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Racismo no esporte

Infelizmente, o racismo no esporte é uma realidade que não está presente neste campo apenas nos dias atuais. Pelo contrário. É algo que faz parte da vida de jovens atletas há décadas, o que denuncia uma necessidade emergente de a sociedade agir de forma mais rigorosa frente aos casos de racismo, bem como traz à tona de conscientizarmos cada vez mais as pessoas, quebrando estigmas e estereótipos que maltratam e matam devido à cor de pele da pessoa.

Obviamente, e infelizmente, essa não é uma tarefa fácil que contém algum passo a passo infalível. Ainda assim, podemos ter em mente algumas atitudes que possam contribuir nessas situações.

Neste texto, elencamos algumas considerações relevantes sobre isso. Acompanhe e venha refletir conosco.

O embranquecimento no esporte

Antes de pensarmos em formas de começarmos a fomentar uma sociedade mais justa e antirracista, é importante criarmos a consciência de que o racismo no esporte não é algo atual. Na realidade, é algo que está presente há muito tempo, e podemos pensar em como a psicologia já foi usada de forma negativa para fomentar ainda mais os comportamentos racistas.

Na década de 1950, a Seleção Brasileira de Futebol passava por um caso grave de racismo. Devido à perda em uma das Copas do Mundo, a equipe técnica da Seleção contratou um psicólogo para que aplicasse testes psicológicos nos jogadores que seriam escalados para os jogos de 1958. Dentre esses jogadores, estavam Pelé e Garrincha.

O psicólogo constatou que o QI desses dois jogadores estava “abaixo” do que seria ideal – dando a entender que eles deveriam ser “cortados” da Seleção. Em consequência desse ato e do racismo que já operava naquele tempo, a Seleção “embranqueceu”, tirando os jogadores negros do grupo de titulares e deixando-os de fora da participação inicial da Copa. Assim, diferentemente do que acontecia em outras Copas, apenas um jogador negro foi escalado, o Didi.

Ironicamente, mais tarde, naquela mesma Copa do Mundo (de 1958), os jogadores negros entraram em campo, apesar da tentativa de embranquecer o esporte brasileiro. Como consequência, foi conquistada a taça da Copa do Mundo daquele ano.

Isso deixou evidente o fato de que a tentativa de cortar os negros da Seleção era puramente racista. Dar a entender que os negros não possuiam capacidade psicológica para jogar fomentava a ideia de que os brancos, nesse e em tantos outros contextos, eram superiorides.

Por isso, quando pensamos no racismo no esporte, devemos ter uma visão mais ampla de tudo o que ele já provocou na vida das pessoas negras. Assim, poderemos fazer com que a população conheça essas histórias e perceba, nesses discursos, o quanto o racismo é extremamente inadmissível. Afinal, a cor da pele de uma pessoa nunca irá descrever o seu potencial ou caráter.

Como enfrentar situações de racismo no esporte?

Apesar de não existir uma forma infalível de enfrentar as situações de racismo no esporte, podemos pensar em alguns pontos que devem ser levados em conta, como o caso de punição, a conscientização e assim por diante. A seguir, descrevemos alguns pontos que partem dessas ideias:

1. Denúncias jurídicas
As denúncias jurídicas são extremamente importantes e não devem ser negligenciadas. Os comentários racistas não devem ser descritos como “não foi bem assim” e jamais devem ser diminuídos. Quem é vítima de racismo sabe que não existe frase “aceitável”, seja no campo esportivo ou em qualquer outro espaço social.
Por isso, é fundamental e importantíssimo que as denúncias ocorram e que os racistas sejam responsabilizados por seus atos. Caso nada seja feito, o comportamento racista poderá ser cada vez mais fortalecido na sociedade.

2. Trazer à tona os casos de racismo
Além de denunciar os casos, é interessante trazer à tona as situações que aconteceram. Não necessariamente é preciso falar sobre a vítima e sobre quem sofreu, mas, sim, é importantíssimo discutir o discurso racista que foi proferido e as consequências de tal ato, para que as pessoas saibam o quanto o racismo é inadmissível e apresenta resultados devastadores.
Assim, há uma maior conscientização quanto às consequências do problema para que as pessoas com comportamentos racistas sejam cada vez mais desencorajadas de atuar de tal forma, pois saberão que pagarão por isso.

3. Fomentar campanhas de conscientização racial
A sociedade e a equipe técnica no geral podem desenvolver campanhas de conscientização racial nos espaços esportivos. Assim sendo, se todo mundo trazer essa discussão para o dia a dia e fomentar conceitos importantes que trazem à tona a luta contra o racismo no esporte, torna-se viável a construção de um mundo que venha a ser mais justo.
Por isso, é interessante investir em trabalhos que fortaleçam a representatividade, que permitam que os negros falem sobre o racismo que sofrem e suas consequências na sociedade, e outras ações que conscientizem a população sobre o quanto o racismo é inadmissível e quais são as punições para tais atos.

4. Trabalho focado na equipe
Dentro do ambiente esportivo, é interessante fortalecer o trabalho em equipe em todos os setores. A união entre os atletas e o incentivo para a criação de laços de companheirismo, sem tanto individualismo, também pode criar um ambiente mais acolhedor para todos os indivíduos.
Esse suporte emocional pode fazer a diferença frente aos casos de racismo vividos no cotidiano, pois a pessoa perceberá que possui apoio e consideração dos colegas, encontrando um acolhimento que pode fazer a diferença na hora de enfrentar situações difíceis.
Inclusive, esse trabalho em equipe também pode ser bastante benéfico em casos de fracasso no esporte, e não apenas em situações de racismo.

5. Quebra de estigmas e estereótipos racistas
Quebrar os estigmas envolvidos com os discursos racistas é muito importante. Ouvir algo como “ele é mais rápido porque é negro” é muito comum, e deve ser quebrado diante da vida em sociedade.
Esses estereótipos que caracterizam os negros com traços X ou Y, sem contato com a realidade e apenas com o propósito de colocá-los em um “pacote” devem ser, a todo momento, desmontados e quebrados.
Por isso, caso ouça algum comentário nesse sentido, conscientize a pessoa sobre o quanto isso é racista e não têm relação com a realidade.

Como o atleta pode lidar com o racismo no esporte?

Sabemos que o atleta que sofre com o discurso racista irá enfrentar grandes desafios emocionais, infelizmente. Por isso, trouxemos alguns apontamos que podem ser relevantes na hora de refletir sobre o assunto. Veja:

1. Acompanhamento psicológico
O acompanhamento psicológico pode ser uma peça-chave na hora de enfrentar situações de racismo no esporte. O psicólogo poderá escutá-lo, ajudando-o a enfrentar as questões difíceis que podem nascer de uma situação de discriminação.
A inteligência emocional e a autoestima também são trabalhadas, encorajando o indivíduo a seguir adiante apesar dos comentários ignorantes das outras pessoas.
O acolhimento profissional também faz diferença e pode ajudar o indivíduo a enfrentar a angústia, a tristeza e até mesmo a raiva que a ocasião provoca.

2. Não aceitar a fala alheia como verdade
Nunca, em hipótese alguma , aceite o comentário alheio como uma verdade. Os comentários racistas nunca têm relação com a verdade. São apenas estereótipos e estigmas criados por pessoas de mau caráter.
Ou seja, jamais aceite que o comentário racista abale a sua verdade interior. Você sabe quem é, quais são as suas qualidades e forças, e não será a fala de uma pessoa que poderá ou terá o direito de destruir isso.
Inclusive, nesses casos, a psicoterapia pode ajudá-lo também, pois fortalece essa ideia de que a fala alheia não diz respeito a quem você é.

3. Construir uma rede de apoio
Construir uma rede de apoio também pode ser um caminho promissor frente aos problemas de racismo no esporte. Essa rede de apoio pode ser a família, os colegas de clube, entre outras pessoas que o ajudem a enfrentar a situação com acolhimento e fortalecimento emocional.
Você não precisa enfrentar essa adversidade sozinho. Contar com a ajuda de pessoas queridas pode aumentar a sua segurança frente a esse tipo de situação tão difícil.

4. Cuidar da própria autoestima
A sua autoestima também pode ser trabalhada em situações como essa e no dia a dia de forma geral. Não permita que o comentário alheio minimize a pessoa incrível que você é. Não é o comentário de um racista que terá o direito de quebrar a autoestima que você possui.
Portanto, foque nas suas qualidades, ame a si mesmo e veja o quanto você é bom no que faz e o quanto o seu trabalho no esporte é algo que o realiza. Os comentários alheios dizem respeito aos outros, e não a quem você é.
Cuide da sua autoestima cercando-se de pessoas justas e que você ama. Aproxime-se de quem valoriza quem você é e denuncie aqueles que tentam menosprezar a sua existência com base na cor de pele. Lembre-se de que racismo é crime e não diz respeito à realidade. Ou seja, o comentário maldoso do outro é crime e não uma verdade sobre você.

5. Buscar apoio judicial
Não se esqueça de que é importante buscar ajuda judicial em situações de racismo no esporte e na vida de forma geral. A pessoa que comete atos racistas precisa ser responsabilizada e deve pagar pelo o que fez. Portanto, buscar ajuda judicial é muito importante!
Evite deixar passar batido, pois isso pode apenas fomentar a repetição de comportamentos racistas na sociedade.
Porém, sabemos que nem sempre é fácil enfrentar a situação e denunciar um caso de racismo. Nesse cenário, não se esqueça de que a rede de apoio e a psicoterapia podem ajudar.

Como o treinador pode auxiliar em casos de racismo no esporte?

Além de toda a equipe técnica e a própria vítima poderem colocar em prática algumas questões que ajudem na hora de enfrentar o racismo no esporte, há ainda o papel do treinador nesse cenário. Abaixo trouxemos algumas recomendações e reflexões:

1. Apoio à vítima
O apoio à vítima deve acontecer de forma incondicional. Jamais diminua a dor que a pessoa possa estar sentindo, e ofereça apoio para que ela fale, chore, etc. Esse apoio é muito importante e pode fazer toda a diferença na hora de o indivíduo enfrentar a situação na justiça, por exemplo.
Nunca invalide dizendo que foi algo bobo ou superficial, pois o racismo nunca é bobo ou superficial.
Lembre-se de que se trata de algo que fere profundamente as emoções de uma pessoa. Portanto, ter uma postura empática e acolhedora faz toda a diferença. Inclusive, fomente e incentive a busca por apoio psicológico.

2. Denúncia
Se você presenciou um caso de racismo, denuncie! Não permita que a impunidade aumente os casos de discursos racistas no esporte. Se você está diante de um acontecimento desse tipo, é muito importante buscar apoio judicial para que as medidas cabíveis sejam tomadas adequadamente.
Inclusive, procure encorajar a vítima para que ela faça a denúncia, pois em muitos casos ela pode se sentir constrangida e desencorajada de ir adiante. Apoiá-la nesse processo pode fazer a diferença.

3. Conscientização da equipe
Conscientizar a equipe para que possam detectar casos de racismo e o que pode ser feito nessas situações também é um caminho promissor. Ensinar as pessoas a enfrentarem esse tipo de problema pode fazer com que haja uma movimentação muito maior por trás de episódios de racismo no esporte.
Se possível, contrate especialistas no assunto para que a discussão seja levantada no ambiente esportivo com base em dados e informações realmente concretas e reais.

4. Buscar visibilidade
Busque visibilidade para os casos de racismo. Levar as situações para a grande mídia é uma forma de combater o preconceito, ajudando a sociedade a enxergar como tais comportamentos são negativos e como eles são punidos no cotidiano.
Trazer à tona esses dados pode ajudar as pessoas a perceberem que quando falamos de racismo não estamos falando de algo “bobo” ou “que não existe”. Mas, sim, estamos falando de algo que vem acontecendo em nossa sociedade de uma forma recorrente, o que exige uma atuação ativa de todas as pessoas para que haja um enfrentamento do problema.
Dessa maneira, buscar a visibilidade também cria uma pressão maior nos órgãos responsáveis pela investigação e punição nos casos de racismo no esporte e nas demais áreas da sociedade.

Conclusão

Infelizmente, o racismo no esporte ainda é muito emergente e traz à tona a necessidade de discutirmos o assunto. Embora não existam métodos infalíveis para lidar com o problema, devemos discuti-lo para encontrarmos caminhos que possam ajudar a minimizar esse tipo de comportamento na sociedade.

Além disso, falar sobre o assunto conscientiza e reprime comportamentos criminosos de pessoas racistas. Sendo assim, convidamos você para compartilhar este conteúdo e continuar essa discussão no seu círculo social.

Se todos nós fizermos a nossa parte, estaremos construindo um mundo melhor. E lembre-se: em casos de racismo, denuncie e busque ajuda psicológica caso necessário.

Referências
TRALCI FILHO, Marcio Antonio; SANTOS, Alessandro de Oliveira dos. Esporte, Psicologia e Racismo: É Possível uma Psicologia do Esporte Antirracista?. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 40, 2021.