Otite Externa (Ouvido do Nadador)
O que é a Otite Externa?
A Otite Externa, também conhecida como “ouvido do nadador”, é uma infecção da pele que reveste o canal auditivo externo, a passagem localizada entre a parte externa da orelha e a membrana do tímpano. Diferentemente da otite média, ela permanece restrita ao canal auditivo.

Na maioria das vezes, a Otite Externa surge quando a permanência de água no ouvido, pequenos traumatismos provocados pelo uso de cotonetes ou outros objetos, ou ainda alterações da proteção natural da pele do canal auditivo facilitam a entrada e a proliferação de bactérias. O excesso de umidade remove parte da camada protetora de cera, altera o pH do canal auditivo e torna a pele mais suscetível à infecção.
Embora possa ocorrer em qualquer idade, a otite externa é mais comum em adolescentes e adultos, especialmente em pessoas que nadam com frequência ou praticam outros esportes aquáticos, motivo pelo qual recebeu o apelido de “ouvido do nadador”. Também é comum durante os meses mais quentes e úmidos do ano, quando há maior exposição à água.
Essa é uma das causas mais comuns de dor de ouvido em adultos. Felizmente, quando diagnosticada precocemente e tratada de forma adequada, a maioria dos casos evolui com melhora completa em poucos dias, sem deixar sequelas permanentes.
Otite Média Vs. Otite Externa
A palavra otite significa simplesmente “inflamação do ouvido”. No entanto, existem diferentes tipos de otite, definidos pela região do ouvido acometida. As duas formas mais comuns são a otite média e a otite externa.
A otite média aguda é uma infecção localizada no ouvido médio, uma cavidade situada atrás da membrana do tímpano. Ela costuma surgir após um resfriado, gripe ou outra infecção das vias respiratórias, quando vírus e bactérias alcançam o ouvido médio através da trompa de Eustáquio. É muito mais comum em crianças, devido às características anatômicas dessa estrutura durante a infância.
Já a otite externa acomete o canal auditivo externo, que liga a parte externa da orelha ao tímpano. Popularmente conhecida como “otite de piscina”, ela geralmente está relacionada à permanência de umidade no ouvido, pequenos traumatismos provocados pelo uso de cotonetes ou objetos para coçar o ouvido e alterações da proteção natural da pele do canal auditivo.
Embora ambas possam causar dor no ouvido, os sintomas costumam ser diferentes. Na otite média, a dor geralmente é mais profunda, frequentemente acompanhada de febre, redução da audição e antecedida por sintomas de resfriado. Já na otite externa, a dor costuma piorar ao tocar ou puxar a orelha, sendo comum a sensação de ouvido tampado, coceira e dor durante a mastigação.
| Característica | Otite Média Aguda | Otite Externa |
| Local da infecção | Ouvido médio (atrás do tímpano) | Canal auditivo externo (entre a orelha e o tímpano) |
| Estrutura acometida | Cavidade do ouvido médio | Pele que reveste o canal auditivo |
| Como costuma surgir | Após resfriados, gripes ou outras infecções respiratórias | Após entrada de água no ouvido, uso de cotonetes ou pequenos traumatismos |
| Faixa etária mais comum | Crianças | Todas as idades, especialmente adolescentes e adultos |
| Tipo de dor | Dor profunda, sensação de pressão dentro do ouvido | Dor intensa ao tocar, puxar a orelha ou mastigar |
| Febre | Relativamente comum, principalmente em crianças | Pouco frequente |
| Perda auditiva | Pode ocorrer pelo acúmulo de líquido atrás do tímpano | Pode ocorrer pelo inchaço e obstrução do canal auditivo |
| Relação com resfriado | Muito comum | Incomum |
| Relação com piscina ou água | Não costuma existir | Muito comum |
Qual o agente causador da Otite Externa?
As infecções bacterianas são responsáveis por cerca de 90% das otites externas. Os dois principais agentes são a Pseudomonas aeruginosa e o Staphylococcus aureus, que juntos respondem pela maior parte dos casos.
A Pseudomonas aeruginosa é particularmente associada à permanência de água no ouvido, motivo pelo qual é a bactéria mais frequentemente encontrada na chamada “otite do nadador”.
Já o Staphylococcus aureus costuma estar relacionado a pequenos traumatismos da pele do canal auditivo, como aqueles provocados pelo uso de cotonetes, unhas, grampos ou outros objetos introduzidos no ouvido.
Em alguns pacientes, especialmente após uso prolongado de antibióticos em gotas, em regiões de clima quente e úmido ou em pessoas com diabetes e imunossupressão, a infecção pode ser causada por fungos, responsáveis por aproximadamente 10% dos casos. Os mais comuns pertencem aos gêneros Aspergillus (principalmente A. niger) e Candida.
Nesses casos, a coceira costuma ser mais intensa do que a dor, podendo haver acúmulo de resíduos esbranquiçados, acinzentados ou enegrecidos dentro do canal auditivo.
Mais raramente, a otite externa pode ter origem viral, geralmente causada pelo vírus Varicela-Zóster, responsável pela síndrome de Ramsay Hunt, ou pelo vírus Herpes simplex. Nessas situações, além da dor intensa, é comum o aparecimento de pequenas bolhas (vesículas) na orelha ou no canal auditivo, podendo ocorrer perda auditiva, tontura e até paralisia facial, especialmente nos casos relacionados ao vírus Varicela-Zóster.
Fatores de risco
São considerados fatores de risco para a otite externa:
- Excesso de umidade decorrente da prática de esportes aquáticos
- Não secar adequadamente a orelha
- Exposição a altos níveis de bactérias em água contaminada
- Limpar o canal auditivo com cotonetes, grampos de cabelo ou unhas, que podem causar arranhões ou abrasões
Uso de dispositivos auriculares, como fones de ouvido ou aparelhos auditivos.
Sintomas da Otite Externa
O principal sintoma da otite externa é a sensação de que está com água no ouvido. O paciente pode ouvir os sons abafados e sentir Dor de ouvido, especialmente em sua parte externa. A dor piora com a manipulação da orelha.
Nos quadros iniciais, o paciente apresenta coceira no ouvido e uma leve vermelhidão local.
Eventualmente, o paciente pode apresentar a saída de uma secreção clara e inodora pela orelha.
A dor, vermelhidão e a secreção pioram progressivamente. Com o aumento da secreção, o paciente pode ficar com a sensação de ouvido entupido.
Os sintomas do ouvido do nadador geralmente são leves no início, mas podem piorar se a infecção não for tratada ou se espalhar.
A febre é um sintoma incomum.
Prevenção
Algumas medidas preventivas contra a otite externa devem ser adotadas especialmente por pessoas sob maior risco, que são os praticantes de esportes aquáticos.
Entre elas, devemos considerar:
- Sempre que possível, manter os ouvidos secos. Depois de nadar ou tomar banho, incline a cabeça para o lado para ajudar a drenar a água do canal auditivo. Seque apenas o ouvido externo, limpando-o suavemente com a toalha.
Se preferir, poderá usar o secador de cabelos. Este deve ser mantido na configuração de menor intensidade e mantido a pelo menos 30cm do ouvido.
- Evitar nadar em rios, lagos e praias contaminadas;
- Evitar de colocar objetos estranhos no ouvido. Isso inclui não coçar com o dedo e não limpar a cera do ouvido com cotonete.
O cotonete pode compactar a cera mais profundamente no canal auditivo, além de provocar lesões na pele.
Otite Externa Maligna
A Otite Externa Maligna, ou otite externa necrosante, é uma forma rara, porém grave, de otite externa, na qual a infecção deixa de ficar restrita ao canal auditivo e passa a atingir os tecidos profundos e os ossos da base do crânio.
Na grande maioria dos casos, essa complicação está associada a uma infecção pela bactéria Pseudomonas aeruginosa, a mesma responsável pela maior parte das otites externas comuns.
No entanto, ela ocorre quase exclusivamente em pessoas com o sistema imunológico comprometido, especialmente idosos, ddiabetes, pacientes com imunidade comprometida, transplantados, pessoas em tratamento com quimioterapia ou que utilizam medicamentos imunossupressores.
Os sintomas costumam ser mais intensos e persistentes do que na otite externa comum. A dor costuma ser muito intensa, geralmente com piora noturna, saíde contínua de secreção pelo ouvido e pouca ou nenhuma melhora após alguns dias de tratamento adequado.
À medida que a infecção progride, ela pode comprometer os nervos localizados na base do crânio, causando paralisia facial, dificuldade para engolir, rouquidão, alterações na movimentação dos olhos e, nos casos mais graves, outras complicações neurológicas.
O diagnóstico é feito com base na história clínica, no exame físico e em exames de imagem, como a tomografia computadorizada e a ressonância magnética, que permitem avaliar a extensão da infecção. Exames laboratoriais e a cultura da secreção também podem ser utilizados para identificar a bactéria causadora e direcionar o tratamento.
A otite externa maligna é considerada uma emergência médica e deve ser tratada rapidamente. O tratamento geralmente exige internação hospitalar, uso prolongado de antibióticos com ação contra a Pseudomonas aeruginosa, além de limpezas periódicas do canal auditivo e controle rigoroso do diabetes ou de outras doenças que comprometam a imunidade.
A recuperação costuma ser mais lenta do que na otite externa comum, podendo levar várias semanas ou até meses, mas o prognóstico melhorou significativamente com o diagnóstico precoce e os novos antibióticos.
Diagnóstico da Otite Externa
O diagnóstico da Otite externa (ouvido do nadador) é geralmente feito pelo clínico geral ou pelo Médico Otorrinolaringologista, com base na história clínica compatível e exame físico por meio do otoscópio.
O otoscópio é um instrumento iluminado que permite uma melhor visualização do canal auditivo. No caso da otite externa, o canal auditivo tende a ficar avermelhado, inchado e escamoso.
Neste momento, é fundamental que se observe a membrana timpânica, para ter certeza de que ela não está danificada. Eventualmente, a limpeza do conduto auditivo externo poderá ser necessária para uma melhor visualização.
Essa avaliação é importante porque alguns tratamentos destinados a uma infecção no canal auditivo externo não são apropriados para quando a membrana timpânica está rompida.
Tratamento da Otite Externa
Na maior parte das vezes, o tratamento será feito com soluções contendo uma combinação de corticoide e antibiótico, que deve ser pingada diretamente na orelha.
A limpeza do canal auditivo externo é necessária para garantir que os medicamentos possam chegar a toda a superfície infectada. A cera poderá ser retirada por meio de um dispositivo de sucção ou de uma cureta de ouvido.
O uso doméstico do cotonete não é recomendado. Isso por que, ao invés de remover a cera, ela acaba “empurrando” a cera.
Para aplicar o medicamento, o paciente deve se deitar de lado por alguns minutos, para ajudar a medicação a percorrer todo o canal auditivo e evitar que o medicamento escorra para fora do ouvido.
A orelha deve ser puxada para cima e para trás, para “endireitar” o canal auditivo.
Eventualmente, antibióticos tomados por boca poderão ser usados nos casos mais avançados.
Durante o tratamento, alguns cuidados devem ser adotados:
- Não nadar ou entrar em ambiente aquático;
- Não usar tampão de ouvido, aparelho auditivo ou fones de ouvido antes que a dor ou o corrimento tenham cessado;
- Evitar que a água entre no canal auditivo ao tomar banho ou tomar banho. Usar uma bola de algodão com vaselina para proteger o ouvido durante o banho.
Quando o tratamento é iniciado precocemente, a dor geralmente começa a melhorar nas primeiras 48 a 72 horas, e a infecção costuma desaparecer completamente em 7 a 10 dias, sem deixar sequelas permanentes.
O que fazer com cera de ouvido?
A melhor coisa a fazer é evitar de ficar removendo a cera do ouvido. A tendência é que ela vá se movendo para a abertura externa da orelha, de onde poderá ser removida sem maiores traumas.
Caso o excesso de cera esteja bloqueando o canal auditivo, ela poderá ser removida de duas maneiras:
- Utilização de óleo mineral ou glicerina no canal auditivo;
- Utilização de água morna, por meio de uma seringa. Para isso, a cabeça deve ser inclinada lateralmente para o lado oposto, puxando-se a orelha externa para cima e para trás, de forma a endireitar o canal auditivo. Quando terminar de irrigar, inclinar a cabeça para o mesmo lado, para deixar a água escorrer.