Hipertireoidismo
O que é o Hipertireoidismo?
O hipertireoidismo é uma condição em que a glândula tireoide produz hormônios em excesso (T3 e T4), levando a sintomas característicos de um corpo “mais acelerado”. como perda de peso, palpitações, ansiedade, tremores e intolerância ao calor.
As causas mais frequentes incluem condições alto-imunes como a doença de Graves, nódulos da tireoide que produzem hormônios e algumas formas de tireoidite.
O prognóstico geralmente é muito bom com o tratamento adequado, que pode envolver medicamentos anti-tireoideanos, iodo radioativo ou cirurgia.
No entanto, é preciso considerar também que o hipertireoidismo não é uma doença em sí, mas uma condição que pode estar relacionada a diferentes doenças. Assim, a gravidade depende também de qual é a causa de base.
Quais são e o que fazem os Hormônios Tireoideanos?
A tireoide é uma glândula localizada na parte da frente do pescoço e que é responsável pela produção de dois hormônios, o T3 (triiodotironina) e o T4 (tiroxina).
O T3 é o principal responsável pela função tireoideana. Já o T4 é um pró-hormônio relativamente inativo. Apesar de pouco ativo, o T4 é transformado em T3 em outros tecidos, como o fígado ou os rins.
De fato, a maior parte do T3 circulante não é produzido na tireoide e sim em tecidos periféricos a partir da conversão de T4.

Os hormônios da tireoide regulam o metabolismo das células, ou seja, o anabolismo (formação de tecidos através do consumo de energia) e o catabolismo (geração de energia a partir da proteína, carboidrato ou gordura).
Desta forma, eles são fundamentais no processo de crescimento e desenvolvimento que acontece durante a infância e a adolescência, especialmente do sistema nervoso central.
Os hormônios da tireoide também ajudam o corpo a produzir e regular os hormônios adrenalina (também chamado de epinefrina) e dopamina. A adrenalina e a dopamina regulam muitas respostas físicas e emocionais, incluindo medo, excitação e prazer.
Os níveis de hormônios da tireoide são regulados por um outro hormônio, denominado de TSH (Hormônio Estimulador da Tireoide), produzido pela glândula hipófise.
Quando os hormônios da tireoide estão elevados, a produção de TSH é inibida e a tireoide passa a produzir menos hormônios. Quando os níveis de hormônios da tireoide estão baixos, o TSH aumenta e estimula a tireoide a produzir e liberar maior quantidade de hormônio.
Quais os sinais e sintomas do Hipertireoidismo?
A maioria das pessoas com Hipertireoidismo apresentam um aumento no volume da tireoide, o que se denomina de Bócio.
Pode haver um aumento geral da glândula ou é possível que nódulos surjam em determinadas áreas. No caso de uma tireoidite subaguda, a glândula pode estar sensível e dolorida.
Independentemente da causa, os sintomas refletem a aceleração das funções orgânicas, incluindo:
- Aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial;
- Arritmia cardíaca;
- Sudorese excessiva e sensação de calor;
- Tremores nas mãos;
- Nervosismo e ansiedade;
- Insônia;
- Perda de peso, apesar do aumento do apetite;
- Aumento do nível de atividade apesar da fadiga e fraqueza;
- Evacuações frequentes, ocasionalmente com diarreia;
- Alterações na menstruação.
Crise Tireotóxica
A crise tireotóxica é uma emergência médica rara, mas com alta taxa de mortalidade. Ela se caracteriza por um estado de hipermetabolismo severo que sobrecarrega o coração e o sistema nervoso.
Ela geralmente é desencadeada por um evento estressante em um paciente que já tem hipertireoidismo, muitas vezes não diagnosticado ou mal tratado. Os gatilhos mais comuns incluem:
- Infecções;
- Cirurgias (especialmente cirurgias de tireoide em pacientes não preparados);
- Abandono do tratamento com medicamentos antitireoidianos;
- Cetoacidose diabética;
- Trauma grave.
- Uso de contraste iodado.
O tratamento desses pacientes deve ser feito em UTI, devendo incluir:
- Medicamentos beta bloqueadores, com o objetivo de controlar a frequência cardíaca;
- Medicamentos anti-tireoideanos, com o objetivo de bloquear a Produção hormonal.
- Iodo radioativo, com o objetivo de destruir as células tireoideanas.
Além dos tratamentos específicos acima, medidas de suporte clínico devem ser consideradas, incluindo o resfriamento do paciente (mantas térmicas, gelo), reposição de líquidos (a desidratação é comum). Por fim, é fundamental o tratamento da condição de base que desencadeou a crise.
Complicações do Hipertireoidismo
Quando não tratado adequadamente, o hipertireoidismo pode levar a diversas complicações, sendo algumas delas potencialmente graves. Quando mais prolongado e quanto maiores os níveis hormonais, maior o risco de complicações.
Complicações cardiovasculares
O excesso de hormônios da tireoide acelera o funcionamento do coração, podendo causar taquicardia persistente, que por sua vez aumenta o risco para arritmias (especialmente a Fibrilação Atrial) ou Insuficiência Cardíaca.
Complicações ósseas
O hipertireoidismo acelera o metabolismo ósseo, podendo levar a perda acelerada de massa óssea (osteopenia ou osteoporose), com aumento no risco de fraturas por fragilidade óssea.
Complicações neuromusculares
O hipertireoidismo está associado a fraqueza muscular, perda de massa muscular e alterações do humor (como ansiedade e irritabilidade intensas).
Complicações metabólicas
O hipertireoidismo causa emagrecimento rápido e significativo, muitas vezes acompanhado de aumento do apetite, devido ao aumento no metabolismo. No entanto, essa perda de peso não é saudável, já que além da perda de gordura e;a leva a uma perda significativa de massa muscular.
Diagnóstico do Hipertireoidismo
O diagnóstico é feito com base na dosagem dos hormônios TSH e T4L.
A maior parte dos pacientes desenvolvem o hipertireoidismo como um problema primário da tireoide. Inicialmente, o aumento na produção de hormônios tireoideanos pode ser compensado por uma redução no nível de TSH. Com menores níveis de TSH, o T3 e T4 diminui. Assim, os exames podem demonstrar níveis de T3 e T4 normais, com TSH diminuído.
Com a evolução do quadro, a produção de T3 e T4 aumenta, mesmo que os níveis de TSH continuem baixos.
Quais as causas mais comuns do Hipertireoidismo?
Entre as principais causas para o Hipertireoidismo, incluem-se:
- Doença de Graves: a Doença de Graves é a causa mais comum de hipertireoidismo. É uma doença autoimune hereditária que estimula a tireoide a produzir quantidades elevadas dos hormônios T3 e T4.
- Bócio Multinodular Tóxico (doença de Plummer): doença na qual múltiplos nódulos se formam na tireoide, sendo que um ou mais destes Nódulos da Tireoide podem funcionar de forma autônoma, independente da ação do TSH, produzindo e secretando hormônio tireoidiano em excesso. Esse distúrbio é mais comum com o avanço da idade.
- Adenoma da Tireoide: o Adenoma da Tireoide é um tumor benigno com crescimento anômalo de uma área da tireoide, que passa a produzir hormônios tireoideanos mesmo sem o estímulo do TSH;
- Tireoidite: inflamação da tireoide, que pode ser causada por uma infecção viral, por processo autoimune pós-parto e, com frequência muito menor, por uma inflamação autoimune crônica, denominada de Tireoidite de Hashimoto. Embora a tireoidite tenha tendência em provocar hipotireoidismo, ela pode levar a um hipertrireoidismo em um momento inicial.
- Medicamentos: diferentes medicamentos podem estar associados ao hipertireoidismo. O mais comum é o consumo de quantidade excessiva de hormônio tireoideano usado no tratamento do hipotireoidismo;
Investigação do Hipertireoidismo
Uma vez que o hipertireoidismo seja confirmado laboratorialmente, outros exames devem ser solicitados na investigação da causa.
O primeiro deles é o ultrassom. Diferentes características do ultrassom podem indicar maior risco de malignidade. Nesses casos a biópsia precisa ser considerada.
A cintilografia pode ser usada para diferenciar nódulos quentes de nódulos frios. Nódulos frios (não produtores de hormônios tireoideanostêm maior risco de câncer, embora a maioria ainda seja benigna.
Anticorpo TRAB é um exame de sangue que mede anticorpos contra os receptores de TSH, sendo usado para o diagnóstico da Doença de Graves. Já o Anti-TPO é um anticorpo que pode estar aumentado nas doenças autoimunes da tireoide, incluindo a doença de Graves e a Tireoidite de Hashimoto.
Tratamento do Hipertireoidismo
O tratamento do hipertireoidismo tem como objetivo controlar o excesso de hormônios da tireoide e aliviar os sintomas.
A escolha da melhor abordagem depende da causa da doença, da idade do paciente, da gravidade dos sintomas e de condições clínicas associadas.
De forma geral, existem quatro estratégias principais: medicamentos sintomáticos, medicamentos anti-tireoideanos, iodo radioativo ou cirurgia.
Controle dos sintomas (beta-bloqueadores)
Medicamentos como propranolol podem ser usados para aliviar sintomas como palpitações, tremores ou ansiedade. Eles não tratam a causa, mas ajudam no controle inicial, especialmente em casos mais sintomáticos.
Medicamentos antitireoidianos
Fármacos como metimazol (tiamazol) ou propiltiouracil reduzem a produção de hormônios pela tireoide.
Essa é a primeira linha de tratamento para pacientes com Doença de Graves, especialmente para pacientes jovens, gestantes ou com bócio pequeno. A medicação geralmente é usada por 12 a 18 meses, podendo causar remissão definitiva em cerca de 30% a 50% dos casos.
Em outras condições associadas a aumento na produção dos hormônios tireoideanos, como nos adenomas de tireoide, esses medicamentos podem ser usados para reduzir os níveis hormonais na preparação para outros tratamentos, como a tireoidectomia ou o iodo radioativo, ou quando essas terapias definitivas não são indicadas. No entanto, não se deve esperar a remissão dessas doenças.
Iodo radioativo
O tratamento com iodo radioativo destrói total ou parcialmente a tireoide, reduzindo a produção hormonal. Dessa forma, ele é considerado um tratamento definitivo para o hipertireoidismo.
O Iodo Radioativo leva a destruição tanto de células tireoideanas doentes como normais, resultando em hipotireoidismo na maior parte dos pacientes. Ainda assim, o hipotireoidismo costuma ser bem mais fácil de tratar do que o hipertireoidismo.
O tratamento geralmente é indicado na Doença de Graves, quando medicamentos antitireoidianos não funcionam ou na recidiva da doença. Ele também pode ser considerado em casos de bócio multinodular tóxico ou nódulos tóxicos solitários.
A resposta ao iodo radioativo nào é imediata, podendo levar meses, não sendo a melhor opção em casos com necessidade de resolução imediata.
Cirurgia
O tratamento cirúrgico pode ser feito por meio da tireoidectomia parcial ou total.
A tireoidectomia parcial pode ser considerada em alguns pacientes com Nódulo Tóxico Único (Adenoma de Plummer), tendo o benefício de preservar parte da função tireoideana sem a necessidade de medicações diárias.
No caso de pacientes com Bócios volumosos ou Doença de Graves grave a. cirurgia envolve a tireoidectomia total. Da mesma forma que no tratamento com iodo radioativo, esses pacientes precisarão de reposição hormonal para o resto da vida.
A remoção cirúrgica da tireoide é indicada especialmente nas seguintes situações:
- bócio volumoso com compressão de estruturas cervicais
- suspeita ou confirmação de câncer
- contraindicação ao iodo radioativo