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Avaliação Pré-Participação Esportiva na Infância

Avaliação Pré-Participação Esportiva na Infância

A prática esportiva durante a infância traz inúmeros benefícios físicos, cognitivos e psicossociais. No entanto, para garantir a segurança do jovem atleta, a avaliação pré-participação esportiva (APP) é um passo fundamental. Ela tem como objetivo identificar fatores de risco, orientar famílias e profissionais e prevenir complicações, incluindo eventos cardiovasculares raros, porém graves.

Como regra geral, a avaliação é recomendada especialmente a partir dos 12 anos de idade, quando a intensidade das atividades aumenta. A avaliação pode ser indicada em idade mais precoce, em condições específicas.

A APP na infância deve considerar particularidades importantes, especialmente devido à imaturidade dos sistemas cardiovascular, musculoesquelético e neuronal. Além disso, a avaliação psicossocial é mais relevante, sendo que questões como pressão dos pais, ansiedade por desempenho, perfeccionismo e imagem corporal devem ser abordadas.

Avaliação cardiológica pré-participação

A avaliação cardiológica é a parte mais importante da pré-participação, sendo indicada para jovens atletas a partir dos 12 anos de idade. Ela tem como objetivo principal a prevenção da morte súbita, um evento raro, mas catastrófico.

Deve fazer parte da avaliação uma história clínica completa, bem como a ausculta cardíaca. Idealmente, deve também ser realizado o Eletrocardiograma.

Devido à constante evolução do sistema cardiovascular, essa avaliação deve ser repetida anualmente ou pelo menos a cada dois anos, mesmo em crianças e adolescentes aparentemente saudáveis.

Entre as condições de risco que podem ser identificadas na avaliação cardiológica pré-participação, incluem-se:

14 pontos da avaliação da American Heart Association

Os “14 pontos” da avaliação pré-participação em esportes juvenis é uma ferramenta de triagem desenvolvida pela  American Heart Association (AHA), que combina 10 perguntas sobre o histórico clínico com 4 componentes do exame físico para identificar riscos cardiovasculares antes da prática esportiva, visando prevenir eventos cardíacos súbitos e garantir a segurança dos jovens atletas.

10 Perguntas sobre Histórico/Família:

  1. Dor/desconforto no peito ao esforço.
  2. Desmaios/quase desmaios inexplicáveis.
  3. Falta de ar excessiva/fadiga/palpitações durante o exercício.
  4. Reconhecimento prévio de sopro cardíaco.
  5. Pressão arterial elevada.
  6. Restrição prévia à prática de esportes.
  7. Exames cardíacos prévios realizados por um médico.
  8. Óbito familiar prematuro (antes dos 50 anos) por doença cardíaca.
  9. Incapacidade por doença cardíaca em parente próximo com menos de 50 anos.
  10. Histórico familiar específico de doenças cardíacas (por exemplo, cardiomiopatia hipertrófica, síndrome de Marfan, arritmias).

4 Pontos do Exame Físico:

  1. Sopro cardíaco (tipos específicos).
  2. Pulsos femorais (para coartação da aorta).
  3. Sinais físicos da síndrome de Marfan.
  4. Pressão arterial braquial (sentado).

Eletrocardiograma

A necessidade de realização de eletrocardiograma é um ponto de controversa entre as sociedades médicas americana e europeias (especialmente a italiana).

As sociedades americanas não recomendam a exigência de eletrocardiograma de rotina, devido ao alto custo que isso geraria e às limitações de acesso ao exame, o que poderia afastar muitos desses jovens atletas da atividade esportiva. Eles recomendam que aqueles que não tenham nenhum ponto positivo nos “14 pontos” da avaliação da American Heart Association sejam liberados para o esporte sem nenhum exame adicional.

As sociedades europeias, por outro lado, colocam o eletrocardiograma como um exame obrigatório, considerando que muitos dos achados que deveriam restringir as crianças da prática esportiva não são identificados apenas pela avaliação clínica e ausculta cardíaca.

Corrobora essa posição um estudo com 3620 jovens atletas que mostra que a avaliação dos 14 pontos da American Heart Association apresenta baixa sensibilidade e que o ECG supera a avaliação da American Heart Association em todas as medidas de desempenho estatístico quando interpretada por clínicos experientes (1).

Embora não exista um consenso oficial no Brasil, as recomendações aqui seguem as diretrizes europeias, com recomendaçào para a realização do Eletrocardiograma em todos os jovens que realizam a avaliação cardiológica pré participação esportiva.

Outros exames

De acordo com o consenso realizado pelo Comitê Olímpico Internacional, a realização de exames avançados com foco na avaliação cardiovascular, como o teste de esforço cardiopulmonar ou o ecocardiogrma, só deve ser indicado quando motivado por achados clínicos (1).

Quando realizado de forma rotineira na infância ou adolescência esses exames têm muitos resultados falso positivos, com resultados anormais sem significado clínico. Isso gera ansiedade, exames desnecessários e afastamentos esportivos indevidos.

Eventualmente, o teste de esforço cardiopulmonar pode ser considerado em ateltas de alto rendimento no sentido da prescrição de exercício, não para avaliação cardíaca.

Avaliação Ortopédica pré-participação

O esqueleto da criança e do adolescente é mais vulnerável do que o osso maduro tanto para lesões traumáticas como por sobrecarga e treino excessivo.

O principal motivo para isso está relacionado à cartilagem de crescimento, que cria uma área de maior fragilidade óssea. A preocupação é ainda maior durante o estirão da puberdade, quando a cartilagem de crescimento está mais ativa ao mesmo tempo em que a criança ganha peso, força e potência, aumentando a exigência sobre as articulações.

O corpo da criança não cresce de forma uniforme. O crescimento do esqueleto, da musculatura, dos ligamentos e de outras estruturas acontecem em ritmos diferentes, não necessariamente em um padrão pré-estabelecido. O crescimento também não é uniforme em todas as articulações, favorecendo o aparecimento de desequilíbrios funcionais, com sobrecarga articular e maior risco de lesões.

Juntando a tudo isso, a técnica esportiva da criança é mais limitada, o que pode contribuir para uma pobre absorção de impacto durante a corrida, saltos e outros gestos esportivos.

A avaliação ortopédica ajuda principalmente na identificação de lesões por esforços repetitivos, bem como de fatores de risco para essas lesões. Nenhuma dor deve ser considerada normal pelo jovem atleta.

Avaliação Nutricional

Ainda que os princípios básicos da alimentação sigam as mesmas diretrizes dos atletas adultos, existem algumas especificidades no público infantil que precisam ser consideradas.

Muitos dos hábitos alimentares adotados pelas crianças e adolescentes, sejam elas atletas ou não, tendem a ser mantidos pelo resto da vida. Os jovens são especialmente vulneráveis a propagandas inescrupulosas que buscam empurrar suplementos alimentares a qualquer custo, fazendo uso desses suplementos não de forma complementar, mas em substituição à alimentação regular.

A necessidade de cada forma de suplementação precisa ser considerada de forma individualizada, mas sempre colocando como objetivo principal a adequação dos alimentos reais.

Em relação aos nutrientes, a maior preocupação é com os micronutrientes, incluindo proteínas, carboidratos e gordura. Elessão importantes não apenas para gerar a energia necessária para a atividades física, mas também para o desenvolvimento e crescimento corporal.

Dietas com restrições de grupos alimentares, especialmente carboidratos, são comuns e devem ser desestimuladas nas crianças e adolescentes.

A falta do conhecimento básico de aspectos relacionados a aimentação e ao treinamento físico, aliado à supervalorização da altoimagem corporal, colocam os jovens atletas em risco para condições como a anorexia ou a Deficiência Energética Relativa no Esporte (REDS), as quais podem afetar profundamente a saúde, a qualidade de vida e, em última análise, o desempenho esportivo desses jovens.

Avaliação Psicosocial

A adolescência é um período de grandes transformações e de grandes descobertas, e isso não é diferente para o jovem talento esportivo.

A maturação cerebral, psíquica e emocional ainda não ocorreu plenamente nestes atletas, o que pode resultar em questões que merecem atenção por parte da família e dos profissionais que estão apoiando esse jovem talento.

Os aspectos psicológicos do jovem atleta podem ser marcados por conflitos, dúvidas, incertezas e transformações na vida do indivíduo. As mudanças na rotina, a angústia de abrir mão da sua escola e de seus amigos, o medo diante das cobranças sociais, a irritabilidade de ter a sua rotina toda transformada, entre outros aspectos podem ser bastante comuns.

A maturação cerebral, psíquica e emocional ainda não ocorreu plenamente nestes atletas, e muitos não estão prontos para toda essa carga emocional. A cobrança constante por resultados e especialmente a cobrança velada por parte de pais e familiares (“meu filho será um campeão!”) faz com que muitos desses jovens lidem muito mal com as inevitáveis derrotas e tropeços, levando a um esgotamento físico e mental (burnout no esporte).

Discutimos sobre isso em um artigo sobre os Aspectos Psicológicos do Jovem Talento Esportivo. Mas, de toda forma, a Avaliação Pré-participação é o momento ideal para identificar essas condições e educar o jovem e seus familiares de como potencializar a saúde mental.