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Surdez e Deficiência Auditiva no Idoso (Presbiacusia)

O que é presbiacusia?

Presbiacusia é o nome dado à perda auditiva relacionada ao envelhecimento. Ela ocorre de forma gradual, geralmente acomete os dois ouvidos e representa a principal causa de deficiência auditiva no idoso.

A dificuldade para ouvir pode comprometer a comunicação, favorecer o isolamento social, reduzir a independência e aumentar o risco de depressão, quedas e declínio cognitivo.

Estima-se que cerca de metade das pessoas com mais de 60 anos e aproximadamente dois terços daquelas com mais de 70 anos apresentem perda auditiva clinicamente significativa (1). Ainda assim, a perda auditiva não deve ser considerada uma consequência inevitável da idade nem algo com que o idoso simplesmente precise aprender a conviver.

Na maioria das vezes, a perda auditiva se instala lentamente. Por isso, muitos idosos vão se adaptando e não percebem que estão ouvindo cada vez menos. Frequentemente, são os familiares que notam os primeiros sinais, como o aumento do volume da televisão, a necessidade de repetir as frases várias vezes ou a dificuldade para acompanhar conversas, principalmente em ambientes ruidosos.

Causas da presbiacusia

A presbiacusia é uma consequência do envelhecimento gradual do sistema auditivo. Ao longo da vida, diferentes estruturas responsáveis pela audição sofrem pequenas alterações que, somadas, reduzem progressivamente a capacidade de ouvir e compreender os sons.

Envelhecimento da cóclea

A principal alteração ocorre na cóclea, estrutura localizada no ouvido interno responsável por transformar as ondas sonoras em impulsos elétricos que serão enviados ao cérebro.

Com o avanço da idade, parte das delicadas células ciliadas da cóclea sofre desgaste e deixa de funcionar adequadamente. Essas células não são capazes de se regenerar. Por isso, a perda auditiva tende a ser permanente e lentamente progressiva.

As primeiras células afetadas costumam ser aquelas responsáveis pela percepção dos sons mais agudos. Esse é o motivo pelo qual os idosos inicialmente têm dificuldade para ouvir o toque do telefone, o canto dos pássaros ou compreender a fala de mulheres e crianças.

Envelhecimento do nervo auditivo e do cérebro

O envelhecimento também afeta o nervo auditivo e as áreas do cérebro responsáveis por interpretar os sons.

Como consequência, muitos idosos relatam que conseguem ouvir a voz de outra pessoa, mas não conseguem entender claramente o que ela está dizendo, especialmente quando existe ruído de fundo.

Esse problema não depende apenas do ouvido, mas também da forma como o cérebro processa as informações auditivas.

Outras causas de perda auditiva no idoso

Embora a presbiacusia seja a causa mais comum de perda auditiva no idoso, ela não é a única. Diversas doenças podem provocar diminuição da audição nessa faixa etária, algumas delas com tratamento específico. Por isso, toda perda auditiva deve ser avaliada por um médico antes de ser atribuída apenas ao envelhecimento.

Acúmulo de cerume

O excesso de cera no ouvido é uma das causas mais comuns de perda auditiva temporária nos idosos. Nesses casos, a perda costuma surgir de forma relativamente rápida, pode acometer apenas um ouvido e geralmente melhora completamente após a remoção do cerume. A confirmação é feita por meio da otoscopia.

Perda auditiva por medicamentos

Alguns medicamentos podem lesar o ouvido interno, como determinados antibióticos, quimioterápicos, diuréticos de alça e doses elevadas de salicilatos.

A suspeita aumenta quando a perda auditiva surge após o início de um novo tratamento, especialmente se vier acompanhada de zumbido.

Doença de Ménière

A doença de Ménière costuma provocar episódios recorrentes de vertigem intensa, geralmente acompanhados de zumbido, sensação de ouvido tampado e perda auditiva em apenas um ouvido.

A perda auditiva é inicialmente flutuante, piorando durante as crises e melhorando parcialmente nos intervalos. Com a progressão da doença, porém, a audição tende a deteriorar de forma permanente e progressiva.

Nas fases mais avançadas, é comum que as crises de vertigem se tornem menos frequentes, enquanto a perda auditiva e o zumbido passam a predominar.

Tumores do nervo auditivo

Tumores benignos, como o schwannoma vestibular (também chamado de neurinoma do acústico), podem provocar perda auditiva progressiva em apenas um ouvido, frequentemente acompanhada de zumbido e dificuldade para compreender a fala.

Sempre que houver perda auditiva claramente assimétrica ou unilateral, o médico poderá solicitar exames complementares para excluir essa possibilidade.

Alterações cognitivas

Em alguns idosos, a principal dificuldade não está em ouvir os sons, mas em compreendê-los. Doenças como o comprometimento cognitivo leve e as demências podem dificultar o processamento da linguagem, fazendo com que o paciente pareça ter uma perda auditiva mais grave do que realmente apresenta.

Em muitos casos, alterações cognitivas e presbiacusia coexistem, potencializando as dificuldades de comunicação.

Quais os sintomas da Deficiência Auditiva no Idoso?

Muitos idosos vão se acostumando com o mundo mais silencioso, demorando a se queixar da perda de audição. Em muitos casos, quem se queixa da perda auditiva não é o idoso, mas sim seus familiares.

O maior esforço que essas pessoas fazem para escular pode levar. a uma fadiga mental precoce, deixando o idoso mais irritado e mais desinteressado nas conversas.

Uma queixa comum do paciente com presbiacusia em seus estágios iniciais é que ele consegue escutar a outra pessoa, mas não consegue entender o que ela está dizendo. Mais ou menos o que acontece quando escutamos alguém falando em uma lingua estrangeira.

Outras queixas comuns incluem:

  • Dificuldade para entender uma conversa, especialmente quando existe ruído de fundo;
  • Alguns sons podem parecer altos e irritantes;
  • Zumbido em um ou ambos os ouvidos;
  • Colocar o som da TV ou rádio muito alto; 
  • Falar muito alto no telefone, além de dificuldade para escutar o telefone.

Na maioria das vezes, a deficiência se inicia com a perda na capacidade de ouvir ruídos agudos, como um telefone tocando ou o sinal sonoro do micro-ondas. A capacidade de ouvir ruídos de baixa frequência não costuma ser afetada nas fases iniciais.

Avaliação da deficiência auditiva ou surdez

A avaliação da deficiência auditiva no idoso deve seguir os mesmos passos da avaliação da deficiência auditiva em outros públicos.

Otoscopia

A avaliação se inicia com a inspeção do ouvido por meio de um instrumento chamado otoscópio.

Neste momento, poderão ser detectadas as seguintes condições, entre outras:

  • Obstrução do conduto auditivo por um objeto estranho (insetos, por exemplo);
  • Acúmulo de cera

Teste do diapasão (Teste de Rinner)

O diapasão é um instrumento metálico com duas pontas, que produz um som quando tocado. 

O teste é usado para diferenciar uma deficiência auditiva de condução de uma deficiência auditiva neurosensorial.

Incialmente, o diapasão é vibrado e colocado atrás da orelha, contra o osso mastóide. O paciente é solicitado a indicar quando não ouve mais nenhum som. 

Imediatamente depois, o diapasão é então colocado de 1 a 2 centímetros do canal auditivo. O paciente é questionado novamente se consegue ouvir o garfo.

Normalmente, a condução aérea é duas vezes maior do que a condução óssea. Assim, podemos classificar a resposta ao teste de duas maneiras:

  • Positivo (normal): quando a condução aérea é maior do que a condução óssea. É indicativo de que a condução do som é normal e que a perda auditiva tem origem neurosensorial.
  • Negativo (anormal): quando a condução aérea é menor do que a condução óssea. É indicativo de que a perda auditiva tem origem condutiva.

Audiometria

Durante o teste de audiometria, o paciente usa fones de ouvido, com os sons sendo direcionados para um ouvido de cada vez. Uma gama de sons é apresentada ao paciente em vários tons. O paciente tem que sinalizar cada vez que um som é ouvido.

Cada som ou palavra é apresentado em vários volumes, para que que seja determinado qual o menor volume que o paciente é capaz de escutar.

Quais as consequências da Deficiência Auditiva no Idoso?

A deficiência auditiva no idoso está relacionada a diversas condições comuns à população geriátrica, incluindo demência, comprometimento e declínio cognitivo, depressão, perda da função física, menor engajamento social e maior utilização de serviços de saúde (2, 3, 4)

A perda auditiva afeta negativamente o processamento da fala, a compreensão e a comunicação, componentes essenciais da vida cotidiana.

O idoso com deficiência auditiva tem dificuldade em acompanhar conversas, o que acaba por comprometer sua socialização e a aumentar a solidão, outro problema comum nesta faixa etária.

A perda auditiva é considerada um dos principais fatores de risco modificáveis para demência, estando associada a um risco aumentado de declínio cognitivo. Estima-se que até 9% dos casos de demência poderiam ser evitados com tratamento auditivo (5). Este é um potencial maior do que qualquer outro fator de risco modificável de demência.

Da mesma forma, o risco para depressão em 12 anos de seguimento é 73% maior nos idosos surdos. O risco é maior quanto mais grave a perda auditiva (6).

Aparelhos auditivos

Os aparelhos auditivos são o principal tratamento para a maioria dos idosos com presbiacusia. Eles não impedem a progressão da perda auditiva nem restauram completamente a audição normal, mas podem melhorar significativamente a capacidade de comunicação e a qualidade de vida.

De modo geral, o aparelho é recomendado quando a perda auditiva começa a interferir nas atividades do dia a dia, como acompanhar conversas, assistir à televisão, falar ao telefone ou participar de reuniões familiares e sociais.

A decisão não depende apenas do resultado da audiometria, mas principalmente do impacto que a perda auditiva causa na vida do paciente.

Além de melhorar a comunicação do idoso, o tratamento pode reduzir o risco de declínio cognitivo, depressão e isolamento social, embora não elimine completamente esses riscos.

Quando usar os aparelhos auditivos?

Muitos idosos adiam o uso do aparelho porque acreditam que “ainda conseguem ouvir um pouco”. Entretanto, quanto mais tempo o cérebro permanece privado de estímulos sonoros, maior tende a ser a dificuldade de adaptação futura.

Por esse motivo, iniciar o tratamento quando a perda auditiva começa a comprometer a comunicação costuma proporcionar resultados melhores do que esperar que a deficiência se torne muito intensa.

Adaptação aos aparelhos auditivos

Ao contrário dos óculos, que costumam melhorar a visão imediatamente, a adaptação ao aparelho auditivo é um processo gradual.

Após meses ou anos ouvindo menos, o cérebro precisa reaprender a interpretar sons que deixaram de ser percebidos. Por isso, é comum que, nas primeiras semanas, alguns ruídos pareçam excessivamente altos ou incômodos, incluindo o som da própria voz, da mastigação, do trânsito ou de eletrodomésticos.

Essa sensação costuma diminuir progressivamente à medida que o cérebro se readapta aos estímulos auditivos. Por isso, recomenda-se iniciar o uso do aparelho em ambientes silenciosos, por períodos curtos, aumentando gradualmente o tempo de utilização e a complexidade dos ambientes.

Implantes cocleares

Embora a maioria dos idosos com presbiacusia obtenha bons resultados com aparelhos auditivos, uma pequena parcela apresenta perda auditiva tão intensa que a amplificação dos sons deixa de ser suficiente. Nessas situações, pode ser indicado o implante coclear.

Diferentemente do aparelho auditivo, que apenas amplifica os sons, o implante coclear transforma os estímulos sonoros em impulsos elétricos e os transmite diretamente ao nervo auditivo, contornando a parte da cóclea que deixou de funcionar adequadamente.

O implante costuma ser indicado para pacientes com perda auditiva severa ou profunda que continuam apresentando grande dificuldade para compreender a fala, mesmo utilizando aparelhos auditivos bem adaptados.

A idade, por si só, não representa uma contraindicação ao procedimento. Diversos estudos demonstram que idosos, inclusive aqueles com mais de 80 anos, podem obter melhora significativa da compreensão da fala, da comunicação, da qualidade de vida e da participação social após o implante.

Assim como ocorre com os aparelhos auditivos, o sucesso do tratamento depende de um período de adaptação e de reabilitação auditiva. O cérebro precisa aprender a interpretar os novos estímulos elétricos produzidos pelo implante, processo que pode levar alguns meses.

Antes da cirurgia, o paciente passa por uma avaliação detalhada realizada por uma equipe especializada, que inclui exames auditivos, exames de imagem e análise das condições clínicas gerais, para confirmar se o implante coclear é a melhor opção de tratamento.