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Doença Arterial Coronariana

O que é a Doença Arterial Coronariana?

A Doença Arterial Coronariana (DAC) é uma condição caracterizada pelo estreitamento ou obstrução das artérias que irrigam o coração, geralmente causado pelo acúmulo de placas de gordura (aterosclerose).

Quando isso acontece, o músculo cardíaco passa a sofrer isquemia (falta de oxigenação), podendo levar a sintomas como dor no peito (angina), falta de ar e, em casos mais graves, ao infarto agudo do miocárdio.

A doença tem forte associação com problemas como hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, sedentarismo e obesidade, mas pode também acontecer em pessoas sem fatores de risco conhecidos.

Ela pode permanecer silenciosa por anos, com piora progressiva da circulação coronária sem que o paciente se de conta disso. Esse é o momento ideal para fazer o diagnóstico em exames de rotina, já que o tratamento pode ajudar a prevenir a evolução da doença e a evitar os eventos agudos, especialmente o infarto.

Habitualmente, a doença só se manifesta em fases mais avançadas, quando a circulação pelas artérias coronárias já está seriamente comprometida. O sintoma mais clássico é a Angina, caracterizada por uma sensação de aperto, pressão, queimação ou peso no peito, geralmente localizada na região central ou esquerda do tórax. No entanto, algumas pessoas (especialmente idosos, mulheres e pacientes com diabetes) podem apresentar sintomas atípicos, como cansaço, falta de ar ou mal-estar inespecífico.

Infelizmente, em alguns pacientes o Infarto Agudo do Miocárdio pode já ser a primeira manifestação clínica da doença, em pacientes sem conhecimento prévio da doença. Isso apenas reforça a necessidade de diagnóstico precoce, antes do aparecimento dos sintomas iniciais.

Por que a DAC é tão Perigosa?

A DOC é perigosa porque é uma doença silenciosa, que se desenvolve sem que a pessoa desconfie de quaisquer problema.

Isso acontece porque, durante as atividades corriqueiras, a capacidade de transporte de oxigênio pelas artérias coronárias supera bastante a demanda do músculo cardíaco. Esta “reserva funcional” vai sendo gradativamente perdida com a progressão da aterosclerose. Quando a reserva acaba, o músculo entra em sofrimento e o paciente passa a desenvolver sintomas. No entanto, isso habitualmente só acontece quando 70 a 80% do lúmen da artéria está obstruída (1). Em alguns casos, a primeira manifestação pode ser já na forma de um Infarto Agudo do Miocárdio, ou de um arritmia potencialmente fatal.

A Doença Arterial Coronariana é a principal causa de morte nos países desenvolvidos. Estudos mostram que o risco de desenvolver a Doença Arterial Coronariana durante a vida é de 49% para homens e 32% para mulheres (2).

Infarto Agudo do miocárdio

As alterações no fluxo sanguíneo das coronárias pode levar à formação de um coágulo, entupindo completamente a artéria.  O músculo cardíaco previamente irrigado por esta artéria deixa de receber sangue e entra em necrose (infarto).

O infarto do Miocárdio pode acontecer em um paciente com histórico de angina. Entretanto, ele pode também ser a primeira manifestação da Doença Arterial Coronariana.

Arritmia

O músculo isquêmico pode provocar alterações na atividade elétrica do coração, dando origem às arritmias cardíacas.

Eventualmente, a arritmia pode comprometer completamente o funcionamento do coração, levando à morte súbita.

Insuficiência cardíaca

O músculo necrosado ou isquêmico pode comprometer a capacidade do coração de bombear o sangue para o resto do corpo, o que caracteriza a insuficiência cardíaca.

Condições associadas

A Doença Arterial Coronariana é a forma de manifestação cardíaca da Aterosclerose, uma doença sistêmica caracterizada pelo endurecimento e formação de placas de gordura nas artérias.

Quando uma pessoa tem doença coronariana, é muito provável que ela já tenha também acometimento de artérias em diferentes partes do corpo, incluindo o cérebro e os rins, mesmo que sem sintomas relacionados a essas condições. No entanto, o risco de complicações é alto.

Estudos indicam que cerca de 30% a 40% dos pacientes com DAC apresentam algum grau de Insuficiência Renal Crônica. Por outro lado, ter doença renal aumenta em até 3,5 vezes o risco de um paciente com DAC sofrer um novo infarto.

Já a prevalência de AVC prévio ou o risco de um novo evento em pacientes com DAC crônica é estimada entre 5% a 10%.

Sintomas da Doença Coronariana: quando se preocupar com a dor no peito?

A dor no peito é um sintoma muito preocupante, uma vez que pode indicar um quadro grave de isquemia cardíaca com risco de evolução para Infarto Agudo do Miocardio se não tratada de imediato. No entanto, diferentes causas podem estar associadas à dor no peito, além da isquemia cardíaca.

De acordo com um estudo realizado na Universidade de Michigan, 53% de 400 pacientes que chegaram ao serviço de emergência com queixa de dor no peito não tinham uma causa orgânica definida:

  • A maior parte delas estava relacionada a uma crise de ansiedade;
  • 36% foram caracterizados como dor de origem músculo-esquelética ou outros problemas torácicos, como as doenças do esôfago.
  • Apenas 11% eram decorrentes de problemas mais graves, como o Infarto do Miocárdio.

Algumas características da dor no peito falam contra um problema cardíaco, incluindo:

  • Dores que duram poucos segundos e que não se iniciaram após um esforço físico ou estresse emocional;
  • Dor muito bem localizada, na qual o paciente é capaz de apontar com o dedo onde está doendo;
  • Dor que piora com a respiração profunda;
  • Dor que melhora muito com um simples analgésico;

Angina típica X atípica

A angina pode ser classificada como típica ou atípica de acordo com as características da dor. Essa classificação tem uma importância ímpar, uma vez que ela indica a probabilidade de a dor no peito se tratar realmente de uma isquemia cardíaca.

Para ser considerada típica, a dor deve preencher três critérios específicos, conhecidos como Critérios de Diamond e Forrester:

  1. Localização e Tipo: Desconforto na região central do peito (atrás do osso esterno), descrito como aperto, peso ou queimação, que pode irradiar para o pescoço, mandíbula ou braço esquerdo.
  2. Fator Desencadeante: A dor é provocada por esforço físico ou estresse emocional.
  3. Fator de Alívio: A dor desaparece rapidamente (em minutos) com o repouso ou com o uso de nitratos (remédios debaixo da língua).

A angina típica tem altíssima probabilidade de ter origem em um quadro de obstrução coronária. A presença de apenas dois desses três critérios diminui a probabilidade de se tratar de uma causa cardíaca, sendo chamada de angina atípica. Já a presença de apenas um ou nenhum dos critérios indica baixa probabilidade de origem cardíaca.

Isquemia cardíaca: Sinais de alerta para Idosos ou Diabéticos

Tanto em idosos quanto em diabéticos, a isquemia cardíaca pode acontecer mesmo na ausência de dor no peito. Nesses pacientes, os nervos que transmitem a dor podem não estar funcionando bem, por conta do efeito da idade ou da neuropatia diabética.

Idosos

Alguns sinais que devem chamar a atenção para a possibilidade de isquemia cardíaca no idoso incluem:

  • Falta de ar súbita (Dispneia);
  • Confusão Mental Aguda;
  • Síncope (Desmaio) ou Tontura;
  • Fadiga Extrema

Diabético

Nos diabéticos, a isquemia cardíaca deverá ser considerada na seguintes situações:

  • Sintomas Gastrointestinais
  • Suor Frio e Palidez
  • Descontrole Glicêmico

Angina estável X Angina instável

A angina é um sinal de que o músculo cardíaco está sofrendo por conta da falta de oxigênio. Dependendo das características, ela pode ser classificada como estável ou instável, que são condições diferente se com exigência de abordagens completamente distintas.

Angina estável

A angina é classificada como estável quando ela se manifesta em momentos de maior esforço físico ou estresse. Ela dura pouco tempo (de 2 a 5 minutos, raramente mais de 15 minutos). O desconforto desaparece com o repouso ou após o uso de medicamentos vasodilatadores (como o nitrato sublingual).

A angina estável precisa ser investigada e tratada, mas que não envolve risco iminente significativo.

Angina instável

A angina instável, por outro lado, é aquela que aparece de forma imprevisível, sem relação com algum evento estressante específico. Ela pode ocorrer durante o repouso ou com esforços mínimos e demora para melhorar ou se torna contínua. Pode também estar associada a sintomas como suor frio, náuseas e falta de ar intensa.

Essa é uma emergência médica, com risco elevado de evoluir para um Infarto Agudo do Miocárdio caso não seja tratada de imediato.

Sinais de alerta: quando procurar atendimento médico

A doença arterial coronariana pode se manifestar de forma súbita e potencialmente grave. Isso pode acontecer tanto em pacientes com a doença já conhecida e em tratamento, como pode ser a manifestação inicial da doença.

O tratamento precoce nesses casos reduz significativamente o risco de complicações graves, como Infarto Agudo do Miocárdio, Arritmias graves e morte súbita. Assim, reconhecer os sinais de alerta é fundamental para buscar atendimento imediato e reduzir o risco de complicações. Diante de suspeita de problema cardíaco agudo, não espere os sintomas melhorarem espontaneamente. Na dúvida, procurar atendimento imediato pode ser decisivo.

Alguns dos principais sinais de alerta que indicam necessidade de avaliação imediata incluem:

  • Dor no peito intensa, em aperto, pressão ou queimação, com duração superior a 10–20 minutos .
  • Dor que não melhora com repouso
  • Desconforto torácico associado a falta de ar, sudorese fria, náuseas, vômitos, tontura ou sensação de desmaio
  • Dor que irradia para braço esquerdo, ambos os braços, costas, pescoço ou mandíbula
  • Início súbito de falta de ar, mesmo sem dor no peito
  • Perda de consciência ou quase desmaio

Uma consideração importante deve ser feita em relação a idosos ou pessoas com diabetes. Nesses grupos, as manifestações de uma síndrome isquêmica aguda são menos típicas, o que pode atrasar o diagnóstico. Sinais como cansaço inexplicado, falta de ar isolada, desconforto mal localizado ou mesmo a sensação de “má digestão” podem ser sinais de isquemia cardíaca aguda. Assim, essas pessoas devem ficar ainda mais alerta e, na dúvida, procurar atendimento médico imediato.

Além disso, algumas situações que também merecem avaliação médica rápida, mesmo que não haja sinais típicos de emergência. Procure atendimento nas seguintes situações:

  • Dor ou desconforto no peito aos esforços, que melhora com repouso (sugestivo de angina)
  • Piora recente de sintomas já conhecidos, como dor mais frequente ou mais intensa
  • Redução da tolerância ao esforço ou cansaço desproporcional
  • Episódios recorrentes de falta de ar sem causa aparente

É possível Evitar a doença arterial coronariana?

A Doença Arterial Coronariana é geralmente a manifestação cardíaca de uma doença que pode afetar diferentes artérias no corpo além do coração, que é a Aterosclerose.

Quando falamos de prevenção da DAC, dessa forma, estamos falando da prevenção da ateroscolerose como um todo.

Diferentes condições influenciam na probabilidade de uma pessoa desenvolver aterosclerose e DAC, algumas delas que podemos modificar ou evitar e outras que não.

Fatores não modificáveis

Fatores Não Modificáveis são aqueles relacionados a fatores genéticos / familiares, incluindo:

  • Histórico Familiar: Ter pais ou irmãos hipertensos aumenta significativamente o risco.
  • Influencia hormonal / menopausa: O estrogênio tem um efeito protetor sobre os vasos, ajudando a manter o HDL (colesterol “bom”) mais alto e as artérias mais flexíveis. Essa proteção é perdida após a menopausa, quando o risco de complicações relacionadas à DAC supera o dos homens.
  • Hipercolesterolemoia Familiar: algumas condições genéticas fazem com oque o indivíduo tenha colesterol muito elevado e de difícil controle desde o nascimento, aumentando o risco para DAC.
  • Genética: O risco é maior se um parente de primeiro grau (pais ou urmãos) teve um evento cardiovascular em idade precoce (antes dos 55 anos em homens ou antes dos 65 anos em mulheres).
  • Além disso, a idade é um fator de risco não modificável muito relevante.  Com o envelhecimento, as artérias perdem naturalmente a elasticidade, tornando-se mais rígidas.

Fatores modificáveis

Fatores modificáveis são aqueles que podemos agir para evitar ou controlar. Eles se dividem novamente em dois outros grupos: aqueles associados a hábitos e estilo de vida (que podem ser evitados) e aqueles relacionados a outras doenças que aumentam o risco para aterosclerose, doenças essas que podem ser tratadas ou controladas.

Hábitos de estilo de vida

Alguns dos hábitos que podem ser evitados e que estão associados a risco aumentado para DAC incluem:

  • Consumo Excessivo de Sal, gorduras saturadas, gorduras trans e açúcares refinados
  • Sedentarismo
  • Consumo de Álcool
  • Tabagismo
  • Estresse Crônico

Doenças Associadas

Algumas doenças podem estar associadas a maior risco de aterosclerose, incluindo:

  • Dislipidemia (colesterol alto)
  • Obesidade e Sobrepeso;
  • Hipertensão Arterial;
  • Diabetes
  • Insuficiência Renal Crônica
  • Doenças inflamatórias crônicas (Lupus, Artrote Reumatóide, outras)

Como evitar a Doença Arterial Coronariana?

No caso dos fatores de risco modificáveis, a resposta é mais direta. Evitar ou tratar.

No caso dos fatores não modificáveis, embora eles não possam ser evitados, é preciso compreender que a relação com a Doença Arterial Coronariana não é tão direta.

Na maior parte das vezes, não existe um fator único que leva à DAC, mas sim uma combinação deles. Quando uma pessoa tem alto risco genético para doenças cardiovasculares, é fundamental que ela tenha cuidado redobrado com todos os fatores possivelmente modificáveis.

Por fim, é importante salientar que a DAC tem trataemnto e que o tratamento é mais eficaz nas fases iniciais da doença. Assim, é fundmaental que pessoas de maor risco estejam sempre monitorando o coração com exames de rotina para que o diagnóstico seja feito precocemente.

Estratificação de risco - Escore de Framingham

O escore de Framingham é uma escala que avalia o risco de doença cardiovascular em um paciente, considerando a presença de determinados fatores de risco. O cálculo do escore leva em conta:

  • Idade
  • Pressão arterial sistólica
  • Colesterol total ou LDL-colesterol
  • Níveis de HDL-colesterol
  • Se o paciente fuma ou não
  • Se o paciente é diabético ou não

Existem tabelas diferentes para homens e mulheres. A interpretação do escore é a seguinte:

  • Pontuação < 10% – Risco baixo de evento cardiovascular em 10 anos
  • Pontuação 10-20% – Risco moderado de evento cardiovascular em 10 anos
  • Pontuação > 20% – Risco alto de evento cardiovascular em 10 anos

O escore de Framingham é importante para orientar tanto a investigação a ser feita como os eventuais tratamentos.

Como saber se uma pessoa tem Doença Arterial Coronariana?

A identificação da Doença Arterial Coronariana deve idealmente ser feita ainda antes do aparecimento dos sintomas, que é quando os tratamentos são mais eficazes. Eventualmente, ele será feito no paciente que se apresenta com angina ou com manifestações da doença coronariana, no paciente sem diagnóstico prévio. Para esses casos, discutimos a investigação em um artigo específico sobre Angina.

O rastreamento da doença arterial coronariana (DAC) em indivíduos sem sintomas não é indicado de forma universal, devendo ser direcionado conforme o risco cardiovascular global. A recomendação baseia-se principalmente na estimativa de risco por escores clínicos, como o Escore de Framingham, que consideram fatores como idade, sexo, pressão arterial, colesterol, tabagismo e presença de diabetes.

Em indivíduos de baixo risco, não há benefício comprovado na realização de exames complementares de rotina. Já em pacientes de risco intermediário, alguns exames podem ser úteis para melhor estratificação, incluindo:

  • Escore de cálcio coronariano (tomografia): permite quantificar a carga de aterosclerose e refinar o risco cardiovascular
  • Teste ergométrico: exame que avalia a resposta do coração a uma situação de esforço físico.
  • Outros exames de imagem, como angiotomografia coronariana, podem ser utilizados em situações específicas.

O rastreamento tem como principal objetivo orientar a intensidade das medidas preventivas, incluindo mudanças no estilo de vida e tratamento medicamentoso (como estatinas), e não necessariamente diagnosticar obstruções significativas.

Avaliação diagnóstica na suspeita de Angina Estável

A avaliação diagnóstica na angina estável tem por objetivo confirmar o diagnóstico de isquemia cardíaca e avaliar eventuais repercussões dessa isquemia.

A avaliação se inicia com o eletrocardiograma e o ecocardiograma, para avaliar eventuais danos já existentes no coração por conta de eventual isquemia. Esses exames ajudarão também a avaliar se existe algum risco para o paciente realizar um teste de esforço.

O passo seguinte é avaliar a resposta do coração durante o esforço, para confirmar se há sinais de isquemia.

No paciente que está em condições clínicas de realizar esforço, isso é feito por meio do Teste de Esforço Cardiopulmnoar (teste Ergométrico). Caso contrário, poderá ser feita uma Cintilografia Miocárdica ou Ecocardiograma de Estresse, usando uma medicação (Dobutamina) para simular o estresse físico.

Caso ainda existam dúvidas, a Angiotomografia das coronárias será indicada.

Esses exames não apenas confirmarm que a dor torácica tem origem isquêmica, mas também indicam o risco de eventos cardíacos agudos, o que irá ditar o tratamento posterior.

Teste Ergométrico (Teste de Esteira)

O teste de esforço cardiopulmonar (teste ergométrico) envolve a monitorização cardíaca durante um esforço submáximo, geralmente em esteira ou bicicleta ergométrica.

Considerando que na angina estável o coração só sofre com a falta de oxigenação em momentos de maior demanda, o objetivo do teste é justamente avaliar sinais de isqueimia justamente nesses momentos de maior demanda.

Cintilografia Miocárdica

A cintilografia miocárdica é um exame que utiliza um contraste radioativo para mapear o fluxo de sangue. Comparam-se imagens do coração em repouso e após o esforço. Áreas que “brilham” menos no esforço indicam isquemia.

O exame é indicado especialmente no paciente cuja avaliação clínica sugere a presença de angina instável, mas que exista dúvidas se a dor no peito é decorrente de uma má perfusão sanguínea ou se tem outras origens.

Na ausência de sinais de isquemia no exame de cintilografia sob estresse, a probabilidade de uma obstrução é muito baixa.

Angiotomografia de Coronárias (AngioTC)

A angiotomografia cardíaca é um exame realizado com o uso de contraste iodado e que permite avaliar a anatomia das principais estruturas cardíacas, especialmente a anatomia das artérias coronárias.

Dessa forma, ele tem como principal objetivo afastar a presença de doença coronária significativa.

A principal indicação da angiotomografia é na presença de sintomas que possam estar relacionadas a uma doença arterial coronariana.

Ela pode ser solicitada também para pacientes assintomáticos, mas que tenham alterações sugestivas da doença em outros exames, como o eletrocardiograma, ecocardiograma, teste ergométrico ou cintilografia.

O exame também é indicado para pacientes com dor no peito que não têm um diagnóstico claro. Se o resultado for normal, você pode descartar a doença coronária com quase 100% de segurança (alto valor preditivo negativo).

Avaliação de risco na Angina Estável

Os mesmos exames usados acima para o diagnóstico da angina servirão de base também para classificar o risco de um paciente apresentar evento isquêmico agudo.

Essa avaliação é fundamental para definir se o paciente pode ser tratado apenas com medicamentos ou se precisa de uma intervenção invasiva (stent ou cirurgia).

Na tabela abaixo, mostramos critérios de risco usados nesses exames.

Estratificação de Risco por Exames de Estresse
Método de ExameCritérios de Alto Risco (Risco de morte > 3% ao ano)
Teste ErgométricoEscore de Duke < -11; queda da pressão no esforço; infradesnivelamento de ST precoce ou em muitas derivações.
Cintilografia (SPECT)Isquemia em mais de 10% da massa muscular do ventrículo esquerdo.
Eco de Estresse≥ 2 segmentos do coração (de um total de 16) que param de contrair com o esforço.
Ressonância (RMC)≥ 2 segmentos com defeito de perfusão ou isquemia induzida por estresse.

Monitoramento do paciente com DAC já diagnosticada

O monitoramento do paciente com DAC tem por objetivo garantir a aplicação de medidas preventivas contra a evolução da doença, além de monitorar sinais de progressão da DAC.

As consultas, feitas geralmente a cada 6 a 12 meses, busca avaliar a adesão à dieta para cardiopatas, cessação do tabagismo e a prática regular de atividades físicas. Também busca identificar a presença de novos sintomas.

O monitoramento laboratorial deve garantir que os alvos terapêuticos sejam atingidos:

  • Perfil Lipídico: Foco no LDL-C, com metas rigorosas
  • Pressão Arterial: Manutenção de níveis preferencialmente abaixo de 130/80 mmHg.
  • Glicemia: Em pacientes diabéticos, monitorar a Hemoglobina Glicada (HbA1c) para manter níveis individuais otimizados.

Não se recomenda a realização rotineira de exames de imagem ou testes de estresse em pacientes totalmente assintomáticos. Os exames devem ser considerados em casos de suspeita de progressão da doença, incluindo a presença de novos sintomas ou redução na tolerância a exercícios.

Quando solicitar cada exame?

A escolha de quais exames realizar deve ser feita caso a caso, conforme mostramos na tabela abaixo:

Exames – Doença Arterial Coronariana

ExameQuando solicitarMelhor cenário clínicoVantagensLimitações
Eletrocardiograma (ECG)Avaliação inicial de dor torácicaSuspeita de evento agudoRápido, disponível, identifica isquemia aguda ou infartoPode ser normal fora da crise
TroponinaSempre que houver suspeita de síndrome coronariana agudaDor torácica recente ou em repousoAlta sensibilidade para necrose miocárdicaNão detecta isquemia sem necrose
Teste ergométricoProbabilidade intermediária de DAC e paciente capaz de se exercitarDor aos esforços, ECG interpretávelBaixo custo, avalia capacidade funcionalMenor acurácia, limitado se ECG alterado
Ecocardiograma de estresseProbabilidade intermediáriaQuando teste ergométrico é inconclusivo ou ECG não interpretávelAvalia função ventricular e isquemiaDependente do operador
Cintilografia miocárdicaProbabilidade intermediária a altaAvaliação de isquemia e viabilidadeMaior sensibilidade que teste ergométricoRadiação, custo mais elevado
Angiotomografia coronarianaProbabilidade baixa a intermediáriaExclusão de DAC em pacientes com dúvida diagnósticaAlto valor preditivo negativoNão avalia bem lesões muito calcificadas
Escore de cálcio coronarianoPacientes assintomáticos de risco intermediárioEstratificação de risco cardiovascularSimples, rápido, sem contrasteNão avalia obstrução significativa
Angiografia coronariana invasivaAlta probabilidade ou exames não invasivos alteradosAngina típica ou alto riscoPadrão-ouro, permite tratamentoInvasivo, risco de complicações

Tratamento da Doença Arterial Coronariana assintomática

A doença Arterial Coronariana  é um dos principais fatores de risco cardiovascular. Assim, é importante que todos os fators de risco cardiovasculares sejam investigados e, se necessário, tratados de forma simultânea.

O tratamento se baseia em três pilares: mudanças de estilo de vida, medicamentos e procedimentos intervencionistas.

Mudanças do estilo de vida

O paciente com doença arterial coronariana precisa controlar ao máximo os fatores de risco para a doença, de forma a minimizar a progressão do “entupimento” das artérias.
Isso inclui:

  • Perda de peso;
  • Melhora do padrão alimentar;
  • Prática regular de atividade física;
  • Abandono do tabagismo;
  • Redução do consumo de bebidas alcoólicas;
  • Evitar condições estressantes.

Discutimos mais sobre a a alimentação para o paciente cardiopata em um artigo sobre a Dieta Dash. Discutimos sobre a atividade física para o paciente com DAC em um artigo específico.

Medicamentos

O tratamento farmacológico da doença arterial coronariana pode ser divididos em três grupos:

  • Fármacos para controle dos fatores de risco cardiológicos: medicamentos anti-hipertensivos, medicamentos para o controle do colesterol, medicamentos para o diabetes;
  • Vasodilatadores: medicamentos que aumentam a quantidade de sangue capaz de circular pelas artérias coronárias, de forma a minimizar o efeito obstrutivo da aterosclerose.
  • Inibidores da agregação plaquetária: têm por objetivo reduzir o risco de trombose e de infarto agudo do miocárdio

Tratamento da Angina Estável

Todas as medidas terapêuticas discutidas para a DAC assintomática também são válidas no caso de angina estável. No entanto, tratamentos adicionais poderão ser necessários em casos de pacientes de risco intermediário a alto. O primeiro passo, dessa forma, é classificar o paciente quanto ao risco de eventos isquêmicos agudos:

CategoriaMortalidade AnualConduta Típica
Baixo Risco< 1%Tratamento clínico otimizado (remédios + estilo de vida).
Risco Intermediário1% a 3%Intensificação do tratamento clínico; reavaliação frequente e cateterismo na persistência dos sintomas.
Alto Risco> 3%Cateterismo para planejar revascularização (Stent ou Cirurgia).

Tratamento dos pacientes com risco baixo

Nos pacientes de baixo risco, o tratamento seguie os mesmos princípios usados para pacientes assintomáticos, discutidos acima.

Tratamento dos pacientes com risco intermediário

Além do tratamento já descrito acima para pacientes assintomáticos – que também são válidos aqui – nos casos de pacientes com angina estável e risco intermediário são indicados tabém o uso de medicamentos para controle da angina, incluindo:

  • Betabloqueadores: (Ex: Atenolol, Bisoprolol). São a primeira linha. Eles diminuem a frequência cardíaca e a força de contração, reduzindo o “trabalho” do coração.
  • Bloqueadores de Canais de Cálcio: (Ex: Anlodipino). Usados se o betabloqueador não for suficiente ou não puder ser usado.
  • Nitratos de Longa Duração: (Ex: Mononitrato de Isossorbida). Dilatam as artérias para melhorar o fluxo de sangue.

Após o início do tratamento, o paciente deve ser reavaliado em algumas semanas. Caso a angina persista e esta limitante para a rotina diária, o cateterismo será indicado. Discutimos sobre esses procedimentos mais abaixo.

Tratamento do paciente com alto risco

Pacientes são considerados de alto risco quanto a probabilidade de Infarto Agudo do Miocárdio é elevado. Eles geralmente têm indicação para realizar cateterismo cardíaco, que poderá ser seguido de angioplastia (stent) ou cirurgia (ponte de safena). Discutimos sobre esses procedimentos mais abaixo.

Avaliação e tratamento inicial do paciente com angina instável

A avaliação de um paciente com suspeita de Angina Instável precisa ser feita em caráter de urgência, focado em diferenciar a angina de um Infarto Agudo do Miocárdio em curso. A avaliação inicial, incluindo eletrocardiograma e dosagem de Troponina, deve ser feita em até 10 minutos.

Essa diferenciação é baseada tanto em parâmetros clínicos como laboratoriais. Se a dor é típica e o ECG mudou, mas a troponina é negativa, o diagnóstico é Angina Instável. Se a troponina subir, o diagnóstico vira Infarto. Ambos são graves e exigem hospitalização.

Enquanto essa avaliação está sendo feita, o tratamento já deve ser iniciado, incluindo anticoagulação, oxigenioterapia (se a saturação estiver abaixo de 90%) e nitrato sublingual (medicamento vasodilatador).

O passo seguinte é a realização do cateterismo, que pode exigir maior ou menor urgência a depender da estratificação de risco,

Procedimentos intervencionistas - cateterismo, stent, bypass

A angiografia (cateterismo cardíaco) é um procedimento realizado em pacientes com angina estável que não melhoram com o tratamento medicamentoso, naqueles com angina instável ou que sofreram um infarto agudo do miocárdio.

O exame é feito com a inserção de um tubo fino (cateter) em um dos vasos sanguíneos da virilha ou do braço.

O cateter é conduzido até as artérias coronárias por meio de radioescopia. Em seguida, um fluido especial, denominado agente de contraste, é introduzido através do cateter. Este fluido pode ser visto em radioscopia. Assim, ele “desenha” o caminho do sangue dentro das artérias, permitindo a observação de qualquer bloqueio ou estreitamento.

Se, durante a angiografia, for identificado alguma artéria coronária gravemente obstruída, outros exames poderão ser indicados:

  • Angioplastia com a colocação de stent
  • Ponte de Safena

A indicação depende das características de cada obstrução.

Angioplastia

A angioplastia é um procedimento de revascularização que tem por objetivo desobstruir a artéria entupida.

O procedimento se inicia com a angiografia, para a identificação do ponto exato da obstrução.

Uma vez identificada a obstrução, um balão específico é inserido desinflado pelo mesmo cateter da angiografia. Ao chegar no local da obstrução, o balão é inflado, de forma a “esmagar” a placa de gordura e abrindo novamente a luz da artéria.

Uma vez que o balão é inflado e o fluxo da artéria coronária é reestabelecido, o passo seguinte é a colocação de um stent. O stent é uma prótese metálica expansível, em forma cilíndrica. O objetivo com o stent é reduzir a probabilidade da artéria coronária voltar a obstruir. O processo de implantação do stent é semelhante ao da implantação do balão.

Ponte de safena

A ponte de safena, também conhecida por bypass cardíaco, é um tipo de cirurgia cardíaca no qual um pedaço da veia safena é retirado da perna e colocado no coração, para transportar sangue desde a aorta até ao músculo cardíaco.

Esses enxertos são suturados na aorta e nas coronárias, ultrapassando os pontos de obstrução. Dessa forma, o sangue passa a nutrir o coração por dois caminhos: o antigo, que possui a lesão, e a ponte.

Caso a coronária lesada venha a apresentar uma obstrução total, a ponte mantém o coração irrigado.

O procedimento costuma ser indicado em casos com obstrução mais grave ou em que a obstrução é mais difusa, espalhada em um trajeto maior da artéria coronária.

A angioplastia, por sua vez, é indicada quando existe um ponto único de obstrução claramente identificado.

Reabilitação cardíaca

A reabilitação cardíaca envolve um conjunto de medidas que visam manter a saúde das artérias coronárias, incluindo a melhora do padrão alimentar, o abandono do tabagismo, o combate ao sedentarismo e a otimização da terapia medicamentosa.

Ela é indicada especialmente nos pacientes  submetidos à angioplastia ou à ponte de safena e em outros pacientes com risco significativamente aumentado para um evento cardíaco agudo durante o exercício ou esforço físico.

O comportamento do paciente antes ou após qualquer procedimento intervencionista fará toda a diferença na manutenção ou não das artérias pérvias e no risco de morte por causa cardíaca.

Muitos pacientes com angina ou pós infarto do miocárdio abandonam a atividade física com medo de que isso desencadeie um evento cardiovascular agudo. Mas, de fato, os estudos são unânimes em mostrar que o efeito protetivo dos exercícios é muito superior aos eventuais riscos, na maior parte dos pacientes. Isso desde que seguindo uma avaliação e prescrição criteriosa de exercícios.

Um estudo de metanálise avaliou 8.940 pacientes que sofreram um infarto do miocárdio e foram randomizados para reabilitação cardíaca versus cuidados usuais (1).

Foi observado que a reabilitação cardíaca reduziu a mortalidade geral em 20% e mortalidade especificamente por causas cardiovasculares em aproximadamente 25% dos pacientes.

Outros benefícios observados foram uma redução nos níveis de colesterol e o melhor controle da pressão sanguínea.