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Competitividade tóxica no esporte

A competitividade tóxica no esporte pode resultar no desenvolvimento de crises de estresse, ansiedade e até mesmo irritabilidade no campo de atuação do esportista. Isso porque o foco da competitividade tóxica é a vitória, a qualquer custo, mesmo quando ela é capaz de prejudicar a saúde do sujeito.

Por isso, refletir sobre o assunto e iniciar mudanças que minimizem os efeitos dessa competitividade excessiva é muito importante para promover mais qualidade de vida e bem-estar aos atletas.

Acompanhe este texto e saiba mais sobre o assunto.

O que é a competitividade tóxica?

A competitividade tóxica pode ser caracterizada como um comportamento nocivo no qual o indivíduo busca, a todo custo, vencer e “ser melhor que o outro”, como se a única possibilidade de haver sucesso no esporte fosse vencendo o adversário.

Além disso, na competitividade tóxica no esporte o atleta pode enxergar o seu adversário como um inimigo, o que leva às provocações, ofensas, insultos e até mesmo agressões físicas.

Sendo assim, essa visão tóxica da competitividade pode prejudicar a saúde física e mental de todos os envolvidos na situação, pois leva o sujeito a uma prática de treinos excessiva, ocasionando desentendimentos nocivos, entre outras questões.

Embora competir seja importante e fortalece o esportista, que se sentirá instigado a superar os próprios desafios, quando passa dos limites, o foco fica em ser melhor do que o outro, e não em melhorar a si mesmo, dentro dos seus limites e como um objetivo pessoal.

Quais as consequências da competitividade tóxica no esporte?

A competitividade tóxica no esporte pode resultar em uma série de consequências nocivas para a qualidade de vida e para a saúde dos esportistas. A seguir, descrevemos algumas dessas consequências para que possamos refletir sobre o quanto essas posturas podem ocasionar problemas e, em casos extremos, a desistência do atleta. Veja:

1. Supervalorização do vencedor e desvalorização do “perdedor”
A supervalorização da posição de vencedor é uma das consequências da competitividade tóxica no esporte. Nessa situação, quaisquer outros tipos de vitórias do atleta podem ser consideradas pequenas ou insignificantes, dando a entender que apenas o ato de “ganhar a partida” é o que importa. Essa supervalorização ocasiona estresse excessivo, bem como ansiedade no esporte.
Em contrapartida a essa visão excessiva sobre o ganho, há também uma visão deturpada e extremamente negativa sobre a perda. Os atletas que não vencem a partida podem ser ridicularizados e até ameaçados por torcedores, por exemplo, o que acarreta impactos na saúde física e mental dos indivíduos.

2. Agressividade e violência no campo esportivo
A competitividade tóxica no esporte também pode servir de gatilho para situações de agressividade e violência no campo. É o caso de atletas começarem a se agredir de forma violenta, apenas em prol do desejo de “passar por cima” do outro e vencer.
Os sentimentos e as emoções, que podem ficar à flor da pele frente a esse tipo de competitividade, podem resultar em comportamentos impulsivos e agressivos.

3. Tentativas ilícitas de vencer
As tentativas ilícitas de vencer ocorrem em diversos esportes, e muitas vezes podem estar associadas a visão deturpada da vitória, presente nessa competitividade tóxica.
Sendo assim, o esportista pode tentar burlar as regras do jogo, bem como utilizar atitudes maldosas no campo, como no caso de machucar o adversário, propositalmente, para diminuir o seu desempenho.
Embora essas tentativas ilícitas possam ser punidas, ainda assim as consequências para o outro lado, que sofre essas tentativas, podem ser intensas, como no caso de machucar um esportista, que acabamos de citar.

4. Pressões externas que prejudicam a saúde mental e física
A competitividade tóxica no esporte também pode ser provocada pelas situações que acontecem fora do campo de atuação do esportista. É o caso da mídia, da família, dos treinadores e da torcida apresentarem uma postura que pressiona excessivamente os atletas.
A cobrança acima da média, tornando a perda inadmissível, pode ocasionar efeitos na saúde física e mental dos sujeitos. É o caso de se cobrarem excessivamente, a ponto de treinarem de um modo intenso, ocasionando problemas de saúde.

5. Desistência em casos extremos de frustração
A visão deturpada da vitória, presente nessas situações, pode fazer com que o atleta encontre no ganho de uma partida a única razão pela qual ele pratica o esporte. Por ser o único motivo, a frustração vivida, em casos de perdas, pode resultar, inclusive, na desistência em alguns casos.
O indivíduo pode sentir que não é bom o bastante por perder uma partida e, por conta disso, abre mão de todos os outros ganhos e benefícios envolvidos com o esporte, tudo por conta da visão que se tem do processo de competitividade.

6. Autocobrança excessiva
Cobrar um desempenho acima da média, enxergar o corpo como uma máquina que deve ser melhorada a todo custo, diminuir-se psicologicamente diante de uma perda, entre outros comportamentos semelhantes estão associados a uma autocobrança excessiva.
Essa autocobrança, por sua vez, pode levar o sujeito a viver um esgotamento mental, devido ao desejo de conquistar mais e mais, mesmo que, para isso, tenha que abdicar da sua saúde física e mental, do seu descanso, dos seus momentos de lazer e, ainda, da comemoração das pequenas vitórias que não necessariamente estão associadas ao placar final.

7. Excesso de treinamento
Para buscar uma vitória sem fim, ultrapassando todo e qualquer adversário, o atleta, diante da competitividade tóxica no esporte, pode se deparar com um desejo incessante de treinar o tempo todo. Esse excesso de treino leva ao esgotamento físico, aumenta as chances de lesão, e faz, ainda, com que o sujeito abra mão de outras atividades que são importantes em sua vida.
Esse excesso o afasta da família, dos amigos, dos hobbies, do descanso, dentre outras áreas, resultando em impactos para o bem-estar e a saúde mental.
Tudo isso sem considerarmos o fato de que o excesso de treinamento pode ser o caminho para o desenvolvimento de problemas sérios de saúde, que fazem com que o indivíduo tenha que abrir mão, de maneira forçada, da sua vida profissional como atleta.
8. Visão de que o adversário é inimigo
A visão de que o adversário é um inimigo, que merece o “pior” e que deve ser “destruído” também pode ser um reflexo da competitividade tóxica no esporte.
O indivíduo enxerga, na competição, uma chance de passar por cima de quem é contra a sua vitória, mesmo que isso ocorra de modo ilícito ou agressivo, por exemplo.
Sendo assim, é imprescindível avaliar a forma como o adversário tem sido visto pelo atleta, evitando colocá-lo no lugar de inimigo, uma vez que ele não está ali para vencer a sua pessoa, mas, sim, para conquistar o título, superar desafios próprios, etc.
É interessante quebrar essa visão narcisista de que o adversário quer acabar conosco, fazendo com que tenhamos uma postura de aniquilá-lo, afinal, na realidade, ele não está focado em nós, na nossa pessoa, mas, como dito anteriormente, na performance que ele quer atingir, nas superações que quer conquistar, e assim por diante.

Como lidar com a competitividade tóxica no esporte?

A competitividade tóxica no ambiente esportivo pode ser devastadora em algumas situações. Como vimos, a autocobrança excessiva que ela gera pode levar o indivíduo à desistência da sua prática desportiva.

Por isso, pensar em formas de contornar essa situação e eliminar esse tipo de postura são caminhos que contribuem para melhores resultados e mais qualidade de vida, respeitando os limites de cada indivíduo.

A seguir, apresentamos algumas considerações e reflexões que podem ser válidas nesses casos. Acompanhe-nos.

1. Ressignificação do conceito de ganhar e de perder
A ressignificação do conceito de ganhar e de perder é um bom ponto de partida. Avaliar a importância que tem sido dada à vitória e o desprezo que costuma ser posto sobre a perda é algo que pode entrar na rotina de reflexão do atleta.
Será que, realmente, a vitória, no sentido de vencer o adversário, é a única forma de ter um resultado interessante e feliz no esporte? Será que não existe nenhum outro caminho que possa ser seguido e que entregue a superação de desafios, a descoberta de novos caminhos e a conclusão das novas possibilidades de crescimento?
Pensar dessa forma pode ajudar a reduzir aquela pressão que se coloca sobre o indivíduo na hora de vencer uma partida. Afinal, pode ser que, para ele, o grande desafio seja não tomar um gol, ao invés de vencer o jogo. Enquanto que, para outro, o desafio é ter uma performance interessante no esporte, depois de se recuperar de uma lesão.
Perceba que são muitos os significados que podemos dar e caminhos que podemos construir e seguir no esporte. Não existe apenas ganhar e perder. Existe aprender, existe trabalhar em equipe, existe fortalecer a resiliência, existe superar desafios pessoais, enfim!
Quanto à perda, também é possível ressignificá-la. Ela não precisa ser vista apenas como fracasso no esporte. Ela pode ser vista como uma oportunidade de aprender algo, de fazer uma autoanálise saudável e de construir novas estratégias de superação para si e para o grupo, respeitando sempre os limites dos envolvidos.

2. Traçar de metas claras e objetivas
As metas podem auxiliar no processo de reduzir a postura tóxica que se desenvolve, em alguns casos, frente à competitividade. Isso porque as metas podem ajudar os esportistas e enxergar outros sentidos e objetivos por trás da sua prática de esportes.
É o caso de colocar o retorno efetivo, após uma lesão, como uma meta para daqui 6 meses. Ou colocar o objetivo de conseguir defender o time e não tomar nenhum gol no próximo jogo, sem, necessariamente, focar na vitória.
Claro que a vitória pode fazer parte das metas e dos objetivos do atleta. Porém, encontrar outros caminhos e desafios para seguir, tendo motivações intrínsecas e extrínsecas relacionadas a eles, pode resultar em uma diminuição do foco de “ganhar do adversário a qualquer custo”, presente na competitividade tóxica.

3. Parar e refletir sobre as emoções
Em momentos nos quais há estresse e irritabilidade no esporte, especialmente relacionado com o desejo de vencer a qualquer custo, é interessante parar e refletir sobre o que sente. Quais são as emoções sentidas? Por que elas estão sendo sentidas? Será que faz sentido vivenciar essas sensações, ou essas emoções estão baseadas em uma competitividade tóxica? Como é possível lidar com a situação? Como podemos enxergar os acontecimentos por outras vias?
Todas essas reflexões, somadas a outras que você pode julgar interessante, podem ajudar a lidar com as emoções que podem se aflorar durante as competições e práticas esportivas.
Quando damos voz às nossas emoções e passamos a refletir sobre elas, de maneira mais calma e clara, podemos tomar ações mais equilibradas e menos impulsivas. Sendo que, em casos de competitividade tóxica, os comportamentos impulsivos podem aparecer.

4. Enxergar o outro como adversário, não como inimigo
Enxergar a outra pessoa como um adversário, que está ali para superar os próprios desafios e atingir resultados que almeja, é mais saudável do que enxergá-la como um inimigo que deve ser derrubado.
Embora os momentos de tensão no esporte possam fazer com que essa visão deturpada apareça, desenvolver a inteligência emocional, colocando-se no lugar do outro, entendendo as emoções que permeiam essa visão de inimigo, entre outras medidas, pode contribuir para a redução de comportamentos tóxicos que podem surgir em decorrência da competitividade.
Lembre-se que assim como você não é um inimigo que deve ser destruído pelo outro, ele também não ocupa esse papel na sua vida. Esporte é sobre desafios, crescimentos, companheirismo, mudanças de vida etc., não sobre quem passa por cima de quem, quem é o melhor e quem é o pior, etc.

5. Compreender a função dos “erros”
Os erros fazem parte da vida de qualquer pessoa, em diversas circunstâncias. Isso quer dizer que quando você comete um erro na prática esportiva, você não está sendo um atleta ruim… Você está sendo um ser humano!
Os erros têm o papel de nos mostrar quais podem ser os melhores caminhos, como podemos mudar determinadas posturas e de quais formas podemos desenvolver a nossa atuação de agora em diante.
Se enxergarmos no erro apenas a possibilidade de perder algo, e não de ganhar algum conhecimento e alguma experiência, poderemos ignorar todas as coisas que os erros têm a nos ensinar.
Não estamos dizendo que errar e perder por conta disso é fácil. Mas, estamos dizendo que pensar no erro, depois de viver o seu luto sobre ele, como uma forma de crescer a aprender algo novo, é um caminho muito rico e que pode ser benéfico para a sua construção profissional.

6. Cuidar da saúde mental de forma geral
Cuide da sua saúde mental de uma forma geral. Muitas vezes, a competitividade tóxica no esporte pode aparecer em decorrência de problemas de autoestima, problemas emocionais e outros fatores que têm relação com a subjetividade do indivíduo.
Portanto, buscar cuidar da sua saúde mental, como por exemplo, por meio da psicoterapia, é um caminho para valorizar a si mesmo, reconhecer os próprios limites e entender quais comportamentos tóxicos podem estar atrapalhando o seu desenvolvimento enquanto atleta.

7. Pensamento de ser melhor do que nós mesmos
Nós não precisamos escolher o esporte para mostrar que somos melhores que os outros. Nós podemos escolher o esporte para superar os nossos próprios desafios e limites. Quando temos a consciência de que é mais saudável focar em ser melhor do que o nosso eu do passado, ao invés do que a outra pessoa, podemos mudar a perspectiva sobre a competitividade. Ao mesmo tempo, podemos traçar metas diferentes, focadas em nossa evolução e crescimento, e não focadas no que queremos fazer para passar ou ultrapassar o outro.
Focar no nosso crescimento pode ser mais saudável e, inclusive, mais satisfatório. Faça esse exercício e veja os frutos que ele poderá promover na sua vida.

Referências
BARBOSA ANVERSA, A. L.; CRISTINA ARANTES DA COSTA, L.; SOLERA, B. .; HENRIQUE DA SILVA, P. .; VICENTINI DE OLIVEIRA, D. . FATORES QUE MOTIVAM A DESISTÊNCIA DA PRÁTICA COMPETITIVA DO TÊNIS DE CAMPO. RENEF, [S. l.], v. 7, n. 10, p. 33–42, 2020. DOI: 10.35258/rn2017071000009. Disponível em: https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/renef/article/view/605. Acesso em: 14 nov. 2022.

ROSE JUNIOR, D. D.; CRISTIANE TIECO, S.; SELIBGARDI, D.; BATTENCOURT, E. L.; BARROS, J. C. T. de S.; FERREIRA, M. do C. M. Situações de jogo como fonte de “stress” em modalidades esportivas coletivas . Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, [S. l.], v. 18, n. 4, p. 385-395, 2004. DOI: 10.1590/S1807-55092004000400007. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/rbefe/article/view/16577. Acesso em: 14 nov. 2022.