Acondroplasia
O que é a acondroplasia?
A acondroplasia é uma doença genética que causa baixa estatura desproporcional, com encurtamento dos ossos longos (especialmente fêmur e tíbia), mas com o tamanho do tronco relativamente preservado.
Ela acomete cerca de 1 a cada 25.000 a 40.000 nascimentos, afetando igualmente homens e mulheres em todos os grupos étnicos.
Qual a causa da acondroplasia?
A acondroplasia é causada por uma mutação no gene FGFR3 (Receptor do Fator de Crescimento de Fibroblastos 3).
Embora ela possa ser passada de pais para filhos cerca de 80% dos casos estão associados a uma mutação expontânea, nas quais nenhum dos pais têm alteração genética ou baixa estatura. Esses casos têm uma forte associação com idade paterna avançada.
OS demais 20% dos casos são aqueles em que pais com acondroplasia transmitem a doença para seus decendentes, por meio de uma herança genética do tipo autossômica dominante. Assim, caso uma pessoa com acondroplasia tenha filho, a probabilidade de transmitir o gene e a doença será de 50%.
No caso de ambos os pais terem acondroplasia, por outro lado, as probabilidades de transmissão dos genes são as seguintes:
- 50% de chance de a criança nascer com acondroplasia (herdando o gene alterado de um dos pais).
- 25% de chance de a criança ter estatura normal, por não herdar o gene alterado nem do pai nem da mãe.
- 25% de chance de a criança herdar a mutação de tanto do pai quanto da mãe. Estes casos estão associados a uma forma mais grave da doença, que geralmente é fatal antes ou logo após o nascimento.
Apresentação clínica
O principal achado clínico na acondroplasia é a baixa estatura desproporcional, com encurtamento especialmente de úmero e fêmur, mas com tronco relativamente preservado.
A altura média na vida adulta para homens é de aproximadamente 131 cm, enquanto as mulheres têm uma altura média de 124 cm.
Outros achados comuns a esses pacientes incluem:
- Macrocefalia: cabeça desproporcionalmente grande;
- Hipoplasia facial, com ponte nasal achatada e possível má oclusão dentária;
- Coluna vertebral com hiperlordose lombar e hipercifose torácica (especialmente na infância), além de estreitamento do canal vertebral (estenose espinhal), mais comum na vida adulta;
- Mãos em tridente, com separação aumentada entre o 3º e 4º dedos;
- Joelhos e m varo e limitação da extensão dos cotovelos.
Acompanhamento do bebê com acondroplasia
A acondroplasia está associada a um aumento da taxa de morbilidade e a complicações médicas durante toda a vida, algumas com menor risco e outras potencialmente fatais quando não identificadas e tratadas.
Nos bebês, a principal preocupação é com problemas neurológicos, incluindo o acúmulo de líquido no cérebro (hidrocefalia, com potencial necessidade de derivação) ou a Estenose do Foramen Magnum (com potencial necessidade de cirurgia). Outra preocupação é com a Apneia Central do Sono. Assim, todo Recém-nascido com acondroplasia deve realizar exames de imagem do cérebro e da coluna, bem como exame de polissonografia.
Acompanhamento da criança com acondroplasia
Crianças com acondroplasia apresentam um padrão de crescimento próprio, que diferem de seus pares sem a doença.
Medidas como a circunferência da cabeça, altura, peso e relação altura/peso precisam, dessa forma, serem monitorados por meio de gráficos especialmente desenvolvidos para essas crianças.
Além disso, os marcos de desenvolvimento também são diferentes. O desenvolvimento motor grosso tende a ocorrer de forma mais lenta, embora com grande variabilidade individual. Padrões motores adaptativos e não patológicos também são comuns. No entanto, a linguagem e a cognição são preservadas.
Alguns sinais de alerta que não devem ser atribuídos à acondroplasia e que, portanto, precisam ser avaliados incluem:
- Perda de habilidades previamente adquiridas
- Assimetria motora persistente
- Atraso importante de linguagem
- Hipotonia grave ou progressiva
- Sinais neurológicos focais
Por conta de todas essas diferenças, as crianças com acondroplasia precisam ser comparadas com o padrão de normalidade para seus pares, não com os padrões de normalidade para as crianças e bebês em geral.
Na tabela abaixo, mostramos alguns marcos do desenvolvimento comparando o que é esperado para a população em geral comparado com o que é esperado para crianças com acondroplasia.
| Marco do desenvolvimento | Criança em geral (média) | Criança com acondroplasia (média) | Comentário clínico |
| Sustentar a cabeça | 2–4 meses | 4–6 meses | A macrocrania relativa e a hipotonia axial retardam o controle cefálico |
| Rolar (dorso↔ventre) | 4–6 meses | 6–9 meses | Pode ocorrer de forma assimétrica inicialmente |
| Sentar sem apoio | 6–8 meses | 9–12 meses | Não se deve estimular sentar precocemente (risco cervical) |
| Engatinhar | 8–10 meses | 10–14 meses (ou pode não ocorrer) | Muitas crianças adotam formas alternativas de locomoção |
| Ficar em pé com apoio | 9–11 meses | 12–18 meses | Influenciado por genu varum e hiperlordose |
| Andar sem apoio | 12–15 meses | 18–24 meses (às vezes até 30 meses) | Variação ampla e considerada fisiológica |
| Coordenação motora fina (pinça) | 9–12 meses | 9–12 meses | Geralmente preservada |
| Primeiras palavras | 10–15 meses | 10–15 meses | Linguagem típica; atenção a perdas auditivas |
| Frases simples | 18–24 meses | 18–24 meses | Atrasos sugerem investigar audição |
| Controle esfincteriano diurno | 2–3 anos | 2–4 anos | Pode haver atraso leve por questões posturais |
| Subir escadas | 2–3 anos | 3–4 anos | Influenciado pela estatura e biomecânica |
| Correr | 2–3 anos | 3–4 anos | Padrão motor adaptado, não patológico |
| Pular com ambos os pés | 3–4 anos | 4–5 anos | Relacionado à força e alinhamento dos membros |
Adolescência e adultos
As características biomecânicas e a baixa estatura desproporcional associadas à acondroplasia criam desafios na realização do autocuidado, condução, mobilidade independente e funcionamento diário.
Embora a maioria das pessoas possam desfrutar de uma vida normal e com adaptações gerenciáveis, o diagnóstico pode ter efeitos consideráveis na saúde física e mental. As complicações médicas podem ocorrer ao longo de toda a vida, necessitando de acompanhamento regular.
Avaliação ortopédica
A principal preocupação ortopédica está relacionada à estenose do canal vertebral, por conta da malformação óssea.
Além da formação musculoesquelética propriamente dita, os efeitos da hipotonia do tronco, aumento do peso da cabeça e frouxidão ligamentar levam a uma sobrecarga na coluna, que em muitos casos resulta em problemas posturais como a hiperlordose lombar e a hipercifose torácica. Essees desvios podem levar a uma piora da estenose do canal vertebral e em alguns casos podem precisar ser corrigidos cirurgicamente.
A dor na coluna também é mais comum, sendo resultado não apenas das questões posturais, mas também do ganho de peso e do sedentarismo que frequentemente acomete esses pacientes.
Nos membros inferiores, além do encurtamento dos membros é comum que se tenha também um mau alinhamento em varo. Esse mau alinhamento pode gerar uma distribuição de cargas anormal, que por sua vez pode provocar dor e outras lesões musculoesqueléticas.
Por fim, é preciso considerar também a hipotonia e os déficits de mobilidade, que muitas vezes podem prejudicar consideravelmente a função.
Ouvido, nariz e garganta
A aconcroplasia leva a uma hipoplasia do terço médio da face, o que inclui tubos de eustáquio encurtados, faringe pequena e aumento relativo das amígdalas e adenóides. Por conta disso, problemas que acometem o ouvido, nariz e a garganta são mais comuns.
A Otite Média é um problema bastante recorrente. Nos pacientes com acondroplasia, ela geralmente tem indicação para tratamento cirúrgico, com a implantação de tubos auditivos para evitar a perda auditiva condutiva.
Saúde dental
Alterações dentárias são comuns na acondroplasia, em decorrência das alterações no desenvolvimento ósseo craniofacial. Isso inclui anomalias na forma, tamanho, e posicionamento dos dentes, bem como a problemas de oclusão.
O desenvolvimento insuficiente do maxilar superior (hipoplasia maxilar) é uma característica comum, resultando em uma face média mais achatada.
Já a mandíbula (maxilar inferior) fica mais proeminente (prognatismo) em relação ao maxilar superior subdesenvolvido.
A desproporção entre o tamanho dos maxilares e o dos dentes leva a uma falta de espaço na arcada dentária, resultando em problemas de encaixe (maloclusão) e dentes muito juntos (apinhamento dentário). Por fim, a língua se torna desproporcionalmente grande em relação ao espaço oral disponível, o que pode agravar a maloclusão e os problemas com a fala.
Obesidade
A obesidade é um problema relativamente comum na acondroplasia. Ela parece ter uma natureza multifatorial, associada à menor necessidade calórica destes pacientes, combinado com sedentarismo. A resistência à insulina é um distúrbio adicional que pode estar presente.
Além de todos os problemas habitualmente associados à obesidade. O acondroplásico terá efeitos adversos adicionais por conta de sua condição, especialmente relacionados ao sistema musculoesquelético.
O incentivo precoce de atividade física regular, cuidados nutricionais e adoção de um estilo de vida saudável é fundamental para se evitar a obesidade.