Síndrome Hemolítico-Urêmica
O que é a Síndrome Hemolítico-urêmica?
A síndrome hemolítico-urêmica (SHU) é uma condição grave de origem vascular definida pela tríade clínica de anemia hemolítica, trombocitopenia e lesão renal.
Embora possa acometer pessoas de qualquer idade, ela é muito mais comum em crianças menores de 5 anos de idade. Ela é muito temida por pediatras, devido ao risco de Insuficiência renal caso não seja reconhecida e manejada precocemente. A síndrome é responsável por cerca de 50% das lesões renais agudas em idade pediátrica.
A maior parte dos casos está associada a uma infecção bacteriana, geralmente causada pela bactéria Escherichia coli. Eventualmente pode estar relacionada a outras bactérias ou a condições não infecciosas, incluindo casos secundários a uso de certos medicamentos ou ao tratamento de câncer.
Quais as causas da Síndrome Hemolíttico-urêmica?
Infecções por Escherichia coli
Cerca de 90% dos casos de estão associados a uma infecção pela bactéria Escherichia coli. Algumas destas bactérias produzem uma toxina, responsável pelo dano renal.
A E. Coli pode causar desde uma diarreia leve até casos graves de colite hemorrágica (infecção intestinal sanguinolenta).
O trato gastrointestinal do gado é o principal reservatório da E. Coli. Ela é eliminada nas fazer do gado, contaminando a água e o solo.
Os alimentos mais associados à transmissão destas bactérias são:
- Carne crua ou mal-cozida;
- Sucos
- Leite e seus derivados que não passaram pelo processo de pasteurização ou fervura;
- Hortaliças, legumes, verduras e frutas contaminados por esterco não tratado de animais,
- Água para consumo humano não tratada devidamente com cloro.
Outras infecções
Ainda que a E. Coli seja a principal responsável pela Síndrome Hemolítico urêmica, outras bactérias também precisam ser consideradas, incluindo a Shigella dysenteriae , Campylobacter, Aeromonas e o Enterovirus.
Causas não infecciosas
Eventualmente, a Síndrome Hemolítico-Urêmica pode estar associada a condições não infecciosas que levam a um dano renal, incluindo gravidez, câncer, uso de certos medicamentos ou doença autoimune. Em alguns casos, ela pode estar associada a certas mutações genéticas.
Estas causas não infeciosas devem ser consideradas especialmente no caso da Síndrome Hemolítico-Urêmica na ausência de diarreia.
Quais os sinais e sintomas da Síndrome Hemolítico-urêmica?
A Síndrome hemolítico-urêmica geralmente se inicia após uma colite hemorrágica (infecção intestinal sanguinolenta) causada pela E. Coli.
A colite hemorrágica se caracteriza por:
- Diarreia sanguinolenta.
- Cólicas abdominais fortes
- Náuseas e Vômitos frequentes.
- Febre geralmente baixa ou ausente.
- Sintomas de infecção urinária (cistite): dor ou queimação ao urinar, aumento da frequência urinária, urina turva ou com cheiro forte.
Cerca de 10 a 15% desses pacientes com colite hemorrágica evoluem para a Síndrome Hemolítico-urêmica, geralmente cerca de 5 a 10 dias após o início da diarreia.
Deve-se suspeitar da síndrome (e procurar serviço de emergência médica) se, após um quadro de diarreia com sangue, surgirem os seguintes sinais:
- Redução drástica na frequência urinária.
- Palidez extrema, devido à anemia hemolítica.
- Hematomas ou manchas vermelhas na pele sem causa aparente, indicando plaquetas baixas.
- Cansaço extremo, letargia ou irritabilidade.
- Confusão mental, convulsões ou alteração do nível de consciência.
- Febre alta persistente.
- Inchaço nas pernas, pés, mãos ou rosto.
Deve-se também suspeitar da síndrome Hemolítico Urêmica na presença dos sinais e sintomas acima, mesmo na ausência do quadro infeccioso / diarreia, especialmente em pacientes com outras condições de saúde (especialmente aqueles em tratamento oncológico ou com doenças auto-imunes) ou após o uso de certos medicamentos.
Diagnóstico
O diagnóstico da Síndrome Hemolítico Urêmica pode ser desafiador no âmbito de doenças críticas, especialmente quanto à diferenciação de outras microangiopatias trombóticas que causam anemia hemolítica microangiopática, trombocitopenia e lesão renal aguda.
Os principais diagnósticos diverenciais nesses casos são a Coagulação Intravascular Diceminada (CIVD) e a Púrpura Trombocitopênica Trombótica (PTT).
Do ponto de vista clínico, podemos considerar que:
- PTT: Geralmente idiopática ou associada a doenças autoimunes, sem antecedente infeccioso evidente.
- SHU: geralmente precedida por um quadro de diarreia sanguinolenta.
- CIVD: presença de uma doença de base, como sepse, câncer, choque ou complicações obstétricas.
Na tabela abaixo, mostramos as principais diferenças laboratoriais entre essas condiçòes:
| Doença de Base | Síndrome Hemolítico Urêmica (SHU) | Púrpura Trombocitopênica Trombótica (PTT) | Coagulação Intravascular Disseminada (CIVD) |
| Contagem de Plaquetas | Reduzida | Reduzida | Reduzida |
| Anemia Hemolítica Microangiopática | Presente | Presente | Presente |
| TP (INR) | Normal | Normal | Aumentado |
| TTPA | Normal | Normal | Aumentado |
| Fibrinogênio | Normal | Normal | Reduzido |
| D-dímero | Normal | Normal | Aumentado |
| Atividade do ADMATS13 | Normal | Reduzido |
O primeiro passo na investigação desses pacientes é avaliar se o paciente apresenta anormalidades de coagulação (pela testagem laboratorial do TP e o TTPA). Quando esses exames estão alterados, devemos pensar em CIVD.
Por outro lado, exames de coagulação normais nos leva a pensar em Púrpura Trombocitopênica Trombótica ou Síndrome Hemolítico Urêmica. Do ponto de vista clínico, na PTT geralmente há um quadro neurológico mais evidente, mas com disfunção renal mais leve. J[a na SHU a insuficiência renal tende a ser bem mais grave.
Além disso, a diferenciação pode ser feita por meio da avaliação da Atividade do ADMATS13. A ADAMTS13 é uma enzima que cliva o fator de von Willebrand. Níveis de atividade inferiores a 10% indicam deficiência grave, confirmando Púrpura Trombocitopênica Trombótica. Quando a atividade enzimática está normal, fica caracterizada a Síndrome Hemolítico Urêmica.
Tratamento da Síndrome Hemolítico-Urêmica
O tratamento da Síndrome Hemolítico-Urêmica consiste em um conjunto de medidas de suporte, geralmente em unidade de terapia intensiva (UTI).
Transfusões de concentrado de hemácias conforme necessário para anemia sintomática. No entanto, a transfusão de plaquetas deve ser evitada, a menos que haja indicações clínicas com risco de vida, como hemorragia intracraniana.
Tratamentos específicos podem ser indicados em alguns casos, incluindo a plasmaférese (remoção de plasma do sangue) e o uso do Eculizumab, um anticorpo monoclonal.
Nos pacientes com danos permanentes ao fígado ou rim, pode ser considerada a realização de transplante hepático ou transplante renal.
Qual o prognóstrico da Síndrome Hemolítico-urêmica?
A mortalidade durante os eventos iniciais dos pacientes com a Síndrome Hemolítico Urêmica é de cerca de 8 a 10%.
Cerca de 10% dos pacientes evolui com necrose cortical aguda e insuficiência renal irreversível. Estes pacientes podem necessitar de hemodiálise pelo restante da vida ou de um transplante renal.