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Plagiocefalia

O que é a Plagiocefalia?

A plagiocefalia é uma deformidade caracterizada pelo achatamento de uma região do crânio do bebê, geralmente em apenas um dos lados da parte posterior da cabeça.

Trata-se de uma condição relativamente comum nos primeiros meses de vida, especialmente em bebês que permanecem por longos períodos com a cabeça apoiada sempre sobre a mesma região.

Muitos pais percebem inicialmente que a cabeça da criança parece assimétrica quando observada de cima. O achatamento costuma ocorrer em um dos lados da região occipital (parte de trás da cabeça), podendo fazer com que a orelha do mesmo lado fique discretamente mais avançada. Em alguns casos, também pode haver uma leve assimetria da testa, fazendo com que a cabeça adquira um formato semelhante a um paralelogramo.

A plagiocefalia pode estar presente desde o nascimento, especialmente em situações nas quais houve pouco espaço para movimentação do bebê dentro do útero, como ocorre em algumas gestações múltiplas ou em determinadas posições fetais. Entretanto, a maioria dos casos se desenvolve após o nascimento, durante os primeiros meses de vida.

Apesar da alteração estética poder causar preocupação, a plagiocefalia posicional geralmente não interfere no crescimento do cérebro nem no desenvolvimento intelectual da criança. O principal desafio é diferenciá-la da craniossinostose, uma condição mais rara e potencialmente mais grave, causada pelo fechamento precoce das suturas do crânio.

Plagiocefalia Vs. Craniossinostose

A plagiocefalia posicional deve ser diferenciada da craniossinostose.

Esta é uma condição rara, porém mais grave, decorrente do fechamento prematuro da articulação entre dois diferentes ossos do crânio.

A craniossinostose pode se formar em diferentes áreas do crânio.

A diferenciação entre elas é feita através de exame clínico e, se necessário, exames de imagem, como ultrassom ou tomografia de crânio.

Do ponto de vista clínico, o achatamento da plagiocefalia é mais flexível, se parecendo mais com um “amassado” suave na cabeça.

Já a craniossinostose é mais rígida e assimétrica, uma linha óssea proeminente e dura no local de fechamento da sutura. Dependendo da sutura acometida, ela pode provocar assimetria da testa, deslocamento das órbitas ou alterações mais marcantes do formato craniano.

Na tabela abaixo, mostramos as principais diferenças entre as duas condições:

CaracterísticaPlagiocefalia PosicionalCraniossinostose
O que é?Deformidade causada por pressão externa prolongada sobre uma região do crânio ainda maleável.Fechamento precoce de uma ou mais suturas cranianas.
FrequênciaRelativamente comum nos primeiros meses de vida.Rara, ocorrendo em aproximadamente 1 a cada 2.000 a 2.500 nascidos vivos.
Momento de aparecimentoGeralmente surge após o nascimento, nas primeiras semanas ou meses de vida.Pode estar presente ao nascimento ou tornar-se mais evidente nos primeiros meses.
Local do achatamentoHabitualmente em apenas um lado da parte posterior da cabeça.Depende da sutura acometida.
Formato da cabeça visto de cimaFrequentemente lembra um paralelogramo.Varia conforme a sutura afetada; pode haver deformidades mais rígidas e características.
OrelhasA orelha do mesmo lado do achatamento costuma ficar discretamente mais anteriorizada.A posição das orelhas varia conforme a sutura acometida e geralmente não segue o padrão típico da plagiocefalia.
TestaPode apresentar discreta proeminência do mesmo lado do achatamento.Pode haver assimetria mais evidente da testa e das órbitas, especialmente nas sinostoses coronais.
Palpação do crânioO achatamento costuma ser suave, sem saliências ósseas rígidas.Pode haver uma crista óssea endurecida sobre a sutura fechada precocemente.
Mobilidade das suturasPreservada.Reduzida ou ausente na sutura acometida.
Associação com torcicoloRelativamente frequente.Incomum.
Risco para o desenvolvimento cerebralGeralmente não interfere no crescimento cerebral.Algumas formas podem comprometer o crescimento adequado do crânio e aumentar a pressão intracraniana.
PrognósticoExcelente, com melhora espontânea ou com medidas conservadoras na maioria dos casos.Geralmente bom quando diagnosticada e tratada precocemente.

Qual a causa da plagiocefalia?

O crânio humano é formado por seis ossos principais: etmóide, frontal, occipital, parietal, esfenóide e temporal.

Esses ossos são inicialmente unidos pelas suturas cranianas, que são estruturas flexíveis e que permitem o crescimento adequado do cérebro e do crânio. Por outro lado, as suturas também tornam a cabeça do bebê mais suscetível a deformidades provocadas por pressões externas prolongadas.

Essas suturas permanecem flexíveis durante a infância, fundindo-se gradativamente com o crescimento até que passam a funcionar como um osso único nos adultos (1).

A plagiocefalia pode se desenvolver no bebê que fica muito tempo deitado sem mudar a posição da cabeça.

Em 1992, a Academia Americana de Pediatria lançou a recomendação de que os bebês deveriam dormir com a barriga para cima, para reduzir o risco de morte súbita infantil.

Ainda que esta campanha tenha de fato se mostrado efetiva para a redução no número de casos de morte súbita infantil, foi observado um aumento significativo nos casos de plagiocefalia posicional.

Como evitar a plagiocefalia?

A plagiocefalia posicional nem sempre pode ser evitada. No entanto, algumas medidas simples ajudam a reduzir significativamente o risco.

  1. Coloque o bebê sempre para dormir de barriga para cima

Esta continua sendo a recomendação mais importante para a prevenção da morte súbita infantil. Dormir de barriga para cima é seguro e não deve ser substituído por outras posições na tentativa de evitar a plagiocefalia.

  1. Alterne o lado para o qual a cabeça fica voltada

Embora o bebê permaneça de barriga para cima, procure variar delicadamente a posição da cabeça durante o sono, alternando entre o lado direito e o esquerdo sempre que possível.

  1. Faça períodos supervisionados de barriga para baixo (“tummy time”)

Enquanto o bebê estiver acordado e sob supervisão constante de um adulto, coloque-o de barriga para baixo por alguns minutos, várias vezes ao dia. Essa prática fortalece a musculatura do pescoço, dos ombros e do tronco, além de reduzir o tempo de pressão sobre a parte posterior da cabeça.

O tummy time deve ser iniciado desde as primeiras semanas de vida, de forma gradual,  com períodos de 3 a 5 minutos, duas a três vezes ao dia. O tempo e a frequência podem aumentar progressivamente conforme o bebê tolera melhor a posição.

  1. Estimule o bebê a olhar para os dois lados

Posicione brinquedos, móbiles, luzes ou interaja com o bebê alternando os lados do berço e do ambiente, incentivando-o a movimentar a cabeça em diferentes direções.

  1. Evite longos períodos em bebê conforto e cadeirinhas

Esses dispositivos são importantes para o transporte seguro, mas não devem ser utilizados por tempo prolongado fora dessas situações, pois mantêm pressão contínua sobre a mesma região do crânio.

  1. Observe se há preferência persistente por um lado

Se o bebê parece olhar sempre para o mesmo lado ou apresenta dificuldade para girar o pescoço, converse com o pediatra. Algumas crianças apresentam torcicolo congênito, condição que aumenta o risco de plagiocefalia e pode se beneficiar de fisioterapia precoce.

A maior parte dos casos de plagiocefalia pode ser prevenida ou minimizada com essas medidas simples. Além disso, a avaliação do formato da cabeça deve fazer parte das consultas de rotina do bebê, permitindo a identificação precoce e a orientação adequada quando necessário.

Diagnóstico da Plagiocefalia

O diagnóstico geralmente é feito através do exame clínico por um pediatra ou neuropediatra.

A avaliação do formato da cabeça deve fazer parte de toda a consulta de rotina do bebê.

Exames de imagem raramente são necessários. Quando há dúvida diagnóstica, especialmente para afastar craniossinostose, podem ser utilizados ultrassonografia das suturas cranianas ou tomografia computadorizada em casos específicos.

A mobilidade do pescoço do bebê também pode ser examinada para ver se há alguma restrição que esteja contribuindo para que o bebê fique deitado em uma posição mais do que em outra.

Quais as consequências da plagiocefalia?

Na maioria dos casos, a plagiocefalia não afeta o crescimento cerebral ou o desenvolvimento mental normal da criança.

Uma vez que a criança consiga sentar e ficar em pé, as forças externas que provocam a deformidade deixam de agir e a deformidade começa a melhorar.

Ainda que uma deformidade residual possa persistir, ela se torna menos perceptível com o crescimento do cabelo e à medida em que a criança cresce.

Em casos de deformidades graves, quando o achatamento não resolvido provoca deformidades faciais, podem ocorrer problemas de mastigação, alimentação e visão.

Tratamento

O tratamento da plagiocefalia depende da idade do bebê, da gravidade da deformidade e da presença de fatores associados, como o torcicolo congênito. Na maioria dos casos, medidas simples são suficientes para promover melhora significativa do formato da cabeça.

A primeira etapa do tratamento consiste na adoção de medidas de reposicionamento, com o objetivo de reduzir a pressão contínua sobre a região achatada do crânio. Entre as principais orientações incluem-se:

  • Alternar regularmente o lado para o qual a cabeça do bebê fica voltada durante o sono, mantendo sempre a recomendação de que ele durma de barriga para cima;
  • Estimular o bebê a olhar para os dois lados, mudando a posição do berço, dos brinquedos e da fonte de estímulos visuais;
  • Reduzir o tempo prolongado em bebê conforto, cadeirinhas e outros dispositivos que mantenham pressão contínua sobre a parte posterior da cabeça;
  • Incentivar períodos supervisionados de permanência de barriga para baixo (“tummy time”) enquanto o bebê estiver acordado, fortalecendo a musculatura do pescoço e reduzindo o tempo de apoio sobre o crânio.

Nos bebês com torcicolo congênito ou limitação dos movimentos do pescoço, a fisioterapia pode ser fundamental para restaurar a mobilidade cervical e evitar que a criança mantenha preferência persistente por um mesmo lado.

Nos casos leves a moderados, especialmente quando identificados precocemente, essas medidas costumam ser suficientes para promover melhora progressiva da deformidade ao longo dos meses seguintes.

Nos casos com assimetria moderada a grave, ou quando não há melhora satisfatória com as medidas conservadoras, pode ser considerado o uso de órteses cranianas, popularmente conhecidas como capacetes.

O princípio do tratamento com capacete é direcionar o crescimento natural do crânio. O dispositivo é confeccionado sob medida para cada bebê, criando espaço nas áreas achatadas e limitando suavemente a expansão das regiões mais proeminentes, favorecendo uma remodelação gradual da cabeça.

Os melhores resultados são obtidos quando o tratamento é iniciado entre os 4 e os 6 meses de idade, período em que o crescimento craniano é mais acelerado. Em geral, o capacete é utilizado por aproximadamente 2 a 6 meses, com ajustes periódicos realizados pelo especialista.

Após os 12 meses de idade, o benefício das órteses tende a ser significativamente menor devido à desaceleração do crescimento do crânio. Por esse motivo, a avaliação precoce é importante para definir quais crianças realmente podem se beneficiar desse tipo de tratamento.

Felizmente, a maioria dos bebês com plagiocefalia posicional apresenta melhora importante apenas com reposicionamento, tummy time e, quando necessário, fisioterapia, sem necessidade de órteses ou outros tratamentos mais complexos.

Qual o prognóstico da plagiocefalia?

O prognóstico da plagiocefalia posicional é geralmente excelente. Na grande maioria dos casos, a deformidade melhora progressivamente ao longo dos primeiros anos de vida, sem causar prejuízos ao crescimento do cérebro ou ao desenvolvimento intelectual da criança.

Os melhores resultados costumam ser observados quando a condição é identificada precocemente, ainda nos primeiros meses de vida. À medida que o bebê passa a sustentar melhor a cabeça, sentar, engatinhar e permanecer mais tempo em posições variadas, a pressão contínua sobre a região achatada diminui e o formato do crânio tende a se tornar mais simétrico.

Em situações raras, quando a deformidade é muito acentuada e persiste sem tratamento, podem ocorrer alterações estéticas mais evidentes e, ocasionalmente, assimetrias faciais que podem interferir na oclusão dentária ou no alinhamento dos olhos. No entanto, essas complicações são incomuns.

De modo geral, a plagiocefalia posicional não interfere na inteligência, na aprendizagem ou no desenvolvimento global da criança. Alguns estudos observaram maior frequência de atrasos motores leves em crianças com plagiocefalia; entretanto, ainda não está claro se a deformidade é a causa direta dessas alterações ou se representa apenas um marcador de crianças com maior vulnerabilidade ao atraso do desenvolvimento. Por esse motivo, o acompanhamento do desenvolvimento infantil continua sendo importante durante as consultas de rotina.