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Abuso de telas na infância e na adolescência

Quais as consequências do abuso de telas na infância e na adolescência?

Os benefícios providos pelos meios digitais são indiscutíveis, sendo esperado e desejável que as crianças aprendam habilidades relacionadas à informática. Não se discute também que a tecnologia digital pode ser uma ferramenta relevante no arsenal pedagógico dos professores, especialmente quando ela faz parte de um projeto educacional estruturado. Ainda assim, é preciso ter cuidado com o tempo total e com a forma como acontece a exposição a essas diferentes tecnologias.

Além das atividades educacionais dirigidas, quase sempre prevalece o uso recreativo com mídias mais empobrecedoras, como televisão, videogames e especialmente as redes sociais. Mais do que empobrecedoras, são mídias com potencial para sérios danos ao neurodesenvolvimento e à saúde mental, como veremos adiante.

O abuso de telas é um problema relativamente novo e no qual ainda faltam estudos mais robustos. Muito se discute sobre os efeitos de curto e médio prazo do uso desses dispositivos, mas pouco se sabe sobre seus efeitos de longo prazo.

Alguns dos problemas relacionados ao abuso de telas incluem problemas neuropsiquiátricos, ortopédicos e oftalmológicos. O sedentarismo é um sério problema que tem se agravado cada vez mais, já que o tempo ativo ao ar livre tem sido substituído pelas telas. Além disso, é preciso considerar problemas de segurança relacionados ao uso idiscriminado das telas, especialemnte relacionados ao contato digital com adultos ou mesmo crianças e adolescentes mal-intensionados.

As experiências digitais devem ser diferenciadas em termos de conteúdo, dispositivo, contexto, local de uso e indivíduos envolvidos. Os efeitos negativos estão relacionados tanto ao tempo total em que a criança é exposta a essas mídias, quando ao conteúdo que é acessado.

Efeitos das telas em crianças X adultos

As telas possuem efeitos negativos para a saúde tanto de crianças como de adultos. A principal diferença, no entanto, é que a criança está sofrendo esses efeitos em uma fase na qual o Sistema Nervoso ainda está em desenvolvimento.

O potencial para a plasticidade cerebral é extremo durante a infância e a adolescência. Depois, ele começa a desaparecer. Ele não desaparece nos adultos, mas se torna muito menos eficiente.

Os meios digitais estão pela primeira vez na história fazendo com que o Coeficiente de Inteligência das crianças seja menor do que o de seus pais.

Existem diferentes razões para isso:

  • Subestimulação intelectual, devido à redução no tempo dedicado a outras atividades mais enriquecedoras (lição de casa, música, arte, leitura, etc.);
  • Piora do sono, tanto no tempo total que a criança dorme quanto na qualidade desse sono;
  • Problemas com a atenção e a concentração;
  • Problemas no desenvolvimento da linguagem;
  • Menor interação social
  • Sedentarismo excessivo que, além do desenvolvimento corporal, prejudica também a maturação cerebral.

Sono

A luz azul emitida pelas telas imita a luz do dia e reduz a produção de melatonina, um hormônio que controla o ciclo do sono.

Isso afeta diretamente o relógio biológico do nosso corpo. O cérebro passa a ter dificuldade para perceber o que é noite ou dia. Ele demora para se desligar, comprometendo o início do sono.

Quando o contato com os eletrônicos acontece com a luz do quarto apagada, os danos ao sono são ainda maiores. Neste caso, a pupila fica dilatada, e os olhos ainda mais expostos à incidência da luz proveniente das telas.

A American Academy of Sleep Medicine (AASM) recomenda evitar o uso de telas eletrônicas, como smartphones, tablets, computadores e televisão, por pelo menos uma hora antes de dormir. Isso permite que o cérebro entre em um estado de relaxamento adequado para o sono.

Além de outras medidas relacionada à higiene do sono discutidas no artigo sobre insônia, algumas outras formas para minimizar o efeito negativos dos aparelhos eletrônicos no sono incluem:

  • Usar o modo noturno ou filtro de luz azul no dispositivo
  • Manter os dispositivos fora do quarto
  • Silenciar as notificações ou colocar o dispositivo em modo silencioso
  • Evitar pegar o celular se acordar no meio da noite
  • Usar um despertador tradicional

Subestimulação intelectual

Nem todas as atividades alimentam o desenvolvimento e a maturação cerebral com a mesma eficiência.

Atividades relacionadas à escola, trabalho intelectual, leitura, música, arte, esportes ou mesmo as brincadeiras com os amigos estimulam muito mais o desenvolvimento cerebral do que as telas. Quando o tempo dedicado às telas aumenta, o tempo que sobre para as outras atividades fica restrito.

Concentração e atenção

o cérebro opera com dois tipos de atenção:

  • Atenção automática: está presente quando interagimos com algo que é facilmente envolvente, como mídias sociais, videogames e televisão.
  • Atenção direcionada: está presente quando nos concentramos em tarefas tediosas (e às vezes chatas), como estudar, ler um livro ou dobrar roupa. Atividades que são mais laboriosas requerem atenção direcionada significativa

Pessoas que ficam muito tempo em frente às telas estão sempre expostos a uma atenção automática, não desenvolvendo a atenção direcionada.

Além disso, os conteúdos exibidos em mídias eletrônicas são via de regra muito dinâmicas. As pessoas estão sempre sendo apresentadas a novos conteúdos e mudam o que estão assistindo o tempo todo. Com isso, essas pessoas não desenvolvem a habilidade de manter a concentração em um conteúdo único além de alguns minutos. Mesmo em sala de aula, isso tem feito com que as crianças fiquem cada vez mais dispersas.

Memória

Conteúdos curtos e que prendem a atenção de forma mais automática envolvem um raciocínio mais instantâneo, diferente do que exercitamos em nosso cérebro ao ler um livro ou qualquer outro material que exige mais tempo de compreensão.

Quando o raciocínio é mais rápido, a informação não fica consolidada no cérebro, de forma que áreas do cérebro responsáveis pela memória ficam subestimuladas.

Raciocínio e resolução de problemas

A interação com as telas é muito mais passiva do que o mundo real. Enquanto no mundo real as pessoas são expostas aos problemas e precisam resolvê-los, no mundo digital elas geralmente são expostas ao problema e também à sua solução.

As mídias eletrônicas mais utilizadas por crianças buscam uma atenção que é mais automática, que não exigem que a criança precise pensar muito.

Linguagem e comunicação

O desenvolvimento da linguagem depende de uma reciprocidade entre os indivíduos que estão se comunicando. Uma pessoa escuta e depois responde. Essa resposta pode ser por meio da fala, de gestos, de expressões.

Quando estão no computador ou celular, as crianças tendem a receber a mensagem de forma passiva. Elas apenas escutam ou assistem, não respondem, não mantêm uma conversa.

Esses meios digitais têm substituído o contato direto da criança com os pais, cuidadores e amigos, dificultando a aquisição da linguagem.

Interação social

Crianças que ficam muito tempo em telas têm menos tempo para brincar e interagir com familiares, colegas e amigos.

As telas prejudicam não apenas o tempo de interação, mas também a qualidade dessas interações. Como vimos acima, as telas prejudicam entre outras coisas a atenção, a concentração, a linguagem e a memória. Todas essas habilidades são fundamentais para uma interação social de qualidade.

Isso sem contar com uma rotina cada vez mais frequente em que um grupo de amigos ou familiares estão juntos, mas cada um com seu dispositivo eletrônico. É o caso por exemplo de uma familia que vai a um restaurante e, enquanto os adultos conversam entre eles, as crianças se distraem com seus dispositivos eletrônicos.

Saúde emocional

O abuso de telas prejudica a saúde emocional de diferentes formas:

  • Pessoas que ficam muito tempo em telas tendem a ser mais sedentárias. O sedentarismo está associado a diferentes formas de transtornos mentais, como depressão e ansiedade;
  • O excesso de telas prejudica a socialização e favorece o isolamento social. O isolamento social está também implicado a uma pior saúde emocional;
  • Redes sociais tendem a apresentar um “mundo perfeito”, mas irreal, onde todos parecem ricos, viajam o tempo todo, estão em relacionamentos perfeitos e com filhos exemplares. Poucos expõem suas dificuldades e problemas. Isso faz com que muitos se sintam fracassados e inferiores a seus pares.

Dependência Digital

A dependência digital é o uso compulsivo e incontrolável de tecnologias (smartphones, internet, jogos), caracterizado pela necessidade de estar online, gerando isolamento, ansiedade e prejuízos na vida social e profissional.

É uma forma de dependência que funciona de forma muito parecida com outras formas de dependência química, como o tabagismo e alcoolismo, inclusive com sinais de abstinência quando não se tem a possibilidade de estar online.

Quando isso acontece, o tratamento médico / psiquiátrico pode ser necessário. Apenas o desejo de parar pode não ser suficiente.

Além de todos os problemas relacionados ao excesso de tele que discutimos até aqui, a dependência digital tem um agravante, já que ela aumenta o risco para outras formas de dependência, especialmente para os sites de apostas digitais / bets.

Segurança digital X privacidade da criança

Até aqui, discutimos muito sobre os efeitos gerais do tempo excessivo de tele para a saúde mental. No entanto, é preciso também considerar a segurança daquela criança em relação aos conteúdos, especialmente quanto ao contato com pedófilos ou com ideologias violentas.

A proteção digital não é apenas recomendável, mas um dever dos pais, uma obrigação legal. Os pais podem responder inclusive na esfera cível pelos atos praticados pelos filhos, caso ele venha a ferir a honra de um terceiro.

A configuração de controles parentais nos dispositivos é importante, mas geralmente não é suficiente. É preciso acompanhar o que está sendo acessado pelos menores – e isso deve ser sempre discutido previamente com a criança. Por mais que isso possa parecer invasivo para a criança, a segurança deve ser vista como prioridade.

Mais uma vez, vale reforçar que a base da relação tem que ser de confiança, explicando os motivos por trás das proibições. Os pais precisam ser transparente quanto ao monitoramento, jamais acessando o celular da criança sem que ela saiba disso.

Cyber Bullying

O Cyberbullying se caracteriza por uma intimidação sistemática praticada por meios digitais, como redes sociais, mensagens, jogos online, e-mails, fóruns e aplicativos. Embora tenha uma origem muito semelhante ao bullying tradicional, ele se diferencia por poder ser praticado de qualquer ambiente 24h por dia.

Além disso, ele se espalha muito rapidamente e, quando isso acontece, é muito difícil de apagar, o que significa que a mensagem difamatória continuará a se espalhar independentemente da vontade ou de ações do agressor original.

Vale considerar aqui que quaisquer pessoas que compartilhe essas mensagens tornam-se partes envolvidas e podem ser responsabilizadas por seus atos.

De acordo com o Código Civil e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), os pais podem ser responsabilizados pelos atos de bullying praticados por seus filhos menores de idade, especialmente por omissão na educação ou supervisão.

Eles podem respondender por danos morais e materiais à vítima. A responsabilidade nesses casos é objetiva, ou seja, não depende de comprovação de culpa dos pais, e pode ser solidária com a escola, se houver omissão desta.

Um agravante para isso é que a maior parte das redes sociais, como facebook, Instagram e TikTok estabelecem a idede mínima de 13 anos para ter uma conta – regra essa frequentemente burlada com a abertura de contas em nome dos responsáveis legais. Além disso, contas de usuários com até 16 anos devem estar, obrigatoriamente, vinculadas a um responsável legal, que será também o responsável pelo uso daquela conta.

Vale lembrar aqui que, nesse caso, a regra é válida também para a família da criança vítima de bullying, uma vez que se comprove que as agressões sofridas pelo menor estavam ligadas a um uso irregular de redes sociais com o consentimento dos responsáveis legais. Ou seja, se seu filho de 11 anos de idade está sofrendo cyberbullying, podemos dizer que você é em parte responsável por isso.

 

 

 

 

Obesidade

O abuso de telas pode contribuir para o aumento na incidência de obesidade de diferentes maneiras.

Primeiro por um efeito óbvio relacionado ao sedentarismo, afinal jogar videogame gasta muito menos energia do que ficar correndo de um lado para outro enquanto brinca com amigos.

Além disso, o uso de telas durante as refeições também tem um papel bastante relevante. Isso porque, quanto uma pessoa está muito focada em um dispositivo eletrônico, ela perde a atenção para sinais físicos da saciedade, o que leva a um consumo excessivo de alimentos.

Problemas ortopédicos

Dores cervicais estão associadas especialmente ao abuso dos telefones celulares. Isso porque, para ver o celular, as pessoas mantêm a cabeça voltada para baixo em aproximadamente 60º, posição que exige maior esforço da musculatura cervical.

O primeiro passo para quem sofre com essas dores é minimizar o uso dos celulares. Quando possível, o uso de computador com a tela na mesma altura dos olhos deve ser preferida.

Além disso, é fundamental o trabalho de alongamento e fortalecimento da musculatura paracervical, seja na prática regular de atividade física ou por meio da fisioterapia e suas diferentes técnicas.

Efeitos oftalmológicos

Diversas consequências oftalmológicas foram descritas como decorrentes do uso excessivo desses aparelhos digitais, como aumento da incidência de miopia, espasmo de acomodação, olho seco e estrabismo adquirido.

O principal problema para os olhos relacionado ao uso de telas é o excesso de tempo que as pessoas matêm a visão de perto.

O espasmo de acomodação está relacionado à acomodação do músculo responsável pelo foco. A pessoa pode ficar com dificuldade de enxergar para longe.

A miopia é um dos problemas de visão mais comuns no mundo. Ela acontece devido a um problema na refração dos raios de luz, que deixam de ser focalizados na parte posterior da retina, como deveria acontecer. Com isso, os objetos distantes parecem embaçados.

A miopia está relacionada tanto a fatores genéticos e ambientais. Entre os fatores ambientais, é preciso considerar o uso excessivo da visão de perto e tempo insuficiente dispensado em ambientes externos durante a infância.

o excesso de telas também é fator de risco conhecido para o desenvolvimento de síndrome de olho seco. Uma pessoa habitualmente pisca em média 15 vezes por minuto, mas esse número é reduzido em usuários de telas, levando aos sintomas de olho seco.

Para minimizar os efeitos oftalmológicos do abuso de telas, alguns cuidados devem ser considerados:

  • Preferir a maior tela, na maior distância possível (televisão é preferível ao celular);
  • Reduzir o brilho e aumentar o contraste da tela do aparelho eletrônico.
  • Evitar o uso de eletrônicos em ambientes escuros. A luminosidade da tela deve ser menor ou igual ao do ambiente. 

Recomendações gerais

Embora não exista ainda um consenso de qual seria o tempo recomendável de telas ao longo da infância, algumas das recomendações a serem consideradas incluem:

  • Crianças de até 2 anos: idealmente não devem ser expostas às telas eletrônicas, nem de forma passiva. O uso deve ocorrer apenas de forma eventual com o objetivo de manter o vínculo afetivo da criança com pessoas distantes e sempre com supervisão dos pais ou responsáveis.
  • Entre 2 e 5 anos: devem usar as telas por no máximo 1 hora por dia, sempre com supervisão dos pais ou responsáveis. Dar preferência por conteúdos educativos.
  • Entre 6 e 10 anos: adequar o uso para não ultrapassar 2 horas por dia, sempre com supervisão dos pais ou responsáveis. É preciso evitar exposição a temas violentos.
  • 11 anos ou mais: adequar para 2 a 3 horas por dia. Parte significativa disso deve estar voltada para conteúdos educativos. Ainda que a criança tenha mais liberdade na escolha das midias, as regras devem ser estabelecidas e o controle parental precisa ser feito.
  • Estabeleça regras de uso: a forma como as telas devem ser utilizadas deve estar bem clara para as crianças. Embora alguns “desvios” eventuais sejam tolerados, isso não deve acontecer no dia a dia.
  • Supervisão dos conteúdos: não deixar a criança fechada no quarto com acesso às telas. É preciso definir onde ela poderá acessar seus aparelhos, deforma que esteja sempre sendo observada.
  • Reservar momentos de desconexão e convivência familiar. Não permitir que os eletrônicos sejam levados para a mesa durante as refeições.
  • Evitar as telas por ao menos 2 horas antes de dormir e nunca “virar a noite jogando”.