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Objetos Transicionais na Infância

(chupetas, ursinhos, naninhas, outros)

Objeto transicional na infância

Objetos transicionais são objetos escolhidos espontaneamente pela criança e que lhe proporcionam conforto, segurança e tranquilidade, principalmente em momentos de cansaço, ansiedade, medo ou separação dos pais. Chupetas, naninhas, paninhos, ursinhos de pelúcia e pequenos brinquedos são alguns dos exemplos mais conhecidos, embora qualquer objeto — e, ocasionalmente, até mesmo uma parte do corpo — possa desempenhar essa função.

O conceito foi descrito pelo pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott, que observou que esses objetos representam uma etapa natural do desenvolvimento emocional infantil. Eles funcionam como uma espécie de “ponte” entre a segurança oferecida pelos pais e a capacidade da criança de se tranquilizar sozinha. Em outras palavras, ajudam a criança a desenvolver gradualmente sua autonomia emocional, tornando a separação dos cuidadores menos angustiante.

O uso de um objeto transicional é extremamente comum durante os primeiros anos de vida e, na grande maioria das vezes, representa um sinal de desenvolvimento saudável, e não um problema psicológico. À medida que a criança amadurece emocionalmente, amplia sua capacidade de lidar com frustrações e se sente mais segura em diferentes ambientes, a necessidade desse objeto tende a diminuir espontaneamente, geralmente entre os 3 e 5 anos de idade.

Entretanto, assim como ocorre com diversos aspectos do desenvolvimento infantil, cada criança possui seu próprio ritmo. Algumas abandonam o objeto muito cedo, enquanto outras permanecem utilizando-o por mais tempo, sem que isso represente necessariamente qualquer problema. O mais importante não é a idade isoladamente, mas sim observar se o objeto continua exercendo sua função de forma saudável ou se passa a causar prejuízos ao desenvolvimento, à socialização ou à rotina da criança.

Ao longo desta página, você entenderá como surgem os objetos transicionais, por que eles são importantes para o desenvolvimento emocional, quando seu uso é considerado normal, quais situações merecem atenção e como os pais podem ajudar a criança a abandonar esse objeto de forma natural e sem sofrimento.

Quais são os objetos transicionais?

O objeto transicional na infância é algo totalmente subjetivo. Isso quer dizer que nós, adultos, não temos o poder de “escolher” qual item será o “real” objeto transicional de nossos filhos. A seleção é feita por ele mesmo, quando ainda é muito pequeno.

Isso quer dizer que muitos objetos podem entrar para a lista de possibilidades. Além disso, é possível que uma criança tenha mais de um objeto transicional ao longo do seu desenvolvimento infantil.

Abaixo apresentamos alguns exemplos de objetos:

1. Chupeta
A chupeta é um dos objetos transicionais mais conhecidos. Afinal, a maior parte das crianças utiliza a chupeta como uma forma de se tranquilizar em momentos de frustração ou quando ficam longe do adulto pelo qual elas estão vinculadas (que pode ser a mãe, o pai, algum cuidador, etc.).
Apesar de não ser um problema para a saúde psicológica, o uso exagerado da chupeta pode acarretar em problemas bucais. Por isso, levar o seu filho ao dentista, periodicamente, é importantíssimo.

2. Ursinho
Algumas crianças podem “eleger” um ursinho ou uma boneca de pelúcia como o seu objeto transicional na infância. Normalmente, esse objeto é usado na hora de dormir ou quando a criança precisa se separar de sua figura de vinculação, como por exemplo, para ir à escola.
Embora a criança possa não manipular o objeto na escola, o fato de tê-lo acessível pode tranquilizá-la.

3. Brinquedo
Assim como ocorre com pelúcias, os mais diversos brinquedos também podem ser utilizados. Normalmente, são brinquedos de fácil transporte, e que podem ser usados na cama, na hora de dormir, sem grandes impasses.

4. “Paninho” ou fraldinha
O paninho, também chamado de fraldinha ou naninha, também costuma ser um objeto transicional bastante comum na infância. A criança pode gostar de cheirá-lo, segurá-lo, colocá-lo sobre o rosto, e assim por diante.

5. Uma parte do corpo
Embora nem todo mundo saiba disso, a verdade é que o objeto transicional na infância também pode ser uma parte do corpo. Isso mesmo.
Por exemplo, quando a mãe faz o bebê dormir, pode ser que ele goste de entrelaçar seus dedinhos no cabelo da mãe, bem como pode gostar de segurar a ponta da orelha dela.
Assim, quando não está por perto da cuidadora, pode segurar nos cabelos de quem estiver por perto ou o seu próprio.
Trata-se de um objeto transicional muito comum e saudável, exceto quando a criança começa a sofrer emocionalmente quando não consegue tocar a outra pessoa que está perto – por exemplo, na escola.

Qual a função dos objetos transicionais no desenvolvimento infantil?

O objeto transicional exerce um papel importante no desenvolvimento emocional da criança. Nos primeiros anos de vida, ela ainda depende intensamente da presença dos pais ou de seus principais cuidadores para sentir segurança, conforto e proteção. Como sua capacidade de controlar as próprias emoções ainda está em formação, situações como sono, cansaço, medo, frustrações ou separações podem gerar ansiedade e insegurança.

Nesse contexto, o objeto transicional funciona como uma ponte entre a dependência da criança em relação aos pais e a conquista gradual da autonomia emocional. Ao oferecer uma sensação de familiaridade e segurança, ele ajuda a criança a enfrentar situações novas ou potencialmente estressantes, mesmo quando seus cuidadores não estão presentes.

Uma de suas principais funções é favorecer a autorregulação emocional. Em vez de depender exclusivamente do colo, da voz ou da presença dos pais para se acalmar, a criança passa a encontrar conforto também por meio daquele objeto, desenvolvendo gradualmente recursos próprios para lidar com emoções como ansiedade, medo e frustração.

Os objetos transicionais também desempenham um papel importante na ansiedade de separação, um fenômeno normal do desenvolvimento infantil. Durante esse período, a criança ainda está aprendendo que seus pais continuam existindo e voltarão, mesmo quando não estão por perto. O objeto transicional ajuda a tornar essa ausência mais suportável, oferecendo uma sensação de continuidade e segurança até o reencontro com a família.

Outra função importante é facilitar a adaptação a novas situações e ambientes, como o início da creche ou da escola, viagens, consultas médicas, internações hospitalares ou mudanças na rotina familiar. Nessas situações, o objeto representa algo conhecido em meio a um ambiente desconhecido, reduzindo a ansiedade e favorecendo a adaptação.

À medida que a criança amadurece emocionalmente, amplia sua capacidade de compreender e controlar suas emoções, desenvolve maior confiança em si mesma e passa a encontrar segurança nas próprias relações sociais. Como consequência, a necessidade do objeto transicional tende a diminuir espontaneamente, sem que os pais precisem retirá-lo à força na maioria dos casos.

Sinais de alerta: quando o objeto transicional pode indicar um problema?

Na grande maioria das crianças, os objetos transicionais representam uma etapa normal do desenvolvimento emocional e tendem a perder importância espontaneamente ao longo dos primeiros anos de vida. Por isso, o simples fato de a criança utilizar uma naninha, um ursinho ou outro objeto de conforto não deve ser motivo de preocupação.

Na maioria dos casos, o objeto transicional não precisa ser retirado nem proibido. Pelo contrário, ele costuma representar um recurso saudável de adaptação. Mais importante do que a idade é observar como esse objeto interfere na vida da criança. Quando ele continua exercendo apenas uma função de conforto em situações específicas, geralmente faz parte do desenvolvimento normal.

O objetivo da avaliação profissional não é eliminar o objeto, mas compreender por que a criança continua dependendo dele e ajudá-la a desenvolver formas cada vez mais maduras de lidar com suas emoções.

Entretanto, alguns comportamentos podem indicar a necessidade de uma avaliação mais cuidadosa.

Dependência excessiva do objeto

É esperado que a criança procure o objeto para dormir ou em momentos de ansiedade. Por outro lado, merece atenção quando ela parece incapaz de participar de qualquer atividade sem o objeto, recusando-se a brincar, passear, frequentar a escola ou permanecer em outros ambientes caso ele não esteja presente.

Prejuízo na socialização

O objeto transicional deve ajudar a criança a enfrentar situações novas, e não afastá-la delas. Quando ela passa a permanecer isolada, evita interagir com outras crianças ou demonstra interesse apenas pelo objeto, é importante investigar se existe alguma dificuldade emocional associada.

Impacto importante na rotina da família

Em algumas situações, o objeto deixa de ser um recurso de conforto para a criança e passa a limitar significativamente a rotina familiar. Isso pode acontecer, por exemplo, quando os pais deixam de sair de casa por medo de esquecer o objeto ou quando a criança entra em intenso sofrimento sempre que ele não está disponível.

Persistência além da fase esperada associada a outros sinais

Muitas crianças continuam utilizando um objeto transicional após os 5 anos de idade sem que isso represente qualquer problema. Entretanto, quando esse uso prolongado está associado à dificuldade para lidar com separações, ansiedade intensa, prejuízo escolar, isolamento social ou atraso na conquista da autonomia, uma avaliação especializada pode ser indicada.

Mudança repentina no comportamento

Também merece atenção quando uma criança que já havia abandonado o objeto passa a depender intensamente dele novamente, principalmente se essa mudança vier acompanhada de regressão do desenvolvimento, alterações importantes do comportamento ou sofrimento emocional. Embora isso possa representar apenas uma resposta temporária a situações de estresse — como mudanças familiares, hospitalizações ou início da escola —, também pode indicar que a criança está enfrentando dificuldades para lidar com esse momento.

Chupeta

A chupeta é provavelmente o objeto transicional mais conhecido da infância. Para muitos bebês, a sucção representa uma importante fonte de conforto e segurança, ajudando-os a relaxar, adormecer e lidar com momentos de ansiedade, cansaço ou separação dos pais. Por esse motivo, é comum que a criança procure a chupeta principalmente na hora de dormir ou em situações nas quais precisa de maior conforto emocional.

Entretanto, é importante destacar que a chupeta não é necessária para um desenvolvimento emocional saudável. Muitos bebês nunca utilizam chupeta e desenvolvem normalmente sua capacidade de autorregulação emocional por meio do contato com os pais, da amamentação, do colo, da voz dos cuidadores e, posteriormente, de outros objetos transicionais, como naninhas, paninhos ou ursinhos de pelúcia.

Assim, não existe recomendação para que todos os bebês recebam uma chupeta. A decisão deve considerar as características de cada criança e as preferências da família. Alguns bebês demonstram pouco interesse por ela, enquanto outros encontram nela um importante recurso de conforto. Quando isso acontece, a chupeta pode exercer a mesma função psicológica de qualquer outro objeto transicional.

Além do conforto emocional, alguns estudos sugerem que o uso da chupeta durante o sono, após o aleitamento materno já estar bem estabelecido, pode estar associado à redução do risco de síndrome da morte súbita do lactente (SMSL). Por outro lado, sua introdução muito precoce pode dificultar o estabelecimento da amamentação em alguns bebês, motivo pelo qual muitas sociedades médicas recomendam evitar seu uso nas primeiras semanas de vida, até que a amamentação esteja consolidada.

Diferentemente da maioria dos outros objetos transicionais, porém, a chupeta também pode produzir efeitos físicos quando seu uso é muito prolongado ou intenso. O uso frequente após os primeiros anos de vida aumenta o risco de alterações na posição dos dentes e no desenvolvimento da arcada dentária, além de favorecer alterações da mordida. Quando utilizada continuamente durante o dia, também pode reduzir as oportunidades de fala e interação verbal, especialmente em crianças pequenas.

Por esse motivo, a recomendação atual não é retirar a chupeta de forma abrupta, mas estimular seu abandono gradual à medida que a criança amadurece emocionalmente, procurando restringir seu uso progressivamente aos momentos de sono ou maior necessidade de conforto. O acompanhamento pelo pediatra e pelo odontopediatra ajuda a identificar o momento mais adequado para esse processo e a prevenir possíveis alterações no desenvolvimento bucal.

Assim como ocorre com qualquer outro objeto transicional, o objetivo não é simplesmente retirar a chupeta, mas ajudar a criança a desenvolver novas formas de encontrar segurança e conforto, permitindo que ela deixe de precisar desse recurso de maneira natural e sem sofrimento.

Como tirar o objeto transicional?

Na maioria das vezes, não é necessário retirar o objeto transicional. Quando ele faz parte de um desenvolvimento emocional saudável, a própria criança tende a utilizá-lo cada vez menos à medida que amadurece, desenvolve maior autonomia e passa a encontrar segurança em outras pessoas, atividades e relações. Em muitas famílias, esse processo acontece de forma tão gradual que os pais quase não percebem quando o objeto deixa de fazer parte da rotina.

Por esse motivo, esconder o objeto, jogá-lo fora ou obrigar a criança a abandoná-lo costuma ser uma estratégia desnecessária e, muitas vezes, contraproducente. Em vez de favorecer a autonomia, essas atitudes podem aumentar a ansiedade, gerar sofrimento e fazer com que a criança procure outras formas menos saudáveis de lidar com suas emoções.

A melhor estratégia é permitir que o uso do objeto diminua naturalmente, acompanhando o amadurecimento da criança. Os pais podem favorecer esse processo de diferentes maneiras.

Incentive novas fontes de segurança

À medida que a criança cresce, outras experiências passam a oferecer conforto e confiança, como amizades, brincadeiras, esportes, leitura, atividades em família e maior independência nas tarefas do dia a dia. Quanto mais rica e diversificada for a rotina da criança, menor tende a ser sua necessidade de recorrer ao objeto transicional.

Ajude a criança a compreender e expressar suas emoções

Sempre que ela procurar o objeto em momentos de ansiedade, medo ou frustração, procure conversar sobre o que está acontecendo. Nomear sentimentos, acolher as emoções e oferecer apoio ajudam a criança a desenvolver formas cada vez mais maduras de autorregulação emocional.

Evite transformar o objeto em motivo de disputa

Broncas, punições, chantagens ou comparações com outras crianças (“você já está grande para isso”) costumam aumentar a insegurança e fortalecer ainda mais o vínculo com o objeto. O ideal é que o abandono aconteça por amadurecimento, e não por imposição.

Quando a criança demonstra sinais de que já está preparada, é possível restringir o uso do objeto a situações específicas, como a hora de dormir ou momentos de maior ansiedade. Em muitos casos, essa redução acontece espontaneamente, sem necessidade de regras rígidas.

Respeite períodos de maior vulnerabilidade

Mudanças importantes, como início da escola, nascimento de um irmão, separação dos pais, viagens, internações ou outras situações estressantes podem fazer com que a criança volte a procurar mais o objeto transicional. Nesses momentos, geralmente não é recomendável iniciar tentativas de retirada, pois o objeto pode desempenhar um papel importante na adaptação emocional.

Quando buscar ajuda

Na maioria das crianças, o objeto transicional deixa de ser necessário naturalmente ao longo dos primeiros anos de vida. Entretanto, se ele continuar sendo indispensável para praticamente todas as situações do cotidiano, causar sofrimento importante quando não está disponível ou interferir no desenvolvimento, na socialização ou na rotina familiar, vale a pena conversar com o pediatra ou com um psicólogo infantil. Nesses casos, o objetivo não é simplesmente retirar o objeto, mas compreender por que a criança continua precisando dele e ajudá-la a desenvolver novas formas de lidar com suas emoções.

Referências
SALAMONDE, C. M. A importância do objeto transicional no desenvolvimento psíquico sadio. FGV ISOP – Dissertações, 1981.

SANTANA, S. R. F. A Adaptação e os Objetos Transicionais em Creche e em Jardim-de-Infância. Mestrado em Educação Pré-Escolar – Instituto Politécnico de Setubal. 2017.