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Otite Média Serosa (com Efusão)

O que é a Otite Média Serosa (com Efusão)?

A Otite Média com Efusão (OME), também conhecida como otite serosa ou otite secretora, é uma das causas mais comuns de perda auditiva temporária na infância. Ela ocorre quando há acúmulo de líquido no ouvido médio, atrás da membrana do tímpano, sem sinais de infecção aguda.

Diferentemente da otite média aguda, a OME geralmente não causa febre nem dor intensa, mas pode comprometer a transmissão dos sons, provocando diminuição da audição e sensação de ouvido tampado.

Na maioria dos casos, a OME surge após um episódio de otite média aguda, quando a infecção já foi resolvida, mas o líquido permanece retido no ouvido médio. Ela também pode estar relacionada à disfunção da tuba auditiva, rinite alérgica, hipertrofia da adenoide (“carne esponjosa”) e outras condições que dificultam a ventilação adequada do ouvido médio.

Embora possa ocorrer em qualquer idade, a otite média com efusão é muito mais fcomum em crianças, especialmente entre 1 e 3 anos de idade, período em que a tuba auditiva ainda é mais curta, estreita e horizontal. Estima-se que cerca de 80 a 90% das crianças apresentem pelo menos um episódio antes dos 10 anos de idade, tornando essa uma das doenças mais comuns da infância.

Felizmente, na maioria dos casos, o líquido desaparece espontaneamente ao longo de semanas ou meses, com recuperação completa da audição. No entanto, quando a efusão persiste por um período prolongado, principalmente durante os primeiros anos de vida, pode interferir no desenvolvimento da fala, da linguagem e da aprendizagem, motivo pelo qual algumas crianças necessitam de acompanhamento pelo otorrinolaringologista.

Quem é mais acometido pela Otite Media Serosa?

A Otite Média Serosa acomete tanto crianças como adultos. No entanto, devido à posição mais horizontal da tuba, é mais comum em crianças, especialmente entre 1 e 6 anos de idade. À medida que a criança se desenvolve até se tornar adulta, a tuba se alonga e se angula caudalmente, diminuindo o risco da doença.

O risco é maior naquelas que usam mamadeira, especialmente na posição deitada. Crianças com fenda palatina ou com Síndrome de Down também apresentam risco mais elevado. Outro fator de risco é o tabagismo passivo.

Tanto em adultos como em crianças há uma associação com quadros alérgicos, especialmente a Rinite Alérgica, ou com infecções das vias aéreas superiores.

Apresentação clínica

A dor no ouvido pode ou não estar presente. Quando presente, tende a ser intermitente.

A sensação de plenitude ou ouvido comum é a queixa mais comum, podendo levar também à perda auditiva. Crianças mais novas podem ter dificuldade para dizer que não está escutando bem ou que estão com o ouvido entupido. Asssim, o diagnóstico em alguns casos demora a ser feito.

O esforço da criança para se comunicar aumenta, podendo deixa-la mais irritada e desatenta. O desenvolvimento da fala e da linguagem pode em alguns casos ser comprometido.

A Otite Média Serosa pode também ser percebida durante a otoscopia em uma avaliação de rotina com o pediatra, que observa uma opacificação da membrana timpânica e perda do reflexo de luz. Também pode haver uma retração da membrana timpânica com mobilidade reduzida.

Quando suspeitar da Otite Média com Efusão?

A suspeita de otite média com efusão (OME) deve ser feita quando a criança apresenta redução da audição ou sensação de ouvido tampado por semanas, geralmente sem dor e sem febre.

Na maioria dos casos, ela surge após um episódio de otite média aguda, quando a infecção já foi resolvida, mas o líquido permanece acumulado atrás do tímpano.

Em crianças pequenas, que muitas vezes não conseguem relatar perda auditiva, os sinais costumam ser indiretos. Os pais podem perceber que a criança aumenta muito o volume da televisão, pede para repetir o que foi dito, parece desatenta, responde apenas quando chamada em voz alta ou apresenta queda no rendimento escolar.

Lactentes podem parecer menos responsivos aos sons ou atrasar a aquisição da fala e da linguagem quando a efusão persiste de forma prolongada.

A suspeita também deve ser considerada em crianças com otites de repetição, rinite alérgica, hipertrofia da adenoide (“carne esponjosa”), fissura palatina ou outras condições que favoreçam a disfunção da tuba auditiva.

Como os sintomas costumam ser discretos, muitas crianças permanecem semanas ou meses com líquido no ouvido sem que o problema seja percebido.

Quais as consequências da Otite Média com Efusão?

Na maioria das crianças evolui muito bem, recuperando completamente a audição após a resolução da efusão, ainda ssim, o acompanhamento com o otorrinolaringologista é fundamental, pelo risco eventual de complicações.

Perda Auditiva Temporária

O acúmulo de líquido no ouvido médio faz com que as vibrações sonoras cheguem com menor intensidade ao ouvido interno, provocando uma perda auditiva condutiva temporária, geralmente de grau leve a moderado (em torno de 20 a 30 decibéis). Embora essa redução da audição seja reversível na maior parte dos casos, ela pode causar dificuldades importantes quando persiste por muito tempo.

Atraso no Desenvolvimento da Linguagem

Nos primeiros anos de vida, período em que a criança está desenvolvendo a fala e a linguagem, a diminuição da audição pode dificultar a percepção dos sons da fala, favorecendo atraso no desenvolvimento da linguagem, aumento do vocabulário mais lento e dificuldades de articulação das palavras.

Piora no rendimento escolar

Em crianças maiores, a perda auditiva pode se manifestar como queda do rendimento escolar, dificuldade para acompanhar as aulas, necessidade de aumentar o volume da televisão ou pedir frequentemente que as pessoas repitam o que disseram. Esses problemas costumam ser mais evidentes quando a efusão acomete os dois ouvidos ou persiste por vários meses.

Alterações estruturais no ouvido

Quando a efusão persiste por um longo período, podem ocorrer alterações estruturais da membrana timpânica, como atelectasia (retração do tímpano), formação de bolsas de retração e, mais raramente, desenvolvimento de um colesteatoma adquirido, uma complicação incomum, porém potencialmente grave, que pode provocar destruição das estruturas do ouvido médio e perda auditiva permanente. Felizmente, essas complicações são incomuns e geralmente podem ser evitadas com o acompanhamento adequado pelo otorrinolaringologista.

Diagnóstico

O diagnóstico da Otite Média com Efusão (OME) deve ser considerado especialmente na criança com perda auditiva, sensação de ouvido tampado ou dificuldade para ouvir por várias semanas, especialmente após um episódio de otite média aguda.

Otoscopia

O exame mais importante é a otoscopia, na qual o médico observa a membrana timpânica com um aparelho iluminado chamado otoscópio. Na OME, o tímpano costuma apresentar aspecto opaco, perda do brilho normal e diminuição da mobilidade.

Em alguns casos, é possível visualizar um nível de líquido ou pequenas bolhas de ar atrás da membrana, confirmando a presença de efusão.

Sempre que disponível, a otoscopia pneumática é considerada o método clínico mais preciso para confirmar o diagnóstico. Nesse exame, o médico utiliza um otoscópio especial que aplica um pequeno jato de ar sobre o tímpano. Como existe líquido no ouvido médio, a membrana apresenta mobilidade reduzida, um dos principais sinais da doença.

Timpanometria

Outro exame bastante útil é a timpanometria, que mede a movimentação da membrana timpânica e ajuda a confirmar a presença de líquido no ouvido médio. Embora não substitua a otoscopia, esse é um importante exame complementar, especialmente quando o diagnóstico é duvidoso ou quando se deseja acompanhar a evolução da doença ao longo do tempo.

Todo paciente diagnosticado com Otite Média Serosa deve passar por uma avaliação da audição. Dependendo da idade e da capacidade de cooperação, exames como a Audiometria ou o BERA podem ser indicados.

Avaliação da Audição

Audiometria

Durante o teste de audiometria, o paciente usa fones de ouvido, com os sons sendo direcionados para um ouvido de cada vez. Uma gama de sons é apresentada ao paciente em vários tons. O paciente tem que sinalizar cada vez que um som é ouvido.

Cada som ou palavra é apresentado em vários volumes, para que que seja determinado qual o menor volume que o paciente é capaz de escutar.

Como é um exame que depende da colaboração do paciente, crianças muito novas não estão prontas para realizá-lo. Em média, considera-se a idade de 7 anos para realizar uma audiometria convencional, sendo que algumas crianças pode ter o desenvolvimento necessário para realizá-lo antes disso e outras só conseguem colaborar com o exame em uma idade mais velha.

Uma opção nas crianças mais novas é a realização de uma audiometria comportamental, no qual se avaliar reações comportamentais da criança aos sons. No entanto, esse é um exame mais complexo e que depende de profissionais especializados, estando disponível apenas em alguns centros de referência.

BERA

Quando possível, o exame de escolha para a avaliação da Deficiência Auditiva é a Audiometria. No entanto, o exame não é viável de ser feito em crianças muito pequenas, já que ele depende da colaboração do paciente. Pessoas mais velhas e não colaborativas podem também não serem capazes de realizar a Audiometria.

O BERA é indicado justamente nesses casos, já que ele não depende da colaboração da criança. O nome vem das iniciais em inglês para “Brainstem Evoked Response Audiometry”.

O exame dura entre 30 e 40 minutos. Eletrodos são colocados atrás da orelha e na testa. A seguir, um fone de ouvido é colocado na criança. Esse fone emite sons que ativam o tronco encefálico e os nervos auditivos, gerando picos de eletricidade que são captados pelos eletrodos.

O BERA é muito sensível ao movimento. Quando o paciente não é capaz de permanecer sem se mover durante o exame, é possível que ele seja feito com o uso de sedação.

Tratamento

Observação

Na ausência de sinais de infecção e quando a perda auditiva é leve ou inexistente, a conduta mais indicada costuma ser apenas observar a evolução da doença.

A maior parte dos casos se resolve expontaneamente em um período de até três meses, sem necessidade de medicamentos ou cirurgia.

Durante esse acompanhamento, o médico avalia não apenas a persistência do líquido no ouvido, mas também seu impacto sobre a audição, a fala, o desenvolvimento da linguagem e o desempenho escolar.

Crianças com fatores de risco para atraso do desenvolvimento, como síndrome de Down, fissura palatina, deficiência auditiva prévia ou transtornos do desenvolvimento, costumam necessitar de um acompanhamento mais próximo.

Caso a audição piore, surjam novos episódios de infecção ou a efusão persista por tempo prolongado, o tratamento poderá ser reavaliado a qualquer momento.

Medicamentos

Ao contrário da otite média aguda, a OME não representa uma infecção ativa. Por isso, antibióticos não aceleram a eliminação do líquido e não são recomendados de rotina.

Da mesma forma, descongestionantes nasais, anti-histamínicos e corticoides (orais ou nasais) também não proporcionam benefícios duradouros na resolução da efusão quando utilizados especificamente para tratar a OME.

Esses medicamentos podem ser úteis quando existe outra doença associada, como rinite alérgica. Mas, nesses casos, seu objetivo é tratar essa condição associada, não a otite com efusão.

Tratamento cirúrgico

Quando a efusão persiste por três meses ou mais, a criança deve ser reavaliada pelo otorrinolaringologista. Entretanto, a persistência do líquido, por si só, nem sempre significa que a cirurgia será necessária. A decisão leva em consideração principalmente o grau de perda auditiva, o risco de prejuízo ao desenvolvimento da fala e da linguagem, a presença de alterações da membrana timpânica, a ocorrência de episódios repetidos de otite média aguda e o impacto da doença na qualidade de vida da criança.

Quando há perda auditiva significativa, atraso no desenvolvimento da fala ou da linguagem, dificuldades escolares, episódios recorrentes de otite média aguda ou alterações importantes da membrana timpânica, pode ser indicada uma miringotomia com colocação de tubo de ventilação (tubo de timpanostomia).

Nesse procedimento, o cirurgião realiza uma pequena abertura na membrana timpânica para remover o líquido acumulado e posiciona um pequeno tubo que permite a entrada de ar no ouvido médio, restabelecendo sua ventilação. A melhora da audição costuma ser rápida após a cirurgia.

Na maioria dos casos, os tubos permanecem no tímpano entre 6 e 18 meses, sendo eliminados espontaneamente à medida que a membrana timpânica cicatriza. A complicação mais comum é a otorreia (saída de secreção pelo ouvido), geralmente de fácil tratamento com medicamentos em gotas.

Complicações permanentes são incomuns, tornando esse um procedimento seguro e bastante eficaz quando realizado nas situações em que realmente está indicado.

Sinais de alerta: quando procurar atendimento médico imediato?

A otite média com efusão (OME) geralmente não é uma emergência e, na maioria das crianças, desaparece espontaneamente ao longo de semanas ou meses. No entanto, algumas situações exigem avaliação médica rápida, pois podem indicar uma infecção aguda, uma complicação ou um impacto importante sobre a audição e o desenvolvimento da criança.

Procure atendimento médico o mais rápido possível nas seguintes situações:

  • Dor intensa no ouvido ou dor que surge após um período sem sintomas, principalmente se acompanhada de febre, pois pode indicar o desenvolvimento de uma otite média aguda.
  • Saída de pus ou sangue pelo ouvido (otorreia), que pode sugerir perfuração da membrana timpânica ou uma infecção ativa.
  • Perda auditiva importante ou piora rápida da audição, especialmente quando acomete os dois ouvidos.
  • Atraso no desenvolvimento da fala, dificuldade para compreender a linguagem ou queda do rendimento escolar que possam estar relacionados à diminuição da audição.
  • Sensação de ouvido tampado ou perda auditiva que persistem por mais de três meses, mesmo sem dor.
  • Episódios repetidos de infecção no ouvido (otite média aguda recorrente).
  • Tontura intensa, desequilíbrio importante ou zumbido persistente.
  • Vermelhidão, inchaço ou dor atrás da orelha, que podem indicar uma complicação como a mastoidite.
  • Fraqueza de um dos lados da face (paralisia facial), sonolência excessiva, convulsões, rigidez na nuca ou alteração do nível de consciência, sintomas raros, mas que exigem avaliação médica imediata.

Além disso, crianças com síndrome de Down, fissura palatina, deficiência auditiva prévia, transtornos do desenvolvimento ou outras condições que aumentem o risco de prejuízo da linguagem e da aprendizagem devem ser acompanhadas mais de perto, pois mesmo perdas auditivas leves e prolongadas podem interferir no seu desenvolvimento.