Lombalgia (Dor nas Costas)
Visão Geral
A dor nas costas, também chamada Lombalgia, é a principal queixa que leva pacientes a clínicas de ortopedia e uma das mais comuns em clínicas médicas como um todo. É também um dos principais motivos para a ausência no trabalho e uma das principais causas de incapacidade.
Ela acomete jovens e idosos, pessoas sedentárias e atletas. 70% das pessoas têm ou terão em algum momento da vida uma dor nas costas limitante para suas atividades diárias, incluindo a prática esportiva (1).
O problema tem se agravado ainda mais em decorrência de maus hábitos típicos do mundo moderno, incluindo o sedentarismo, posturas viciosas, obesidade, estresse e fadiga.
Apesar da importância do problema, a dor nas costas continua sendo mal compreendida por médicos e pacientes, levando a insucessos no tratamento. A Lombalgia não deve ser vista como um diagnóstico, mas sim como um sintoma que pode estar associado a diferentes causas e que exigem diferentes tipos de tratamento.
A correta identificação da causa da dor é o ponto inicial de um tratamento bem sucedido. Isso deve envolver não apenas os exames de imagem, mas também a história clínica e o exame físico. Exames de imagem muito parecidos em diferentes pacientes podem ter comportamentos igualmente diversos. Mesmo pacientes completamente sem dor podem apresentar alterações significativas nos exames (2).
A maioria dos casos de Lombalgia são adequadamente tratados sem cirurgia. O diagnóstico mal feito, muitas vezes, com base apenas em exames de imagem, é também o principal motivo para a persistência da dor após uma cirurgia para dor nas costas.
Causas da Dor nas Costas
A dor lombar é uma condição que na maior parte das vezes tem origem multifatorial, quando diversos processos estão contribuindo para a dor do paciente.
Como regra geral, não existe uma condição única que justifique todas as queixas do paciente. A origem da dor nem sempre é fácil de ser estabelecida, de forma que essas dores são genericamente agrupadas sob a denominação de “lombalgia inespecífica”.
Os exames de imagem, quando solicitados, também devem ser analisados com bastante cautela. Isso porque a correlação entre os achados de exames e as queixas do paciente nem sempre são tão claras como pode parecer em um primeiro momento.
Protusões discais ou mesmo pequenas hérnias, por exemplo, são achados muito comuns inclusive em pessoas sem quaisquer queixas de dor lombar. O fator de uma pessoa ter dor lombar e ter uma protusão discal, dessa forma, não necessariamente significa que aquela protusão seja de fato a causa da dor.
Em uma menor parte dos pacientes, por outro lado, existe sim um fator causal claro. As principais delas incluem:
- Fraturas
- Metástase óssea
- Espondilite Anquilosante
- Hérnia de disco com compressão de raiz nervosa.
Na Tabela abaixo, mostramos as principais diferenças entre a dor lombar específic ou não específica.
| Característica | Dor lombar inespecífica | Dor lombar específica |
| Definição | Não há uma causa estrutural única claramente identificável | Existe uma causa estrutural ou doença definida |
| Frequência | Muito mais comum | Menos comum |
| Principais causas | Sobrecarga muscular, alterações biomecânicas, degeneração leve, dor miofascial | Hérnia discal, fratura, infecção, tumor, espondilite, estenose, metástase |
| Relação com movimento | Frequentemente mecânica | Variável conforme a causa |
| Exames de imagem | Muitas vezes normais ou com alterações inespecíficas | Podem mostrar lesão específica relevante |
| Correlação imagem-dor | Frequentemente baixa | Geralmente mais clara |
| Sintomas neurológicos | Incomuns | Podem estar presentes |
| Dor noturna importante | Menos comum | Mais sugestiva |
| Sintomas sistêmicos | Ausentes | Podem ocorrer (febre, perda de peso, fadiga) |
| Evolução | Geralmente benigna | Pode ser progressiva ou grave |
Lombalgia aguda vs lombalgia crônica
A lombalgia pode ser dividida em aguda ou crônica de acordo com a duração dos sintomas. A lombalgia aguda geralmente dura menos de 4 a 6 semanas e costuma estar relacionada a sobrecarga muscular, movimentos bruscos, esforço físico, distensões musculares ou pequenas alterações mecânicas da coluna.
Na maioria dos casos, apresenta boa evolução com medidas conservadoras, como manutenção das atividades, analgesia, fisioterapia e recuperação gradual da mobilidade.
Já a lombalgia crônica é aquela que persiste por mais de 3 meses. Nesses casos, alterações estruturais da coluna ou outras condições por trás da lombalgia são comuns.
| Lombalgia Aguda X Crônica | ||
| Característica | Lombalgia aguda | Lombalgia crônica |
| Duração | Até 4–6 semanas | Mais de 3 meses |
| Causa mais comum | Sobrecarga mecânica ou muscular | Multifatorial |
| Sensibilização central | Menos comum | Frequente |
| Impacto funcional | Geralmente temporário | Frequentemente persistente |
| Rigidez e medo do movimento | Menos importantes | Mais frequentes |
| Papel do sono e estresse | Menor | Muito relevante |
| Exames de imagem | Frequentemente desnecessários | Alterações podem não explicar toda a dor |
| Tratamento principal | Analgesia, movimento e recuperação gradual | Reabilitação multidisciplinar |
Dor lombar vs dor sacroilíaca
A dor lombar e a dor sacroilíaca podem causar desconforto em regiões próximas e frequentemente são confundidas, mas possuem origens e características diferentes. A lombalgia geralmente está relacionada às estruturas da coluna lombar, como músculos, discos, articulações facetárias e ligamentos.
Já a dor sacroilíaca ocorre na articulação sacroilíaca, localizada em uma posição mais baixa e mais lateralizada, próxima à nádega e podendo irradiar para a região glútea, virilha ou parte posterior da coxa. Além das causas mecânicas e degenerativas, a articulação sacroilíaca também pode ser acometida por doenças inflamatórias, especialmente a espondilite anquilosante.
| Dor lombar Vs. Dor Sacroilíaca | ||
| Característica | Dor lombar | Dor sacroilíaca |
| Origem principal | Coluna lombar | Articulação sacroilíaca |
| Localização típica | Região lombar central | Região glútea baixa/lateral |
| Irradiação | Glúteos ou pernas | Glúteo, virilha ou coxa |
| Piora com | Movimentos lombares e esforço | Apoio unilateral, caminhar, subir escadas |
| Dor ao virar na cama | Pode ocorrer | Bastante comum |
| Sintomas neurológicos | Podem ocorrer | Geralmente ausentes |
Dor lombar mecânica, inflamatória ou referida
A dor lombar pode ainda ser classificada quanto a seu mecanismo em três tipos: mecânica, inflamatória e referida.
Dor lombar de origem mecânica
A dor mecânica está relacionada a lesões nos músculos, ligamentos, discos intervertebrais ou articulações da coluna. Ela é muitas vezes sentida após um dia de esforço mais intenso (ao fazer uma mudança ou montar um móvel, por exemplo), após uma noite mal dormida ou ao ficar muito tempo em uma postura inadequada.
A dor geralmente piora com o movimento e melhora com o repouso, fazendo a pessoa se sentir aliviada ao se deitar.
Alguns tipos de dor de origem mecânica incluem:
Dor discogênica
A dor discogênica é um tipo de dor associada a degeneração, fissuras ou sobrecarga mecânica dos discos da coluna. A dor costuma ser localizada na região lombar, frequentemente descrita como profunda, em peso ou pressão.
Ela geralmente piora ao se sentar por longos períodos, inclinar o tronco para frente, levantar peso ou permanecer muito tempo na mesma posição. Em muitos casos há melhora parcial ao deitar ou mudar de posição.
Diferentemente da ciática, a dor discogênica pura geralmente não causa sintomas neurológicos importantes, como choque irradiado para a perna, dormência ou fraqueza. Entretanto, é importante reforçar que nem toda alteração discal causa dor.
Achados como degeneração discal, protrusões, abaulamentos e pequenas hérnias são extremamente comuns em exames de imagem, inclusive em pessoas sem qualquer sintoma. Por isso, o diagnóstico não deve ser baseado apenas na ressonância, mas sim na correlação entre os sintomas, o exame físico e os achados de imagem.
Fraturas por Compressão do Corpo Vertebral
As fraturas por compressão do corpo vertebral são lesões em que a vértebra sofre colapso parcial, geralmente por fragilidade óssea ou trauma. Elas ocorrem principalmente em idosos com osteoporose, mas também podem surgir em pacientes com outras condições que fragilizam o osso, co,o uso crônico de corticoides ou câncer.
A dor geralmente tem início relativamente súbito, muitas vezes após um esforço pequeno, queda leve ou até espontaneamente. A dor geralmente é localizada, intensa e mecânica, piorando ao ficar em pé, caminhar, sentar ou movimentar a coluna, e melhorando parcialmente ao deitar.
Muitos pacientes relatam dificuldade para se levantar, sensação de “travamento” e limitação importante da mobilidade. Em alguns casos podem ocorrer perda progressiva da altura e aumento da cifose (“corcunda”), especialmente quando existem múltiplas fraturas osteoporóticas antigas.
Um ponto importante é diferenciar fraturas agudas das antigas. As fraturas agudas costumam causar dor importante e recente, frequentemente associada a edema ósseo na ressonância magnética, além de sensibilidade localizada à palpação da vértebra acometida.
Já as fraturas antigas frequentemente aparecem apenas como deformidades vertebrais residuais nos exames de imagem, muitas vezes sem dor ativa significativa. Em idosos, é relativamente comum encontrar fraturas vertebrais antigas e assintomáticas incidentalmente em radiografias ou tomografias.
Artrose fascetária
A Artrose facetária é uma causa relativamente comum de lombalgia mecânica, especialmente em adultos de meia-idade e idosos. Ela está relacionada às articulações facetárias, que são pequenas articulações localizadas na parte posterior da coluna que ajudam a estabilizar e orientar os movimentos vertebrais.
A dor costuma ser descrita como profunda, em peso ou rigidez. Diferentemente da ciática, geralmente não há dor irradiada abaixo do joelho nem sintomas neurológicos importantes. Em alguns casos, a dor pode irradiar para glúteos ou região lateral da coxa, mas normalmente sem padrão radicular típico.
A dor gralmente piora ao permanecer muito tempo em pé, ao estender a coluna para trás ou ao se levantar da posição sentada;
O diagnóstico pode ser desafiador porque alterações facetárias são muito comuns em exames de imagem, inclusive em pessoas sem sintomas. Assim, nem toda artrose fascetária deve ser automaticamente entendida como sendo a causa da dor. Em alguns casos selecionados, bloqueios anestésicos diagnósticos das facetas ou dos ramos mediais podem ajudar a confirmar a origem facetária da dor.
Espondilolise e espondilolistese
A espondilólise é uma alteração da coluna em que ocorre uma fratura por estresse ou falha em uma pequena região da vértebra chamada pars interarticularia, geralmente na região lombar.
Ela é mais comum em adolescentes e adultos jovens fisicamente ativos, especialmente praticantes de esportes que exigem movimentos repetitivos de hiperextensão da coluna, como ginástica, dança, futebol ou levantamento de peso.
Muitos pacientes podem não apresentar sintomas. Quando presente, a dor é geralmente localizada na região lombar baixa, piorando com atividade física, extensão da coluna e movimentos repetitivos, e melhorando com repouso.
Já a espondilolistese é uma complicação da espondilolise que ocorre quando uma vértebra desliza parcialmente sobre a vértebra abaixo. A dor costuma ter características mecânicas semelhantes, com piora ao permanecer em pé, caminhar ou realizar esforços. Alguns pacientes relatam sensação de instabilidade, rigidez lombar e tensão muscular.
Em casos mais avançados, pode haver compressão nervosa associada, levando ao aparecimento de irradição para glúteos ou pernas, semelhantes à ciática, incluindo formigamento, dormência ou fraqueza.
O diagnóstico geralmente é feito com radiografias e, em alguns casos, tomografia ou ressonância magnética para avaliar o grau do deslizamento, sinais de instabilidade e possível compressão neural.
Dor lombar de origem inflamatória
A principal característica de uma dor de origem inflamatória e a percepção de piora durante à noite ou no repouso, seguido por melhora relacionada aos movimentos.
As principais condições que provocam dor de origem inflamatória incluem:
Discite
A Discite se. Refere a uma infecção do disco intervertebral, frequentemente acompanhada de acometimento das vértebras adjacentes (espondilodiscite). O agente mais comum é a bacteéria Staphylococcus aureus, mas outras bactérias, tuberculose e fungos também podem estar envolvidos.
Embora seja uma causa relativamente incomum de dor lombar, é uma condição potencialmente grave que exige diagnóstico precoce. A doença costuma acometer principalmente idosos, pacientes imunossuprimidos, diabéticos, usuários de drogas intravenosas, pessoas com câncer, insuficiência renal, infecções sistêmicas ou pacientes submetidos a cirurgias e procedimentos na coluna.
A suspeita deve surgir principalmente diante de dor lombar ou dorsal intensa e progressiva, especialmente quando associada a sinais sistêmicos como febre, mal-estar ou elevação de marcadores inflamatórios. No entanto, é preciso considerar que em muitos casos a febre pode estar ausente, principalmente em idosos.
A dor costuma ser persistente, profunda e bastante intensa, frequentemente piorando com movimento e não melhorando adequadamente com repouso. Muitos pacientes apresentam dor noturna importante e limitação significativa da mobilidade.
O diagnóstico geralmente envolve exames laboratoriais, como PCR e VHS elevados, hemoculturas e exames de imagem. A ressonância magnética é o principal exame para identificar edema, destruição discal, acometimento vertebral e possíveis coleções infecciosas.
Tumor ósseo
A dor lombar pode em muitos casos ser o primeiro sinal de lesão óssea tumoral / cancerígena. Cerca de 90% das lesões tumorais espinhais têm origem metastática, mais comumente provenientes da mama, pulmão e próstata. Nos demais casos, o diagnóstico mais comum é o mieloma múltiplo.
A dor costuma ser progressiva, persistente e frequentemente mais intensa à noite ou em repouso, diferentemente da lombalgia mecânica típica, que geralmente melhora parcialmente ao repousar. Muitos pacientes relatam dor profunda, contínua e cada vez mais incapacitante, às vezes sem relação clara com esforço físico ou movimento.
Atenção especial deve ser dada aos casos de câncer conhecido que apresentam dor lombar de início recente. No entanto, lesão óssea tumoral também deve ser considerada em pacientes com dor atípica ou outros sinais sugestivos, incuindo:
- perda de peso inexplicada;
- fadiga importante;
- dor noturna;
- febre;
- piora progressiva;
- idade mais avançada;
- dor refratária ao tratamento habitual.
Em alguns casos, podem ocorrer fraturas patológicas das vértebras, quando a dor passa a se comportar com características de uma dor mecânica, que piora com o movimento. Ela pode também evoluir com compressão de raiz nervosa, se comportando da mesma forma que uma dor ciática.
Em alguns casos, os primeiros sinais que levam à procura por atendimento pode ser a fratura ou a compressão neurológica, em pacientes sem o diagnóstico prévio de câncer.
Espondilite Anquilosante
A dor lombar associada à Espondilite Anquilosante é um tipo de lombalgia inflamatória causada por inflamação crônica das articulações da coluna e das articulações sacroilíacas. Ela costuma surgir em adultos jovens, geralmente antes dos 40 anos, e apresenta características bastante diferentes da lombalgia mecânica comum.
A dor normalmente tem início gradual, persiste por mais de três meses e costuma piorar com repouso e melhorar com movimento e atividade física.
Muitos pacientes relatam rigidez matinal prolongada, dificuldade para “destravar” a coluna ao acordar. É comum também que acordem durante a madrugada por conta da dor, especialmente na segunda metade da noite.
Com a progressão da doença, alguns pacientes desenvolvem perda da mobilidade da coluna e aumento da cifose torácica. A suspeita também deve aumentar em pessoas com outras condições auto-imunes.
O diagnóstico geralmente combina características clínicas, exames laboratoriais e exames de imagem. A ressonância magnética das articulações sacroilíacas é particularmente importante porque consegue identificar inflamação precoce antes do aparecimento de alterações definitivas nas radiografias.
Alguns pacientes apresentam positividade para o HLA-B27, embora sua ausência não exclua a doença. Como muitos casos começam apenas com dor lombar crônica inespecífica, o reconhecimento do padrão inflamatório da dor é fundamental para evitar atrasos diagnósticos, que infelizmente ainda são comuns na espondilite anquilosante.
Fibromialgia
A dor lombar associada à Fibromialgia geralmente faz parte de um quadro mais amplo de dor crônica acometendo diversos segmentos corporais e sensibilização central, no qual o sistema nervoso passa a amplificar os sinais dolorosos. Diferentemente das lombalgias mecânicas clássicas, a dor costuma não estar relacionada a uma lesão estrutural específica da coluna, embora alterações degenerativas comuns possam coexistir.
A dor geralmente é profunda, difusa e muitas vezes acompanhada de sensação de rigidez, queimação, peso muscular ou hipersensibilidade ao toque. É comum haver piora com estresse, privação de sono, fadiga física ou emocional, mudanças climáticas e períodos de sobrecarga.
O diagnóstico é clínico e baseado no padrão global dos sintomas, especialmente na presença de dor difusa crônica associada a fadiga e alterações do sono. Os exames são relativamente normais ou demonstram apenas alterações degenerativas leves, frequentemente insuficientes para explicar a intensidade da dor.
Dor lombar referida
A dor lombar referida é uma dor percebida na região lombar, mas cuja origem real está em outra estrutura do corpo, fora da própria coluna lombar. Isso acontece porque diferentes órgãos, músculos, articulações e nervos compartilham vias nervosas semelhantes, fazendo com que o cérebro interprete a dor como vindo da lombar mesmo quando a causa está em outro local.
Diferentemente da dor radicular (como a ciática), a dor referida geralmente não segue exatamente o trajeto de um nervo e costuma ser mais difusa, profunda e mal localizada. Em alguns casos, a dor lombar pode fazer parte de um quadro clínico mais amplo, o que ajuda na identificação da causa da dor. Em outros casos, a dor nas costas pode ser a queixa predominante ou única que leva o paciente a procurar atendimento médico.
Diversas condições podem causar dor lombar referida, conforme discutido abaixo
Pielonefrite
A Pielonefrite é uma forma grave de infecção que acomete os rins, podendo evoluir com A dor geralmente localizada nos flancos (área entre as costelas e a pelve, em ambos os lados do corpo), estando frequentemente associada a febre, calafrios, mal-estar e sintomas urinários como ardor ao urinar ou aumento da frequência urinária.
O diagnóstico costuma envolver exame de urina, urocultura e exames de imagem.
Cálculo renal
O cálculo renal (pedra nos rins) pode causar dor lombar ou em flanco de início súbito e intensidade importante, frequentemente irradiando para abdome inferior, virilha ou genitais.
A dor costuma ocorrer em cólicas, podendo associar-se a náuseas, vômitos e sangue na urina. A suspeita aumenta diante de dor intensa e episódica associada a sintomas urinários. O diagnóstico geralmente é feito com exames de urina e tomografia.
Aneurisma de aorta abdominal
O aneurisma de aorta abdominal é uma dilatação anormal da principal artéria do abdome e pode causar dor lombar profunda, pulsátil ou abdominal, especialmente em idosos e tabagistas.
A ruptura do aneurismo é uma emergência grave e com risco à vida. Deve-se suspeitar do anurismo principalmente em pacientes idosos com dor súbita intensa, fatores de risco cardiovasculares ou massa abdominal pulsátil. Ultrassom e tomografia costumam ser utilizados na avaliação.
Pancreatite
A pancreatite é uma inflamação do pâncreas que pode causar dor abdominal alta irradiada para as costas e região lombar. A dor geralmente é intensa, contínua e associada a náuseas e vômitos. O diagnóstico envolve exames laboratoriais, como amilase e lipase, além de exames de imagem.
Endometriose
A endometriose ocorre quando tecido semelhante ao endométrio cresce fora do útero. Ela pode causar dor lombopélvica cíclica e relacionada ao período menstrual. A suspeita aumenta em mulheres com dor pélvica, cólicas intensas, infertilidade ou dor na relação sexual.
O diagnóstico geralmente envolve avaliação ginecológica e exames de imagem, especialmente ressonância ou ultrassom.
Síndrome do intestino irritável
A síndrome do intestino irritável é um distúrbio funcional do eixo intestino-cérebro que pode causar dor abdominal associada a distensão, alteração do hábito intestinal e, em alguns pacientes, dor lombar referida.
A suspeita aumenta quando a dor ocorre associada a constipação, diarreia ou desconforto abdominal recorrente.
Doenças do quadril
As doenças do quadril, como artrose coxofemoral, podem causar dor percebida na lombar, glúteos ou coxa. A dor costuma piorar ao caminhar, subir escadas ou movimentar o quadril, frequentemente associando-se a rigidez e limitação da mobilidade. O exame físico do quadril e radiografias ajudam na avaliação.
Síndrome miofascial e pontos gatilho
Os pontos gatilho musculares e a síndrome miofascial podem causar dor lombar referida por tensão e hiperirritabilidade muscular. A dor costuma ser profunda, muscular e associada a áreas dolorosas palpáveis (“nódulos”). Ela frequentemente piora com estresse, postura inadequada e sobrecarga muscular.
Dor lombar Vs. Dor ciática
Dor lombar comum e a dor ciática são coisas diferentes, embora muitas vezes relacionadas:
- A lombalgia refere-se à dor localizada na parte baixa das costas (lombar), geralmente relacionada a músculos, articulações, discos ou estruturas mecânicas da coluna.
- Já a ciática, se refere a uma dor irradiada na parte posterior do membro, que acontece por conta da irritação ou compressão das raízes nervosas que formam o nervo ciático, geralmente por hérnia de disco ou estenose da coluna. Nesses casos o paciente apresenta dor irradiada para glúteo, coxa, perna ou pé, frequentemente descrita como choque, queimação, fisgada ou corrente elétrica.
Ainda que a dor ciática tenha origem em um problema na coluna, ela não é sentida na coluna, e sim em um dos membros inferiores. Além da dor, outros sinais relacionados à ciática incluem:
- formigamento;
- dormência;
- sensação de fraqueza;
Em muitos casos, a lombalgia e a ciatalgia coexistem no mesmo paciente, sendo nesses casos denominada de lombociatalgia.
Sinais de alerta
A maior parte das Lombalgias é diagnosticada como inespecífica. Elas podem ser tratadas inicialmente apenas com base na história clínica e exame físico.
Entretanto, o médico deve estar alerta para certos sinais ou sintomas que podem sugerir um problema mais grave como origem da dor. Estes sinais são conhecidos como “bandeiras vermelhas da Dor Lombar” e incluem:
- História de trauma;
- Febre;
- Incontinência urinária;
- Perda de peso inexplicável;
- História de câncer;
- Uso prolongado de corticoides;
- Abuso de drogas parenterais;
- Dor intensa e localizada com incapacidade de ficar em uma posição confortável;
- Sinais de déficit neurológico (irritação neural com testes específicos, perda da sensibilidade ou movimento).
Nestas condições, os exames de imagem tornam-se mandatórios. Eles são também recomendados quando a dor persiste para além de 30 dias apesar do tratamento adequadamente instituído ou para pacientes com visitas prévias nos últimos 30 dias a serviços médicos em decorrência da Lombalgia.
Avaliação diagnóstica
O principal objetivo da avaliação inicial é identificar sinais de alerta (“red flags”), que podem sugerir causas mais graves de lombalgia, como discutido acima.
Na ausência dos sinais de alerta, exames de imagem não são necessários inicialmente, já que muitas alterações degenerativas encontradas em radiografias ou ressonâncias também aparecem em pessoas sem dor. Assim, o excesso de exames muitas vezes leva a excesso de tratamentos, muitas vezes prejudicial ao paciente.’
Um exemplo muito característico para isso é a protusão discal ou mesmo alguns casos de hernia discal. Esses são achados muito comuns em grande parte das pessoas sem dor, podendo em alguns casos ser identificados em pessoas com lombalgia, mesmo que não exista nenhum nexo causal entre a dor lombar e os achados de exame. Esses pacientes muitas vezes chegam ao consultório dizendo que “tem uma coluna doente”, aida que possam estar a anos sem dor.
Quando existem sintomas persistentes, sinais neurológicos, suspeita de ciática, trauma, inflamação, infecção ou outras causas específicas, a ressonância magnética costuma ser o principal exame para investigação de alterações estruturais.
Na suspeita de doença inflamatória ou de dor referida, outros exames podem ser indicados, a depender da suspeita, podendo incluir:
- Exame de urina.
- Exame de sangue .
- Tomografia de abdome.
Tratamento da Lombalgia Aguda
Excluindo-se causas de Dor Lombar que exigem tratamentos específicos, identificados por meio das “bandeiras vermelhas” descritas acima, a maioria dos pacientes com Lombalgia aguda necessita apenas de tratamento sintomático. Isso inclui repouso relativo, medicamentos e terapias não medicamentosas.
Cerca de 60% dos pacientes com Dor Lombar aguda relatam melhora completa em sete dias com a terapia conservadora e 90% apresentam melhora em até 4 semanas (4). Apenas 2 a 7% evoluirão para sua forma crônica.
Repouso relativo
A mobilização da coluna dentro dos limites da dor leva a uma recuperação mais rápida do que repouso completo na cama. O movimento permite que os discos troquem fluidos e mantenham seu funcionamento, da mesma forma que acontece ao se espremer uma esponja. Além disso, o edema e o espasmo muscular tendem a piorar com o repouso completo, dificultando a recuperação da dor.
A movimentação, por outro lado, não deve ser excessiva, a ponto de piorar a dor. Quando isso acontece, o corpo reage aumentando o espasmo da musculatura e gerando mais inibição neuromuscular.
Medicamentos
Medicamentos comumente usados para o tratamento da Dor Lombar aguda incluem analgésicos, anti-inflamatórios e, eventualmente, relaxantes musculares. Os opióides possuem uma potente ação analgésica na fase aguda, mas não permitem o retorno ao trabalho mais precocemente do que com o uso de anti-inflamatórios e analgésicos simples.
Propagandas de laboratórios anunciam determinadas drogas como se elas funcionassem para qualquer pessoa. Mas, de fato, a dor nas costas varia para cada um e não existe uma droga que funcione para todos os pacientes e em todas as situações. A escolha do medicamento deve ser individualizada pelo Médico Ortopedista Especialista em Coluna. Ele fará isso a partir das características da dor de cada paciente e dos possíveis efeitos colaterais de cada droga.
Tratamento não medicamentoso
Diversos métodos de tratamento não medicamentoso são indicados para o alívio da dor e do espasmo muscular na Lombalgia aguda. Isso inclui:
- Terapias manipulativas (massagem, quiropraxia, fisioterapia manipulativa);
- Acupuntura;
- Agulhamento a seco;
- Injeção dos pontos-gatilhos;
- Laser de alta potência ou a Terapia por Onda de Choque.
Tratamento da Lombalgia Crônica
A Lombalgia crônica é arbitrariamente definida como aquela que persiste por mais de três meses. Nestes casos, além de tratar a dor, é preciso que se atue sobre a causa da dor.
Tratamento da Dor
Muito se fala na necessidade de fortalecimento muscular para o paciente com lombalgia. De fato, este é o método mais efetivo de tratamento a longo prazo. O problema é que muitos pacientes simplesmente não toleram o exercício devido à dor. Assim, o exercício deve ser feito da forma correta, na intensidade correta e, acima de tudo, no momento correto.
O paciente deve ser estimulado a se manter tão ativo quanto a dor o permita. Entretanto, não adianta ficar enfrentando a dor. Isso irá provocar inibição muscular e, ao invés de fortalecer, a musculatura pode ficar ainda mais frágil.
O controle inicial da dor deve seguir a mesma linha de tratamento descrito para a Lombalgia aguda. Isso inclui medicamentos e terapias não medicamentosas.
Entretanto, a abordagem medicamentosa no tratamento da Dor Lombar crônica é diferente do que é feito na lombalgia aguda.
Os analgésicos simples (Dipirona, Paracetamol) continuam sendo a primeira linha de tratamento. Já os opioides apresentam indicação mais restrita, devido aos potenciais efeitos colaterais. Além disso, eles não se mostram mais efetivos do que os analgésicos simples quando usados de forma prolongada.
Anti-inflamatórios também devem ser considerados com cautela, devido ao risco de efeitos colaterais relacionados ao aparelho gastrointestinal, cardiovascular ou rins.
Por outro lado, poderá ser considerado o uso de antidepressivos e anticonvulsivantes. Muitos pacientes com lombalgia crônica apresentam sensibilização neurológica e uma origem neuropática para a dor. Assim, estas medicações são indicadas com o objetivo de diminuir a excitabilidade das fibras nervosas que transmitem a sensação de dor.
O efeito das medicações, nestes casos, independe do efeito antidepressivo ou anticonvulsivante. Eles são usados para o tratamento da dor e não para tratar depressão ou convulsão.
Métodos não medicamentosos devem ser considerados, incluindo:
- Calor local;
- Terapia manipulativa (quiropraxia, osteopatia, outros);
- Agulhamento a seco;
- Fisioterapia.
Tratamento da causa da dor
Muito pouco pode ser feito no sentido de melhorar a artrose ou o desgaste dos discos intervertebrais. Entretanto, a dor pode ter melhora significativa, uma vez que os fatores que estejam levando à maior sobrecarga da coluna sejam identificados e tratados.
De fato, não é incomum vermos pessoas com alterações degenerativas relativamente avançadas na coluna e que sejam capazes de correr e praticar exercícios com relativo conforto. Isso acontece geralmente quando as estruturas que sustentam a coluna estão bem equilibradas.
Assim, devem fazer parte do tratamento:
Exercícios para a melhora da mobilidade articular: O primeiro passo é a recuperação da mobilidade normal das articulações. Encurtamentos musculares com restrição da mobilidade são comuns em virtude de posturas viciosas no trabalho ou em atividades do dia a dia. fraquezas e desequilíbrios musculares. A fraqueza e os desequilbrios musculares contribuem para a puora na postura.
Fortalecimento muscular: A medida em que se consegue um arco de movimento razoável e indolor, exercícios para fortalecimento e reequilíbrio muscular são gradativamente introduzidos. Exercícios isométricos, como os exercícios de prancha, são boas opções. Eles geram pouca sobrecarga e ajudam a recuperar a estabilidade da coluna.
Tratamento de outras articulações: Os movimentos da coluna dependem muito do funcionamento das outras articulações do membro inferior, incluindo pés e tornozelos, joelhos e, principalmente, quadris. Qualquer limitação nessas articulações pode ser compensada na coluna, podendo levar a sobrecarga e dor. No momento de se montar um programa de exercícios, estas articulações também devem ser avaliadas e, quando necessário, tratadas.
Perda de peso: Ainda que pequenas variações no peso não interfiram de forma significativa na dor lombar, uma perda de peso mais significativa pode ter um impacto bastante positivo para a melhora da dor nas costas. Quando menor o peso corporal, menor o esforço dispendido sobre as articulações da coluna, o que justifica uma melhora dos sintomas.
A perda de peso não deve ser buscada a qualquer custo. Isso porque a manutenção ou ganho da massa muscular é muito mais relevante do que a perda de peso isoladamente. Dietas sem orientação especializada muitas vezes levam a uma perda de gordura associada a uma perda significativa de massa muscular. Isso pode até piorar a dor lombar.
Melhora da higiene de sono: Pacientes com dor nas costas muitas vezes apresentam dificuldades com o sono. Muitos se queixam de dificuldade para dormir durante à noite e sonolência excessiva durante o dia. Isso impede a recuperação da musculatura, que se torna tensa e dolorosa. Além disso, a sonolência deixa o paciente mais sensível para a dor.
Medidas que ajudem a melhorar a qualidade do sono, desta forma, podem ter efeito positivo no sentido de melhorar a dor lombar.
Suporte psicossocial: Muitos pacientes com dor crônica apresentam ansiedade excessiva em relação ao tratamento. Muitos perdem completamente a esperança em relação às possibilidades de melhora. Isso impõe uma grande dificuldade, uma vez que o tratamento da lombalgia depende do empenho e da colaboração ativa do paciente.
Uma etapa importante do tratamde forma que fazer com que ele entenda o ento da Lombalgia crônica, desta forma, é colocar objetivos factíveis a curto, médio e longo prazo. Isso faz com que o paciente consiga mensurar melhor os pequenos ganhos.
A dor crônica também faz com que muitos pacientes percam o rendimento no trabalho e tenham dificuldades em cumprir com os compromissos familiares e de laser. Isso contribui para uma piora importante na qualidade de vida. Todos estes fatores fazem com que a depressão seja comum nos pacientes com dor lombar crônica. Ela deve ser investigada e, quando necessário, tratada.
Tratamento cirúrgico da Dor Lombar
A cirurgia é um tratamento de exceção na lombalgia. Entretanto, ela deve ser considerada em situações específicas:
- Pacientes com dor ciática intensa e que não melhoram com o tratamento clínico;
- pacientes com perda aguda do movimento ou da sensibilidade ;
- Pacientes com estenose do canal medular e sem melhora com o tratamento clínico;
- Algumas outras causas de dor lombar específicas, identificadas por meio das “bandeiras vermelhas”;
- Pacientes com dor incapacitante decorrente de discopatia degenerativa e sem melhoras com o tratamento não cirúrgico.
Em cada uma destas situações, um procedimento espec[ifico poderá ser indicado, o que será avaliado e discutido pelo Ortopedista Especialista em Coluna.