Deficiência de Vitamina B1 (Tiamina)
O que é a Vitamina B1 (Tiamina)?
A Vitamina B1 (Tiamina) é uma vitamina essencial para o metabolismo. Sem ela, as células não conseguem transformar açúcar (glicose) em energia.
O cérebro e o coração, por serem os órgãos que mais gastam energia, são os primeiros a sofrer na falta dela.
Embora a deficiência não seja um problema para a maior parte das pessoas, ela se torna uma preocupação em grupos específicos de pessoas, incluindo alcoólatras, pacientes bariátricos, gestantes com vômitos incontroláveis (hiperêmese gravídica) ou aqueles em uso prolongado de medicamentos diuréticos.
As manifestações clínicas podem estar associadas ao corpo e sistema nervoso periférico (Doença de Beribéri) ou ao Sistema Nervoso Central (Síndrome de Wernicke – Korsakoff).
Quais as principais Fontes Alimentares de Tiamina?
AS principais fontes alimentares da Tiamina incluem:
- Carnes, especialmente a suína.
- Grãos Integrais: Arroz integral, aveia, farelo de trigo e milho.
- Leguminosas: Feijão, lentilha, soja e ervilha.
- Sementes e Oleaginosas: Semente de girassol, castanha-do-pará (castanha-do-brasil), castanha de caju, avelã e nozes.
- Produtos Fortificados: Pães, massas e cereais matinais enriquecidos.
- Outros: Levedura de cerveja e peixes como salmão e sardinha.
Um ponto importante é que, por ser hidrossolúvel, a tiamina pode ser perdida na água de cozimento e em altas temperaturas. Além disso, o processamento de grãos (arroz branco, farinha branca) remove grande parte da vitamina B1 natural.
Causas da Deficiência e Grupos de Risco
As demandas relativamente baixas, combinado com a abundância em uma variedade de alimentos, faz com que a deficiência de tiamina não seja um problema para a maior parte das pessoas. No entanto, ela se torna uma preocupação em grupos de risco específicos, incluindo:
- Etilistas Crônicos: A falta de vitamina B1 é a deficiência nutricional mais relacionada ao alcoolismo. O álcool bloqueia a absorção intestinal, interfere na ativação da vitamina no fígado e aumenta sua excreção pelos rins.
- Pacientes Bariátricos: Especialmente nos primeiros meses pós-cirurgia, devido à redução drástica na ingestão e possíveis vômitos persistentes.
- Hiperêmese Gravídica: Grávidas com vômitos severos e persistentes perdem tiamina rapidamente.
- Uso de Diuréticos: O uso prolongado de diuréticos de alça (como furosemida) pode levar a um excesso de eliminação da tiamina pela urina.
Como a tiamina é hidrossolúvel, o corpo armazena apenas pequenas quantidades de tiamina, eliminando a maior parte do que é ingerido em excesso pela urina. Os estoques armazenados são suficientes para, no máximo, cerca de 2 a 3 semanas, de forma que a deficiência pode aparecer rapidamente em casos de perda ou consumo insuficiente.
Manifestações Clínicas
A Doença de Beribéri e a Síndrome de Wernicke são duas condições graves associadas à deficiência de Tiamina. A diferença fundamental reside no sistema do corpo que é atacado e na gravidade do dano neurológico: o Beribéri é uma doença sistêmica, que afeta o corpo e os nervos periféricos. Já a Síndrome de Wernicke-Korsakoff é uma emergência neurológica que afeta o Sistema Nervoso Central (cérebro).
Doença de Beribéri
O beribéri é o nome que se dá para a doença clássica causada pela deficiência grave de vitamina B1 (tiamina).
Ele se manifesta de duas formas principais, dependendo de qual sistema do corpo é mais afetado:
- Beribéri Seco (Neurológico): Afeta o sistema nervoso periférico. O foco é a perda de função nervosa e muscular, com sintomas como dormência e formigamento nos pés e mãos, perda de reflexos, dor muscular nas pernas e dificuldade progressiva para caminhar. Em casos avançados, pode ocorrer atrofia muscular significativa (“pernas de graveto”).
- Beribéri Úmido (Cardiovascular): Afeta o coração e o sistema circulatório. É chamado de “úmido” por causa do acúmulo de líquidos (edema). Os principais sintomas são a taquicardia (coração acelerado), falta de ar (mesmo em repouso), inchaço acentuado nas pernas e, eventualmente, insuficiência cardíaca de alto débito.
O diagnóstico do Beribéri essencialmente clínico. Se o médico suspeita da doença, o tratamento deve ser iniciado imediatamente por meio da reposição da vitamina B1.
Síndrome de Wernicke – Korsakoff
A Síndrome de Wernicke é uma condição na qual a falta de Tiamina provoca lesões hemorrágicas em áreas vitais do cérebro, como o hipotálamo. Ela geralmente é dividida em duas fases:
Fase Aguda (Encefalopatia de Wernicke)
Emergência médica reversível, caracterizada por uma tríade clássica:
- Confusão Mental: Desorientação profunda.
- Ataxia: Perda de equilíbrio e coordenação ao andar.
- Oftalmoplegia: Movimentos oculares anormais (nistagmo) ou paralisia dos músculos dos olhos.
Fase Crônica (Psicose de Korsakoff)
Se a fase de Wernicke não for tratada imediatamente com tiamina intravenosa, ela evolui para Korsakoff, que é frequentemente irreversível. A principal característica dela é a perda da memória recente, sendo comum também a confabulação, condição em que o paciente “inventa” histórias para preencher os buracos na memória, acreditando nelas piamente.
Diagnóstico e Tratamento da Deficiência de Tiamina
O diagnóstico da deficiência de B1 é predominantemente clínico. A dosagem direta no sangue não é confiável, uma vez que ela se modifica rapidamente de acordo com a dieta e nem sempre reflete o estoque celular.
Assim o tratamento com reposição da Tiamina deve ser feito com base em uma história clínica compatível, mesmo na ausência de exames.
Além disso, em pacientes desnutridos ou alcoolistas, nunca se deve administrar soro glicosado (glicose) antes da tiamina. Isso porque a glicose “queima” o resto de B1 ainda disponível, podendo desencadear uma crise neurológica aguda grave (Wernicke).