Intolerância ao Glúten e Doença Celíaca
Qual a diferença entre Intolerância ao Glúten e Doença Celíaca?
Intolerância ao glúten e Doença Celíaca são ambos problemas relacionados ao consumo do glúten, mas com causa e gravidade distintas.
A Doença Celíaca é uma doença autoimune de origem genética. Isso significa que o sistema de defesa do corpo identifica o glúten como um agente agressor e produz uma reação de defesa para combatê-lo, da mesma forma como ele reage quando temos uma infecção. Geralmente ela se manifesta ainda no bebê, assim que o glúten é introduzido na dieta, embora algumas pessoas podem desenvolver a doença de forma tardia, até mesmo na idade adulta. O consumo de mínimas quantidades de glúten em um paciente com doença celiaca pode levar à inflamação da mucosa do intestino e, com o tempo, levar a uma atrofia dessa mucosa.
A intolerância ao glúten é uma forma de Intolerância alimentar, relacionada à menor capacidade de digestão do glúten. É um problema funcional e sem maiores implicações de longo prazo. Ela geralmente se manifesta na adolescência ou em adultos, sendo rara em bebês e crianças pequenas.
Quais os alimentos que contêm glúten?
O glúten é uma proteína encontrada na farinha de trigo, cevada e centeio, bem como em produtos industrializados feitos com estes ingredientes.
Entre estes, devemos considerar:
- Pão, torrada, bolacha, biscoito, bolos, macarrão e doces;
- Pizza, salgadinhos e sanduiches;
- Salsicha e outros embutidos;
- Cerveja e bebidas maltadas;
- Alguns queijos;
- ketchup, molho branco, maionese, shoyu e outros molhos industrializados;
- Temperos prontos e sopas desidratadas;
- Cereais e barrinha de cereais;
- Suplementos nutricionais.
Produtos com glúten estão bastante disseminados na dieta moderna, sendo que os exemplos acima representam apenas uma amostra deles. Muitos alimentos industrializados incluem aditivos que contêm glúten, como certos tipos de aromatizantes.
Para aqueles que de fato apresentam intolerância ao glúten, é importante que se crie o hábito de ler os rótulos de qualquer alimento antes de consumi-los.
Dieta sem glúten
Inicialmente destinada aos pacientes com intolerância ao glúten ou doença celíaca, a dieta sem glúten tem sido adotada por muitas pessoas sem qualquer indício de intolerância, mas que buscam uma alimentação mais saudável ou uma dieta para perder peso.
O principal benefício de retirar o glúten da alimentação para pessoas sem doença celíaca ou intolerância ao glúten é a exclusão de alimentos industrializados e ultra processados da dieta. Isso inclui bolachas recheadas, pizzas, massas e bolos, alimentos estes que são pobres nutricionalmente e muito calóricos, ainda que estas características nada tenham que haver com o glúten.
No paciente com intolerância ao glúten, um redução no consumo de glúten geralmente já é suficiente para o controle dos sintomas. Já no paciente com doença celíaca, a restrição deve ser completa, já que pequenos traços do glúten podem ser suficientes para desencadear reações graves.
Quais os sintomas da Doença Celíaca?
A reação auto-imune na Doença Celíaca pode ser dividida em duas fases:
- Reações de Curto Prazo (Minutos a Horas)
Reação que acontece cerca de 30 minutos a 6 horas após o consumo do glúten. O sistema imunológico identifica a gliadina (proteína do glúten) e libera substâncias inflamatórias e citocinas.
Os sintomas mais comuns nessa fase estão relacionadas ao trato digestivo, podendo incluir dor abdominal intensa, gases, distensão abdominal, náuseas, vômitos e, frequentemente, uma diarreia explosiva.
- Reações de Médio e Longo Prazo (Dias a Semanas)
Essa é a parte mais perigosa, pois é quando ocorre o dano estrutural ao intestino. Ela pode ter início 24 horas ou até mesmo semanas após a exposição. Os linfócitos T atacam as vilosidades do intestino delgado, o que impede a absorção de nutrientes.
Sintomas comuns dessa fase incluem a fadiga extrema, dores articulares, erupções na pele (dermatite herpetiforme), aftas bucais e alterações de humor ou irritabilidade. Em crianças, esse é o período onde se observa a perda de peso ou a parada no crescimento.
Sintomas relacionados às complicações da Doença celíaca
Mesmo pacientes com quadro leve de doença celíaca podem apresentar uma inflamação persistente da mucosa do duodeno. Quando isso acontece, a atrofia pode provocar deficiências nutricionais, incluindo deficiência de Vitaminas B9 (folato), vitamina B12, ferro ou cálcio. Sintomas e complicações relacionadas a essas deficiências incluem:
- Deficiência de Ferro: anemia ferropriva
- Deficiência de Vitamina B12: neuropatia periférica (formigamento, dormência ou dor nas mãos e pés);
- Deficiência de cálcio: osteoporose, problemas dentários
Genética da Doença Celíaca
A Doença Celíaca está associada com a expressão dos alelos heterodiméricos HLA-DQ2 e HLA-DQ8 A expressão de uma dessas moléculas é necessária, mas não suficiente, para o desenvolvimento da doença.
Algumas pessoas podem apresentar os genes acima, sem desenvolver a doença.
No entanto, aqueles que não têm nenhum dos dois genes não irão desenvolver a doença.
O teste genético, dessa forma, pode ser usado como método de exclusão da doença celíaca entre as hipóteses diagnósticas. Ele não serve para confirmar a doença.
Diagnóstico
A doença celíaca pode ser difícil de diagnosticar uma vez que afeta as pessoas de maneiras diferentes. Existem mais de 200 sintomas conhecidos que podem estar relacionados ao sistema digestivo ou a outras partes do corpo.
Algumas pessoas desenvolvem os sintomas na infância, outras na idade adulta e outros podem não apresentar quaisquer sintomas, mas ainda assim o resultado do teste de sangue para a doença é positivo. No entanto, todas essas pessoas correm o risco de complicações a longo prazo, independentemente de apresentarem sintomas ou não.
Em alguns casos, a investigação da doença celíaca é feita na investigação de suas complicações, incluindo: anemia, osteoporose, neuropatias periféricas.
A Doença Celíaca pode também ser diagnosticada em pacientes assintomáticos, a partir da investigação de familiares próximos de pessoas diagnosticadas com a doença celíaca.
Exame de Sangue
Diversos exames de sangue podem ser usados para o diagnóstico da doença celíaca. Mas, isoladamente, eles não são suficientes para fechar o diagnóstico, devendo-se considerar uma combinação dos resultados destes exames.
Teste Genético
O teste genético envolve a pesquisa de dois genes associados à doença celíaca: HLA-DQ2 e HLA-DQ8.
Algumas pessoas podem apresentar os genes acima, sem desenvolver a doença.
No entanto, aqueles que não têm nenhum dos dois genes não irão desenvolver a doença.
O teste, dessa forma, pode ser usado como método de exclusão da doença celíaca entre as hipóteses diagnósticas. Ele não serve para confirmar a doença.
Endoscopia e biópsia
Quando ainda assim persistir dúvidas quanto ao diagnóstico, poderá ser indicada uma biópsia do intestino delgado feita através de uma Endoscopia Digestiva Alta. Usando essa amostra, o médico pode identificar se há anticorpos específicos no sangue que correspondem à doença celíaca.
Diagnóstico da Intolerância ao Glúten
A intolerância ao glúten, por outro lado, não tem nenhum exame diagnóstico específico. O diagnóstico é feito por exclusão, quando exames não são capazes de caracterizar a doença celíaca ou certos tipos de alergia alimentar, especialmente a alergia ao trigo.
Complicações da Doença Celíaca
Pacientes com doença celíaca e que seguem uma dieta regrada têm um bom prognóstico de longo prazo e baixo risco de complicações
O consumo continuado do glúten, por outro lado, leva a uma inflamação persistente da mucosa do duodeno, que com o tempo pode evoluir com atrofia dessa mucosa. Isso pode acontecer mesmo em pessoas com poucos sintomas.
A atrofia da mucosa duodenal pode levar a uma pior absorção de diferentes nutrientes, podendo desencadear deficiências.
Entre essas deficiências, devemos considerar:
- Deficiência de Ferro: anemia ferropriva
- Deficiência de Vitamina B12: neuropatia periférica (formigamento, dormência ou dor nas mãos e pés);
- Deficiência de cálcio: osteoporose, problemas dentários
Tratamento
O tratamento da doença celíaca pode ser dividido em duas partes: a exlusão do glúten da dieta e a reposição de nutrientes deficientes.
Exclusão do glúten
A base do tratamento da doença celíaca é a exclusão total e definitiva do glúten da dieta, que deve ser inegociável mesmo em pacientes com sintomas menos significativos.
Mesmo uma contaminação microscópica (como uma migalha ou o uso da mesma colher) é suficiente para desencadear a resposta autoimune, que com o tempo leva à atrofia as vilosidades do intestino.
Infelizmente, é muito difícil que alimentos consumidos fora de casa sejam produzidos e manipulados em um ambiente que seja de fato gluten free. Um pão, por exemplo, pode ter sido produzido com farinha de mandioca, sendo vendido como um produto “sem glúten”. No entanto, dificilmente o ambiente da padaria onde ele foi produzido e armazenado é de fato livre e glúten. As mesas e formas onde esse pão foi produzido, caso tenha sido usado para a produção de outros produtos com glúten, poderão deixar traços suficientes para provocar uma reação ao glúten no paciente celíaco.
Reposição nutricional
Pacientes recém diagnosticados ou com a doença mal controlada provavelmente apresentam uma atrofia da mucosa intestinal que dificulta a absorção de certos nutrientes, especialmente a Vitamina B9 (folato), B12, ferro e cálcio. Os níveis desses micronutrientes devem ser monitorados e, caso necessário, tratados.