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Esofagite Eosinofílica

O que é a Esofagite Eosinofílica?

A esofagite eosinofílica é uma doença inflamatória crônica do esôfago caracterizada pelo acúmulo anormal de eosinófilos, um tipo de célula do sistema imunológico frequentemente associado a processos alérgicos. Atualmente, é considerada uma das principais causas de dificuldade para engolir (disfagia) e de impactação alimentar em crianças, adolescentes e adultos jovens.
A doença pode surgir em qualquer idade, desde a infância até a vida adulta, mas é mais frequentemente diagnosticada em crianças, adolescentes e adultos entre 20 e 50 anos. Além disso, é aproximadamente três vezes mais comum em homens do que em mulheres. Muitas pessoas afetadas apresentam histórico pessoal ou familiar de doenças alérgicas, como asma, rinite alérgica, dermatite atópica ou alergias alimentares.
Os sintomas variam conforme a idade e a duração da doença. Em adultos, predominam a dificuldade para engolir, a sensação de alimento preso no esôfago e os episódios de impactação alimentar. Já nas crianças, podem ocorrer vômitos recorrentes, recusa alimentar, dor abdominal, dificuldade para ganhar peso e problemas durante as refeições. Como a inflamação tende a persistir ao longo do tempo, a doença não tratada pode levar ao estreitamento progressivo do esôfago e ao desenvolvimento de complicações como estenoses e impactações alimentares recorrentes.
O diagnóstico é realizado por meio de endoscopia digestiva alta com biópsias do esôfago, que demonstram a presença de inflamação eosinofílica característica. Embora não exista cura definitiva, os tratamentos atuais permitem controlar a inflamação, aliviar os sintomas e prevenir complicações, possibilitando que a maioria dos pacientes mantenha boa qualidade de vida.

Qual a causa da Esofagite Eosinofílica?

A Esofagite eosinofílica é causada por uma reação alérgica a certos alimentos ou alérgenos ambientais.

Isso significa que o corpo passa a reconhecer estes alimentos e alérgenos como um agressor ao organismo, produzindo uma reação anormal de defesa, da mesma forma que ele reage, por exemplo, a uma infecção viral.

Alimentos envolvidos

Os alimentos envolvidos variam de uma pessoa para outra, mas alguns grupos são reconhecidamente mais associados à doença, incluindo:

  • Leite e derivados (queijos, iogurte, manteiga ou creme de leite).
  • Trigo (incluindo pães, massas, bolos, biscoitos e diversos alimentos industrializados).
  • Ovos
  • Soja e derivados
  • Amendoim e castanhas
  • Peixes e frutos do mar

Fatores de risco

A Esofagite Eosinofílica frequentemente acomete pessoas que apresentam outros tipos de doenças alégicas.

Assim, pessoas que apresentam as seguintes condições estão sob maior risco de desenvolver a Esofagite Eosinofílica:

Quando suspeitar de esofagite eosinofílica?

A Esofagite Eosinofílica deve ser considerada especialmente em pessoas com alergias (incluindo asma, rinite alérgica, dermatite atópica e outras) que apresentem dificuldade para engolir, sensação recorrente de alimento preso no esôfago ou episódios de impactação alimentar.

Quais os sinais e sintomas mais comuns da Esofagite Eosinofílica?

Os sintomas da esofagite eosinofílica resultam da inflamação crônica da parede do esôfago.

Com o passar do tempo, essa inflamação pode provocar estreitamento, perda da elasticidade e dificuldade na passagem dos alimentos.

Dificuldade para engolir (disfagia)

A disfagia é o sintoma mais característico da esofagite eosinofílica em adolescentes e adultos.

Os pacientes costumam relatar:

  • Sensação de que os alimentos descem lentamente.
  • Necessidade de mastigar excessivamente.
  • Dificuldade principalmente com alimentos sólidos.
  • Necessidade de ingerir líquidos para ajudar a engolir.

A disfagia geralmente surge de forma gradual e pode piorar ao longo dos anos se a doença não for tratada.

Sensação de alimento parado ou preso no esôfago

Muitas pessoas descrevem a sensação de que a comida “fica entalada” após a deglutição.

Impactação alimentar

A impactação alimentar ocorre quando o alimento fica preso no esôfago e não consegue prosseguir para o estômago.

O paciente pode apresentar:

  • Dor ou pressão no peito.
  • Incapacidade de engolir saliva.
  • Regurgitação de alimentos.
  • Sensação intensa de obstrução.

Essa situação representa uma urgência médica e frequentemente exige endoscopia para remoção do alimento.

Azia e sintomas semelhantes ao refluxo

Algumas pessoas apresentam sintomas parecidos com a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), incluindo:

  • Queimação retroesternal.
  • Regurgitação.
  • Desconforto após as refeições.

Dor no peito

A inflamação do esôfago pode provocar dor torácica não relacionada ao coração.

Essa dor pode ocorrer de forma expontânea e não provocada ou pode estar associada às refeições (durante ou logo após as fefeições).

Comportamentos adaptativos durante as refeições

Muitas pessoas desenvolvem estratégias para compensar a dificuldade de engolir, frequentemente sem perceber.

Alguns exemplos incluem:

  • Mastigar excessivamente os alimentos.
  • Evitar carnes ou alimentos secos.
  • Beber grandes quantidades de líquido durante as refeições.
  • Comer lentamente.
  • Preferir alimentos macios ou pastosos.

Sintomas em crianças

Nas crianças, os sintomas costumam ser menos específicos, até porque elas podem ter dificuldade em expressar aquilo que estão sentindo.

Os sintomas mais comuns em lactentes e pré-escolares incluem:

  • Recusa alimentar.
  • Irritabilidade durante as refeições.
  • Vômitos frequentes.
  • Dificuldade para ganhar peso.

Já em crianças maiores, poderá ser observado:

  • Dor abdominal recorrente.
  • Náuseas.
  • Azia.
  • Alimentação excessivamente lenta.
  • Necessidade de cortar os alimentos em pedaços muito pequenos.

Impactação Alimentar

A impactação alimentar é uma das complicações mais características da esofagite eosinofílica, podendo em alguns casos ser o primeiro sinal da doença. Ela ocorre quando um alimento fica preso no esôfago e não consegue seguir normalmente em direção ao estômago.

Isso acontece porque a inflamação crônica causada pela esofagite eosinofílica torna a parede do esôfago mais rígida, menos elástica e progressivamente mais estreita. Com o passar do tempo, podem surgir cicatrizes, anéis esofágicos e áreas de estreitamento que dificultam a passagem dos alimentos, especialmente dos sólidos.

Durante um episódio de impactação alimentar, o paciente pode apresentar sintomas como:

  • Sensação súbita de alimento preso no peito ou na garganta.
  • Dor ou pressão retroesternal.
  • Incapacidade de engolir novos alimentos ou mesmo líquidos
  • Salivação excessiva.
  • Regurgitação da saliva ou dos alimentos ingeridos.

Em situações mais leves, o alimento pode descer espontaneamente após alguns minutos ou horas. No entanto, quando existe obstrução completa do esôfago, a pessoa pode não conseguir nem mesmo engolir a própria saliva. Nesses casos, é necessária avaliação médica urgente. Alguns pacientes podem precisar de uma endoscopia para remover o alimento impactado.

Muitos pacientes com esofagite eosinofílica desenvolvem estratégias inconscientes para evitar esse problema, como mastigar excessivamente os alimentos, comer mais devagar, ingerir grandes quantidades de líquidos durante as refeições ou evitar determinados tipos de comida. Embora essas adaptações possam reduzir os sintomas temporariamente, elas não impedem a progressão da doença.

A presença de episódios recorrentes de impactação alimentar é um importante sinal de alerta para esofagite eosinofílica, especialmente em pessoas jovens, homens e pacientes com histórico de asma, rinite alérgica, dermatite atópica ou outras doenças alérgicas. Nesses casos, a investigação com endoscopia e biópsias esofágicas é fundamental para confirmar o diagnóstico.

O tratamento adequado da esofagite eosinofílica reduz significativamente o risco de novas impactações alimentares e ajuda a prevenir complicações como fibrose e estreitamento permanente do esôfago.

Estenose de esôfago

A estenose esofágica é uma das principais complicações da esofagite eosinofílica. Ela ocorre como consequência da inflamação crônica da parede do esôfago.

A inflamação crônica do esôfago pode levar ao desenvolvimento de cicatrizes e fibrose na parede do esôfago, deixando ele cada vez mais mais rígido e com o calibre reduzido.

Esse processo não acontece de forma repentina. Inicialmente, muitos pacientes apresentam apenas dificuldade ocasional para engolir alimentos sólidos. À medida que a inflamação persiste, podem surgir anéis esofágicos, estreitamentos localizados e redução difusa do diâmetro do esôfago. Nessa fase, episódios de alimento preso no esôfago tornam-se cada vez mais frequentes.

Os principais sinais que podem sugerir o desenvolvimento de uma estenose incluem:

  • Dificuldade progressiva para engolir alimentos sólidos.
  • Necessidade de mastigar excessivamente.
  • Sensação frequente de alimento parado no peito.
  • Episódios repetidos de impactação alimentar.
  • Necessidade de ingerir líquidos para ajudar a engolir.

O diagnóstico da estenose geralmente é realizado durante a endoscopia digestiva alta, que pode demonstrar áreas de estreitamento, anéis esofágicos ou redução difusa do calibre do órgão. Em alguns casos, exames contrastados do esôfago também podem ajudar a caracterizar a extensão da alteração.

O tratamento envolve duas abordagens complementares. A primeira consiste em controlar a inflamação da esofagite eosinofílica por meio de medicamentos e/ou dietas de eliminação, reduzindo a progressão do dano tecidual. A segunda é a dilatação esofágica, procedimento realizado por endoscopia para ampliar mecanicamente as áreas estreitadas e melhorar a passagem dos alimentos.

É importante destacar que a dilatação trata a consequência da doença — o estreitamento do esôfago — mas não a inflamação que o causou. Por isso, o controle contínuo da esofagite eosinofílica é fundamental para reduzir o risco de novas estenoses e episódios recorrentes de impactação alimentar.

Diagnóstico da Esofagite Eosinofílica

O diagnóstico da esofagite eosinofílica deve ser considerada a partir da observação de sintomas característicos. No entanto, a confirmação depende dos achados da biópsia realizadas durante uma endoscopia digestiva alta.

Avaliação clínica

A suspeita geralmente surge em pessoas que apresentam dificuldade para engolir, sensação recorrente de alimento preso no esôfago, episódios de impactação alimentar ou sintomas de refluxo que não melhoram adequadamente com os tratamentos habituais. Em crianças, a doença pode se manifestar com recusa alimentar, vômitos recorrentes, dor abdominal ou dificuldade para ganhar peso.

Endoscopia

O principal exame utilizado na investigação é a endoscopia digestiva alta. Durante o procedimento, o médico avalia diretamente o interior do esôfago em busca de alterações sugestivas da doença. Nesse exame, poderão ser observados anéis esofágicos, sulcos longitudinais, placas ou pontos esbranquiçados, fragilidade da mucosa e áreas de estreitamento do esôfago.

Biópsia

A confirmação diagnóstica depende da realização de biópsias. Durante a endoscopia, são coletadas pequenas amostras de diferentes regiões do esôfago para análise microscópica.

O diagnóstico é estabelecido quando existe aumento significativo do número de eosinófilos na mucosa esofágica, geralmente definido pela presença de pelo menos 15 eosinófilos por campo de grande aumento ao microscópio, associado ao contexto clínico compatível.

Testes Alérgicos

Os testes alérgicos podem ser úteis para avaliar doenças atópicas associadas, como rinite, asma ou alergias alimentares, mas não são suficientes para confirmar ou excluir o diagnóstico da esofagite eosinofílica. Da mesma forma, exames de sangue frequentemente mostram resultados normais e não substituem a necessidade da biópsia.

Diagnóstico diferencial

Diferentes condições podem produzir sinais e sintomas semelhantes aos da Esofagite Eosinofílica.

Entre elas, é preciso considerar:

Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE)

A Doença do Refluxo Gastroesofágico é uma condição caracterizada pelo refluxo do conteúdo do estômago para o esôfago.

Os sintomas podem incluir a sensação de queimação subindo até a região do pescoço, dificuldade para engolir (disfagia) e dor no peito.

Colite Ulcerativa

A Colite Ulcerativa é uma doença inflamatória intestinal de causa desconhecida. Ela é caracterizada por inflamação crônica e ulceração do revestimento do intestino grosso.

Na maioria dos indivíduos afetados, a região mais inferior do intestino grosso, conhecida como reto, é inicialmente afetada. À medida que a doença progride, o cólon, que é a parte mais alta do intestino grosso, também passa a ser acometida.

Geralmente a colite ulcerativa se manifesta durante a adolescência e início da vida adulta. Entretanto, algumas pessoas podem desenvolver a condição em uma idade mais tardia, entre os 50 e os 70 anos. Algumas pessoas também podem desenvolver os sintomas precocemente, nos primeiros anos de vida.

Doença de Crohn

A Doença de Crohn é uma doença inflamatória intestinal caracterizada por inflamação crônica grave da parede intestinal ou de qualquer parte do trato gastrointestinal.

A porção inferior do intestino delgado (íleo) e o reto são mais comumente afetados, mas o esôfago também pode estar acometido.

Os sintomas podem incluir diarreia aquosa, dor abdominal, febre e perda de peso.

A causa exata da doença de Crohn é desconhecida.

Tratamento da Esofagite Eosinofílica

O tratamento da  esofagite eosinofílica é baseado em modificações alimentares, medicamentos e, em alguns casos, procedimentos endoscópicos.

Medicamentos

Inibidores da bomba de prótons (IBPs)

Inibidores da bomba de prótons, como omeprazol, pantoprazol e esomeprazol , ajudam a reduzir a produção de ácido gástrico, podendo contribuir para um efeito anti-inflamatório sobre a mucosa esofágica e podendo levar à remissão da doença em parte dos pacientes.

Corticoides tópicos

Quando os sintomas persistem ou a inflamação continua ativa, podem ser utilizados corticoides tópicos administrados de forma a revestir o esôfago, como a budesonida e a fluticasona.

Diferentemente dos corticoides sistêmicos, esses medicamentos atuam principalmente na superfície do esôfago e apresentam menor risco de efeitos adversos gerais.

Terapias biológicas

Nos últimos anos surgiram tratamentos biológicos direcionados aos mecanismos imunológicos responsáveis pela doença.

O principal exemplo é o anticorpo monoclonal dupilumabe, que pode ser indicado em pacientes com doença moderada a grave, especialmente quando há resposta insuficiente às terapias convencionais ou coexistência de outras doenças alérgicas, como dermatite atópica grave ou asma.

Alimentação

A Esofagite Eosinofílica está relacionada a reações imunológicas desencadeadas por alimentos, a dieta pode desempenhar papel importante no controle da doença.

Em alguns casos, a retirada de alimentos suspeitos pode ser feita com base na história clínica.

Em outros pacientes, pode ser optado pela exclusão dos diferentes tipos de alimentos associados à doença, seguido de reintrodução gradual e observação da resposta clínica.

Considerando que o leite de vaca é o desencadeante mais comum. Alguns pacientes podem iniciar excluindo apenas esse alimento da dieta.

Dilatação esofágica

Em caso de estreitamento sintomático do esôfago, pode ser indicada a dilatação endoscópica, com o objetivo de ampliar o calibre do órgão e melhorar a passagem dos alimentos.

Esse procedimento alivia os sintomas de disfagia, mas não trata a inflamação subjacente, sendo geralmente realizado em associação ao tratamento medicamentoso ou dietético.

Qual é o prognóstico da esofagite eosinofílica?

O principal impacto da Esofagite Eosinofílica está relacionado aos sintomas e às complicações mecânicas decorrentes da inflamação crônica.

Quando o diagnóstico é feito precocemente e antes que o paciente desenvolva fibrose e estenose da parede esofágica, a resposta ao tratamento costuma ser bastante favorável. Muitos pacientes apresentam melhora significativa dos sintomas com medicamentos, dietas de eliminação ou uma combinação dessas estratégias.

No entanto, é importante lembrar que a melhora dos sintomas nem sempre significa desaparecimento completo da inflamação, motivo pelo qual o acompanhamento médico e, em alguns casos, endoscopias de controle continuam sendo necessários.

A Esofagite eosinofílida é uma doença crônica, ainda que controlável. A interrupção do tratamento frequentemente leva à recorrência da doença e piora da estenose, de forma que o tratamento precisa ser feito em longo prazo.

Felizmente, a esofagite eosinofílica não é considerada uma doença pré-cancerosa e não parece aumentar significativamente o risco de câncer de esôfago.