Transtornos de aprendizagem
O que são os transtornos de aprendizagem?
Transtornos de aprendizagem podem ser caracterizados como quadros clínicos que impactam direta e negativamente em questões relacionadas às metas de aprendizagem e fatores cognitivos comuns à faixa etária da criança.
Essas condições estão relacionados ao desenvolvimento cerebral, impactando na capacidade de aquisição de habilidades específicas como leitura, escrita ou contas matemáticas. As crianças podem ser mais lentas para aprender os nomes das cores ou das letras, para atribuir palavras a objetos familiares, para contar e para progredir em outras habilidades de aprendizagem iniciais. Elas também podem demorar para aprender a ler e escrever.
Nem todas as dificuldades escolares devem ser entendidas como um transtorno de aprendizagem. Questões familiares, má adaptação ao programa pedagógico, problemas psicológicos, mudanças frequentes de escola, ou dificuldades relacionadas à rotina da criança, incluindo problemas alimentares, sedentarismo e má qualidade de sono também podem prejudicar a capacidade de aprendizagem, mas não devem ser vistas como um transtorno.
Por fim, embora não sejam classificados estritamente como “transtornos de aprendizagem” no DSM-5, o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e problemas de processamento auditivo também acabam impactando na aprendizagem, podendo ser confundidos ou eventualmente coexistirem com os transtornos de aprendizagem.
Dificuldades de aprendizagem não devem, portanto, ser confundidos com Transtornos de aprendizagem:
- O transtorno de aprendizagem configura-se como uma alteração no desenvolvimento do indivíduo, percebida com questões relacionadas ao amadurecimento neurobiológico da criança.
- Já a dificuldade de aprendizagem pode ser algo pontual e relacionado a fatores psicológicos e externos, como o ambiente de estudo, a rotina na escola, a metodologia, etc.
Aspectos externos relacionados às dificuldades de aprendizagem
Antes de se considerar o diagnóstico de Transtorno de Aprendizagem, é fundamental que se avalie todos os possíveis fatores externos que podem contribuir para as dificuldades escolares da criança. Esses fatores podem acontecer de forma isolada ou coexistirem com o transtorno de aprendizagem. Ainda assim eles nunca devem ser negligenciados.
:1. Análise da metodologia e organização escolar
O ambiente escolar no qual ela está inserida precisa ser compreendido. Será que a metodologia está adequada para o perfil da criança? A organização escolar é efetiva? Como é o dia a dia na escola? Será que as salas de aula estão preparadas para a quantidade de alunos?
Tudo isso pode impactar na aprendizagem de uma criança e deve ser levado em conta.
2. Atenção aos hábitos e à rotina da criança
Os hábitos e a rotina da criança também podem desencadear situações de dificuldade de aprendizagem, independentemente de qualquer transtorno.
Afinal, se a criança não possui uma rotina de estudos e não costuma consumir materiais educativos em casa, como poderá potencializar a sua aprendizagem?
Da mesma forma, se a criança não coloca em prática hábitos saudáveis, incluindo pratica regular de exercícios (brincar ativo), boa alimentação e rotina de sono adequada, isso pode resultar em uma rotina pouco motivadora e desinteressante para o desenvolvimento escolar.
3. Análise das questões emocionais
Muitas crianças podem estar passando por conflitos emocionais que os pais sequer perceberam.
É o caso de viver situações de bullying na escola, ou ter que lidar com a perda de um pet ou ente querido.
Da mesma forma, preocupações excessivas, devido à cobrança familiar por “boas notas”, também podem desencadear desequilíbrios emocionais que atrapalham o foco e a aprendizagem.
Tipos de transtornos de aprendizagem mais comuns
uma vez que tenha sido avaliado o dia a dia da criança, sua relação com a escola e demais fatores que podem provocar a dificuldade de aprendizagem, porém, não for constatado nada “fora do normal”, o ideal é investigar a possível questão neurobiológica envolvida com os estudos e com as questões cognitivas da criança.
A partir disso, é possível detectar situações de transtornos de aprendizagem. Abaixo listamos os mais comuns:
1. Dislexia – comprometimento da leitura
A dislexia, também chamada de transtorno da leitura, caracteriza-se como uma dificuldade em compreender as palavras que são escritas.
A criança pode apresentar uma grande dificuldade na hora de ler, além de possuir certas dificuldades na hora de copiar uma frase ou um texto do quadro, na sala de aula, ou de um livro, em casa.
O atraso na fala e na linguagem também pode estar presente, dando sinais de que a aquisição da leitura e das capacidades linguísticas podem estar sofrendo um atraso neurobiológico.
A criança também pode apresentar dificuldades para escrever, concomitantemente aos outros sinais de dificuldade que citamos acima.
2. Disgrafia – comprometimento da expressão escrita
A disgrafia associa-se apenas com a ortografia ou mesmo a caligrafia da criança, sem estar associada a outras dificuldades de expressão escrita.
A criança pode ter uma grande dificuldade de desenvolver textos escritos, cometendo equívocos e erros ortográficos de forma muito recorrente e “gritante”, ou seja, comete erros em palavras tidas como fáceis e comuns no dia a dia escolar.
No entanto, a leitura não costuma ser dificultosa, como acontece nos casos de dislexia.
3. Discalculia – comprometimento da matemática
A discalculia, também chamada de transtorno da matemática, não associa-se com o desenvolvimento de cálculos matemáticos por si só, mas sim, à forma como a criança consegue associar o raciocínio matemático com o seu dia a dia e o mundo que a cerca.
A criança pode apresentar dificuldades para manejar números e conceitos matemáticos, sem que haja uma explicação orgânica cerebral para tal dificuldade.
Inclusive, a criança pode ter dificuldade para dizer qual número é maior, por exemplo, quando apresentamos o número 8 e 3 para ela analisar.
Outros Transtornos Associados ao Insucesso Acadêmico
Embora não sejam classificados estritamente como “transtornos de aprendizagem” no DSM-5, o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e problemas de procesaamento auditivo também acabam impactando a aprendizagem e são comumente confundidos ou coexistentes com os transtornos de aprendizagem
Avaliação das dificuldades de aprendizagem
A avaliação da criança com suspeita de Transtornos de Aprendizagem deve ser feita pelo Neuropediatra. No entanto, a depender da causa, psicólogos, psicopedagogos ou fonoaudiólogos podem ser envolvidos.
É bem comum que crianças julgadas como “preguiçosas” ou “desatentas” tenham por trás de suas dificuldades alguma alteração motora, cognitiva, neurológica ou perceptiva (perdas da visão e auditiva) que justifiquem o atraso no ganho das habilidades esperadas.
Outros sintomas podem incluir:
- Período de concentração curto, distraindo-se facilmente – possivelmente em consequência do Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) associado
- Problemas de fala/linguagem, incluindo a dificuldade em compreender informações faladas e memória curta.
As crianças afetadas podem ter dificuldade com atividades que exigem coordenação motora fina, como escrever e copiar, e podem ter uma letra ruim ou segurar o lápis de forma estranha.
Crianças com um distúrbio de aprendizagem podem ter dificuldade em organizar ou iniciar tarefas ou recontar uma história ordenadamente, ou podem confundir símbolos matemáticos e fazer leitura errada de números.
Outras crianças terão dificuldades para se comunicar. Algumas crianças podem se sentir inicialmente frustradas e mais tarde desenvolver problemas comportamentais, como se distrair facilmente, ser hiperativas, retraídas, tímidas ou agressivas.
Como auxiliar uma criança com transtorno de aprendizagem?
Acima, destacamos os principais transtornos de aprendizagem, para que você possa ter uma visão geral dos quadros mais comuns nos dias atuais.
Dessa forma, torna-se viável analisar a situação do seu filho, visando oferecer um suporte adequado para que ele não sofra com prejuízos cognitivos ao longo de sua vida.
Agora, vamos às dicas para lidar com essa situação, de uma maneira respeitosa, empática e tranquila:
1. Vivência do luto, aceitação e reconhecimento do problema
Um primeiro ponto que é muito importante considerar é o fato de que o diagnóstico de um transtorno de aprendizagem pode ser impactante para toda a família.
Afinal, ao longo da gestação e dos primeiros anos de vida da criança, a família, de modo inconsciente, pode idealizar uma criança perfeita e “impecável”.
Assim, quando a realidade de um transtorno entra em cena, a família pode se sentir extremamente atingida com a perda do sonho da “criança perfeita e impecável”. Consequentemente, a vivência de um luto pode acontecer. Nesta fase, a família pode tentar negar a situação, ao mesmo tempo em que se sente impotente com o diagnóstico.
Viver esse luto e respeitar o tempo de aceitação é o primeiro passo para reconhecer o problema e tomar medidas cabíveis.
Portanto, não “forçar a barra” para aceitar a situação de uma hora para outra é um passo relevante para atravessar esse momento com mais equilíbrio e saúde mental.
3. Aprendizagem sobre o caso da criança
O processo de psicoeducação auxilia na hora de lidar com transtornos de aprendizagem. Os profissionais da saúde poderão tirar dúvidas, apresentar estratégias de intervenção em casa, acompanhar a evolução da criança, entre outras ações que contribuem na hora de minimizar os efeitos negativos do transtorno.
4. Paciência e estímulos alinhados às necessidades da criança
A paciência também deverá ser desenvolvida no seio familiar. A criança precisa de um tempo maior para assimilar as questões cognitivas que se espera de um filho. Portanto, não force a situação fazendo o seu filho com dislexia, por exemplo, ler por horas a fio durante o dia.
Mas sim, use estímulos reconhecidos cientificamente, e que podem ser aprendidos com o psicólogo e o pedagogo que acompanha a criança, para estimulá-la respeitando o seu tempo de maturação e de aprendizagem, de acordo com as limitações que ela possui.
5. Atuação ativa com ajuda da escola
Procure manter uma postura ativa com relação à escola do seu filho. Esteja presente, comunique a escola sobre o transtorno de aprendizagem, apresente o que tem sido feito em casa para estimular o pequeno, etc.
Desse modo, unindo a ação dos profissionais da saúde, professores, educadores, direção e família, as chances de sucesso no desenvolvimento da criança serão ainda maiores.
Não hesite na hora de buscar ajuda profissional
Aceitar o fato de que um filho possa ter algum dos transtornos de aprendizagem é algo impactante e que inevitavelmente fere os pais.
Por outro lado, ignorar os sinais, crendo que a situação irá “se resolver sozinha”, pode acabar expondo o seu filho a situações cada vez mais negativas, atrasando ainda mais a possibilidade de intervenção.
Por isso, não ignore a situação. Se você perceber sintomas de transtornos de aprendizagem no seu filho, procure auxílio de um neuropediatra para que o caso seja investigado.
Dessa forma, as chances de construir uma atmosfera mais positiva e benéfica será ainda maior.
Referências
DÍAZ, F. O processo de aprendizagem e seus transtornos. Salvador : EDUFBA, 2011.
396 p. il.
Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5 – 5ª Edição. Disponível em: <https://dislex.co.pt/images/pdfs/DSM_V.pdf> Acesso em 27 set. 2022.
ROTTA, N. T.; OHLWEILER, L.; RIESGO, R. S. Transtornos da Aprendizagem: Abordagem Neurobiológica e Multidisciplinar. 2. ed. – Porto Alegre : Artmed, 2016.
SULKES, S. B. Visão geral dos transtornos de aprendizagem. Disponível em: <https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/pediatria/dist%C3%BArbios-de-aprendizagem-e-desenvolvimento/vis%C3%A3o-geral-dos-transtornos-de-aprendizagem>. Acesso em 27 set. 2022.