Transtorno de Ansiedade de Separação na infância
O que é o Transtorno de Ansiedade de Separação na infância
O Transtorno de Ansiedade de Separação (TAS) é um dos transtornos de ansiedade mais comuns na infância. Ele acontece quando a criança apresenta um medo intenso e persistente de se afastar das pessoas com quem possui um forte vínculo afetivo, como pais, responsáveis ou outros cuidadores.
Essa ansiedade é desproporcional para a idade e acaba interferindo na rotina da criança, dificultando atividades importantes como frequentar a escola, dormir sozinha, participar de passeios ou permanecer na casa de familiares e amigos.
É importante lembrar que algum grau de ansiedade de separação faz parte do desenvolvimento normal. Entre aproximadamente 8 meses e 3 anos de idade, é esperado que muitas crianças chorem ou demonstrem insegurança quando os pais se afastam. Na maioria dos casos, essa reação diminui naturalmente à medida que a criança amadurece, ganha autonomia e percebe que a separação é temporária.
O problema surge quando esse medo é muito intenso, persiste além do esperado para a idade e provoca prejuízos importantes na vida da criança e da família. Estima-se que o Transtorno de Ansiedade de Separação afete cerca de 3% a 5% das crianças e adolescentes, podendo surgir após situações estressantes, como mudança de escola, separação dos pais, doença de um familiar, hospitalização ou outros acontecimentos marcantes. Embora seja mais frequente na infância, o transtorno também pode persistir ou até surgir pela primeira vez na adolescência e, mais raramente, na vida adulta.
O que causa o Transtorno de Ansiedade de Separação?
Na maioria dos casos, o Transtorno de Ansiedade de Separação não resulta de um único fator. Ele costuma surgir quando uma criança biologicamente mais predisposta enfrenta situações de estresse ou mudanças importantes durante o seu desenvolvimento.
Predisposição genética e familiar
Crianças com familiares que apresentam transtornos de ansiedade, síndrome do pânico ou depressão têm um risco maior de desenvolver o TAS. Isso não significa que o transtorno seja hereditário de forma direta, mas sim que algumas crianças nascem com uma maior tendência a responder às situações de estresse com ansiedade.
Temperamento da criança
Cada criança possui uma forma própria de reagir ao mundo. Algumas são naturalmente mais cautelosas, sensíveis ou tímidas diante de situações novas. Esse temperamento mais inibido pode favorecer o desenvolvimento da ansiedade de separação quando a criança precisa lidar com mudanças ou afastamentos dos pais.
Eventos estressantes ou mudanças importantes
Em muitas crianças, os sintomas começam após um acontecimento marcante. Entre os gatilhos mais comuns estão:
- início da vida escolar;
- mudança de escola ou de cidade;
- nascimento de um irmão;
- separação ou divórcio dos pais;
- hospitalização da criança ou de um familiar;
- doença grave ou morte de alguém próximo;
- acidentes, violência ou outras experiências traumáticas.
Esses eventos geralmente não causam o transtorno por si só, mas podem desencadear os sintomas em crianças que já possuem maior vulnerabilidade.
Aprendizado e ambiente familiar
A forma como a ansiedade é vivenciada dentro de casa também pode influenciar o problema. Pais muito ansiosos ou superprotetores, por exemplo, podem transmitir involuntariamente a sensação de que o mundo é um lugar perigoso ou de que a criança não é capaz de enfrentar pequenas situações sozinha. Da mesma forma, quando a criança passa a evitar repetidamente a escola ou outras atividades por causa da ansiedade, esse alívio imediato pode reforçar o comportamento e fazer com que o medo aumente com o tempo.
É importante destacar que isso não significa que os pais sejam culpados pelo transtorno. Na grande maioria dos casos, essas atitudes acontecem justamente porque a família está tentando proteger a criança do sofrimento.
Alterações no funcionamento cerebral
Estudos mostram que crianças com transtornos de ansiedade podem apresentar uma maior sensibilidade das regiões cerebrais responsáveis por reconhecer situações de perigo, especialmente a amígdala, além de diferenças nos circuitos que ajudam a controlar as emoções.
Essas alterações fazem com que a criança interprete separações normais como se fossem situações de risco real, desencadeando medo intenso mesmo quando não existe um perigo verdadeiro.
Quando a ansiedade de separação se torna um transtorno?
A principal diferença entre a ansiedade de separação normal e o Transtorno de Ansiedade de Separação não está no fato de a criança sentir medo de ficar longe dos pais — isso é esperado em determinadas fases do desenvolvimento. O que caracteriza o transtorno é que esse medo provoca intenso sofrimento emocional e passa a comprometer a vida da criança e da família.
Quando a ansiedade impede a criança de frequentar a escola, dormir sozinha, participar de atividades sociais ou desenvolver sua autonomia, deixando de ser uma reação passageira para se tornar um obstáculo ao seu desenvolvimento, é importante procurar avaliação médica e psicológica.
| Ansiedade de separação normal | Transtorno de Ansiedade de Separação |
| Faz parte do desenvolvimento infantil. | É um transtorno de ansiedade reconhecido pelos critérios médicos. |
| Mais comum entre 8 meses e 3 anos de idade. | Pode surgir na infância, adolescência e, mais raramente, na vida adulta. |
| Geralmente melhora espontaneamente com o amadurecimento. | Persiste por semanas ou meses sem melhora significativa. |
| O choro costuma durar poucos minutos após a separação. | O sofrimento é intenso e pode começar antes mesmo da separação acontecer. |
| A criança consegue frequentar escola e participar das atividades após o período de adaptação. | A criança evita ou recusa escola, passeios, dormir sozinha ou outras atividades por medo da separação. |
| Não causa prejuízos importantes à rotina da criança ou da família. | Prejudica o desempenho escolar, a convivência social e a rotina familiar. |
| O medo é compatível com a idade e com a situação vivida. | O medo é excessivo e desproporcional ao risco real. |
Diagnóstico
O diagnóstico do Transtorno de Ansiedade de Separação (TAS) é feito por meio de uma avaliação clínica, realizada por um psiquiatra da infância e adolescência.
Durante a consulta, o profissional conversa com a criança e seus responsáveis para compreender quando os sintomas começaram, com que frequência acontecem, quais situações desencadeiam a ansiedade e de que forma ela interfere na rotina da criança. Também é importante entender como ela se comporta na escola, em casa e em outros ambientes, além de investigar se houve mudanças importantes ou acontecimentos estressantes antes do início dos sintomas.
Para fazer o diagnóstico, o médico utiliza critérios internacionais estabelecidos pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). De acordo com esses critérios, a criança deve apresentar pelo menos três dos seguintes sintomas:
- Sofrimento intenso e recorrente ao se separar ou ao antecipar a separação das figuras de apego.
- Preocupação excessiva de que os pais ou outros cuidadores possam adoecer, sofrer um acidente, desaparecer ou morrer.
- Medo persistente de que algum acontecimento faça com que ela se afaste dos pais, como se perder, ser sequestrada ou sofrer um acidente.
- Recusa persistente em ir à escola, dormir fora de casa ou permanecer em outros ambientes por medo da separação.
- Medo intenso de ficar sozinha ou sem a presença das figuras de apego, mesmo dentro de casa.
- Recusa ou dificuldade para dormir sem a presença de um dos pais ou para dormir longe de casa.
- Pesadelos frequentes relacionados à separação.
- Queixas físicas repetidas, como dor de barriga, dor de cabeça, náuseas ou vômitos, principalmente quando a separação é iminente.
Além desses sintomas, é necessário que eles persistam por pelo menos quatro semanas, sejam incompatíveis com a idade da criança e provoquem prejuízo significativo na vida escolar, familiar ou social.
Por fim, o médico deve afastar outras condições que possam explicar melhor os sintomas, como outros transtornos de ansiedade, depressão, transtorno do espectro autista ou situações específicas relacionadas ao ambiente escolar.
Quais doenças podem ser confundidas com o Transtorno de Ansiedade de Separação?
Nem toda criança que chora ao ir para a escola ou demonstra dificuldade para ficar longe dos pais apresenta Transtorno de Ansiedade de Separação (TAS). Diversas condições podem provocar sintomas semelhantes, razão pela qual a avaliação médica é importante antes de confirmar o diagnóstico.
Ansiedade de separação normal do desenvolvimento
A primeira situação que deve ser diferenciada é a ansiedade de separação normal do desenvolvimento. É esperado que crianças pequenas, especialmente entre os 8 meses e os 3 anos de idade, sintam medo ou chorem quando os pais se afastam. Da mesma forma, muitas crianças apresentam um período de adaptação ao iniciar a creche ou a escola. Nesses casos, o sofrimento costuma diminuir progressivamente e não impede a criança de desenvolver suas atividades habituais.
Problemas no ambiente escolar
Uma das principais causas de confusão com o Transtorno de Ansiedade de Separação é a recusa em frequentar a escola. Embora muitas crianças com TAS realmente não queiram ir à escola, o motivo costuma ser o medo de ficar longe dos pais. Em outras situações, porém, o problema está no próprio ambiente escolar.
Nesses casos, a criança não evita a escola porque teme a separação, mas porque associa aquele ambiente a experiências negativas, como bullying, conflitos com colegas, medo de um professor, dificuldades de aprendizagem ou até situações de violência.
Alguns sinais podem levantar a suspeita de que exista um problema na escola incluem:
- a ansiedade ou a recusa escolar surgem de forma repentina em uma criança que anteriormente frequentava a escola sem dificuldades;
- a criança demonstra ansiedade principalmente nos dias de aula, mas permanece tranquila quando fica longe dos pais em outros ambientes, como na casa dos avós, de familiares ou durante atividades de lazer;
- há piora dos sintomas ao falar sobre uma determinada sala, colega, professor ou momento específico da rotina escolar, como o recreio ou as aulas de educação física;
- a criança passa a apresentar queda no rendimento escolar, isolamento social ou mudanças importantes de comportamento;
- aparecem objetos danificados, perda frequente de materiais, machucados sem explicação convincente ou pedidos insistentes para trocar de escola;
- a criança evita falar sobre o que acontece na escola ou demonstra medo quando o assunto é abordado.
O bullying merece atenção especial. Embora possa ocorrer em qualquer idade, ele se torna mais frequente a partir dos primeiros anos do ensino fundamental, quando as relações entre os colegas se tornam mais complexas e as agressões verbais, psicológicas e sociais passam a ser mais comuns. Ainda assim, crianças menores também podem sofrer exclusão, intimidação ou agressões repetidas, especialmente em ambientes de educação infantil.
É importante lembrar que muitas vítimas de bullying não contam espontaneamente o que está acontecendo. Elas podem sentir vergonha, medo de represálias ou acreditar que ninguém conseguirá ajudá-las.
Transtorno de Ansiedade Social
O Transtorno de Ansiedade Social (também conhecido como fobia social) é um transtorno de ansiedade caracterizado por um medo intenso de ser observado, avaliado negativamente ou constrangido diante de outras pessoas. A criança teme ser ridicularizada, passar vergonha, cometer erros ou ser rejeitada pelos colegas, fazendo com que evite situações sociais ou as enfrente com intenso sofrimento.
Embora ambos os transtornos possam fazer com que a criança se recuse a ir à escola, o motivo dessa recusa é bastante diferente.
No Transtorno de Ansiedade de Separação, a criança quer permanecer ao lado dos pais ou de outras figuras de apego. Ela teme que algo ruim aconteça durante a separação ou sente que não conseguirá ficar segura longe deles. Em muitos casos, depois que os pais vão embora e a ansiedade inicial diminui, a criança consegue participar normalmente das atividades escolares.
Já no Transtorno de Ansiedade Social, o sofrimento permanece mesmo na presença dos pais, quando precisa interagir com colegas. Na escola, a criança evita conversar com colegas, participar de trabalhos em grupo, responder perguntas em sala de aula, fazer apresentações ou iniciar novas amizades. O foco da ansiedade não é a separação, mas a possibilidade de ser julgada ou humilhada.
Depressão
A depressão pode, em alguns casos, ser confundida com o Transtorno de Ansiedade de Separação porque a criança passa a recusar a escola, isolar-se socialmente, apresentar queixas físicas frequentes ou demonstrar intenso sofrimento ao sair de casa. Em ambas as condições, é comum que o rendimento escolar diminua e que a família perceba uma mudança importante de comportamento.
A principal diferença está na origem desse sofrimento. No Transtorno de Ansiedade de Separação, o medo está relacionado ao afastamento das figuras de apego. A criança costuma sentir-se mais segura quando está com os pais e a ansiedade diminui quando a separação termina.
Na depressão, por outro lado, o problema não é a separação. A criança apresenta tristeza persistente, perda de interesse por atividades que antes lhe davam prazer, redução da energia, irritabilidade, alterações do sono ou do apetite e dificuldade de concentração. Mesmo quando permanece ao lado dos pais, ela continua desanimada e sem interesse pelas atividades habituais.
É importante lembrar que os dois transtornos podem ocorrer simultaneamente, especialmente quando a ansiedade persiste por muito tempo e passa a comprometer a vida escolar, social e familiar.
Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC)
O Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) também pode provocar recusa escolar, ansiedade intensa e dificuldade para permanecer longe dos pais. Em alguns casos, a criança procura constantemente a presença dos responsáveis em busca de segurança ou tranquilização.
Entretanto, no TOC, o principal problema não é a separação, mas a presença de obsessões (pensamentos repetitivos e indesejados) e compulsões (comportamentos repetitivos realizados para aliviar a ansiedade).
Por exemplo, a criança pode sentir necessidade de lavar as mãos repetidamente por medo de contaminação, conferir inúmeras vezes se a porta está fechada ou repetir determinadas ações até sentir que “está tudo certo”. Algumas apresentam pensamentos persistentes de que algo ruim poderá acontecer com os pais, mas essa preocupação faz parte das obsessões características do TOC e costuma vir acompanhada de rituais compulsivos.
No Transtorno de Ansiedade de Separação, por outro lado, o medo está diretamente relacionado ao afastamento das figuras de apego, sem a presença dessas obsessões e compulsões típicas.
Transtorno do Espectro Autista (TEA)
Algumas crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) também apresentam intenso sofrimento diante de mudanças na rotina, dificuldade para frequentar a escola ou grande necessidade da presença dos pais, o que pode levar à suspeita inicial de Transtorno de Ansiedade de Separação.
Entretanto, no TEA, essas dificuldades costumam estar relacionadas principalmente à necessidade de previsibilidade, às alterações da rotina, às dificuldades de comunicação social ou às alterações sensoriais. Muitas crianças apresentam desconforto com ambientes barulhentos, mudanças inesperadas, excesso de estímulos ou dificuldades para interagir com outras crianças – e isso persiste mesmo na presença dos pais.
Além disso, no TEA é comum haver atraso ou diferenças no desenvolvimento da linguagem, dificuldades persistentes de interação social, interesses muito restritos e comportamentos repetitivos, características que não fazem parte do Transtorno de Ansiedade de Separação.
Embora crianças com TEA também possam desenvolver ansiedade de separação, o foco da avaliação médica é identificar qual é a principal causa do sofrimento. Quando o medo está centrado na separação dos pais e é desproporcional para a idade, pode haver um Transtorno de Ansiedade de Separação associado, que deve ser tratado de forma específica.
Como agir diante de um quadro de Transtorno de Ansiedade de Separação?
Conviver com uma criança que sofre de Transtorno de Ansiedade de Separação (TAS) pode ser desafiador. É natural que pais e cuidadores também sintam angústia ao ver o sofrimento do filho. No entanto, algumas atitudes adotadas no dia a dia podem fazer uma grande diferença e contribuir para o sucesso do tratamento.
- Acolha os sentimentos da criança, mas não reforce seus medos
O primeiro passo é mostrar que você compreende o sofrimento da criança. Frases como “Eu sei que você está com medo” ou “Entendo que essa separação é difícil para você” ajudam a criança a se sentir acolhida.
Ao mesmo tempo, evite confirmar os medos ou transmitir a ideia de que realmente existe um perigo. Em vez de dizer “Tudo bem, então você não precisa ir à escola hoje”, prefira mensagens que transmitam confiança, como: “Eu sei que é difícil, mas você consegue. Eu voltarei para buscá-lo no horário combinado.”
O objetivo é validar o sentimento, mas mostrar que a criança é capaz de enfrentar aquela situação.
- Mantenha uma rotina previsível
Crianças ansiosas sentem-se mais seguras quando sabem o que vai acontecer. Sempre que possível, mantenha horários regulares para acordar, ir à escola, brincar, estudar e dormir.
Também é útil criar pequenos rituais de despedida. Um abraço, por exemplo, ajuda a tornar a separação previsível. Depois disso, a despedida deve ser breve e tranquila, evitando prolongar o momento ou voltar várias vezes porque a criança continua chorando. Quanto mais consistente for essa rotina, maior será a sensação de segurança.
- Incentive a autonomia de forma gradual
Superar a ansiedade não significa expor a criança a situações para as quais ela ainda não está preparada, mas também não significa evitar todas as situações que provocam medo.
O ideal é incentivar pequenas conquistas progressivas. Dependendo da idade, isso pode incluir brincar alguns minutos na casa dos avós, participar de uma atividade esportiva, dormir na casa de um familiar de confiança ou permanecer alguns minutos na escola antes da chegada dos pais.
Cada pequena conquista fortalece a autoconfiança da criança e mostra que ela é capaz de lidar com a separação.
- Valorize o esforço, e não apenas o resultado
Nem toda tentativa será perfeita. Algumas crianças conseguem entrar na escola sem chorar em um dia e apresentam dificuldade novamente no dia seguinte.
Em vez de focar apenas no sucesso final, reconheça cada avanço conquistado. Elogiar o esforço, a coragem e a persistência costuma ser muito mais eficaz do que cobrar que a ansiedade desapareça rapidamente.
Pequenos progressos, repetidos ao longo do tempo, são parte esperada do tratamento.
- Ensine estratégias para controlar a ansiedade
Durante os momentos de maior ansiedade, algumas técnicas simples podem ajudar a criança a recuperar a sensação de controle.
Respirar lentamente, contar até dez, imaginar um lugar tranquilo ou identificar aquilo que está sentindo são exemplos de estratégias frequentemente utilizadas durante a psicoterapia e que podem ser praticadas também em casa.
Quanto mais essas técnicas forem treinadas em momentos de calma, mais fácil será utilizá-las quando a ansiedade aparecer.
- Trabalhe em parceria com a escola
A escola tem um papel fundamental no tratamento. Professores e orientadores devem conhecer as dificuldades da criança para oferecer apoio adequado, sem reforçar os comportamentos de evitação.
Sempre que possível, família e escola devem adotar estratégias semelhantes, transmitindo mensagens consistentes e ajudando a criança a enfrentar gradualmente as situações que provocam ansiedade.
Essa parceria costuma acelerar a adaptação e reduzir o sofrimento durante o período escolar.
- Investigue possíveis gatilhos
Embora o Transtorno de Ansiedade de Separação tenha características próprias, algumas situações podem intensificar ou desencadear os sintomas.
Mudanças de escola, conflitos familiares, bullying, dificuldades de aprendizagem, hospitalizações ou acontecimentos traumáticos devem ser investigados, especialmente quando a ansiedade surge de forma repentina em uma criança que anteriormente não apresentava esse comportamento.
Identificar esses fatores permite direcionar o tratamento de forma mais eficaz.
- Tenha paciência e mantenha uma postura confiante
A melhora costuma acontecer de forma gradual. É comum haver dias melhores e dias mais difíceis durante o tratamento.
Pais e cuidadores funcionam como uma importante referência emocional para a criança. Quando transmitem calma, previsibilidade e confiança, ajudam o filho a perceber que a separação é temporária e segura.
Com apoio adequado, a grande maioria das crianças desenvolve autonomia progressivamente e consegue retomar suas atividades normais.
O que não deve ser feito?
Quando uma criança sofre com o Transtorno de Ansiedade de Separação (TAS), é natural que os pais queiram aliviar seu sofrimento o mais rápido possível. No entanto, algumas atitudes bem-intencionadas, ainda que possam ter algum resultado positivo imediato, acabam por reforçar a insegurança da criança.
- Não ridicularize nem minimize os sentimentos da criança
Frases como “Isso é bobagem”, “Você já está muito grande para isso” ou “Pare de chorar” podem fazer a criança sentir que seus sentimentos não são compreendidos.
Embora o medo pareça desproporcional para um adulto, ele é real para a criança. O mais adequado é acolher a emoção, demonstrar compreensão e transmitir confiança de que ela conseguirá enfrentar aquela situação.
- Não permita que a ansiedade controle todas as decisões da família
É comum que os pais passem a evitar qualquer situação que provoque ansiedade na criança. Aos poucos, deixam de sair de casa, cancelam passeios, permitem faltas frequentes à escola ou evitam que ela participe de atividades sem sua presença.
Embora isso alivie o sofrimento naquele momento, acaba reforçando a ideia de que a separação realmente é perigosa.
- Não prolongue as despedidas
Muitos pais acreditam que permanecer mais tempo na escola ou voltar diversas vezes para dar “mais um abraço” ajudará a criança a se acalmar. Na prática, despedidas longas costumam aumentar a ansiedade de ambos.
Depois de um ritual de despedida carinhoso e previsível, o ideal é sair de forma tranquila e confiante, evitando retornar repetidamente porque a criança continua chorando.
- Não saia escondido
Alguns pais preferem desaparecer sem avisar para evitar que a criança chore. No entanto, quando a criança percebe que os pais podem desaparecer sem aviso, tende a permanecer ainda mais vigilante e insegura nas próximas separações, aumentando sua ansiedade. Sempre se despeça, explique que irá embora e diga quando voltará.
- Não faça promessas que não poderá cumprir
Evite dizer frases como “Eu volto em cinco minutos” ou “Você nem vai perceber que fui embora” se isso não corresponde à realidade.
A confiança entre pais e filhos é uma parte importante do tratamento. Sempre que possível, seja sincero e utilize referências que a criança consiga compreender, como: “Depois da aula eu volto para buscar você.”
- Não transforme a ansiedade em motivo de punição
A criança não escolhe sentir medo. Castigos, ameaças ou punições raramente reduzem a ansiedade e podem aumentar ainda mais o sofrimento.
O foco deve ser incentivar comportamentos de enfrentamento, reconhecer pequenos progressos e oferecer apoio para que a criança desenvolva autonomia.
- Não compare a criança com irmãos ou colegas
Cada criança amadurece em seu próprio ritmo. Comparações como “Seu irmão nunca chorou” ou “Todos os seus amigos conseguem ficar na escola” costumam aumentar a vergonha, diminuir a autoestima e não ajudam na superação da ansiedade.
Valorize os avanços da própria criança, mesmo que sejam pequenos.
Tratamento
Antes de iniciar qualquer tratamento, é fundamental que a criança seja avaliada por um pediatra ou por um psiquiatra da infância e da adolescência. Além de confirmar o diagnóstico de Transtorno de Ansiedade de Separação, o médico irá investigar outras condições que podem causar sintomas semelhantes, como bullying, transtorno de ansiedade social, transtorno de ansiedade generalizada, depressão, transtorno do espectro autista, dificuldades de aprendizagem ou mesmo doenças clínicas que provoquem sintomas físicos recorrentes.
Na maioria dos casos, o tratamento combina orientação aos pais, psicoterapia e participação da escola. Em crianças com sintomas mais intensos ou persistentes, o médico também pode indicar o uso de medicamentos.
Psicoterapia
Uma vez confirmado o diagnóstico, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é considerada o tratamento de primeira linha para o Transtorno de Ansiedade de Separação, com excelentes resultados na infância.
Durante as sessões, a criança aprende a identificar seus medos, compreender que muitos deles são desproporcionais ao risco real e desenvolver estratégias para lidar melhor com a ansiedade.
Um dos princípios mais importantes da TCC é a exposição gradual. Em vez de evitar completamente as situações que provocam medo, a criança é incentivada, de forma planejada e respeitando seu ritmo, a enfrentá-las progressivamente. Com o tempo, ela percebe que consegue permanecer longe das figuras de apego com segurança, fazendo com que a ansiedade diminua naturalmente.
O trabalho da escola deve sempre vir acompanhada de mudanças de comportamento em casa ou na escola.
Quando os medicamentos são necessários?
A maioria das crianças melhora apenas com psicoterapia e orientações à família. Entretanto, quando os sintomas são moderados ou graves, persistem apesar da terapia ou provocam prejuízo importante na vida escolar, social ou familiar, o psiquiatra da infância e adolescência pode recomendar o uso de medicamentos.
Os medicamentos mais utilizados pertencem ao grupo dos inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS), como a fluoxetina e a sertralina. Eles ajudam a reduzir a ansiedade e facilitam a participação da criança na psicoterapia.
Esses medicamentos não causam dependência, mas devem ser utilizados apenas sob acompanhamento médico, pois podem provocar efeitos adversos e necessitam de ajustes individuais de dose e acompanhamento regular.
Quanto tempo dura o tratamento?
O tempo de tratamento varia de uma criança para outra e depende da intensidade dos sintomas, da idade, da presença de outros transtornos de ansiedade e da resposta às intervenções.
Muitas crianças apresentam melhora significativa nos primeiros meses de psicoterapia, mas é importante manter o acompanhamento até que a autonomia esteja consolidada e o risco de recaídas seja menor.
Quando o diagnóstico é feito precocemente e o tratamento é iniciado nas fases iniciais do transtorno, a maioria das crianças apresenta excelente evolução. Elas conseguem voltar a frequentar a escola, participar de atividades sociais e desenvolver independência compatível com a idade.
Sem tratamento, porém, o medo da separação pode persistir por anos, favorecer o desenvolvimento de outros transtornos de ansiedade e comprometer o desempenho escolar, as relações sociais e a qualidade de vida da criança e da família.
Referências
FIGUEROA, A.; SOUTULLO, C.; ONO, Y.; SAITO, K. Ansiedade de separação. In Rey JM (ed), IACAPAP e-Textbook of Child and Adolescent Mental Health. (edição em Português; Dias Silva F, ed). Genebra: International Association for Child and Adolescent Psychiatry and Allied Professions, 2015.
ESTANISLAU, G. M.; BRESSAN, R. A. Saúde Mental na Escola: O que os Educadores Devem Saber. Artmed, 2014.
Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5 – 5ª Edição. Disponível em: <https://dislex.co.pt/images/pdfs/DSM_V.pdf> Acesso em 19 set. 2022.