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Aspectos psicológicos diante das lesões no esporte

Os aspectos psicológicos diante das lesões no esporte merecem atenção da comissão técnica, do psicólogo do esporte, do Médico do Esporte e demais profissionais que atuam em conjunto no espaço esportivo. Afinal, para além das limitações e dores físicas, as lesões também podem impactar, profundamente, o bem-estar e a saúde mental dos atletas.

Por isso, considerar quais são as questões psicológicas envolvidas nessas situações, e de quais formas elas podem começar a ser trabalhadas, são medidas bem importantes. Confira, no decorrer deste texto, informações relevantes sobre essa temática.

Aspectos psicológicos diante das lesões no esporte

São muitos os aspectos psicológicos diante das lesões no esporte que cada indivíduo pode experimentar. Inclusive, é importante considerar o fato de que cada sujeito pode atravessar as dificuldades emocionais de formas diferentes. Tudo depende do contexto no qual ele está inserido, a rede de apoio que construiu, a visão que o próprio atleta tem de sua posição, etc.

A seguir, descrevemos alguns dos principais aspectos psicológicos detectados, por meio de pesquisas, nos atletas que sofreram algum tipo de lesão no esporte de alto rendimento. Vale ressaltar que não se trata de um checklist, mas, sim, de possíveis intercorrências emocionais que podem ser vividas em dadas circunstâncias. Acompanhe.

1. Frustração
Durante toda a trajetória de desenvolvimento de um atleta, o seu foco pode estar voltado para as melhorias e os próximos passos que ele pode dar rumo ao “topo” no seu esporte. Muitas vezes, o atleta abre mão de momentos de descanso e de descontração, focando em treinos intermináveis, estressantes e, até mesmo, excessivos.
A frequência de competições, sem grandes intervalos entre um evento esportivo e outro, também pode resultar em uma sobrecarga na rotina do atleta. Tudo isso, aos poucos, fomenta uma atmosfera na qual a lesão no esporte tende a se tornar uma realidade.
Assim sendo, quando essa realidade chega, a agenda do atleta precisa mudar de uma maneira abrupta. Já não se pode mais treinar ou competir como antes, e, agora, é necessário cumprir as exigências e recomendações médicas e fisioterapêuticas.
Logo, o sentimento de frustração, ao ter que aceitar uma realidade longe daquela imaginada (de sempre estar treinando e “crescendo”), é bem recorrente e, em muitos casos, pode ser bem intenso.

2. Real que mostra os limites
Ainda considerando a ideia de que muitos atletas tentam, a cada dia, superar limites e ser mais do que 100% bom, a lesão no esporte pode vir como um verdadeiro choque de realidade, um corte que mostra que o corpo possui limites e é orgânico.
Esse real, escancarado diante dos olhos do atleta, pode ser bastante doloroso, uma vez que, em muitos casos, pode trazer à tona uma série de questionamentos sobre a existência e o sentido da vida.
Quando nos deparamos com esse real abrupto, como no caso da morte, de doenças crônicas ou de lesões, podemos nos sentir desamparados, confusos e sem perspectivas para com o futuro. No caso do atleta, não é diferente.
Ele pode se ver diante de uma realidade que não era experimentada e tampouco cogitada, o que causa impactos emocionais severos em muitos casos.

3. Dificuldade para expressar os seus sentimentos
O atleta, ao ser pressionado pela mídia e por si mesmo, pode se sentir reprimido com relação aos seus próprios sentimentos. É como se a sua dor não fosse válida, e o foco devesse estar apenas na parte biológica, física e fisiológica da questão, ou seja, na lesão propriamente dita.
Pelo fato de estar sempre em busca de uma recuperação rápida e plena, muitas vezes a visão pessoal e emocional é deixada de lado. Essa dificuldade para expressar os sentimentos pode acarretar uma sobrecarga emocional, resultando em níveis de estresse e ansiedade acima da média, por exemplo.
Por isso, buscar meios de expressar o que se sente, escutando as próprias emoções e começando a aprender a lidar com elas, são medidas que podem contribuir nesse momento.

4. Quebra da imagem de “super-herói” e os impactos na autoestima
Certamente, não é raro vermos os atletas de alto nível sendo associados a verdadeiros “super-heróis”. Na televisão, nas conversas entre as pessoas, e em diversos ambientes, esse tipo de visão costuma ser fortalecida.
Porém, um dos aspectos psicológicos diante das lesões no esporte é justamente a quebra dessa idealização. Em algum momento, o próprio atleta pode se enxergar como um herói, que deve sempre demonstrar um desempenho cada vez melhor e mais frutífero. Consequentemente, quando se depara com um impeditivo para ir adiante, a sua autoestima pode ficar abalada. O choque de realidade, projetado pelo fato de que não é possível ultrapassar os limites do corpo e de que, no fim, somos todos seres humanos sem superpoderes, pode ser devastador.
A quebra da idealização é sempre dolorosa e angustiante. Portanto, permitir-se viver o luto dessa perda, enxergando traços reais em si mesmo, pode ser um caminho a ser seguido diante dessa situação.

5. Foco apenas em voltar aos jogos
O sofrimento psíquico e físico podem, em alguns casos, serem deixados em segundo plano. Aqui, o atleta pode focar apenas em voltar aos jogos, questionando a equipe médica sobre quando isso poderá acontecer.
Porém, essa situação pode ser a porta de entrada para situações de extrema ansiedade e até mesmo de estresse, o que pode resultar em uma maior dificuldade para o próprio organismo se recuperar frente ao que está acontecendo.
Justamente por conta disso que o estabelecimento de metas, que respeitam as etapas e os limites da recuperação, pode ser uma forma de minimizar essa visão que se ancora única e exclusivamente na volta aos jogos.

6. Cobrança externa
Sem dúvidas, a sociedade, bem como os colegas e toda a equipe esportiva, podem cometer o equívoco de iniciar uma cobrança excessiva sobre o atleta.
É o caso de entrevistas invasivas que questionam o esportista sobre quando este voltará ao esporte; matérias televisivas que especulam a possibilidade de melhora ou piora do quadro clínico do atleta; pessoas questionando, em rodas de conversa informais, como anda o tratamento e quando o atleta terá o mesmo desempenho de antes; a cobrança gerada pela necessidade de se conquistar novos títulos para o time; e assim por diante.
Tudo isso pode criar uma atmosfera ainda mais desgastante, na qual os aspectos psicológicos diante das lesões no esporte ficam negativamente evidentes. O atleta pode se sentir pressionado a ir adiante e, muitas vezes, negligencia os sinais de dor e de limites que o seu corpo dá, resultando em um agravamento do problema ao tentar competir mesmo que a recuperação ainda não seja efetiva.
Portanto, é necessário refletir sobre toda essa pressão que vem sendo vivida. De onde ela vem? Por que vem? Será que deve ser validada e aceita? Ou será que é mais pertinente focar no tratamento e trazer a atenção para isso? Como lidar com essa imposição alheia?

7. Sentimento de impotência
O sentimento de impotência surge no ser humano quando esse se vê diante de limites e imposições que não é capaz de mudar de uma hora para outra. É o caso do atleta que, ao se deparar com os limites provocados pela lesão, percebe que não tem o poder de mudar a situação de um segundo para outro.
Mas, sim, há a necessidade de, simplesmente, seguir as recomendações médicas e aguardar todo o período de recuperação, evitando pular etapas, uma vez que isso poderia apenas prejudicar ainda mais o caso.
Essa situação pode ocasionar sentimentos de angústia, revolta, tristeza, raiva, irritabilidade, entre tantos outros efeitos que podem ser experimentados de forma singular, de acordo com a vida e o contexto de cada indivíduo.
É muito importante buscar apoio psicológico neste momento, a fim de construir um ambiente que estimule a paciência e ajude o atleta a enxergar novas possibilidades, com base nas suas necessidades e limites.

8. Angústia ao ter sua dor invalidada
É muito comum vermos, no meio esportivo, a dor do atleta ser reduzida e até mesmo invalidada. É o caso de associar os momentos de choro ou de reclamação de dor a “fingimento” ou “exagero” por parte do indivíduo.
Esse tipo de situação pode ser muito negativa, emocionalmente. Pois pare e pense: imagine você vivendo um momento difícil em sua vida, na qual as outras pessoas apenas dizem que é frescura sua? Pois é!
Acima de tudo, é algo extremamente injusto, uma vez que não existe régua para dor e sofrimento. Logo, cada caso é único e não pode ser comparado, nem na hora de “aumentar” a “importância” de um sofrimento, e muito menos na hora de diminuir para fazer com que a pessoa “apenas deixe para lá esse exagero”.
Portanto, o atleta pode reconhecer que possui os seus próprios limites emocionais, e tudo bem! Também pode focar no que está sentindo, deixando de lado os julgamentos e apontamentos que são feitos por pessoas que sequer sabem o que o atleta está vivendo.
Priorizar-se, ignorando os comentários que não fazem sentido, é um caminho muito pertinente nessas situações.

9. Aumento de ansiedade e estresse
Obviamente, o aumento da ansiedade e do estresse também pode ser caracterizado como um dos aspectos psicológicos diante das lesões no esporte.
A ansiedade diz respeito à angústia de esperar que algo aconteça, que os resultados sejam atingidos e que o pior passe. O estresse pode se associar à situação de estar lidando com a dor, com as limitações e com a necessidade de seguir uma rotina de cuidados médicos que impedem que o sujeito seja quem ele estava sendo, no esporte, antes da lesão.
Tudo isso pode gerar a frustração que citamos, com o plus de crises ansiosas e estressantes.
Nessas situações, é imprescindível contar com a ajuda de profissionais da saúde mental, a fim de avaliar as próprias emoções e aprender a lidar com elas de uma maneira que proteja o bem-estar e a qualidade de vida do atleta.

Como lidar com as questões psicológicas em casos de lesões no esporte?

No decorrer deste texto, pudemos analisar e averiguar alguns dos principais aspectos psicológicos diante das lesões no esporte. Agora, vamos discutir alguns caminhos que podem ser seguidos diante dessas questões que surgem em decorrência das dores e lesões vividas por atletas de alto nível.

Como mencionado anteriormente, não estamos aqui para descrever uma “verdade absoluta”. Mas, sim, estamos aqui para apresentar aspectos que podem contribuir para o aumento da qualidade de vida do sujeito diante da situação que vem sendo vivenciada. Vamos adiante:

1. Psicoterapia
A Psicologia Esportiva tem um papel muito importante frente aos aspectos psicológicos diante das lesões no esporte. Isso porque, com o auxílio do terapeuta, o atleta poderá falar de suas angústias, suas emoções e suas visões com relação à lesão, à carreira, às perspectivas para o futuro, etc.
Além disso, o terapeuta poderá colocar em prática uma série de técnicas que visam minimizar o estresse, a ansiedade e o sofrimento emocional do sujeito. É o caso de investir em técnicas de relaxamento, técnicas de visualização, traçar metas, entre outras possibilidades que podem ser pertinentes.
Em cada situação, o terapeuta avaliará as condições emocionais e as questões mais intrínsecas do paciente, visando oferecer um suporte que esteja alinhado com a subjetividade do sujeito.

2. Introdução de técnicas de relaxamento
As técnicas de relaxamento também podem contribuir para um aumento do bem-estar e uma redução da ansiedade e do estresse que são gerados em casos de lesões no esporte.
Essas técnicas contribuem para um momento de descanso da mente e do corpo, resultando em sensações boas e até mesmo em visões diferenciadas perante o futuro e as expectativas do indivíduo.
Dentre essas técnicas, podemos citar a meditação – que pode ser guiada ou não – e a técnica de respiração profunda – ou diafragmática -, que tende a reduzir os níveis de estresse, oferece sensação de bem-estar e pode ajudar o atleta a se conectar, com mais frequência, com o seu próprio corpo, seu próprio ritmo e o seu próprio “eu”.
Esse tipo de exercício de relaxamento pode ser colocado em prática no decorrer da rotina, especialmente em momentos de pausa e descanso, a fim de oferecer um dia a dia que seja mais agradável e menos desgastante emocionalmente.

3. Respeito aos limites do corpo e das emoções
Respeitar os limites do corpo, sem tentar pular etapas durante o tratamento, é uma forma de minimizar as chances de que o problema se agrave. Embora, no momento, a espera possa parecer grande, lembre-se de que estima-se um fim para ela. Já no caso de “forçar a situação” e tentar ultrapassar os limites do corpo a qualquer custo, como por exemplo, consumindo muitos medicamentos para parar a dor e para tentar burlar as sensações orgânicas, é algo perigoso.
O mesmo vale para as emoções. Tentar escondê-las, a qualquer custo, por medo de ser visto como “frágil”, é algo que apenas sobrecarrega a mente. E mais: a falta de atenção aos limites emocionais pode, também, sobrecarregar o corpo e a saúde como um todo.
Por isso, expressar os sentimentos, falar sobre as angústias e colocá-la em palavras, sem se expor aos gatilhos excessivos de estresse e de ansiedade, são formas de minimizar o sofrimento vivido neste momento.

4. Traçar metas
As metas de curto, médio e longo prazo podem ajudar na hora de visualizar quais são as pequenas mudanças que serão postas em prática dia após dia.
Você pode traçar metas com relação ao tratamento, aos exercícios que colocará em prática a cada dia, e com os resultados que almeja alcançar em cada etapa ultrapassada.
Lembre-se apenas de respeitar os limites do seu corpo e das suas emoções na hora de construir etapas que possam ser seguidas, cotidianamente, rumo ao retorno aos jogos.
Comece visualizando onde você está hoje. Como você está? Quais são os limites hoje? Depois, caminhe em direção ao curto prazo: nesta semana, o que pode ser feito para priorizar a sua recuperação de forma sadia e equilibrada?
Em seguida, caminhe para o médio prazo e visualize as mudanças que você deseja atingir daqui um ou dois meses. Por fim, foque em traçar metas para daqui seis meses ou mais, sempre respeitando as possibilidades do seu corpo.

5. Engajamento no tratamento da lesão
Sem dúvidas, o engajamento no tratamento é uma das peças-chave para enfrentar a situação. Pode parecer difícil e doloroso, e realmente é em muitos casos, mas seguir as recomendações dadas pelos profissionais da saúde é uma atitude valiosa neste momento.
Sabemos que nem sempre você terá aquela motivação que deseja para cumprir os exercícios fisioterapêuticos estipulados pelos profissionais. No entanto, tente retornar às suas metas para buscar, dentro delas, ferramentas que possam contribuir para o mantimento no foco e no engajamento no seu tratamento.
Lembre-se sempre de comentar com o seu psicólogo sobre os momentos de desânimo e de falta de interesse no tratamento. Dessa forma, as emoções por trás disso poderão ser investigadas, analisadas e ressignificadas.

6. Foco no que está sob controle
Sempre que possível, tente visualizar apenas o que está sob o seu controle. Ou seja, cuidado com os pensamentos ancorados no desejo de encontrar uma cura milagrosa… Infelizmente não está sob o seu controle encontrar algo mágico da noite para o dia. Mas, sim, está sob o seu controle seguir as recomendações médicas, ancorar-se em suas metas e seguir o passo a passo rumo às melhorias físicas.
Portanto, cuidado com o comportamento de ficar se maltratando ao tentar mudar o que não pode mais ser mudado. É mais pertinente dar atenção ao que está nas nossas mãos, além de ser uma atitude mais justa com nós mesmos. Pense nisso!

Referências
MEDEIROS, C. Lesão e dor no atleta de alto rendimento: o desafio do trabalho da psicologia do esporte. Psicologia Revista, [S. l.], v. 25, n. 2, p. 355–370, 2016. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/psicorevista/article/view/26235. Acesso em: 10 nov. 2022.

PENATTI, I. P. Lesão no contexto esportivo: a importância da psicologia do esporte. 2018. 21 f. Trabalho de conclusão de curso (bacharelado – Educação Física) – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Instituto de Biociências (Campus de Rio Claro), 2018. Disponível em: http://hdl.handle.net/11449/203986. Acesso em 10 nov. 2022.

PESCA, A. D. et al. Intervenção psicológica em um trabalho interdisciplinar na recuperação de atletas lesionados de futebol. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. 2004.