Relacionamento entre pais e filhos crianças ou Adolescentes
Relacionamento entre pais e filhos crianças ou adolescentes
Conflitos entre pais e filhos crianças ou adolescentes sempre existiram e sempre irão existir. Da mesma forma, conflitos entre pai e mãe a cerca de aspectos relacionados à criação de seus filhos sempre existiram e sempre irão existir.
Crianças e adolescentes são indivíduos em formação e que estarão sempre testando o que é certo e o que é errado. Mais do que saber o que é certo ou errado, querem saber porque alguma coisa está certa ou errada.
À medida em que crescem, querem mais independência para agir da forma como pensam ou entendem o mundo, não conforme o que os pais dizem ser certo ou errado. E não há nada de errado em pensar diferente dos pais.
Respeitar a opinião e as vontades dos filhos, no entanto, não significa que eles podem fazer tudo o que querem. Colocar limites é fundamental, mas o problema é determinar esses limites e como colocar esses limites aos filhos.
Longe de buscar reduzir o relacionamento entre pais e filhos a protocolos de comportamento pré-fabricados, descrevemos abaixo meios que podem ajudar a tornar o relacionamento mais saudável e de confiança mútua.
Aspectos importantes para construir o relacionamento entre pais e filhos
1. Comunicação não-violenta e diálogo com os filhos
A comunicação não-violenta e o diálogo são duas pontes que podem proporcionar a construção de um relacionamento mais saudável entre pais e filhos.
Comunicação não-violenta se refere a uma comunicação respeitosa, serena, tranquila e empática. Ela também considera um olhar com mais compaixão e menos acusação, por exemplo.
Nesses casos, os pais dão ouvidos aos filhos, procurando compreender o ponto de vista deles. Nesse momento, poderão usar de sua experiência de vida para colocar suas opiniões e, caso pensem diferente, colocar eventuais contrapontos à opinião do jovem.
Os pais não são “donos” das opiniões dos filhos. O que não significa que não possam ajudar a moldar a visão de mundo dos mesmos.
Quando isso é feito de forma respeitosa e sem agressividade, xingamento, castigo ou punições, é muito mais provável que seus filhos desenvolvam respeito e admiração de fato, o que torna a palavra dos pais muito mais forte.
Por outro lado, relacionamentos mais verticalizados e hierárquicos, onde um fala o que quer e o outro escuta quieto têm a tendência de afastar os filhos, ao invés de educá-los.
Um exemplo disso é quando um pai, com base no diálogo e na comunicação não-violenta, solicita a presença do filho na mesa, dizendo que estão com saudades dele e que gostariam que o filho largasse o celular neste momento. Diferentemente do que aconteceria se os pais mandassem a criança guardar o celular usando um tom agressivo e autoritário.
Quando falamos em escutar os filhos, não estamos defendendo aqui uma relação sem regras. Como veremos adiante, crianças e adolescentes são indivíduos em formação e que precisam respeitar certos limites impostos pelos pais. No entanto, é preciso também ajudá-los a entender os motivos pelos quais ouvem “não” de vez em quando.
2. Decisões tomadas em conjunto pelos pais
Conflitos entre pai e mãe ou mesmo avós a cerca de aspectos relacionados à criação de seus filhos sempre existiram e sempre irão existir. Em muitas ocasiões, pai e mãe podem ter opiniões diferentes de como agir em relação aos filhos – embora isso seja mais perceptível em casais separados, acontece também o tempo todo em casais que preservam uma relação muito boa e respeitosa.
Não existe qualquer problema em um filho entender que pai e mãe têm opinião diferente em relação a um determinado problema ou assunto. Mas isso desde se tenha respeito ao próximo e que não haja uma quebra de autoridade ./
É o caso de um pai dizer “sim” para alguma coisa enquanto a mãe diz “não”. A falta de diálogo entre o casal, que seria necessário para decidir o que seria dito ao filho, é um caminho para criar uma confusão nas decisões, problemas no relacionamento do casal, desgaste na autoridade de um dos pais, entre outros pontos.
Portanto, conversar com o parceiro ou com a parceira sobre a decisão que será tomada com relação ao filho é muito importante. Dessa forma, pode-se evitar discursos contraditórios.
3. Cuidados com as projeções feitas sobre os filhos
Todo pai sonha em ter um filho bem-sucedido, bem resolvido e feliz. Ainda assim, o que significa ser bem-sucedido ou bem resolvido pode ser completamente diferente de uma pessoa para outra.
Nesse momento, é muito comum que os pais projetem em seus filhos aquilo que sonhou ter feito mais não conseguiu realizar. É o caso, por exemplo, de pais que querem que o filho seja médico ou que seja um jogador de futebol. Ou o caso de uma mãe que quer ver a filha casada e com a vida dedicada à família.
Para além da carreira, existem inúmeras projeções que os pais podem colocar sobre os filhos, sem se darem conta disso.
Especialmente no esporte, é muito comum que os pais enxerguem um futuro glorioso em seus filhos. Estão sempre dizendo que ele será “o próximo Neymar” e listarão uma série de motivos para convencer a todos sobre isso.
Em muitos casos, os filhos escutam tanto isso que acabam incorporando o pensamento de que precisa sacrificar sua infância na busca desse sonho, sem se dar conta de que o sonho é muito mais de seus pais do que dele mesmo.
Quando essas crianças são perguntadas reservadamente se preferiam ir treinar no dia seguinte ou ir brincar com os amigos, muitos dirão que prefeririam brincar com os amigos.
Aos pais, é imprescindível fazer uma autoanálise constante para verificar até que ponto os filhos estão livres para fazer as suas próprias escolhas ou se os pais estão forçando-os a decidir seguir caminhos que gostariam eles próprios de ter seguido.
4. Expressão de sentimentos
Construir um ambiente familiar onde a expressão de sentimentos é motivada também é algo que contribui para a construção do relacionamento entre pais e filhos de forma saudável.
Quando expressamos os nossos sentimentos, podemos compreender melhor o que ocorre com nós mesmos, nos ajudando a lidar com as adversidades da vida. Em contrapartida, quando temos as nossas emoções reprimidas, podemos desenvolver casos de psicossomatização, bem como é possível ocasionar o acúmulo de emoções, sobrecarregando a mente e o organismo como um todo.
Esse acúmulo pode impactar as relações com as outras pessoas. Por isso, permitir que os filhos chorem, expressem suas frustrações e falem sobre as questões emocionais são medidas que contribuem para a construção de um ambiente emocionalmente mais saudável.
5. Solicitação de mudança de comportamento de forma empática
Solicitar a mudança de comportamentos inadequados é diferente de ordenar uma mudança de forma autoritária.
Aqui, novamente fortalecemos a ideia de que a comunicação não-violenta é um caminho que pode ser bastante usado no relacionamento entre pais e filhos.
Quando uma criança ou um adolescente comete algum equívoco, tendo um comportamento inadequado socialmente, o ideal é conversar com ele de maneira empática e tranquila. Dar um feedback no qual você aponta quais fatores foram negativos e por que eles foram negativos é uma forma de fazer com que o seu filho reflita sobre o que aconteceu.
Apresentar as consequências dos atos, questionar sobre como ele se sentiria se fizessem algo assim com ele, entre outras ações semelhantes, pode ajudar o seu filho a compreender a dimensão da atitude, internalizando uma aprendizagem mais clara.
Agora, apenas punir e dizer que “não pode ser assim” é algo muito vago, que não traz ensinamento, traz apenas medo.
E, certamente, imaginamos que o seu propósito seja ensinar os seus filhos para que eles mesmos tenham um olhar crítico sobre as decisões que tomam, não é mesmo? E também imaginamos que o seu propósito não seja criar um ambiente de medo… Pense nisso!
6. A importância de cumprir promessas
As promessas foram feitas para serem cumpridas, já diria o senso comum. E, realmente, as promessas têm um peso muito significativo no relacionamento entre pais e filhos. Por isso, quando os pais prometem algo para os seus filhos, é imprescindível que essa promessa seja cumprida.
Quando a promessa é quebrada, a confiança também tende a ficar fragilizada, o que prejudica a interação entre pais e filhos e ocasiona problemas na construção desse laço tão importante.
Da mesma maneira, pode passar a mensagem de que mentir sobre uma promessa é algo comum, o que passaria um ensinamento errado e deturpado sobre isso.
Portanto, antes de prometer algo ou alguma coisa aos seus filhos, certifique-se de que será possível cumprir com a sua promessa. Ao mesmo tempo, se algum contratempo acontecer e você não puder cumprir, lembre-se de ser sincero, pedir desculpas e mostrar o quanto a quebra de uma promessa é algo ruim.
Desse modo, torna-se possível transmitir valores importantes para as crianças e os adolescentes, ao mesmo tempo em que se mostra uma postura mais humana por parte dos pais.
Afinal, o fato de prometer algo e não cumprir também pode ser visto como um desrespeito e uma desumanidade por parte dos pais, pois pode dar a entender que as promessas feitas aos filhos não têm a menor importância para os genitores.
7. Negociar com os filhos
Os filhos têm ideias, pontos de vista, pensamentos e vontades. Embora eles ainda não conheçam tudo sobre a vida – e ninguém conhece, na verdade -, ainda assim eles têm desejos e pensam de determinadas maneiras.
Portanto, antes de, simplesmente, proibir que o seu filho faça algo que ele deseja, que tal criar a cultura da negociação?
Negociar o que é permitido ser feito pode ser melhor do que apenas proibir. Primeiro porque o seu filho pode ter dificuldades para assimilar a proibição. Segundo porque o proibido, especialmente na adolescência, pode chamar mais a atenção.
Sendo assim, negociar algumas coisas que os seus filhos podem fazer, mas sem ultrapassar limites importantes e claros, é um caminho que pode ser interessante para o relacionamento entre pais e filhos.
Por exemplo, se o seu filho quer ir na casa de um amigo, estipular um horário claro para ele retornar é algo que pode ser negociado. Assim, ambos “cedem” um pouquinho e aceitam um pouquinho do desejo e da imposição alheia.
Logo, o seu filho pode perceber que possui espaço e importância no seio familiar, ou seja, tem voz e pode ser ouvido pelos pais.
8. Aprender a pedir desculpas quando necessário
Muitos pais, especialmente os mais velhos, podem ter dificuldades para pedir desculpas aos filhos. Alguns podem ter a ideia errônea de que isso diminuiria a autoridade deles, o que não é verdade. Pedir desculpas é algo genuíno e que pode acontecer em qualquer tipo de relação social.
Os pais não são perfeitos e podem cometer equívocos com o passar do tempo. Saber reconhecer esses erros e pedir desculpas quando necessário é uma postura que pode fortalecer o relacionamento entre pais e filhos.
Afinal, os filhos compreenderão que, apesar de falhos, os pais têm boas intenções para com eles. Além disso, essa postura parental pode ajudar as crianças e os adolescentes a compreenderem a importância de admitir os erros e buscar aprender com eles, ao invés de apenas escondê-los.
Portanto, procure ser sincero com as crianças e com os adolescentes. Se algo não foi feito da forma como você desejava ter feito, se algum erro atrapalhou algo que você estava fazendo e prejudicou o seu filho, peça desculpas.
Pedir desculpas é genuíno, é bonito e pode ensinar aos jovens muitas coisas interessantes sobre os relacionamentos.
9. Evitar o uso de punições e restrições
Como já viemos descrevendo no decorrer deste conteúdo, a comunicação não-violenta, o diálogo e o respeito para com a subjetividade dos filhos pode ajudar a construir um laço mais saudável e agradável.
Sendo assim, evitar o uso de punições e restrições pode ser um caminho mais interessante nesses sentidos.
Lembre-se de que uma punição vazia, sem conversa e sem ensinamentos, não irá agregar valor na vida do seu filho, apenas fará com que ele sinta medo, raiva, angústia, tristeza e impotência.
Bater em uma criança é inadmissível e não traz benefício algum. Embora algumas pessoas ainda acreditem que bater é educar, isso não faz sentido algum, pois ensinar é apontar os caminhos, ajudar na compreensão, e não agredir o corpo do outro com o propósito de deixar marcas que ficarão na mente da criança ou do adolescente para sempre.
O diálogo sempre será um caminho mais rico e valioso. Bater, xingar, humilhar ou agredir a criança ou adolescente, além de criminoso, é algo que não educa e não edifica, apenas enfraquece o relacionamento entre pais e filhos e provoca traumas. Ao mesmo tempo, promove a ideia de que a violência é a solução para determinados problemas de relacionamento, internalizando esse comportamento na mente de nossas crianças e adolescentes. Cuidado!
10. Solicitar a opinião dos filhos e dar voz a eles
A opinião dos filhos, embora ainda seja imatura em muitos casos, pode ser incluída no seio familiar e nas discussões com o propósito de fortalecer o relacionamento entre pais e filhos.
Por exemplo, se a família costuma viajar no fim de ano, que tal permitir que o filho opine sobre o tipo de viagem que ele gostaria de fazer? Às vezes, a ideia dele pode ser agradável para toda a família, mas a falta de oportunidade para falar pode impedir que isso seja ouvido.
Quando damos ouvidos às crianças e aos adolescentes, eles podem se sentir mais acolhidos, importantes e partes de uma família de verdade. Todas essas sensações contribuem para o desenvolvimento de uma autoestima mais saudável e fortalecida.
Em contrapartida, quando as ideias da criança ou do adolescente são sempre vistas como errôneas, eles podem se sentir diminuídos, incapazes ou “errados” por desejar determinadas coisas que “ninguém quer saber”.
Por isso, sempre que for possível, permita que os seus filhos falem sobre o que eles pensam sobre determinada decisão para a casa e para a família como um todo.
11. Compreender que o filho é um ser singular
Por fim, não podemos deixar de ressaltar a importância de compreender que o filho é um ser singular, e não uma extensão dos pais ou alguém que, simplesmente, deve cumprir com as demandas que os pais desejam que ele cumpra.
Ter essa visão clara e assertiva de que a criança ou o adolescente é um ser à parte dos pais é um passo para evitar projeções e cobranças erradas.
Os filhos não têm a obrigação de agradar aos pais o tempo todo. Eles não têm que seguir o que os pais querem que eles sigam em todas as esferas de suas vidas. Assim como os pais têm sonhos diversos, os filhos têm os deles, ou seja, eles não existem para suprir as necessidades dos pais.
Nem sempre é fácil assimilar isso. Alguns pais podem ter dificuldade para enxergar os filhos dessa forma. Mas quebrar esse tabu de que os filhos têm dívidas com os pais é imprescindível para evitar problemas futuros no relacionamento.
Terapia familiar pode auxiliar no relacionamento entre pais e filhos
Em muitos casos, a terapia familiar pode auxiliar no desenvolvimento e no fortalecimento do relacionamento entre pais e filhos.
Assim como ocorre na terapia de casal, o terapeuta terá a função de facilitar a compreensão e a comunicação entre os membros do grupo familiar, ajudando-os a entender os seus papéis, suas dificuldades, seus acertos e erros, etc.
A escuta do terapeuta é importante pois é neutra, ou seja, não fica ao lado de um dos pais ou de um dos filhos, mas, sim, escuta a todos de forma igualitária, proporcionando reflexões que auxiliam toda a família frente às adversidades cotidianas.
Por isso, buscar esse apoio profissional pode ser bem interessante – e importante em muitos casos. Considere essa possibilidade e comece a implementar mudanças positivas que podem ajudar a construir um laço mais saudável para com os seus filhos.
Referências
BÖING, Elisangela; CREPALDI, Maria Aparecida. Relação pais e filhos: Compreendendo o interjogo das relações parentais e coparentais. Educar em Revista, p. 17-33, 2016.
CIA, Fabiana et al. Habilidades sociais parentais e o relacionamento entre pais e filho. Psicologia em estudo, v. 11, p. 73-81, 2006.