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Hepatites Virais na Infância

O que são as hepatites virais?

As hepatites virais são infecções causadas por diferentes vírus que afetam o fígado, levando a inflamação e possível dano às células hepáticas.

A maior parte das hepatites virais agudas na infância resolvem-se expontaneamente. Mas, em alguns casos, elas podem se tornar crônicas (especialmente com o vírus da hepatite B ou C).

Quais os principais agentes das hepatites virais na infância?

🦠 Mostramos na tabela abaixo os principais tipos de Hepatite Viral na infância.

Tipo Agente Transmissão Características principais na infância
Hepatite A (HAV) Vírus RNA (Picornaviridae) Fecal-oral (água e alimentos contaminados, contato pessoa-pessoa) Mais comum em crianças; geralmente benigna e autolimitada. Transmissão facilitada por higiene precária.
Hepatite B (HBV) Vírus DNA (Hepadnaviridae) Parenteral, sexual e vertical (mãe-filho) Pode evoluir para forma crônica, principalmente quando adquirida no perinatal; risco de cirrose e carcinoma hepatocelular no futuro.
Hepatite C (HCV) Vírus RNA (Flaviviridae) Parenteral e vertical Na infância, principal via é transmissão vertical; tendência à cronicidade.
Hepatite D (HDV) Vírus RNA defeituoso (depende do HBV) Igual ao HBV Só ocorre em coinfecção ou superinfecção com o HBV; quadro mais grave.
Hepatite E (HEV) Vírus RNA (Hepeviridae) Fecal-oral (água contaminada) Mais comum em áreas endêmicas; curso geralmente benigno nas crianças.

 

 

Hepatite A

A infecção pelo vírus da Hepatite A é a forma mais comum de hepatite viral na infância.

A infecção tem transmissão fecal-oral, por meio de água e alimentos contaminados. As Pessoas infectadas eliminam o vírus por meio das fezes, que por sua vez contaminam a água e os alimentos. Quando uma pessoa consome a água ou os alimentos contaminados, ela adquire a infecção.

A Hepatite A é muito comum nos países em desenvolvimento e mais especificamente em locais com saneamento básico precário.

A prevenção é muito eficaz e se baseia em medidas gerais, como lavar bem as mãos antes das refeições e após usar o banheiro, beber água filtrada ou fervida e evitar alimentos crus de origem duvidosa.

Crianças geralmente apresentam quadro leve ou assintomático. Quando presentes, os sintomas mais comuns incluem:

  • Febre baixa
  • Mal-estar, cansaço
  • Náuseas, vômitos
  • Dor abdominal (hipocôndrio direito)
  • Anorexia
  • Urina escura (“cor de Coca-Cola”) e fezes claras

Nos adolescentes e adultos, é mais comum a forma ictérica e sintomática. Icterícia é o nome que se dá ao amarelamento da pele e dos olhos, causado pelo acúmulo no sangue de bilirrubina, uma subtância associada à decomposição dos glóbulos vermelhos, geralmente indicando uma função hepática comprometida.

Com a melhoria das condições sanitárias combinado com a cobertura vacinal, a idade média da infecção tem aumentado, passando da infância para adolescentes ou adultos jovens, onde o quadro tende a ser mais sintomático e grave.

O tratamento da Hepatite A é sintomático, o que inclui:

  • Repouso relativo (evitar atividades intensas até normalização das enzimas).
  • Hidratação e alimentação leve (evitar jejum prolongado e alimentos gordurosos).
  • Evitar medicamentos hepatotóxicos (como paracetamol em doses altas).
  • Monitorar função hepática (especialmente se o paciente apresentar vômitos persistentes, sonolência, ou alteração do TP).

A criança pode voltar às atividades escolares após o desaparecimento dos sintomas e normalização parcial das enzimas, geralmente em 2ª 4 semanas após o inicio do quadro.

Hepatite B

A Hepatite B é uma infecção causada pelo vírus da hepatite B (HBV), um vírus DNA da família Hepadnaviridae.

Uma vez que uma pessoa seja contaminada pelo vírus da Hepatite B, ainfecção pode evoluir para a cura ou pode se cronificar, acompanhando o paciente para o resto da vida. No entanto, crianças e recém-nascidos apresentam risco elevado para cronificação. Enquanto apenas 5% dos adultos imunocompatentes contaminados desenvolvem a doença crônica, isso acontece em 20 a 30% das crianças menores de cinco anos e em até 90% dos recém-nascidos que adquirem a infecção por meio de transmissão perinatal.

A vacinação é a medida mais eficaz para prevenção de Hepatite B. A primeira dose deve ser feita nas primeiras 12 horas de vida (fundamental para prevenir transmissão vertical). O esquema completo de vacinação é feito com 3 doses (0, 2 e 6 meses de vida).

No caso de recém-nascidos de mãe infectada é indicado o uso de imunoglobulina específica anti-HBs + vacina nas primeiras 12 horas de vida. O esquema vacina deve ser completo com mais duas doses, com 2 e 6 meses de vida e a solrologia deve ser feita com 9 a 12 meses de vida.

O vírus HBV está presente no sangue e fluidos corporais (sêmen, secreções vaginais, saliva, etc.). Assim, as principais formas de transmissão na infância incluem:

  • Transmissão Vertical durante o parto (principal forma em crianças).
  • Contato íntimo com pessoas infectadas (pequenos ferimentos, compartilhamento de escovas, alicates, brinquedos que lesionam mucosas).
  • Parenteral: transfusão de sangue, seringas contaminadas, procedimentos invasivos sem esterilização.

A  amamentação do bebê por uma mãe infectada é segura, desde que o recém-nascido receba imunoglobulina + vacina ao nascer.

A hepatite B aguda na infância é, em geral, assintomática ou leve. Quando sintomática, o quadro é semelhante ao da hepatite A, podendo incluir:

  • Febre baixa, mal-estar, fadiga
  • Anorexia, náusea, dor abdominal
  • Icterícia, urina escura, fezes claras
  • Hepatomegalia (às vezes dolorosa)

O tratamento da Hepatite B aguda deve ser sintomático e de suporte. A Função hepática deve ser monitorada e os medicamentos hepatotóxicos devem ser evitados.

Quando o  HBsAg  permanece positivo por mais de 6 meses, a doença passa a ser considerada crônica. O HBsAg é um antígeno de superfície que indica que a infecção está ativa.

Além do tratamento sintomático e de suporte, medicamentos antirretrovirais específicos são usados para suprimir replicação viral, para prevenir progressão da doença e reduzir risco de cirrose/câncer hepático.

Hepatite C

A Hepatite C é menos comum na infância do que as hepatites A e B. No entanto, ela é preocupante, uma vez que cerca de 60ª 80% evoluem para infecção crônica, com doença hepática progressiva ao longo da vida.

A forma mais comum de infecção na infância é a transmissão vertical, de mãe para filho. Ela acontece em cerca de 5% dos filhos de mães infectadas. O parto normal e a amamentação não aumentam significativamente o risco, exceto se houver sangramento ou fissuras nos mamilos. Com a melhora na triagem de sangue e maior controle de infecções hospitalares, a transmissão transfusional tornou-se incomum. Até o momento, não existe vacina contra o HCV.

A infecção aguda pelo HCV geralmente é assintomática, especialmente nas crianças.

Quando há sintomas, são inespecíficos e leves, com mal-estar, fadiga, náusea, dor abdominal e febre baixa. A icterícia (pele e olhos amarelados), embora bastante subestiva de doença hepática, é incomum na fase aguda da Hepatite C em crianças.

60 a 80% das crianças infectadas evoluem para hepatite C crônica. No entanto, a progressão da doença é lenta na infância, sendo que as complicações, como cirrose e carcinoma hepatocelular, são raras antes da vida adulta.

O tratamento para crianças menores de 3 anos geralmente se concentra no acompanhamento, pois a cura espontânea é mais comum nessa faixa etária e há preocupações com a toxicidade dos medicamentos.

Após os três anos, o tratamento geralmente envolve antivirais de ação direta, com taxas de cura acima de 95%.