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Deficiência Visual Adquirida

O que é a Deficiência Visual?

Deficiência visual se refere à perda total (cegueira) ou parcial (baixa visão) da capacidade de enxergar, que não pode ser corrigida por meio de óculos ou cirurgias.

Ela pode ser dividida em dois grandes grupos, que apresentam causas, diagnóstico, consequências e tratamentos específicos:

  • Deficiência Visual Precoce: congênita ou adquirida antes dos cinco anos de idade.
  • Deficiência Visual Adquirida Tardia: adquirida após os cinco anos de idade.

Pacientes com deficiência visual adquirida após os cinco anos de idade preservam a memória visual de quando enxergavam, o que facilita a compreensão do mundo ao redor e torna a “visão” algo menos abstrato, o que facilita a reabilitação e o aprendizado posterior. Por outro lado, há uma maior preocupação com a saúde psico-emocional e o sentimento de perda e luto pela perda da visão.

Diagnóstico da deficiência visual

A deficiência visual é a caraterizada a partir da perda da acuidade visual e do campo visual, conforme abaixo.

Acuidade Visual

Acuidade visual se refere à nitidez da visão, que é a capacidade de distinguir objetos a uma certa distância. Ela é geralmente avaliada por meio da Tabela de Snellen, onde o paciente lê letras ou símbolos de tamanhos decrescentes a uma distância padrão de 6 metros (ou 20 pés) da tabela.

A tabela contém linhas de letras, números ou símbolos (optótipos) que diminuem de tamanho de cima para baixo. Para fazer o teste, um olho é coberto, e o paciente lê a menor linha que consegue identificar claramente. O processo é então repetido para o outro olho.

O resultado é uma fração, como 20/20 (visão normal), 20/40 (vê a 20 pés o que uma pessoa normal vê a 40 pés) e assim por diante.

Campo Visual

Campo visual se refere à área total que uma pessoa consegue enxergar ao redor do ponto para onde ela está olhando diretamente, o que é avaliado por meio de um exame chamado Campimetria Computadorizada. Nesse exame, o paciente senta em frente a uma máquina em formato de tigela (cúpula) com o queixo e a testa apoiados. Ele fixa o olhar em um ponto central e aperta um botão sempe que ver luzes piscando em diferentes locais e intensidades na periferia. A partir disso, a máquina mapeia sua visão central e periférica para identificar pontos cegos (escotomas).

Classificação funcional da deficiência visual

A classificação mais utilizada para deficiência visual é a da OMS, baseada na acuidade visual (AV) no melhor olho, com a melhor correção óptica possível, e no campo visual.

Categoria Acuidade visual (melhor olho) Campo visual Definição funcional
Visão normal ≥ 20/30 Normal Função visual preservada
Deficiência visual leve < 20/30 até 20/60 Normal Dificuldade em tarefas finas
Baixa visão moderada < 20/60 até 20/200 ou campo < 20° Uso de recursos ópticos
Baixa visão grave < 20/200 até 20/400 ou campo < 10° Grande limitação funcional
Cegueira < 20/400 ou campo < 10° Dependência sensorial alternativa
Cegueira total Ausência de percepção luminosa Sem input visual

Quais as principais causas de Deficiência Visual?

A deficiência visual adquirida apresenta diferentes causas a depender da idade, conforme abaixo:

Adolescência e adulto jovem

Adultos e idosos

 

Consequências da Deficiência Visual

Crianças que tiveram visão normal até os cinco anos de idade tiveram tempo para desenvolver uma memória visual que ajudará elas a compensar ou minimizar os efeitos da perda da visão por meio do desenvolvimento aguçado de outros sentidos.

As consequências da deficiência visual dependem se há um resquício de visão, se a instalação do quadro foi gradativa ou súbita e também da idade do paciente.

Quando as perdas são graduais, há uma adaptação progressiva à nova condição e menor choque emocional. Já a perda súbita da visão aumenta o impacto emocional e está associada a um maior risco de disfunções.

Crianças e adolescentes

O aprendizado e a cognição ainda são afetados, com uma queda transitória do desempenho acadêmico. No entanto, com o estímulo adequado, adaptações curriculares e uso de tecnologia assistida essas perdas podem ser minimizadas. Sem esses cuidados, há um risco elevado de evasão ou subaproveitamento escolar.

Se as consequências cognitivas são menores, há uma preocupação enorme com as consequências sociais e emocionais. A perda visual nessas crianças e adolescentes rompe com rotinas já automatizadas e aumenta a dependência inicial de terceiros, sendo comum o isolamento social quando não recebem o suporte adequado. Junto com isso, o luto pela perda funcional pode levar a maior retraimento social e piora da autoestima, o que contribui para o isolamento.

Como consequência do isolamento social e do sedentarismo, a saúde física pode ser seriamente comprometida, com maior risco de obesidade e doenças metabólicas, problemas musculoesqueléticos e piora do condicionamento cardiorrespiratório.

Adolescência e adultos jovens

Um pouco mais a frente, na adolescência e início a vida adulta, pode haver uma maior insegurança para relacionamentos amorosos e desenvolvimento da sexualidade. A dependência familiar é maior e, sem o apoio adequado, muitos abandonam a escola.

As barreiras sociais também são maiores, com maior dificuldade para inserção no mercado de trabalho.

Idosos

Quando a perda da visão ocorre em uma fase mais avançada da vida e especialmente na terceira idade, espera-se uma maior dificuldade de adaptação e desenvolvimento de habilidades alternativas. Como consequência, há uma maior perda de autonomia e independência. Tudo isso tem muita relação com a falta de estímulo e com questões socioemocionais.

Em idosos, a deficiência visual pode ser confundida com quadros demenciais e pode contribuir para o declínio cognitivo, uma vez que a redução da interação com o ambiente e a diminuição dos estímulos visuais afetam a memória, a atenção e a velocidade de processamento de informações.

Tratamento

O tratamento da deficiência visual adquirida em adultos e idosos envolve uma abordagem multidisciplinar focada em duas frentes principais: tratar a causa subjacente da perda de visão e, quando a visão não puder ser totalmente restaurada, maximizar a visão residual e promover a autonomia por meio da reabilitação visual.

  • O tratamento médico visa interromper ou reverter a perda de visão, o que é feito por um oftalmologista especialista.
  • A reabilitação visual engloba uma série de recursos que buscam ajudar os indivíduos a se adaptarem à sua condição e a manterem uma vida independente.

Reabilitação visual

A Reabilitação Visual envolve um conjunto de estratégias terapêuticas destinadas a melhorar a funcionalidade e a qualidade de vida de pessoas com deficiência visual parcial ou total.

Ela ajuda os pacientes a aproveitarem ao máximo sua capacidade visual residual, adaptando-se a novas formas de interação com o mundo.

A reabilitação visual pode incluir:

  • Treinamento com recursos ópticos e não ópticos de baixa visão (lupas, telescópios, filtros)
  • Terapia ocupacional para adaptação às atividades diárias;
  • Orientação e mobilidade (aprendizado do uso de bengalas, cães-guia e tecnologias assistivas);
  • Apoio psicológico para lidar com o impacto emocional da perda visual.

Mobilidade e orientação

Mobilidade e orientação são duas das habilidades mais importantes de serem trabalhadas em indivíduos com perda visual. Elas são fundamentais para uma vida mais independente, com retorno ao trabalho ou escola e também para a prática esportiva.

Diferentemente dos indivíduos com deficiência visual congênita ou precoce, aqueles que enxergavam bem até os cinco anos de idade já possuem mapas visuais consolidados. Eles também conhecem conceitos como profundidade e entendem a organização urbana de uma forma mais concreta.

Assim, o foco da aprendizagem de movimento e orientação não é em construir uma orientação espacial, mas sim reorganizá-lo de forma a converter referências visuais em referências não visuais.

O impacto inicial da perda da visão na mobilidade depende muito se essa perda foi gradativa ou súbita. Nas perdas gradativas da visão, o indivíduo teve tempo para ir se adaptando à nova condição, criando métodos e referências não visuais enquanto ainda dispunha de alguma capacidade visual. Nas perdas súbitas, a desorientação espacial é maior, bem como o risco de restrição e reclusão social.

A idade com que ocorre a perda da visão tem impacto importante na motivação para novos aprendizados. Pessoas mais jovens tendem a buscar uma maior independência funcional, inclusive para deslocamentos em ambientes urbanos pouco protegidos e no trabalho. O uso de bengala longa e de tecnologias assistivas para orientação espacial, como os GPS e aplicativos de mobilidade ajudam nesse ganho de independência.

Pessoas idosas, por outro lado, têm uma tendência maior de acomodação e aceitam de alguma forma uma maior dependência de terceiros, que são usados como guias videntes.

Educação escolar

Uma vez que chegue o momento de se iniciar as atividades pedagógicas mais formais, a educação de crianças e adolescentes com deficiência deve ser compartilhada entre a escola regular e o centro de Atendimento Educacional Especializado. Pelo modelo atual, essa educação deve ser complementar, não substitutiva em relação ao ensino tradicional.

A criança deve ser preparada para conviver em sociedade com pessoas com e sem deficiência visual, de forma que ela não deve ser excluída do ensino regular.

No entanto, ela precisa também de habilidades que não serão desenvolvidas pela escola, precisando para isso de uma instituição de Atendimento Educacional Especializado a ser frequentada no contraturno.

O papel da família será de alinhar as estratégias e mediar as ações entre os dois contextos de educação, evitando a duplicação ou as lacunas de ensino.

Educação Especializada

A instituição especializada fornece as ferramentas para que o direito a educação seja exercido com autonomia, incluindo o desenvolvimento da Leitura e escrita em Braille e da matemática em Braille.

Ela pode também ajudar no desenvolvimento de habilidades de mobilidade e orientação, incluindo o aprendizado para uso avançado de bengalas longas, leitores de tela e softwares de acessibilidade, embora a escola deva prover condições para implementar essas habilidades na prática.

Escola Regular

A escola regular é a responsável pela escolarização plena, incluindo todos os componentes regulares, avaliações e certificações. Os conteúdos não devem ser simplificados, mas adaptados por meio do Plano Educacional Individualizado (PEI) a um formato que permita o acesso do deficiente visual dentro de suas limitações momentâneas. Por lei, toda criança com necessidades especiais tem o direito a um PEI feito pela escola e sem custos extras para isso (seja em escola pública ou privada).

Alfabetização em Braille

A linguagem escrita envolve o uso de sistemas de leitura e escrita em relevo para pessoas cegas, sendo o mais comum deles o Braille. Leitores de tela e outras tecnologias também podem ser utilizados para permitir a comunicação.

O Braille utiliza combinações de seis pontos para formar 63 caracteres, que representam letras, números, símbolos e pontuações.

Antes de iniciar o aprendizado formal dos caracteres, é crucial desenvolver o tato e a coordenação motora fina. Isso é feito por meio de atividades lúdicas que envolvem a exploração de diferentes texturas, temperaturas, tamanhos e formas para aumentar a sensibilidade das pontas dos dedos.

A alfabetização prossegue com a introdução progressiva dos caracteres, começando pelas letras do alfabeto. Assim como na alfabetização tradicional, o processo continua com a formação de sílabas, palavras e frases. Por fim, a prática contínua de leitura e da escrita é essencial para desenvolver a fluência e a independência.