a maioria das pessoas buscam no Brasil é um padrão com cintura fina e coxas grossas.

Por outro lado, o sedentarismo e os hábitos alimentares inadequados vêm provocando uma epidemia de obesidade, acometendo 42% da população dos Estados Unidos e 20% da população brasileira (1, 2). Entre 2006 e 2019, o aumento da obesidade no Brasil foi de 70% (3).

A busca por um “corpo perfeito” tem sido cada vez mais questionada. Modelos obesos e influenciadores digitais se vêm em uma luta crescente pelo respeito ao obeso contra a gordofobia. Está é uma luta fundamental, mas que não deve mascarar os diversos problemas de saúde relacionados à obesidade.

A obesidade é considerada uma “doença silenciosa”, já que a maior parte dos prejuízos que ela causa à saúde se desenvolvem sem que o paciente se dê conta disso. Entre eles, devemos considerar: 

Hipertensão Arterial

O excesso de gordura corporal aumenta a resistância à circulação sanguínea, aumentando com isso a força com que o coração precisa fazer para bombear o sangue. Isso é o que caracteriza a Hipertensão Arterial. 

O ganho excessivo de peso, especialmente na forma de gordura abdominal, é uma das principais causas de Hipertensão arterial. Ele é responsável por 65% a 75% do risco de hipertensão primária humana (1). Por isso, a hipertensão é considerada um dos problemas de saúde causados pela obesidade que mais preocupam os médicos.

Ao mesmo tempo em que a obesidade está associada à hipertensão, e a hipertensão está associada a várias outras doenças que podem afetar a saúde geral e a expectativa de vida, como o Diabetes tipo II e a Doença Arterial Coronariana.

A perda de peso, por outro lado, pode levar a uma queda significativa na pressão arterial, com diminuição no número ou nas doses dos medicamentos tomados.

A perda de peso é o passo mais importante para reduzir a hipertensão e melhorar a qualidade de vida.

Diabetes

A obesidade é a principal causa de diabetes tipo 2. Este tipo de diabetes geralmente começa na idade adulta. Entretanto, ela vem acontecendo cada vez mais cedo e inclusive em crianças, devido a combinação de obesidade, sedentarismo e maus hábitos alimentares. 

A obesidade pode causar resistência à insulina, o hormônio que regula o açúcar no sangue. Quando isso acontece,  o corpo perde a capacidade de armazenar a glicose que entra no sangue após uma refeição, levando a um estado de hiperglicemia característico da Diabetes tipo 2.

Mesmo a obesidade moderada aumenta drasticamente o risco de diabetes. Vale mais uma vez lembrar que o acúmulo da gordura na região abdominal é mais perigoso do que a quantidade total de tecido adiposo.

Doença cardíaca

A Aterosclerose (endurecimento das artérias) é 10 vezes mais comum em pessoas obesas em comparação com aquelas que não são obesas (2), sendo maior quanto mais grave for a obesidade.

A aterosclerose no coração caracteriza o que denominamos de Doença Arterial Coronariana, que por sua vez pode causar dor no peito (angina) ou o Infarto do Miocárdio.

O efeito da obesidade sobre o risco cardíaco é tanto direto como indireto, uma vez que outros fatores de risco para o coração, como colesterol alto, sedentarismo, hipertensão arterial e problemas com o sono também são mais comuns em pessoas obesas.

Apnéia Obstrutiva do sono 

A apnéia obstrutiva do sono é outro problema de saúde causado pela obesidade e que é bastante comum. Esta é uma condição na qual as pessoas param de respirar por breves períodos enquanto dormem, interrompe o sono durante a noite e causa sonolência durante o dia. Além disso, ela causa ronco pesado.

O excesso de peso é um dos principais fatores de risco para a apneia do sono. O ganho de peso de 10% está associado a um aumento de seis vezes no risco de apneia do sono (3). Além disso, 60 a 90% das pessoas com apneia do sono são obesas (4).

Isso acontece por dois mecanismos diferentes principais:

  • O excesso de gordura no pescoço pode bloquear as vias aéreas superiores de uma pessoa durante o sono quando as vias aéreas já estão relaxadas
  • O excesso de gordura pode comprimir a parede torácica, diminuindo o volume pulmonar e aumentando a resistência para a entrada de ar

Problemas nas articulações

A obesidade aumenta o esforço colocado sobre as articulações, o que pode contribuir para o desenvolvimento de problemas ortopédicos como a Artrose do Joelho, Artrose no Quadril ou Dor Lombar.

Muitas das dores ortopédicas, incluindo bursites e tendinites, estão associadas a uma maior sobrecarga sobre as articulações, tendo a obesidade uma contribuição significativa para isso. 

O excesso de peso também faz com que uma mesma lesão articular seja muito mais sintomática.

Como exemplo, duas pessoas com Artrose do joelho apresentando exames de imagem muito parecidos podem ter queixas bastante distintas. Uma delas pode desempenhar bem até mesmo em atividades físicas de impacto, enquanto a outra pode ter limitação significativa mesmo para atividades domésticas.

Isso acontece porque existem diversos fatores que contribuem para a dor que é percebida pelo paciente com artrose, sendo a obesidade um dos mais relevantes destes fatores.

Por fim, a obesidade leva a um estado inflamatório crônico que pode contribuir para uma deterioração mais precoce da cartilagem articular.

Isso justifica o fato de pessoas obesas terem risco elevado inclusive para artrose na mão, uma articulação que não sofre diretamente com o efeito do excesso de peso.

Câncer

Diversos tipos de câncer, incluindo endométrio, esôfago, estômago, fígado, rins, pâncreas, colon, mama ou próstata, são mais comuns em pessoas obesas. 

Entre os Problemas de saúde relacionados à obesidade, o câncer é um dos mais perigosos. Ainda assim, esta associação é frequentemente ignorada pelos pacientes e deixada em segundo plano pela equipe médica.

Não está claro até o momento se a obesidade tem um efeito direto sobre a gênese destes tipos de câncer ou se o efeito é indireto. Isso porque diversos outros fatores associados à obesidade, como sedentarismo, maus hábitos alimentares e estado inflamatório crônico, também podem contribuir para o aparecimento do câncer.

Efeitos psicossociais

Em uma cultura onde muitas vezes o ideal de atratividade física é ser excessivamente magro, as pessoas com sobrepeso ou obesas frequentemente sofrem desvantagens.

Estas pessoas são frequentemente responsabilizadas por sua condição e podem ser consideradas preguiçosas ou obstinadas. 

Não é incomum que condições de sobrepeso ou obesidade resultem em pessoas com renda mais baixa ou com menos ou nenhum relacionamento amoroso.

A desaprovação de pessoas com excesso de peso expressa por alguns indivíduos pode progredir para preconceito e discriminação. Esta discriminação nem sempre é explícita, mas pode vir oculta nas atitudes da pessoa.

Discutimos mais sobre estes aspectos em um artigo sobre a Abordagem psicológica do paciente obeso e superobeso.

Pessoas obesas podem ser saudáveis?

O impacto da obesidade na saúde é bastante individual. Alguns podem apresentar complicações relativamente precoces e maior risco cardiovascular, enquanto outros podem conviver com níveis até maiores de obesidade e por longo prazo sem complicações relevantes detectáveis.

O conceito de “obesidade metabolicamente saudável” se refere justamente a esses indivíduos que, apesar da obesidade, não apresentam alterações metabólicas clássicas do excesso de gordura corporal.

A ausência de complicações não é uma condição estável e benigna, sendo que a tendência é que, sem o controle adequado do excesso de peso, esses indivíduos desenvolvam complicações relacionadas à obesidade após alguns anos de seguimento.

A “obesidade saudável” não é, portanto, um mito completo, uma vez que de fato existe um subgrupo de pessoas que são mais resistentes aos efeitos negativos da obesidade. Ainda assim, do ponto de vista médico, e fundamental que essas pessoas adotem medidas para o melhor controle de peso, evitando-se assim as consequências de longo prazo.

Tratamento da Obesidade

A maior parte das pessoas obesas passam boa parte da vida lutando para perder peso, com períodos de recaída na qual recuperam tudo aquilo que havia sido perdido anteriormente. Popularmente, isso é conhecido como “efeito sanfona”.

Isso acontece especialmente frente a adoção de dietas e rotinas de exercícios pouco ortodoxos e muito difíceis de serem mantidas no longo prazo. Com os avanços no uso de canetas emagrecedoras, isso também vem acontecendo em pessas que confiam excessivamente na mágica dos medicamentos, sem que isso seja acompanhado por mudanças reais no estilo de vida.

Mudanças comportamentais e de estilo de vida de longo prazo continuam sendo a base para o sucesso prolongado no tratamento da obesidade.

Quando isso não for suficiente, o uso de canetas emagrecedoras são uma excelente opção em pessoas com níveis menores de obesidade, enquanto a cirurgia bariátrica segue sendo o tratamento padrão ouro notratamento de obesidades mais significativas ou acompanhadas de complicações relevantes.

Mudanças no Estilo de Vida

A melhora do padrão alimentar é o ponto central no tratamento da obesidade. Ninguém vai perder peso mantendo uma dieta rica em produtos industrializados de alto valor calórico.

No entanto, a relação do indivíduo com a comida deve ser repensada. A pessoa precisa se sentir bem e feliz com o novo padrão alimentar. Para isso, é importante também que as mudanças sejam feitas de forma gradual.

Grande parte das pessoas obesas vêm a alimentação como um dos maiores prazeres da vida, especialmente com alimentos industrializados e de alto valor calórico. Retirar esse prazer sem substituí-lo não é algo sustentável.

A atividade física ajuda na perda de peso e melhora da qualidade de vida, mas seu papel vai além disso. Em alguns casos, ela ajuda também  a ocupar o vazio deixado pelo prazer alimentar, ajudando a tornar os hábitos alimentares mais permanentes.

Redução no nível de estresse, melhora da higiene de sono e tratamento de problemas psicossociais também podem ser necessários a depender do caso. Ainda que muitas vezes vistas como medidas secundárias no tratamento da obesidade, em algumas pessoas estas abordagens podem ser a diferença entre o sucesso e o fracasso.

O acompanhamento psicológico, muitas vezes relevado a um segundo plano, é de fato uma das partes mais importantes no tratamento da obesidade. Ela tem um papel fundamental em elaborar meios para evitar o reganho de peso.

Novos medicamentos para obesidade têm sido um importante aliado para o combate a obesidade, especialmente na obseidade leve a moderada.  Os medicamentos podem parecer uma forma fácil de se perder peso. No entanto, seu efeito será insatisfatório, caso não venha acompanhado de outras mudanças discutidas acima.

Em alguns casos, mesmo uma pessoa disciplinada e que tenha adotado todas as medidas discutidas acima podem falhar na perda de peso. Em outros casos, a presença de comorbidades ou a necessidade de perda excessiva podem ser difíceis de se conseguir apenas com as mudanças no estilo de vida. Nesses casos,  a cirurgia bariátrica pode ser considerada. A cirurgia continua sendo o método de escolha nas grandes obesidades, mesmo na era das canetas emagrecedoras.

Alimentação

Poucos assuntos na saúde geram opiniões tão divergentes quanto as “Dietas para emagrecer.”.

Esse é, de fato, o alicerce do tratamento da obesidade. Ninguém irá perder peso sem uma alimentação equilibrada.

Existem várias dietas, com nomes e sobrenomes, que também se “misturam” com o conceito de dietas para emagrecer.

Dietas “low Carb” (incluindo as dietas cetogênicas), jejum intermitente ou dieta dos pontos são apenas algumas delas.

Todas essas dietas são eficazes em prover a perda de peso, uma vez que são habitualmente adotadas em substituição a uma alimentação desequilibrada e rica em açúcar e produtos ultraprocessados.

No entanto, a maioria falha no longo prazo, já que costumam ser adotadas com a ideia de um “sofrimento necessário”, até que se consiga voltar aos velhos hábitos.

O mais importante ao se pensar na alimentação para a perda de peso é buscar mudanças que possam ser sustentadas no longo prazo sem sofrimento, mas sim como parte de uma mudança no estilo de vida.

Atividade física

A atividade física leva a um aumento no gasto energético, um benefício óbvio para aquelas pessoas que querem perder peso. No entanto, a importância da atividade física vai muito além disso:

  • O músculo é o tecido que mais gasta energia no corpo. Assim, um corpo mais musculoso ajuda a aumentar o gasto energético.
  • Os alimentos de alto valor calórico são muitas vezes usados por pessoas obesas como válvula de escape para lidar com o estresse da vida diária. Com as necessárias mudanças nos hábitos alimentares, o exercício pode assumir o vazio deixado pela ausência desses alimentos;
  • O objetivo final da perda de peso deve ir muito além da estética. Ela deve ser parte de uma melhora na qualidade de vida. O exercício pode ajudar nesse processo.

Quais as melhores atividades físicas para pessoas obesas?

A prática regular e permanente de atividades físicas é mais importante do que a escolha de uma ou outra atividade. Assim, é fundamental que o indivíduo se sinta bem e feliz com o exercício, seja ele qual for.

Os exercícios devem ser feitos na maior parte dos dias da semana. No entanto, as mudanças devem ocorrer de forma gradual.

Mudanças repentinas na prática de exercícios não apenas tendem a ser abandonadas, como aumentam o risco de lesões.

Exercícios aeróbicos e exercícios resistidos (treino de força) devem fazer parte da rotina, bem como os exercícios para ganho de mobilidade articular e ganho de equilíbrio.

Exercícios aeróbicos

Exercícios aeróbicos envolvem atividades prolongadas e cíclicas, como caminhada, corrida, natação, elíptico e outros. São os exercícios que mais geram gasto energético, de forma que têm um papel direto na perda de peso.

O volume dos exercícios é mais importante do que a intensidade. Mas isso depende de fatores como a experiência prévia com atividades físicas e a capacidade física do indivíduo.

Os exercícios aeróbicos podem ser grosseiramente classificados da seguinte forma:

  • Atividades leves: permitem uma conversa regular
  • Atividades moderadas: permitem frases completas, mas não uma conversa regular;
  • Atividades leves: permite falar palavras isoladas, mas não frases completas.

O mais indicado para a perda de peso são as atividades de intensidade moderada.

Para pessoas mais limitadas fisicamente, a caminhada é uma excelente atividade. Para aqueles com maior capacidade física, deve-se dar preferência para exercícios com maior esforço cardiovascular.

Exercícios de força

O gasto energético imediato provido pelos exercícios de força é menor quando comparado com os exercícios aeróbicos, uma vez que eles promovem uma elevação mais limitada na frequência cardíaca. No entanto eles são fundamentais para quem quer perder peso, por diferentes motivos:

O músculo é o tecido que mais gasta energia no corpo. Assim, ter um corpo mais musculoso ajuda a aumentar o gasto energético. Pessoas com menos massa muscular não são capazes de desenvolver um gasto energético significativo durante a atividade física.

Desenvolver força ajuda também a dar um melhor suporte físico para o corpo, aumentando assim a capacidade funcional do indivíduo, seja no dia a dia ou durante outras atividades físicas.

Medicamentos para a Obesidade

O tratamento medicamentoso da obesidade pode ser indicado quando as mudanças no estilo de vida — como dieta, atividade física e acompanhamento comportamental — não são suficientes para promover perda de peso adequada ou controle das complicações associadas.
Em geral, considera-se o uso de medicamentos em pacientes com IMC ≥30 kg/m², ou ≥27 kg/m² na presença de comorbidades como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, apneia do sono ou dislipidemia.
Atualmente, os medicamentos mais utilizados incluem os agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida (Ozempic® e Wegovy®) e a liraglutida (Saxenda® e Victoza®), além da tirzepatida (Mounjaro®), que atua também sobre o receptor de GIP.
Esses medicamentos, popularmente chamados de “canetas emagrecedoras”, ajudam a reduzir o apetite, aumentar a saciedade e diminuir a ingestão alimentar, podendo levar a perdas de peso significativas.
Outras opções incluem combinações como bupropiona/naltrexona e, em alguns países, orlistate. O tratamento deve sempre ser individualizado, levando em consideração o perfil clínico do paciente, fatores que contribuem para o desenvolvimento da obesidade, contraindicações, efeitos colaterais, custo e objetivos terapêuticos.
Nos últimos anos, porém, houve um crescimento importante do uso indiscriminado das chamadas “canetas emagrecedoras”, muitas vezes motivado por pressão estética, redes sociais ou busca por emagrecimento rápido.
Infelizmente, a popularidade e a propaganda que tem sido feita em cima de muitos desses medicamentos tem feito com que eles venham sendo usados como estratégia inicial, principal ou até mesmo única do tratamento da obesidade, relevando-se a um segundo plano as mudanças consistentes na alimentação, atividade física ou comportamento.
O maior problema nesse sentido é a alta probabilidade de recuperação do peso após a suspensão do tratamento, o chamado “efeito sanfona”, o que aumenta ainda mais o risco de complicações e resistência a tratamentos. Isso sem considerar os riscos de efeitos colaterais, como náuseas, vômitos, diarreia, desidratação, cálculos biliares e, raramente, pancreatite.
Outro problema é o uso em pessoas sem indicação clínica clara, incluindo indivíduos com peso normal ou transtornos alimentares. Por isso, as medicações para obesidade devem ser vistas como ferramentas auxiliares dentro de um tratamento mais amplo e contínuo (sendo uma excelente alternativa em muitos desses casos), e não como soluções rápidas ou isoladas para emagrecimento.

Discutimos mais sobre isso em um artigo específico sobre o tratamento medicamentoso para a obesidade

Cirurgia Bariátrica

Cirurgia bariátrica é um termo usado para se referir a um conjunto de procedimentos diferentes que têm como objetivo final a perda de peso.

Alguns procedimentos limitam a quantidade que você pode comer. Outros procedimentos funcionam reduzindo a capacidade do corpo de absorver nutrientes. Alguns procedimentos fazem as duas coisas.

Ela é indicada nas seguintes situações:

  • Índice de massa corporal (IMC) de 35 a 39,9 na presença de um sério problema de saúde relacionado ao peso, como diabetes tipo 2, Hipertensão arterial ou apnéia do sono grave.
  • IMC de 40 ou superior, em pacientes que não tenham obtido sucesso na perda de peso após dois anos de tratamento clínico, incluindo o uso de medicamentos

Apesar dos imensos benefícios para aqueles com indicação para a cirurgia bariátrica, esse não é um procedimento inócuo, envolvendo riscos consideráveis de efeitos colaterais.

Além disso, não terão o efeito desejado caso o paciente não adote um estilo de vida mais saudável após a cirurgia. Assim, a expectativa de uma rápida perda de peso não deve fazer o paciente pular etapas na luta contra a balança.

Qual o papel da Cirurgia Bariátrica na era das canetas emagrecedoras?

Com a crescente popularidade dos “efeitos mágicos” das canetas emagrecedoras e a extensiva propaganda que tem sido feita em cima delas, muitos vêm questionando se a cirurgia bariátrica virou “coisa do passado”.

Podemos dizer no entanto que a cirurgia bariátrica continua tendo um papel muito importante no tratamento da obesidade, especialmente nos casos mais graves ou associados a complicações metabólicas importantes. Nesses pacientes, a cirurgia bariátrica permanece tendo resultados mais consistentes e duradouros.

Atualmente, a tendência não é encarar cirurgia e medicamentos como tratamentos concorrentes, mas sim complementares. Em muitos pacientes, as medicações podem ajudar a evitar a progressão da obesidade e retardar ou até impedir a necessidade de cirurgia.

Em outros casos, especialmente em pacientes com obesidade grave (IMC ≥40 kg/m² ou ≥35 kg/m² com comorbidades), a cirurgia continua oferecendo resultados superiores em termos de perda de peso e remissão metabólica, mas os medicamentos podem ter um papel relevante antes da cirurgia (provendo uma perda de peso inicial) ou após a cirurgia (para evitar o reganho tardio de peso).

Por fim, é fundamental salientar que tanto os medicamentos como a cirurgia bariátrica devem ser vistas como terapias complementares no tratamentos da obesidade, sendo fundamental a adoção de medidas para a melhora no estilo de vida.

AspectoCanetas emagrecedoras (GLP-1/GIP)Cirurgia bariátrica
Indicação principalObesidade leve a moderada ou complemento terapêuticoObesidade grave ou refratária
Perda de peso médiaModeradaElevada e mais duradoura
ReversibilidadeSimParcialmente reversível em alguns casos
Recuperação do peso após suspensãoComumMenor, mas ainda possível
Impacto no diabetes tipo 2ImportanteMuito importante, com maior chance de remissão
Velocidade de resultadoGradualGeralmente mais rápida
Riscos principaisEfeitos gastrointestinais, custo elevadoComplicações cirúrgicas, deficiências nutricionais
Necessidade de mudanças no estilo de vidaFundamentalFundamental