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Parasitose intestinal

O que é a Parasitose Intestinal?

As parasitoses intestinais são infecções do aparelho digestivo causadas por parasitas, os quais incluem diferentes tipos de organismos que vivem dentro do intestino humano retirando dele os recursos necessários para a sua sobrevivência, podendo provocar diversos problemas de saúde.

Os parasitas intestinais incluem dois grandes grupos de organismos:

  • Helmintos: conhecidos popularmente como vermes,incluem a lombriga (Ascaris lumbricoides), os oxiúros (Enterobius vermicularis), os ancilostomídeos (“amarelão”), o tricocéfalo (Trichuris trichiura) e as tênias (“solitária”);
  • Protozoários, organismos microscópicos formados por uma única célula, como a Giardia duodenalis e a Entamoeba histolytica, responsáveis pela giardíase e amebíase, respectivamente.

Cada um desses parasitas possui um ciclo de vida, uma forma de transmissão e manifestações clínicas próprias. Alguns provocam apenas sintomas leves ou permanecem assintomáticos por longos períodos, enquanto outros podem causar diarreia persistente, anemia, desnutrição, atraso do crescimento e, em casos mais graves, complicações intestinais ou em outros órgãos.

Como se pega uma parasitose intestinal?

As parasitoses intestinais podem ser transmitidas de diferentes formas, dependendo do parasita envolvido. Entretanto, a maioria delas está relacionada ao contato com água, alimentos, solo ou objetos contaminados por fezes humanas. Por esse motivo, essas doenças são muito mais frequentes em locais com saneamento básico precário, abastecimento de água inadequado e condições insuficientes de higiene.

A forma de transmissão mais comum ocorre pela ingestão de ovos, cistos ou larvas microscópicas presentes em água ou alimentos contaminados. Frutas, verduras e legumes mal higienizados, água não tratada e alimentos preparados sem os devidos cuidados sanitários podem servir como fonte de infecção. Além disso, a transmissão também pode ocorrer pelas mãos contaminadas, especialmente em crianças pequenas, que frequentemente levam as mãos e objetos à boca.

Algumas parasitoses disseminam-se facilmente entre pessoas que convivem próximas. Na enterobíase (oxiuríase), por exemplo, os ovos do parasita podem permanecer por vários dias em roupas de cama, toalhas, brinquedos e outras superfícies, facilitando a transmissão entre familiares e em creches ou escolas.

Outras parasitoses apresentam formas de transmissão bastante específicas. Na ancilostomíase (amarelão), as larvas presentes no solo contaminado penetram ativamente pela pele, principalmente quando a pessoa anda descalça. Já a teníase é adquirida pelo consumo de carne bovina ou suína crua ou mal cozida contendo larvas da tênia.

Embora bons hábitos de higiene reduzam significativamente o risco de infecção, eles não oferecem proteção absoluta. Mesmo pessoas que lavam as mãos regularmente podem adquirir parasitoses ao consumir alimentos ou água contaminados, inclusive em restaurantes ou outros locais fora de casa.

Da mesma forma, crianças pequenas apresentam maior risco de infecção não apenas pelos hábitos de higiene ainda em desenvolvimento, mas também pela maior exposição ao ambiente e ao contato frequente com outras crianças.

A melhor forma de prevenir as parasitoses intestinais continua sendo a combinação de medidas individuais de higiene com ações coletivas, como saneamento básico adequado, acesso à água tratada, manipulação segura dos alimentos e educação em saúde.

Sinais e sintomas da Parasitose intestinal

As manifestações das parasitoses intestinais variam bastante conforme o tipo de parasita, a quantidade de organismos presentes no intestino e as características da pessoa infectada.

Muitas crianças apresentam poucos sintomas ou permanecem completamente assintomáticas. Nesses casos, o diagnóstico é feito apenas durante uma investigação médica ou por exames de fezes.

Quando presentes, os sintomas costumam estar relacionados à irritação do intestino, à competição por nutrientes ou às complicações provocadas pelo parasita.

Ainda assim, a intensidade dos sintomas nem sempre está relacionada ao número de parasitas presentes. Algumas pessoas com poucos parasitas apresentam sintomas importantes, enquanto outras com infestações mais intensas permanecem assintomáticas.

Dor abdominal

A dor abdominal é um dos sintomas mais comuns. Geralmente ela é difusa, em cólica e de intensidade leve a moderada, podendo ser recorrente por semanas ou meses.

Alterações do hábito intestinal

As parasitoses podem causar diarreia, constipação ou alternância entre diarreia e constipação.

Algumas infecções, como a giardíase, costumam provocar diarreia prolongada e fezes gordurosas, enquanto outras podem causar apenas desconforto intestinal e alteração do ritmo das evacuações.

Distensão abdominal e excesso de gases

Empachamento, sensação de barriga estufada e aumento da produção de gases são sintomas bastante comuns, principalmente nas infecções que comprometem a digestão e a absorção dos alimentos.

Náuseas e vômitos

Embora menos frequentes, náuseas e vômitos podem ocorrer, especialmente nas infestações mais intensas, levando a uma obstrução parcial do intestino por grande quantidade de vermes.

Perda de apetite e perda de peso

Alguns parasitas prejudicam a absorção de nutrientes ou provocam redução do apetite. Quando a infecção é prolongada, podem ocorrer perda de peso, dificuldade para ganhar peso e atraso do crescimento, principalmente em crianças.

Anemia e cansaço

Parasitas que se alimentam de sangue, como os ancilostomídeos (“amarelão”), podem causar anemia ferropriva. A criança pode apresentar palidez, cansaço, fraqueza, redução da disposição para brincar e queda do rendimento escolar.

Coceira na região anal

A coceira intensa ao redor do ânus, principalmente durante a noite, é bastante sugestiva de enterobíase (oxiuríase). Isso ocorre porque a fêmea do parasita deposita seus ovos na região perianal durante o sono, provocando intensa irritação local.

Outros sintomas

Dependendo do parasita, podem ocorrer manifestações menos comuns, como tosse durante a fase de migração pulmonar da lombriga (Ascaris lumbricoides), eliminação de vermes nas fezes ou pela boca, sangue nas fezes ou síndrome de má absorção.

Quando suspeitar de uma parasitose intestinal?

As parasitoses intestinais podem causar sintomas muito variados e, muitas vezes, semelhantes aos de outras doenças do aparelho digestivo. Além disso, muitas crianças permanecem completamente assintomáticas. Por esse motivo, o diagnóstico nem sempre é simples.

A suspeita deve ser considerada principalmente em crianças com dor abdominal recorrente, diarreia persistente, distensão abdominal, excesso de gases, perda de apetite ou dificuldade para ganhar peso, especialmente quando esses sintomas persistem por semanas ou meses sem uma explicação evidente.

Algumas manifestações são particularmente sugestivas de determinados parasitas. A coceira intensa na região anal durante a noite é bastante característica da enterobíase (oxiuríase). Já a diarreia prolongada acompanhada de fezes gordurosas e distensão abdominal sugere giardíase. Crianças com anemia ferropriva sem outra causa aparente, principalmente quando vivem em áreas rurais ou com saneamento precário, devem ser avaliadas para ancilostomíase (amarelão).

A suspeita também deve ser maior em crianças que vivem ou frequentam ambientes com condições sanitárias inadequadas, utilizam água não tratada, apresentam contato frequente com solo contaminado, frequentam creches ou escolas com ocorrência de surtos de parasitoses, ou possuem familiares com diagnóstico recente de infecção parasitária.

Quais são os principais tipos de verminose intestinal?

As parasitoses intestinais não correspondem a uma única doença, mas sim a um grupo de infecções causadas por diferentes parasitas. Cada uma delas possui características próprias quanto à forma de transmissão, frequência, manifestações clínicas, complicações e tratamento.

No Brasil, a giardíase e a ascaridíase (lombriga) estão entre as parasitoses intestinais mais frequentes, especialmente na infância. A enterobíase (oxiuríase) também é muito comum, principalmente em crianças que frequentam creches e escolas.

Outras infecções, como a tricuríase e a ancilostomíase (amarelão), tornaram-se menos frequentes nas últimas décadas graças à melhoria das condições de saneamento básico, mas ainda representam um importante problema de saúde pública em algumas regiões do país.

Já a teníase e a amebíase são atualmente menos comuns, embora continuem ocorrendo, principalmente em áreas com condições sanitárias precárias ou relacionadas ao consumo de alimentos contaminados.

Giardíase

A giardíase é uma parasitose causada pelo protozoário Giardia duodenalis (também conhecido como Giardia lamblia). Trata-se de uma das principais causas de diarreia parasitária na infância, sendo particularmente frequente em crianças menores de cinco anos, em creches e em regiões com abastecimento de água inadequado.

A transmissão ocorre pela ingestão de cistos presentes em água ou alimentos contaminados ou pelo contato direto com pessoas infectadas. Como a quantidade necessária para provocar infecção é muito pequena, surtos em creches e entre familiares são relativamente comuns.

Após atingir o intestino delgado, o protozoário adere à mucosa intestinal, prejudicando a digestão e a absorção dos nutrientes, especialmente das gorduras e da lactose.

Muitas pessoas permanecem assintomáticas. Quando presentes, os sintomas incluem diarreia prolongada, fezes volumosas e gordurosas, distensão abdominal, excesso de gases, cólicas, náuseas e perda de peso. Em crianças pequenas, infecções persistentes podem comprometer o estado nutricional e o crescimento. Algumas pessoas podem desenvolver uma intolerância temporária à lactose.

A suspeita deve ser maior em crianças com diarreia persistente, distensão abdominal e dificuldade para ganhar peso, especialmente após ingestão de água não tratada ou em situações de surtos familiares ou em creches.

A evolução costuma ser excelente após o tratamento adequado. Entretanto, quando não tratada, a giardíase pode persistir por semanas ou meses e ocasionar má absorção de nutrientes e atraso do crescimento infantil.

 Ascaridíase (lombriga)

A ascaridíase é uma parasitose causada pelo helminto Ascaris lumbricoides, popularmente conhecido como lombriga. Trata-se da helmintíase intestinal mais comum do mundo, acometendo centenas de milhões de pessoas, principalmente em regiões tropicais e subtropicais com saneamento básico precário.

No Brasil, sua prevalência diminuiu nas últimas décadas em decorrência da ampliação do saneamento, da melhoria das condições de higiene e da urbanização, mas a doença continua sendo uma das verminoses mais frequentes na infância.

A transmissão ocorre pela ingestão de ovos do parasita presentes em água, alimentos ou mãos contaminadas por fezes humanas. A infecção está intimamente relacionada às condições sanitárias da comunidade, sendo mais frequente em locais com abastecimento de água inadequado e coleta de esgoto insuficiente.

Embora medidas como lavar as mãos e higienizar frutas e verduras reduzam o risco de transmissão, elas não eliminam completamente a possibilidade de infecção. Crianças pequenas são particularmente suscetíveis, devido aos hábitos de higiene ainda em desenvolvimento. Além disso, qualquer pessoa pode adquirir a doença ao consumir alimentos ou água contaminados, inclusive em restaurantes ou outros locais fora de casa.

Após serem ingeridos, os ovos liberam larvas que atravessam a parede do intestino e migram temporariamente pelos pulmões antes de retornarem ao intestino delgado, onde se desenvolvem até a fase adulta. Apesar desse ciclo complexo, a maioria das pessoas apresenta poucos sintomas ou permanece completamente assintomática.

Quando presentes, os sintomas costumam ser inespecíficos e incluem dor abdominal recorrente, distensão abdominal, náuseas, redução do apetite e, ocasionalmente, diarreia. Durante a fase de migração pulmonar, algumas pessoas podem apresentar tosse seca, chiado no peito e febre baixa, quadro conhecido como síndrome de Löeffler.

A evolução costuma ser benigna, especialmente quando o diagnóstico é realizado precocemente e o tratamento é instituído de forma adequada. Casos graves são incomuns e geralmente estão relacionados a infestações com grande número de vermes, podendo evoluir com obstrução intestinal ou migração para as vias biliares e pancreáticas. A eliminação de vermes pela boca ou pelo nariz, embora frequentemente descritas ao se falar da doença, é uma manifestação rara, observada quase exclusivamente em infestações muito intensas.

Enterobíase (Oxiuríase)

A enterobíase, também conhecida como oxiuríase, é uma parasitose causada pelo helminto Enterobius vermicularis. Trata-se de uma das verminoses mais frequentes na infância, especialmente entre crianças em idade pré-escolar e escolar.

Sua elevada frequência está relacionada à facilidade de transmissão em ambientes onde muitas crianças convivem próximas, como creches, escolas e dentro da própria residência.

A transmissão ocorre pela ingestão dos ovos do parasita, que podem estar presentes nas mãos, brinquedos, roupas, toalhas, roupas de cama ou outros objetos contaminados. Como a coceira leva a criança a levar as mãos à região anal e, posteriormente, à boca, a autoinfecção é muito comum. Além disso, os ovos permanecem viáveis no ambiente por vários dias, favorecendo a disseminação entre familiares.

Após serem ingeridos, os ovos liberam larvas que se desenvolvem no intestino grosso. Durante a noite, as fêmeas migram para a região ao redor do ânus para depositar milhares de ovos, desencadeando o principal sintoma da doença.

A maioria das crianças apresenta poucos sintomas. Quando presentes, a característica mais marcante é a intensa coceira anal, principalmente durante a noite. Irritabilidade, sono agitado, dificuldade de concentração e despertares frequentes também são comuns. Nas meninas, ocasionalmente, o parasita pode migrar para a região genital, provocando vulvovaginite.

A suspeita deve ser considerada principalmente em crianças com coceira anal noturna persistente ou quando outros membros da família apresentam sintomas semelhantes. Como os ovos raramente aparecem no exame parasitológico de fezes, o diagnóstico costuma ser feito pelo teste da fita adesiva realizado na região anal ao despertar.

A evolução costuma ser benigna, e a maioria dos pacientes melhora rapidamente após o tratamento adequado. Entretanto, as reinfecções são frequentes, tornando indispensável o tratamento simultâneo dos contatos domiciliares e o reforço das medidas de higiene.

 Tricuríase

A tricuríase é causada pelo helminto Trichuris trichiura, conhecido popularmente como tricocéfalo. A doença é mais frequente em regiões tropicais com deficiência de saneamento básico e costuma ocorrer associada a outras verminoses intestinais.

A transmissão acontece pela ingestão de ovos presentes em água, alimentos ou mãos contaminadas por fezes humanas. Assim como outras helmintíases, ela está diretamente relacionada às condições de saneamento e higiene da comunidade.

Na maioria dos casos, a infecção é leve e não provoca sintomas. Quando há grande quantidade de parasitas, podem surgir dor abdominal, diarreia crônica, anemia, perda de peso e atraso do crescimento.

A suspeita deve ser considerada principalmente em crianças com diarreia persistente, anemia ou dificuldade para ganhar peso, especialmente quando vivem em áreas endêmicas.

A evolução costuma ser favorável após o tratamento. Casos graves são pouco frequentes, mas podem provocar síndrome disentérica crônica e, em crianças com infestações muito intensas, prolapso retal, considerado uma complicação característica, ainda que incomum, da doença.

 Ancilostomíase (Amarelão)

A ancilostomíase é causada pelos helmintos Ancylostoma duodenale e Necator americanus, conhecidos popularmente como amarelão. Embora sua frequência tenha diminuído nas últimas décadas com a melhoria das condições sanitárias, a doença ainda ocorre em regiões rurais e comunidades com saneamento básico precário.

Diferentemente da maioria das parasitoses intestinais, a transmissão ocorre quando as larvas presentes no solo contaminado penetram ativamente pela pele, geralmente ao andar descalço. Após entrarem no organismo, elas passam pelos pulmões antes de atingirem o intestino delgado, onde se fixam na mucosa intestinal.

Esses parasitas alimentam-se de sangue, provocando pequenas perdas contínuas que, ao longo do tempo, podem resultar em deficiência de ferro e anemia.

No início, pode haver uma coceira no local de penetração da larva (“coceira do solo”). Os sintomas costumam surgir de forma lenta e incluem dor abdominal, diarreia, perda de apetite, cansaço e palidez. Em crianças, infecções prolongadas podem comprometer o crescimento, o desenvolvimento cognitivo e o rendimento escolar.

A suspeita deve ser maior em pessoas que vivem em áreas rurais ou com saneamento inadequado e apresentam anemia ferropriva sem outra causa aparente, especialmente quando associada a sintomas gastrointestinais.

Quando tratada precocemente, a evolução costuma ser excelente. Entretanto, infecções persistentes podem causar anemia importante e desnutrição, principalmente em crianças e gestantes.

 Teníase

A teníase é causada pelos helmintos Taenia saginata e Taenia solium, conhecidos popularmente como solitária. Atualmente, sua incidência é relativamente baixa em áreas urbanas, sendo mais frequente em regiões onde há criação de bovinos e suínos com fiscalização sanitária insuficiente.

A transmissão ocorre pela ingestão de carne bovina ou suína crua ou mal cozida contendo larvas do parasita. No intestino, essas larvas desenvolvem-se em vermes adultos que podem atingir vários metros de comprimento.

A maioria das pessoas permanece assintomática. Quando presentes, os sintomas costumam ser leves e incluem dor abdominal, náuseas, alterações do hábito intestinal, perda de apetite e perda de peso. Algumas pessoas procuram atendimento após perceberem a eliminação espontânea de segmentos do verme nas fezes.

A suspeita deve ser considerada principalmente em pessoas que eliminam segmentos esbranquiçados nas fezes ou apresentam história de consumo frequente de carne mal cozida em áreas endêmicas.

A evolução costuma ser benigna e a cura é obtida com tratamento medicamentoso adequado. É importante destacar que a teníase não deve ser confundida com a cisticercose.

Enquanto a teníase resulta da ingestão de larvas presentes na carne contaminada, a cisticercose ocorre pela ingestão de ovos de Taenia solium, eliminados nas fezes de pessoas infectadas, podendo comprometer o cérebro, músculos e outros órgãos.

Consequências da Verminose não tratada

Muitas parasitoses intestinais provocam poucos sintomas ou permanecem completamente assintomáticas, especialmente quando a quantidade de parasitas é pequena. Por esse motivo, é comum que a infecção passe despercebida por semanas ou meses.

Entretanto, mesmo nesses casos, alguns parasitas podem comprometer gradualmente a absorção de nutrientes, causar perda crônica de sangue ou provocar inflamação persistente do intestino. Nas crianças, essas alterações podem repercutir no crescimento, no estado nutricional e no desenvolvimento.

Desnutrição e atraso do crescimento

Diversas parasitoses podem prejudicar a digestão e a absorção dos nutrientes ou aumentar suas perdas pelo intestino. Em crianças, isso pode resultar em dificuldade para ganhar peso, baixa estatura e atraso do crescimento. A giardíase, a ascaridíase e a tricuríase estão entre as principais parasitoses associadas a essas alterações.

Sintomas gastrointestinais persistentes

Embora muitas infecções sejam assintomáticas, outras podem causar dor abdominal recorrente, distensão abdominal, excesso de gases, diarreia, constipação, náuseas e perda do apetite durante semanas ou meses. A giardíase, por exemplo, pode provocar síndrome de má absorção e intolerância temporária à lactose quando não tratada.

Complicações intestinais

As complicações graves são incomuns e geralmente estão relacionadas a infestações com grande número de parasitas. A ascaridíase pode evoluir com obstrução intestinal ou migração dos vermes para as vias biliares e pancreáticas. A tricuríase intensa pode causar prolapso retal, enquanto algumas parasitoses invasivas podem aumentar o risco de perfuração intestinal.

Anemia

Alguns parasitas alimentam-se de sangue ou provocam pequenas perdas sanguíneas contínuas pelo intestino. Esse é o caso da ancilostomíase (amarelão), considerada uma das principais causas parasitárias de anemia ferropriva. A anemia pode causar palidez, cansaço, redução da disposição para atividades físicas e piora do desempenho escolar. Em gestantes, aumenta o risco de parto prematuro e de recém-nascidos com baixo peso.

Alterações cognitivas e baixo rendimento escolar

A combinação de anemia, desnutrição e inflamação intestinal crônica pode comprometer o desenvolvimento neurocognitivo das crianças. Como consequência, podem ocorrer dificuldade de concentração, redução do aprendizado e pior desempenho escolar, especialmente quando a infecção permanece sem tratamento por longos períodos.

Complicações em outros órgãos

Alguns parasitas podem acometer órgãos além do intestino. Durante a fase inicial da ascaridíase, por exemplo, as larvas passam pelos pulmões e podem causar tosse e chiado transitórios.

Já a Taenia solium merece atenção especial porque, quando seus ovos são ingeridos, pode provocar cisticercose, doença na qual as larvas se instalam em tecidos como músculos, olhos e cérebro. Quando há comprometimento do sistema nervoso central, o quadro é denominado neurocisticercose e pode causar convulsões, cefaleia e outras manifestações neurológicas.

Como prevenir a verminose intestinal?

A principal forma de se prevenir a verminose intestinal é por meio da adoção de bons hábitos de higiente, incluindo lavar bem as mãos sempre antes e depois de ir ao banheiro e lavar as frutas, verduras e legumes.

No entanto, isso pode não ser suficiente, uma vez que é difícil controlar como os alimentos são higienizados ao se alimentar fora de casa, por exemplo. Assim, considerando-se a alta incidência de parasitoses intestinais no Brasil, este diagnóstico sempre deve ser considerado.

No caso de pessoas que possuem animais domésticos dentro de casa, é recomendável também que eles sejam tratados periodicamente contra parasitoses.

Em áreas endêmicas para as verminoses intestinais, o tratamento preventivo de toda a comunidade escolar com dose única de mebendazol ou albendazol a cada 4 meses tem sido usado em algumas regiões (1).

Essa medida é especialmente adotada em regiões rurais, comunidades com saneamento precário ou sem acesso fácil ao diagnóstico laboratorial. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde do Brasil, ela deve ser feita nas seguintes situações:

  • Áreas com prevalência ≥ 20% de parasitoses intestinais:  Indicado tratamento preventivo anual.
  • Áreas com prevalência ≥ 50%: Indicado tratamento preventivo duas vezes ao ano.

Vale considerar aqui que a profilaxia medicamentosa não substitui ações de saneamento básico, higiene e educação em saúde. Como efeitos adversos, ela pode causar dor abdominal leve, náusea, diarreia transitória. Ela é Contraindicado em gestantes no 1º trimestre

Exame de fezes ou vermífugagem periódica

Durante muitos anos, era comum recomendar que as crianças realizassem exames de fezes ou recebessem vermífugos periodicamente, mesmo sem apresentar sintomas. Atualmente, essa decisão é individualizada e depende da idade da criança, das condições sanitárias da região onde vive, do risco de exposição e da orientação do pediatra.

O exame parasitológico de fezes continua sendo o principal método para identificar parasitoses intestinais. Entretanto, ele apresenta algumas limitações. Muitos parasitas não eliminam ovos continuamente, o que reduz a sensibilidade do exame e faz com que, frequentemente, seja necessária a coleta de três amostras em dias diferentes. Além disso, algumas parasitoses, como a enterobíase (oxiuríase), raramente são identificadas pelo exame de fezes, enquanto outras exigem testes específicos.

Por esse motivo, em crianças com maior risco de exposição às helmintíases, alguns médicos optam pela vermifugação periódica em vez da realização rotineira de exames laboratoriais.

Essa estratégia tem a vantagem de tratar eventuais infecções leves que poderiam passar despercebidas, é simples de executar, apresenta baixo custo e utiliza medicamentos que, em geral, são bastante seguros quando administrados nas doses recomendadas. Em regiões com elevada prevalência de helmintíases, essa estratégia também é adotada em programas de saúde pública e é recomendada pela Organização Mundial da Saúde.

Por outro lado, a vermifugação periódica também apresenta limitações. Os medicamentos utilizados rotineiramente, como albendazol e mebendazol, atuam principalmente contra alguns helmintos, como a lombriga, os ancilostomídeos e o tricocéfalo, mas não são eficazes contra diversas parasitoses causadas por protozoários, como a giardíase e a amebíase, que exigem medicamentos específicos.

Além disso, o tratamento empírico não substitui a investigação de outras doenças quando há dor abdominal persistente, diarreia prolongada, perda de peso, anemia ou outros sinais de alerta.

Assim, não existe uma única estratégia adequada para todas as crianças. Em crianças saudáveis e sem fatores de risco, geralmente não há indicação de realizar exames de fezes ou vermifugação de rotina. Já em crianças com maior risco de exposição ou que vivem em regiões altamente endêmicas, a vermifugação periódica pode ser uma alternativa prática e eficaz para o controle das helmintíases. A decisão deve ser individualizada e discutida com o pediatra responsável pelo acompanhamento da criança.

Diagnóstico

Em crianças com sintomas sugestivos de parasitose intestinal, o diagnóstico começa pela história clínica e pelo exame físico. Informações como dor abdominal recorrente, diarreia prolongada, perda de peso, anemia, coceira anal, contato com outras pessoas infectadas, consumo de água não tratada e condições de saneamento ajudam a direcionar a investigação e a identificar quais parasitas são mais prováveis.

Quando há necessidade de confirmação laboratorial, o principal exame é o exame parasitológico de fezes, que permite identificar ovos, larvas, cistos ou outros estágios dos parasitas eliminados nas fezes. Como muitos parasitas não são eliminados continuamente, recomenda-se a análise de três amostras coletadas em dias diferentes para aumentar a sensibilidade do exame.

Entretanto, nem todas as parasitoses são diagnosticadas da mesma forma. Na enterobíase (oxiuríase), por exemplo, os ovos são depositados na região ao redor do ânus e raramente aparecem nas fezes. Nesses casos, o teste da fita adesiva realizado pela manhã é o exame mais indicado.

Já na suspeita de giardíase, podem ser utilizados testes para pesquisa de antígenos ou exames moleculares, principalmente quando o exame parasitológico é negativo, mas a suspeita clínica permanece elevada.

Em algumas situações, o pediatra pode optar pelo tratamento empírico, mesmo sem confirmação laboratorial, principalmente quando o quadro clínico é bastante sugestivo de uma helmintíase comum e de fácil tratamento. Essa estratégia evita atrasos terapêuticos e leva em consideração que o exame parasitológico de fezes apresenta sensibilidade limitada, especialmente nas infecções leves ou quando a eliminação dos parasitas ocorre de forma intermitente.

Tratamento

O tratamento das parasitoses intestinais depende do tipo de parasita identificado. Embora muitas pessoas utilizem o termo “vermífugo” para qualquer medicamento contra parasitoses, não existe um único remédio eficaz para todas elas. Os medicamentos utilizados para tratar os helmintos (vermes) são diferentes daqueles indicados para infecções causadas por protozoários, como a giardíase e a amebíase.

Medicamentos

Nas helmintíases mais comuns, como ascaridíase, ancilostomíase e tricuríase, o tratamento costuma ser realizado com medicamentos como albendazol ou mebendazol. Em geral, o tratamento é simples e dura apenas um a três dias, dependendo do medicamento utilizado e do tipo de parasita.

Já na enterobíase (oxiuríase), costuma-se repetir uma segunda dose após cerca de duas semanas para eliminar vermes que possam ter se desenvolvido a partir de ovos remanescentes e reduzir o risco de reinfecção. Além disso, frequentemente recomenda-se tratar simultaneamente todos os moradores da casa.

As parasitoses causadas por protozoários exigem medicamentos específicos. A giardíase pode ser tratada com secnidazol, metronidazol ou tinidazol, enquanto a amebíase necessita de tratamento direcionado, que pode incluir mais de um medicamento para eliminar tanto as formas invasivas quanto os parasitas presentes no intestino. Nesses casos, a duração do tratamento costuma variar entre um e dez dias, conforme o medicamento escolhido.

Correção da anemia e deficiências nutricionais

Além do tratamento específico, algumas crianças podem necessitar de medidas complementares, como reposição de ferro para corrigir anemia, suporte nutricional nos casos de desnutrição ou tratamento das consequências da má absorção intestinal.

Na maioria das crianças, os sintomas começam a melhorar poucos dias após o início do tratamento. Entretanto, a recuperação completa do estado nutricional, da anemia ou do crescimento pode levar semanas ou meses, principalmente quando a infecção já era prolongada antes do diagnóstico.

Exames de controle

Na maior parte dos casos, não é necessário realizar exames de fezes de rotina após o tratamento quando a criança apresenta resolução completa dos sintomas. A melhora clínica costuma ser suficiente para indicar que o tratamento foi eficaz. Exames de controle podem ser indicados quando os sintomas persistem ou retornam, quando há suspeita de reinfecção, em pacientes com parasitoses de difícil erradicação ou quando o diagnóstico inicial foi feito por exames laboratoriais específicos e a confirmação da cura é considerada importante.

Cuidados durante o tratamento

Na maioria das parasitoses intestinais, a criança pode retornar ou permanecer na escola ou na creche assim que estiver bem clinicamente e conseguir participar normalmente das atividades. Na maioria dos casos, o simples diagnóstico de uma parasitose não exige afastamento prolongado. Entretanto, crianças com diarreia intensa devem permanecer em casa até a melhora dos sintomas, tanto pelo risco de desidratação quanto pela possibilidade de transmissão de alguns parasitas.

Além do uso correto dos medicamentos, algumas medidas ajudam a reduzir o risco de reinfecção e de transmissão para outras pessoas. Recomenda-se lavar as mãos cuidadosamente após usar o banheiro, antes das refeições e após trocar fraldas, manter as unhas curtas e limpas, higienizar adequadamente frutas e verduras e utilizar água tratada para beber e preparar alimentos.

Na enterobíase (oxiuríase), esses cuidados são ainda mais importantes, pois os ovos do parasita podem permanecer viáveis por vários dias no ambiente. Nesses casos, recomenda-se trocar diariamente as roupas íntimas, lavar roupas de cama, toalhas e pijamas durante o tratamento, evitar coçar a região anal e reforçar a higiene das mãos, principalmente ao acordar e antes das refeições. Sempre que indicado pelo médico, os contatos domiciliares também devem ser tratados simultaneamente para reduzir o risco de reinfecção.

Após o término do tratamento, a manutenção dos hábitos de higiene continua sendo a principal medida para prevenir novas infecções, especialmente em crianças que frequentam creches, escolas ou vivem em regiões com maior risco de exposição aos parasitas.