Câncer de Estômago
O que é o câncer de estômago?
O câncer de estômago engloba um conjunto de diferentes doenças neoplásicas que acometem as células estomacais. Eles são causados por alterações no DNA dentro das células, as quais passam a se multiplicar de forma desordenada e fora de controle.
A maior parte dos cânceres tem origem a partir de alterações pré-cancerígenas da mucosa que reveste o estômago. No início, eles são asintomáticos, de forma que passam desapercebidos por muito tempo. Quando os sintomas aparecem e o câncer é descoberto, eles habitualmente já se encontram em uma fase avançada.
Tipos de câncer de estômago
Adenocarcinoma
O adenocarcinoma representa 95% de todos os cânceres de estômago (1). Ele se desenvolve a partir da mucosa que reveste o estômago.
Existem 2 tipos principais de adenocarcinomas do estômago:
- Tipo intestinal: tende a ter um prognóstico ligeiramente melhor. Além disso, é mais provável que as células cancerígenas apresentem certas alterações genéticas que podem permitir o tratamento com terapia medicamentosa direcionada.
- Tipo difuso: apresenta maior probabilidade de metástase em uma fase mais precoce. Ele é menos comum que o tipo intestinal e tende a ser mais difícil de tratar.
Tumores estromais
Os tumores estromais têm origem nas células da parede do estômago. Embora estes tumores possam ter origem em qualquer parte do trato digestivo, a maioria começa no estômago.
Tumores neuroendócrinos
Os tumores neuroendócrinos se originam nas células nervosas ou nas células produtoras de hormônios presentes no estômago.
A maioria deles crescem lentamente e não provoca metástase, embora alguns deles possam crescer e se espalhar rapidamente.
Linfomas
O linfoma tem origem nos linfócitos, que são células do sistema imunológico presentes no estômago e em outras áreas do corpo. Entretanto, a maioria dos linfomas tem origem fora do estômago. O tratamento e o prognóstico dependem de qual o tipo de linfoma, o que discutimos em uma página específica.
Causa e fatores de risco para o câncer de estômago
Embora o câncer de estômago possa acometer qualquer pessoa, o risco é maior na presença de certos fatores de risco, incluindo:
- Gênero masculino.
- Idade superior a 60 anos.
- Infecção pela bactéria Helicobacter Pylori.
- Obesidade.
- Presença de alterações pré-cancerígenas, como a Gastrite Atrófica e a Metaplasia Intestinal.
- Certos hábitos alimentares, como o consumo de alimentos preservados por salga e o baixo consumo de frutas.
- Alcoolismo (consumo de mais de três doses por dia).
- Tabagismo.
- Doença do Refluxo Gastroesofágico.
- Certos tipos de pólipos estomacais.
- Anemia Perniciosa.
Alterações pré-cancerígenas no estômago
Diferentes condições que acometem a mucosa estomacal são consideradas como pré-cancerígenas.
Isso acontece porque a mucosa é responsável por proteger a parede do estômago da ação do suco digestivo. Sem esta proteção, as células podem ser danificar e sofrer alterações que, com o tempo, podem evoluir para um câncer no estômago.
Entre estas condições que aumentam o risco para câncer de estômago, incluem-se:
- Gastrite atrófica: condição na qual a mucosa estomacal encontra-se muito fina e inflamada. Ela geralmente está associada a uma infecção pelo Helicobacter Pylori ou a uma condição autoimune.
- Metaplasia intestinal: condição na qual as células da mucosa gástrica são gradativamente substituídas por células semelhantes àquelas que revestem o intestino. A metaplasia intestinal pode estar presente em pacientes com gastrite atrófica ou com infecção pelo Helicobacter Pylori.
Sinais e sintomas de câncer de estômago
O câncer de estômago em estágio inicial raramente causa sintomas. Isso significa que a doença pode se desenvolver por anos antes de ser descoberta.
Na presença de sinais e sintomas, os mais comuns incluem:
- Perda do apetite e sensação de empaixamento pós-prandial.
- Perda de peso
- Dor abdominal
- Azia ou queimação
- Náusea ou Vômito, com ou sem sangue.
- Acúmulo de líquido no abdômen (ascite)
- Presença de sangue nas fezes
- Anemia, podendo resultar em fadiga e fraqueza
Infelizmente estes sintomas são bastante inespecíficos e podem ser observadas em condições muito mais comuns do que o câncer de estômago, o que pode resultar em um atraso diagnóstico.
Diagnóstico do câncer de estômago
Na presença de sintomas compatíveis, o endoscopia digestiva alta é o principal exame utilizado no diagnóstico do câncer de estômago. A endoscopia permite a visualização direta da mucosa do estômago e, na presença de lesões suspeitas, a realização de biópsia..
As amostras de tecido biopsiadas são então enviadas para um laboratório, onde são examinadas ao microscópio para verificar se contêm câncer.
Estadiamento do câncer de estômago
O câncer de estômago é classificado em estágios de 0 a 4, com base no sistema TMN
O sistema TNM foi descrito pela American Joint Committee on Cancer (AJCC) e utiliza como critérios o tamanho do tumor (T), o acometimento de linfonodos (N) e a presença de metástases (M).
Tamanho do tumor (T)
A mesma biópsia usada para o diagnóstico do câncer de estômago é usada também para avaliar quais as camadas da parede do estômago que estão comprometidas pelo câncer.
A parede do estômago é dividido em cinco camadas:
- Mucosa: a camada mais interna do estômago, onde quase todos os cânceres se originam.
- Submucosa: camada de suporte localizada logo abaixo da mucosa
- Muscularis propria: camada espessa de músculo responsáveis pelos movimentos estomacais.
- Subserosa.
- Serosa: a camada externa que reveste o estômago.
O câncer de estômago é dividido em quatro categorias de acordo com o tamanho do tumor:
- T1: tumor restrito à camada mucosa e submucosa;
- T2: acometimento da camada muscular própria;
- T3: acometimento da camada subserosa.
- T4: acometimento da camada serosa
Acometimento de linfonodos (N)
Uma vez feito o diagnóstico do câncer de estômago, outros exames são solicitados para avaliar o acometimento de linfonodos regionais, incluindo:
- Tomografia Computadorizada de Abdômen e Pelve: exame padrão para verificar se linfonodos regionais.
- Ultrassom Endoscópico: superior à Tomografia para avaliar linfonodos próximos à parede gástrica
Uma vez identificados linfonodos suspeitos por meio da tomografia ou do ultrassom, será indicada uma punção Aspirativa por Agulha Fina. Nesse exame, amostras de linfonodos suspeitos serão coletadas para análise citológica, o que confirmará ou não o acometimento dos linfonodos pelo câncer.
O câncer de estômago é novamente dividido em quatro categorias, de acordo com o grau de acometimento de linfonodos:
- N0: ausência de acometimento de linfonodos;
- N1: acometimento de no máximo 2 linfonodos regionais;
- N2: acometimento de 3 a 6 linfonodos regionais;
- N3: acometimento de 7 ou mais linfonodos regionais.
Metástase (M)
Os linfonodos regionais são os primeiros locais fora do estômago para onde o câncer se espalha. Quando há acometimento de linfonodos, outros exames são necessários para identificar a presença de câncer em outros locais à distância.
PET Scan
O principal exame para isso é o PET scan. Nesse exame, o paciente recebe uma injeção contendo uma forma levemente radioativa de açúcar. Este açúcar é então coletado pelas células cancerígenas, gerando uma área de maior radioatividade. Estas áreas são então detectadas por uma câmera específica.
O PET scan não confirma a presença de câncer. No entanto, uma vez que se identifique uma área de maior captação, outros exames são realizados para certificar a presença de câncer.
Ressonância Magnética do Crânio e coluna
O PET scan é um bom exame para mostrar a disseminação do câncer para o fígado, ossos ou alguns outros órgãos. Entretanto, o exame tem baixa eficiência em mostrar metástases para o cérebro ou a medula espinhal.
Por esse motivo, uma ressonância magnética do crânio e da coluna será solicitado para a identificação de eventuais metástases.
A partir dos exames acima, o câncer é dividido em dois grupos, de acordo com a presença ou não de metástases:
- M0: ausência de metástase;
- M1: presença de metástase.
Estágios do câncer de estômago
A partir do sistema TNM, o câncer de estômago é dividido nos seguintes estágios:
- Estágio 0 (Tis, N0, M0):
Células pré-cancerígenas ou câncer muito inicial, apenas na camada mais interna (mucosa).
-
Estágio I (IA e IB):Tumor pequeno, em camadas mais superficiais, podendo afetar alguns linfonodos próximos (IA: T1, N0, M0; IB: T1, N1, M0 ou T2, N0, M0).
-
Estágio II (IIA e IIB):Tumor mais profundo ou espalhado para mais linfonodos próximos, mas sem metástase à distância (IIA: T1, N2, M0; T2, N1, M0; T3, N0, M0; IIB: T1, N3a, M0; T2, N2, M0; T3, N1, M0; T4a, N0, M0).
-
Estágio III (IIIA, IIIB, IIIC):Câncer mais avançado, com invasão mais profunda ou grande número de linfonodos, mas ainda localizado regionalmente (ex: IIIB: T4b, N1/N2, M0; IIIC: T4b, N3b, M0).
-
Estágio IV (Qualquer T, Qualquer N, M1):Câncer avançado (metastático), que se espalhou para órgãos distantes (fígado, pulmões, cérebro, peritônio) ou linfonodos distantes, mesmo que o tumor primário seja pequeno.
Tratamento
Tumores em estágio inicial
No estágio 0, o câncer está limitado à camada de revestimento interno do estômago. Alguns tumores nesse estágio também podem ser tratados por ressecção endoscópica. Outros pacientes serão tratados com gastrectomia parcial (remoção de parte do estômago) ou total (remoção de todo o estômago), junto com a remoção dos linfonodos regionais.
Tumores potencialmente ressecáveis
Nesse grupo, incluem-se tumores que se extendem até as camadas mais profundas da parede do estômago e áreas próximas, mas sem sinais de disseminação da doença para outras partes do corpo.
Dependendo da localização e extensão da doença, o paciente pode ser submetido inicialmente a uma gastrectomia parcial (remoção de parte do estômago) ou total (remoção de todo o estômago), com remoção dos linfonodos regionais.
A quimioterapia, junto ou não com radioterapia, poderá ser indicada antes da cirurgia, com o objetivo de reduzir o tamanho do tumor.
Em outros casos, a quimioterapia poderá também ser feita após a cirurgia, de forma a eliminar quaisquer células cancerígenas remanescentes.
Tumores locais ou regionais irressecáveis
Alguns tumores não podem ser removidos completamente por cirurgia.
As opções de tratamento nesses casos podem incluir quimioterapia isoladamente, ou o tratamento combinado com imunoterapia ou radioterapia (quimiorradiação).
Após o tratamento inicial, a doença deve ser reavaliada. Se o tumor ainda não for ressecável após o tratamento inicial, o tratamento posterior terá por objetivo manter o câncer sob controle, mesmo sem que isso signifique a cura.
Tumores metastáticos
Quando o câncer já se espalhou para outros órgãos, geralmente a cura não é possível. Ainda assim, o tratamento pode manter a doença sob controle para alívio dos sintomas.
O tratamento pode incluir quimioterapia isoladamente ou combinada com imunoterapia ou radioterapia ou terapia alvo.
Cuidado paliativo
O paciente é considerado em cuidados paliativos quando ele tem uma doença que não pode ser curada. Nesta fase, a doença é classificada como terminal.
O cuidado paliativo envolve um conjunto de medidas adotadas com o objetivo de oferecer condições para que o paciente possa viver da melhor forma possível e para que possa morrer com dignidade.
Alguns pacientes podem receber tratamento também para controlar a doença e evitar que ela continue evoluindo. Isso pode envolver, por exemplo, a quimioterapia ou a Imunoterapia no tratamento do câncer.
Outras pessoas podem optar por interromper o tratamento específico e manter apenas os cuidados de conforto e o tratamento dos sintomas.
Algumas pessoas recebem o tratamento paliativo em um estágio final, quando a espectativa de vida se limita a dias, semanas ou poucos meses. Em outros casos, o paciente pode permanecer anos ou décadas em cuidados paliativos. Cuidados paliativos, portanto, não é a mesma coisa que cuidados de fim de vida.
Prognóstico do câncer de estômago
Infelizmente, muitos casos de câncer de estômago são descobertos em uma fase avançada, quando o prognóstico é mais limitado.
Considerando-se todos os casos de câncer de estômago, a taxa de sobrevida em 5 anos é de 32% (1).
Nos diferentes estágios da doença, a sobrevida em cinco anos é de:
- 70%, nos casos com câncer localizado.
- 32%, nos casos com câncer localmente avançados.
- 6%, nos casos com metástase a distância.
Consequências de longo prazo do câncer de estômago
Cada vez mais pessoas conseguem se recuperar do câncer de estômago e ter uma vida livre da doença. No entanto, diversas consequências da cirurgia e da quimioterapia acompanham esses pacientes, exigindo um acompanhamento médico de longo prazo.
Sintomas digestivo como plenitude precoce, náuseas e vômitos são comuns. Dependendo da cirurgia realizada, o paciente pode apresentar refluxo biliar ou refluxo gastroesfofágico, com sintomas como dor epigástrica e queimação.
Devido ao trânsito rápido de alimentos, podem apresentar esteatorreia (fezes claras e oleosas, pelo excesso de gordura) e diarreia crônica.
Podem apresentar também má absorção e deficiências nutricionais, especialmente de Vitamina B12, Ferro, Ácido fólico, Cálcio e vitamina D. O déficit protêico pode levar a perda de peso e perda de massa muscular.
Complicações diretamente relacionadas à cirurgia podem incluir aderências, estenoses ou cálculos biliares, às vezes com necessidade de novas intervenções cirúrgicas no longo prazo.
Além de todas as complicações físicas relacionadas acima, há também as consequências psico-emocionais que acompanham os pacientes por muito tempo, com maior ou menor impacto a depender do caso.
Por fim, é preciso considerar que quem teve um câncer e se recuperou sempre terá um risco aumentado para novo câncer. Por isso, esses pacientes terão mais do que qualquer pessoa que adotar um estilo de vida saudável, o que incluir bons hábitos alimentares, prática regular de atividade física e melhora na qualidade do sono.