Diarreia no bebê e na criança
Diarreia no bebê e na criança
A diarreia na infância é uma das doenças mais comuns da infância, podendo em alguns casos ser bastante graves ou mesmo fatal quando não tratada adequadamente, especialmente em bebês.
As causas, tratamento e complicações variam conforme a idade da criança.
Diarreia em Lactentes (0–6 meses):
A maior parte dos casos de diarreia em bebês de 0 a 6 meses tem origem infecciosa. Caracteristicamente, ela tem origem aguda e é autolimitada. O bebê se encontra bem e, de repente, começa com o quadro de diarreia, muitas vezes acompanhada de febre. Vômitos e prostração podem também estar presentes e é comum que outros membros da família, especialmente irmãos, também evoluam com diarreia.
As fezes geralmente são líquidas, explosivas e com odor fétido.
Os agentes mais comuns das infecções são os vírus, mais especificamente o Rotavírus ou o norovírus. Ainda que as infecções virais sejam mais comuns, a infecção bacteriana deve precisa ser considerada especialmente se o bebê apresentar sangue ou muco nas fezes (disenteria), sendo importante a avaliação médica nesses casos.
Além da diarreia infecciosa, é preciso considerar também os diagnósticos de Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV) ou Erros inatos do Metabolismo, especialmente em casos de ciarreia crônica, que não melhor ou se torna muito mais recorrente.
A diarreia nos bebês preocupa muito mais do que nos adultos, devido ao risco elevado para desidratação. Quanto mais novo o bebê, maior esse risco.
Alguns sinais de alerta que indicam necessidade de reforçar a hidratação incluem:
- Boca e língua secas: A saliva fica “grossa” ou a boca parece seca ao toque.
- Menos fraldas molhadas: Se o bebê ficar mais de 6 horas sem urinar, é um sinal claro de que o corpo está entrando em “modo de economia”.
- Choro sem lágrimas: Bebês com mais de 2 meses já devem produzir lágrimas.
Além disso, alguns sinais de maior gravidade e que exigem avaliação médica imediata incluem:
- Sinais de Gravidade (Emergência Imediata):
- Olhos Encovados: Os olhos parecem mais fundos nas órbitas e com olheiras profundas.
- Letargia ou Irritabilidade Extrema: O bebê está muito largado, difícil de acordar, ou chora de forma inconsolável, mas fraca (choro gemido).
- Prega Cutânea: você pinça levemente a pele da barriga do bebê e ela demorar a voltar ao lugar.
Para evitar a desidratação, a prioridade absoluta é o Aleitamento Materno. O leite materno contém água, eletrólitos e anticorpos que ajudam a combater a causa da diarreia. Assim, se o bebê mama, ofereça o peito com mais frequência do que o habitual, mesmo que ele mame pouco de cada vez. Geralmente o bebê tem melhora em 5 a 7 dias.
Nunca ofereça chás (que podem desequilibrar ainda mais os eletrólitos), água pura (que pode levar a uma queda perigosa do sódio) ou remédios para “prender” o intestino (que são perigosos e contraindicados para bebês).
Diarreia em bebês de 6 meses – 2 anos
Essa é a idade mais comum para a diarreia na infância, devido à combinação da introdução alimentar, maior exposição ambiental e perda da proteção pelos anticorpos maternos, que acontece quando o bebê para de ser amamentado.
As infecções seguem sendo a principal causa para as diarreias nessa faixa etária.
Cerca de 80% das infecções têm origem viral, especialmente pelo rotavirus e adenovírus. No entanto, as infecções bacterianas se tornam mais comuns, sendo responsável por 15% a 20% dos casos. As principais bactérias que causam diarreia nessa idade são a E. coli e a Salmonella. Especiamente nos locais com saneamento básico mais precário, há ainda a preocupação com infecções parasitárias.
Outra causa comum de diarreia, além das infecções, é a diarreia disfuncional, que acontece por conta da imaturidade do sistema digestivo. A principal característica é que, apesar da diarreia, a criança continua crescendo, ganhando peso e brincando normalmente. Ela tem uma forte relação com a dieta e é comum que se observe pedaços inteiros de vegetais (cenoura, milho, cascas) nas fezes.
A desidratação continua sendo uma preocupação central no tratamento da diarreia. Para aqueles bebês que são amamentados, o aleitamento materno deve ser mantido e até intensificado. Além disso, pode ser feito o uso de soro de reidratação oral (comprado em farmácia) após cada evacuação líquida. Diferente da água pura, o Soro tem a proporção exata de sódio e glicose para “puxar” a água para dentro das células.
A dieta deve ser mantida, evitando-se o jejum. Priorize alimentos mais constipantes, incluindo arroz branco, macarrão sem molhos pesados, batata baroa, cenoura cozida, banana-maçã, maçã sem casca e frango desfiado. Por outro lado, eveite sucos industrializados (muito açúcar), frituras, vegetais crus com muita fibra e o leite de vaca integral, os quais podem piorar a diarreia. Nunca faça dieta de chá e torrada, já que o intestino precisa de nutrientes para se recuperar.
A suplementação de zinco pode também ajudar na recuperação da perede intestinal, reduzindo a duração e o número de evacuações no curso da diarreia. O uso de probióticos pode também ser considerado como forma de recuperação da flora intestinal.
Alguns sinais de atenção e necessidade de avaliação médica do bebê incluem:
- Bebê que vomita tudo o que ingere, sem parar nada no estômago.
- Não urinar por mais de 6 horas (fralda seca).
- Apresentar sangue nas fezes.
- Bebê que se encontra largado, sonolento demais ou difícil de consolar.
Diarreia em Pré-escolares e escolares
Quando a criança chega na idade pré-escolar ou escolar (2 a a 10 anos de idade, aproximadamente), a dinâmica da diarreia muda. O risco de desidratação grave diminui em comparação aos bebês. As causas deixam de ser quase exclusivamente virais, sendo mais comuns a infecção bacteriana ou parasitária. Além disso, o impacto do ambiente social aumenta, e a diarreia pode em alguns casos estar relacionada a fatores comportamentais ou mesmo estresse.
A criança começa nessa fase a frequentar festas e ambientes onde o controle sobre a alimentação é menor e o contágio é mais comum. Reforçar o hábito de lavar as mãos antes de comer e após usar o banheiro ajuda a reduzir o risco dessas infecções. Cortar bem as unhas da criança também ajuda.
A decisão de afastar uma criança da escola por conta de diarreia não serve apenas para o conforto dela, mas principalmente para evitar surtos epidemiológicos. Em ambientes escolares, o contágio é extremamente rápido devido ao compartilhamento de banheiros, brinquedos e contato próximo. Assim, a criança deve ser antida em casa em qualquer uma ds seguintes situações:
- Incontinência ou frequência incontrolável: Se a criança não consegue chegar ao banheiro a tempo ou se a frequência de evacuações impede que ela participe das atividades de sala de aula.
- Presença de Sangue ou Muco: Indica uma possível infecção bacteriana ou inflamação severa que precisa de investigação médica antes do contato com outras crianças.
- Vômitos associados: Se houve mais de um episódio de vômito nas últimas 24 horas.
- Febre: Temperatura axilar acima de 37,8°C.
- Prostração: A criança está muito largada, sem energia para brincar ou com sinais de desidratação (boca seca, choro sem lágrima).
O retorno escolar só deve ser feito quando a criança está sem febre e sem episódios de vômitos por pelo menos 24 horas. Vale aqui considerar que muitos vírus continuam sendo eliminados nas fezes mesmo após a criança parecer “bem”. Assim, se ela volta logo no primeiro sinal de melhora, o risco de reinfecção e de passar para os colegas é altíssimo.
Diarreia infecciosa
A maioria das diarreias agudas em bebês e crianças tem origem infecciosa. Ela costuma vir acompanhada de sintomas como febre, vômitos, dor abdominal ou, no caso de infecções bacterianas, sangue ou muco nas fezes. Além disso, quando há um surto de diarreia entre pessoas que convivem juntos (em casa ou na escola) ou histórico de viagem recente também são indicativos de que a diarreia tem origem infecciosa.
Em contraste, causas não infecciosas costumam ter curso mais arrastado ou recorrente.
As infecções podem ser causa viral, bacteriana ou parasitária, com características diferentes em cada uma delas:
- Infecções virais são as mais comuns, especialmente em bebês, mas também ao longo de toda a infância. Elas são altamente transmissíveis e associada a surtos. A febre geralmente é baixa a moderada e vômitos também são comuns.
- Infecções bacterianas estão muitas vezes associadas a sangue ou muco nas fezes. A febre geralmente é mais alta e acompanhada de dor abdominal e prostração. O volume a cada evacuação é menor do que nas infecções virais, mas a frequência é maior.
- Infecções parasitárias têm curso mais prolongado, devendo ser consideradas quando a diarreia dura mais do que 7 a 10 dias. As fezes podem ser pastosas, gordurosas ou fétidas. Febre é menos comum, mas a distensão abdominal é frequente. Elas acontecem principalmente nas idades pré-escolar ou escolar, associadas à contaminação alimentar ou da água.
A maior parte dos casos de diarreia aguda tem origem viral e pode ser tratada adequadamente por meio de hidratação, ajustes na dieta e, eventualmente, medicamentos sintomáticos (especialmente antitérmicos), zinco (para a recuperação da mucosa intestinal ou probióticos (para recuperação da flora intestinal).
Antibióticos não são necessários na maior parte dos casos. Além de ser ineficaz em casos de diarreia de origem viral, ela pode levar aa uma desregulação da flora intestinal e à seleção de bactérias mais resistentes, que não são destruídas pelos antibióticos e podem resultar em infecções mais graves e de difícil controle.
Sinais sugestivos de infecção bacteriana, em que o uso de antibióticos poderá ser considerado a partir da avaliação médica incluem:
- Presença de sangue ou muco nas fezes.
- Febre alta (> 38,5°C).
- Dor abdominal mais intensa.
- Tenesmo (vontade de evacuar sem sair fezes).
- Quadro mais prolongado.
- Piora do estado geral.
- Leucócitos ou lactoferrina fecal positivos (quando investigado).
Vale considerar também que algumas crianças podem desenvolver uma intolerância à lactose transitória (ou secundária) pós-diarreia, uma vez que perdem a capacidade de produzir lactase suficiente para digerir o açúcar do leite (lactose). No entanto, esta forma é reversível e cura-se assim que o intestino se recupera.
Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APVL)
A Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV) é uma reação imunológica, caracterizada por diarreia crônica ou recorrente.
Geralmente ela se manifesta após a introdução de fórmula infantil, mas pode acontecer em bebês em amamentação exclusiva, quando a mãe consome produtos lácteos.
A maior parte dos casos surge nos primeiros 3 a 6 meses de vida, sendo raro que se inicie após o primeiro ano de vida completo do bebê. Os sintomas tendem a melhora após os 2 anos de vida e não costumam mais estar presentes após os 5 anos de vida.
As fezes podem ter muco e sangue. Diferentemente dos quadros infecciosos, o bebê tem uma aparência geral saudável, sendo muitas vezes chamado de “anêmico feliz”.
Sangue nas fezes é muito comum, mesmo com o bebê ganhando peso. Além disso, o bebê pode apresentar cólicas intensas, dermatite (eczema) ou refluxo que não melhora.
A melhor forma de confirmar o diagnóstico é por meio do teste terapêutico, com melhora significativa após a exclusão total do leite de vaca da dieta da dieta da mãe ou do bebê.
Erros Inatos do Metabolismo
Erros inatos do metabolismo são condições genéticas raras nas quais o corpo não é capaz de processar certas substâncias.
A diarreia é um sinal de gravidade sistêmica, geralmente com. Início logo após o nascimento ou após a introdução de um açúcar específico (como a frutose ou lactose). As fezes muitas vezes se mostram brilhantes, gordurosas e que boiam, por conta da má absorção da gordura (esteatorreia).
Além da diarreia, o bebê apresenta outros sintomas, como baixo ganho de pes, déficit de crescimento, icterícia (pele amarela), aumento do fígado (hepatomegalia) e atraso no desenvolvimento.
Diarreia Funcional
A diarreia funcional é uma condição comum e totalmente benigna. Ela ocorre tipicamente em crianças saudáveis entre 6 meses e 5 anos de idade, por conta da imaturidade do sistema digestivo.
O ponto principal aqui é que, apesar da diarreia, a criança continua crescendo, ganhando peso e brincando normalmente.
Diferente de uma infecção, a diarreia funcional tem um padrão que ajuda o pediatra no diagnóstico. A criança raramente evacua enquanto dorme e a primeira evacuação do dia costuma ser normal ou apenas pastosa. Conforme o dia passa, as fezes tornam-se mais líquidas e frequentes. É muito comum também que se observe pedaços inteiros de vegetais (cenoura, milho, cascas) nas fezes. Isso acontece porque o trânsito intestinal está acelerado, não dando tempo para eles serem digeridos. Além disso, não há febre, não há sangue nas fezes e o apetite da criança permanece excelente.
Por fim, é preciso considerar alguns fatores dietéticos relacionados à diarreia funcional do bebê e da criança:
- Excesso de Sucos e Açúcares: Sucos (mesmo os naturais) e bebidas açucaradas contêm frutose e sorbitol em excesso. O intestino do bebê não consegue absorver tudo, o que atrai água para dentro das fezes e aumenta o risco para a diarreia disfuncional.
- Dieta Pobre em Gordura: Muitos pais, na tentativa de serem saudáveis, oferecem uma dieta com pouca gordura. No entanto, a gordura retarda o esvaziamento gástrico e o trânsito intestinal. Sem ela, a comida “passa direto”.
- Excesso de Fibras: Fibras demais para um intestino imaturo podem acelerar o trânsito além do necessário.
Doença Celíaca
á a Doença Celíaca é uma doença autoimune de origem genética, na qual o sistema imunológico identifica o glúten como um agente agressor e produz uma reação de defesa para combatê-lo, da mesma forma como ele reage quando temos uma infecção.
O consumo de mínimas quantidades de glúten em um paciente com doença celiaca pode levar à inflamação da mucosa do intestino e, com o tempo, levar a uma atrofia dessa mucosa.
O glúten é uma proteína encontrada na farinha de trigo, cevada e centeio, bem como em produtos industrializados feitos com estes ingredientes, como massas, pão, bolachas e outros.
A doença celíaca pode se manifestar em qualquer idade, desde a infância (geralmente após a introdução do glúten, entre 6 meses e 5 anos) até a vida adulta ou terceira idade.
Os sintomas mais comuns estão relacionados ao trato gastrointestinal, incluindo diarreia (frequentemente gordurosa), dor abdominal, inchaço, gases, náuseas e vômitos. A gravidade desses sintomas, no entanto, pode ser bastante variável. Com a retirada do glúten da alimentação, os sintomas tendem a desaparecer.