Alergia à proteína do leite de vaca
O que é a alergia à proteína do leite de vaca?
A alergia à proteína do leite de vaca (AVLV) se refere a uma reação anormal do sistema de defesa contra as proteínas do leite, sendo a forma mais comum de alergia em crianças menores de 2 anos de idade.
Embora tratadas com o mesmo nome, a APLV engloba de fato duas condições com apresentações e tratamento bastante distintos:
- APLV IgE mediada
- APLV não IgE mediada.
Vale aqui considerar que mesmo bebês em amamentação exclusiva podem desenvolver APLV quando a mãe consome o leite de vaca e passa essas proteínas através do leite materno.
APLV Não IgE mediada
A ALPV não IgE mediada é a forma mais branda da doença, com incidência estimada em 0,5% a 2% das crianças menores de 1 ano.
A maior parte dos casos surge nos primeiros 3 a 6 meses de vida, sendo raro que se inicie após o primeiro ano de vida completo do bebê. Os sintomas tendem a melhora após os 2 anos de vida e não costumam mais estar presentes após os 5 anos de vida.
Sintomas da APLV não IgE mediada
A APLV não IgE mediada afeta principalmente o trato gastrointestinal e provoca reações tardias, surgindo horas ou até dias após a ingestão do leite.
Os sintomas típicos incluem:
- Alterações nas fezes: presença de sangue e/ou muco (um sinal clássico).
- Problemas intestinais: diarreia frequente ou, em alguns casos, prisão de ventre e constipação intestinal.
- Desconforto abdominal: cólicas intensas, irritabilidade e distensão abdominal.
- Sintomas alimentares e de crescimento: Recusa alimentar, refluxo gastroesofágico e baixo ganho de peso ou crescimento inadequado.
Diferentemente da APLV IgE mediada, os sintomas cutâneos e respoiratórios não estão presentes nesses pacientes.
Diagnóstico da APLV não IgE mediada
Considerando que os sintomas demoram a aparecer após o consumo do leite e a grande frequência de sintomas gastrointestinais em bebês independentemente da APLV, pode ser difícil em alguns casos relacionar os sinais e sintomas apresentados pelo bebê com a alergia a proteína do leite de vaca. Por este motivo, o diagnóstico frequentemente é feito de forma tardia.
Nenhum exame laboratorial ou de fezes tem utilidade na investigação da doença. Assim, o diagnóstico deve ser feito a partir de um teste terapêutico. Primeiramente, o leite deve ser totalmente excluído da dieta. No caso de bebês que amamentam, ele deve ser excluído também da dieta materna.
Após aproximadamente 2 semanas, uma vez observado a melhora dos sintomas, o bebê deve ser novamente exposto ao leite. Caso volte a ter sintomas, fica fechado o diagnóstico da APLV.
Tratamento da APLV não IgE mediada
Uma vez diagnosticada a alergia à proteína do leite de vaca, é preciso excluir os alimentos preparados com leite e seus derivados da dieta da criança. Isso inclui queijos, manteiga, iogurte e outros. A exclusão deve incluir não apenas o leite de vaca, mas também outros tipos de leite de origem animal (cabra, ovelha, búfala, outros).
Se o bebê alérgico estiver em aleitamento materno, a mãe também deve deixar de consumir esses alimentos.
A APLV não mediada muito raramente provoca sintomas graves e com riscos para a criança. Assim, há uma preocupação menor com a presença de traços do leite em ambientes compartilhados com pessoas sem alergia.
Reintrodução do Leite na Dieta
Após aproximadamente 6 meses de exclusão do leite da dieta e se o bebê está sem sinais e sintomas da alergia, é possível pensar na reintrodução do leite.
A reintrodução do leite deve ser feita de forma gradual, iniciando por fórmulas menos alergênicas, conforme os quatro degraus da “Escada do Leite”:
- Começar com Leite Processado: Introduza leite em produtos assados (bolos, biscoitos), pois o calor reduz a alergenicidade.
- Leite Cozido/Fervido: Prossiga para pequenas quantidades de leite fervido ou cozido.
- Leite Processado (Iogurte/Queijo): Introduza iogurte ou queijos menos processados, que são mais tolerados.
- Leite Fresco: Por último, introduza leite fresco pasteurizado, se os estágios anteriores forem bem tolerados.
A passagem de um degrau para o outro deve ser feita apenas quando o bebê não apresentar nenhuma reação negativa, sendo que o tempo necessário para essa transição pode variar bastante de criança para criança.
APLV IgE mediada
A alergia mediada por IgE é uma forma clássica e mais grave de alergia onde o corpo produz anticorpos (IgE) contra proteínas do leite.
A APLV IgE mediada geralmente tem início no momento da introdução de fórmulas infantis ou durante a introdução alimentar. Embora também tenha tendência a melhorar com o tempo, essa melhora é mais lenta do que na doença não mediada: 50% dos casos se resolvem até 1 ano, 70% em até 3 anos, 80% em até 5 anos e 90% em até 10 anos (1).
Sinais e sintomas
Diferentemente da alergia não mediada por IgE, a doença mediada por IgE provoca sintomas imediatos após o consumo de leite, em minutos ou no máximo em até duas horas depois.
Os sintomas geralmente são mais intensos e estão relacionados não apenas ao trato gastrointestinal, podendo também produzir erupções cutânea. Problemas respiratórios ou alterações no nível de consciência podem ser afetados, embora isso seja menos comum.
Diagnóstico da APLV IgE mediada
O diagnóstico da alergia à proteína do leite de vaca (APLV) IgE-mediada é clínico-laboratorial, baseado em história compatível, testes de sensibilização (IgE específica e/ou teste cutâneo) e testes de provocação.
Os testes de sensibilização devem ser interpretados com cautela. Isso porque um teste positivo isoladamente não é suficiente para confirmar a alergia, bem como o teste negativo torna a alergia menos provável, mas não exclui o diagnóstico.
O teste de provocação oral é o padrão outro para o diagnóstico, sendo indicado quando a história clínica e os testes de sensibilização não forem suficientes para a confirmação. Diferentemente da doença não mediada por IgE, no entanto, o teste de provocação deve ser feito em ambiente hospitalar, pelo risoc baixo, mas presente, de reações alérgicas graves.
Tratamento da APLV IgE mediada
O tratamento da APLV mediado por IgE segue a mesma linha geral do tratamento da doença não mediada. No entanto, é preciso um cuidado redobrado com traços do alergénico, que podem ser suficientes para causar graves reações. Isso acontece por exemplo quando se usa utensílios usados com produtos lácteos por outras pessoas da casa e que não foram adequadamente limpos.
A reintrodução do leite, embora siga os mesmos padrões da alergia não mediada por IgE, deve ser feita com bastante cautela e sob estrita supervisão médica, pelo risco de reações graves.