Identidade de gênero e Disforia de gênero
O que é a identidade de gênero?
A identidade de gênero é uma das dimensões que compõem a identidade de cada pessoa. Ela corresponde à forma como cada indivíduo se percebe e se reconhece em relação ao próprio gênero, independentemente das características físicas com as quais nasceu.
Essa percepção costuma se desenvolver gradualmente durante a infância e faz parte do desenvolvimento humano normal. Para a maioria das pessoas, a identidade de gênero corresponde ao sexo que lhes foi atribuído ao nascimento. Em outras, no entanto, existe uma incongruência entre essas duas características.
Quando a identidade de gênero corresponde ao sexo atribuído ao nascimento, a pessoa é chamada de cisgênera. Quando ela se identifica com um gênero diferente daquele que lhe foi atribuído ao nascer, utiliza-se o termo transgênera, ou simplesmente trans.
É importante destacar que identidade de gênero não é a mesma coisa que orientação sexual. A identidade de gênero diz respeito a quem a pessoa é, enquanto a orientação sexual refere-se por quem ela sente atração afetiva ou sexual. Assim, uma pessoa trans pode ser heterossexual, homossexual, bissexual, assexual ou apresentar qualquer outra orientação sexual, da mesma forma que ocorre com pessoas cisgêneras.
Também é importante compreender que ser uma pessoa trans não significa, por si só, ter uma doença ou um transtorno mental. Atualmente, as principais organizações médicas e científicas reconhecem que a diversidade de identidades de gênero faz parte da diversidade humana.
O cuidado em saúde concentra-se no sofrimento que algumas pessoas podem apresentar em decorrência da incongruência entre sua identidade de gênero e seu corpo ou das dificuldades enfrentadas em seu contexto familiar, escolar, profissional ou social. Quando esse sofrimento é clinicamente significativo e interfere na qualidade de vida, ele recebe o nome de disforia de gênero.
Esse novo entendimento foi incorporado às principais classificações médicas internacionais. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) substituiu o antigo diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero por Disforia de Gênero, deixando claro que o foco do diagnóstico e do tratamento deve ser o sofrimento experimentado pela pessoa, e não sua identidade de gênero. Da mesma forma, a Classificação Internacional de Doenças (CID-11) retirou a incongruência de gênero do capítulo de transtornos mentais e a passou para um capítulo relacionado à saúde sexual. Essa mudança reforça que a identidade trans não é considerada uma doença mental, ao mesmo tempo em que preserva o acesso das pessoas trans aos cuidados de saúde quando necessário.
Neste artigo, discutiremos como a identidade de gênero se desenvolve, o que caracteriza a disforia de gênero, como é realizado o diagnóstico e quais são as principais formas de acompanhamento e tratamento atualmente recomendadas.
Qual a diferença entre transgênero e transexual?
O termo transgênero refere-se a pessoas cuja identidade de gênero não corresponde ao sexo atribuído ao nascimento. Isso significa que há uma incongruência entre o gênero com o qual a pessoa se identifica internamente e as características anatômicas com as quais nasceu.
Já o termo transexual é frequentemente utilizado para descrever pessoas transgênero que optam por realizar uma transição de gênero, com o objetivo de alinhar sua aparência física e/ou expressão de gênero à sua identidade de gênero.
Essa transição pode ocorrer de diferentes formas, incluindo:
Modificação no estilo de vestimenta;
Adoção de novos cuidados com a aparência e higiene pessoal;
Uso de hormônios prescritos por profissionais de saúde;
Cirurgias de afirmação de gênero;
Ou uma combinação desses recursos.
É importante lembrar que cada pessoa trans vive sua identidade de maneira única. A transição, quando ocorre, deve sempre respeitar os desejos, limites e necessidades individuais.
Identidade de gênero na infância
A identidade de gênero começa a se desenvolver nos primeiros anos de vida e faz parte do processo normal de construção da identidade da criança. Por volta dos dois a três anos de idade, a maioria das crianças já consegue reconhecer a si mesma como pertencente a um determinado gênero, embora essa compreensão continue amadurecendo ao longo da infância e da adolescência.
Durante esse período, é natural que a criança explore diferentes papéis, personagens, brincadeiras e formas de expressão. Também é relativamente comum que, em algum momento, uma menina diga que gostaria de ser um menino ou que um menino afirme que gostaria de ser uma menina. Na maioria das vezes, essas manifestações fazem parte da imaginação infantil, da curiosidade ou da experimentação própria do desenvolvimento e desaparecem espontaneamente com o passar do tempo.
Da mesma forma, preferências por determinados brinquedos, roupas, brincadeiras ou atividades não definem, por si só, a identidade de gênero. Muitas características consideradas “masculinas” ou “femininas” são influenciadas pela cultura e variam entre diferentes sociedades e épocas. Um menino que goste de brincar de boneca ou uma menina que prefira esportes tradicionalmente associados aos meninos não são, necessariamente, crianças trans.
Consistência, Persistência e Insistência: Três Indicadores-Chave
Um ponto fundamental para diferenciar a curiosidade infantil de uma vivência genuína de identidade transgênero é observar se o comportamento e as declarações da criança são:
- Consistentes: repetidos com clareza ao longo do tempo;
- Persistentes: mantidos por semanas, meses ou até anos;
- Insistentes: não mudam mesmo diante de resistência ou tentativas de dissuasão.
Por exemplo:
✅ Se uma criança designada como menino ao nascer diz, uma ou duas vezes, que gostaria de usar vestido ou afirma que queria ser menina, isso pode fazer parte de um processo de curiosidade ou imaginação.
✅ Por outro lado, se essa mesma criança repete de forma clara e convicta, ao longo de meses ou anos, que é uma menina — e demonstra sofrimento ou desconforto ao ser tratada como menino —, isso pode indicar uma vivência transgênero autêntica.
O Papel do Acolhimento Familiar e Social
A forma como os adultos reagem à expressão de gênero da criança faz toda a diferença. Pais, responsáveis, educadores e profissionais da saúde devem exercer uma escuta ativa, empatia e respeito diante dessas manifestações.
Estudos mostram que o apoio familiar é um dos principais fatores de proteção para o bem-estar emocional de crianças trans. Crianças acolhidas em sua identidade têm menores taxas de depressão, ansiedade e ideação suicida.
Mudanças na identidade de gênero são comuns durante a infância?
A identidade de gênero pode evoluir durante a infância, motivo pelo qual a avaliação deve sempre ser cuidadosa e realizada ao longo do tempo.
Durante muitos anos, estudos sugeriram que uma parcela significativa das crianças diagnosticadas com incongruência de gênero deixaria de se identificar como trans ao chegar à adolescência. No entanto, esses resultados precisam ser interpretados com cautela.
Grande parte dessas pesquisas foi realizada há várias décadas e incluiu crianças encaminhadas aos serviços especializados simplesmente por apresentarem comportamentos considerados atípicos para o gênero, como preferências por determinados brinquedos, roupas ou brincadeiras. Muitas delas nunca apresentaram uma identidade trans persistente nem preencheriam os critérios atualmente utilizados para caracterizar a disforia de gênero.
Nas últimas décadas, a forma de avaliação mudou significativamente. Hoje, a atenção está voltada principalmente para crianças que apresentam uma identificação persistente, consistente e intensa com um gênero diferente daquele atribuído ao nascimento, frequentemente acompanhada de sofrimento significativo. Estudos que acompanham esse grupo mais bem caracterizado mostram que a maioria mantém essa identidade durante a adolescência, especialmente quando ela persiste até o início da puberdade.
Isso não significa, entretanto, que a evolução seja igual para todas as crianças. Algumas podem modificar a forma como compreendem sua identidade de gênero ao longo do crescimento, enquanto outras podem concluir que a transição social realizada na infância não corresponde mais à maneira como desejam viver. Esse processo é conhecido como retransição.
As evidências atuais mostram que a retransição é relativamente incomum entre crianças e adolescentes cuidadosamente avaliados por equipes especializadas. Quando ela ocorre, pode estar relacionada a diferentes fatores, como mudanças naturais do desenvolvimento, novas formas de compreender a própria identidade ou circunstâncias familiares, sociais e culturais. Por isso, a retransição não deve ser interpretada automaticamente como um “erro” do diagnóstico inicial nem como prova de que todas as crianças trans mudarão de identidade com o tempo.
O que é a Disforia de gênero?
Disforia de gênero é o nome dado ao sofrimento psicológico significativo vivido por algumas pessoas transgênero ou não binárias, decorrente da incongruência entre seu sexo atribuído ao nascimento e sua identidade de gênero.
Essa angústia pode afetar diversos aspectos da vida da pessoa, como autoestima, saúde mental, relacionamentos e bem-estar social.
É importante destacar que ser transgênero não é uma doença. Isso já é amplamente reconhecido pela comunidade científica internacional. Em 2013, a Associação Americana de Psiquiatria (APA) retirou o termo “Transtorno de Identidade de Gênero” do DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), substituindo-o por “Disforia de Gênero”, justamente para diferenciar a identidade trans do sofrimento que pode, ou não, acompanhá-la.
Ou seja:
🔹 A identidade trans em si não precisa de tratamento.
🔹 O sofrimento causado pela disforia, sim, pode e deve ser tratado — com respeito, empatia e cuidado especializado.
Nem toda pessoa trans tem disforia de gênero
É fundamental entender que nem todas as pessoas transgênero apresentam disforia de gênero. Muitas vivem bem com sua identidade, principalmente quando recebem apoio social e familiar adequado.
Entretanto, estudos mostram que a disforia pode ser comum em algumas populações trans, especialmente quando há forte desconexão entre o corpo e a identidade sentida. Um estudo populacional da UNESP revelou que:
- Cerca de 85% dos homens trans relataram sofrimento relacionado a características corporais associadas ao gênero.
- Aproximadamente 50% das mulheres trans também expressaram sofrimento semelhante (3).
Como identificar a Disforia de Gênero na infância
As crianças são tipicamente diagnosticadas com disforia de gênero se tiverem experimentado sofrimento significativo por pelo menos seis meses. Elas devem preencher pelo menos seis dos seguintes critérios (4):
- Forte desejo de ser do outro gênero ou uma insistência de que eles são do outro gênero.
- Forte preferência por usar roupas típicas do sexo oposto.
- Forte preferência por papéis de gênero cruzado em jogos de faz de conta ou jogos de fantasia.
- Forte preferência por brinquedos, jogos ou atividades estereotipicamente usadas ou praticadas pelo outro gênero.
- Forte preferência por colegas do outro gênero.
- Forte rejeição por brinquedos, jogos e atividades típicas de seu gênero atribuído.
- Forte antipatia por sua anatomia sexual.
- Forte desejo pelas características sexuais físicas que combinam com o gênero experimentado.
Como identificar a Disforia de Gênero em Adolescentes e Adultos
A Disforia de Gênero no adulto é caracterizada como uma marcada incongruência entre o gênero experimentado/expresso de alguém e o gênero atribuído, com pelo menos seis meses de duração, manifestada por dois ou mais dos seguintes itens (5):
- Uma incongruência marcante entre o gênero experimentado/expresso de alguém e as características sexuais primárias e/ou secundárias (ou em adolescentes jovens, as características sexuais secundárias antecipadas).
- Um forte desejo de se livrar de suas características sexuais primárias e/ou secundárias por causa de uma incongruência marcante com o gênero experimentado/expresso (ou em adolescentes jovens, um desejo de impedir o desenvolvimento das características sexuais secundárias antecipadas).
- Um forte desejo pelas características sexuais primárias e/ou secundárias do outro gênero.
- Um forte desejo de ser do outro gênero (ou algum gênero alternativo diferente do gênero designado).
- Um forte desejo de ser tratado como o outro gênero (ou algum gênero alternativo diferente do gênero designado).
- Uma forte convicção de que alguém tem os sentimentos e reações típicos do outro gênero (ou algum gênero alternativo diferente do gênero designado).
- A condição está associada a sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes do funcionamento.
Tratamento da disforia de gênero
O tratamento da disforia de gênero tem como principal objetivo reduzir o sofrimento psicológico e melhorar a qualidade de vida da pessoa. Diferentemente do que muitas pessoas imaginam, ele não consiste apenas no uso de hormônios ou na realização de cirurgias. Na realidade, trata-se de um processo individualizado, conduzido por uma equipe multiprofissional e adaptado às necessidades, à idade e aos objetivos de cada paciente.
Também é importante compreender que nem toda pessoa trans apresenta disforia de gênero, e nem toda pessoa com disforia desejará realizar todas as etapas da transição. Algumas pessoas sentem-se bem apenas com mudanças sociais, como a adoção de um nome social, o uso de roupas compatíveis com sua identidade de gênero ou a forma como desejam ser tratadas. Outras podem desejar tratamento hormonal, cirurgias de afirmação de gênero ou uma combinação dessas estratégias. Há ainda pessoas que optam por não realizar nenhuma intervenção médica.
Transição social de gênero
A transição social é, na maioria das vezes, o primeiro passo. Ela não envolve procedimentos médicos e tem como objetivo alinhar a vivência cotidiana da pessoa com sua identidade de gênero.
Sair do armário
“Sair do armário” é o ato de compartilhar sua identidade de gênero com outras pessoas. Isso pode ser feito de forma íntima — para amigos, família ou colegas — ou de forma mais pública.
O apoio psicológico pode ser essencial para ajudar a pessoa (ou a família) a refletir sobre o melhor momento e forma de fazê-lo com segurança.
Mudanças na aparência
Muitas pessoas trans iniciam essa fase com ajustes simples na aparência:
- Mudança no corte de cabelo;
- Adaptação no estilo de roupas;
- Uso de maquiagem ou acessórios (como binders ou enchimentos);
- Mudança na postura, linguagem corporal e expressão de gênero.
Essas escolhas ajudam a pessoa a se sentir mais confortável e autêntica em sua vivência diária.
Mudança de nome e gênero em documentos
Desde 2018, pessoas trans no Brasil podem alterar seu nome e gênero em documentos oficiais diretamente no cartório, sem precisar de decisão judicial ou cirurgia de redesignação sexual.
De acordo com o Provimento nº 73/2018 do CNJ, a retificação de registro pode ser feita por:
- Maiores de 18 anos: sem necessidade de autorização ou representação;
- Menores de idade: com autorização dos pais ou responsáveis.
É possível alterar o prenome, os agnomes indicativos de gênero (como “Júnior”, “Filho”, “Neto”) e o marcador de gênero em certidões de nascimento e casamento (com autorização do cônjuge, se for o caso).
Participação em ambientes sociais e esportivos
Algumas pessoas trans encontram acolhimento e pertencimento em atividades esportivas, artísticas e sociais onde sua identidade é respeitada:
- Mulheres trans podem participar de aulas de ballet, onde geralmente são bem-vindas e valorizadas;
- Existem times e clubes esportivos LGBTQIA+, que promovem inclusão e segurança para atletas trans;
- Espaços culturais e artísticos também costumam ser mais receptivos, como o teatro e a dança.
Esses espaços permitem que a pessoa viva sua identidade com liberdade, sem medo de discriminação ou exclusão.
Uso de banheiros de acordo com a identidade de gênero
No Brasil, pessoas trans têm o direito garantido de utilizar banheiros públicos conforme o gênero com o qual se identificam.
A Portaria PGT nº 1.036, de 1º de dezembro de 2015, proíbe expressamente qualquer forma de constrangimento ou discriminação nesse contexto. Também é vedada a imposição de banheiros “exclusivos” para pessoas LGBTQIA+, pois considera-se que isso configura segregação e fere os princípios de dignidade e igualdade.
Bloqueadores da puberdade
Os bloqueadores da puberdade são medicamentos utilizados para interromper temporariamente a progressão da puberdade. Eles atuam reduzindo a produção dos hormônios sexuais pelos ovários ou testículos, impedindo o desenvolvimento de características sexuais secundárias, como crescimento das mamas, mudança da voz, aumento da massa muscular, crescimento de pelos e início da menstruação.
Seu objetivo não é definir a identidade de gênero da criança nem induzir uma transição de gênero. A principal finalidade é oferecer tempo para que adolescentes com disforia de gênero persistente possam amadurecer emocionalmente, compreender melhor sua identidade e tomar decisões futuras de forma mais consciente, evitando, ao mesmo tempo, o desenvolvimento de características corporais que possam intensificar o sofrimento psicológico.
Esses medicamentos não são indicados para qualquer criança que questione sua identidade de gênero. Seu uso é reservado para adolescentes que já iniciaram a puberdade, apresentam disforia de gênero persistente, consistente e clinicamente significativa, e foram avaliados por uma equipe multiprofissional experiente, composta por profissionais como psicólogos, psiquiatras, endocrinologistas e outros especialistas quando necessário.
Diversos estudos mostram que, em adolescentes cuidadosamente selecionados, os bloqueadores podem reduzir a intensidade da disforia, diminuir sintomas de ansiedade e depressão e melhorar a qualidade de vida enquanto ocorre o processo de avaliação e acompanhamento. Além disso, ao impedir o desenvolvimento de características sexuais secundárias potencialmente irreversíveis, podem facilitar uma eventual transição de gênero futura e reduzir a necessidade de alguns procedimentos médicos.
Os bloqueadores da puberdade são considerados uma intervenção reversível. Caso o tratamento seja interrompido sem o início da terapia hormonal de afirmação de gênero, a puberdade tende a prosseguir de acordo com o sexo biológico da pessoa. Ainda assim, essa reversibilidade não elimina a necessidade de uma avaliação criteriosa, uma vez que as decisões tomadas durante essa fase podem influenciar etapas futuras do tratamento.
Terapia hormonal para transgêneros
A terapia hormonal para transgêneros faz parte do processo de afirmação para muitas pessoas transgênero. Ela envolve o uso de hormônios sexuais para promover alterações corporais que alinhem a aparência física com o gênero com o qual se identifica.
- Homens trans utilizam testosterona exógena para induzir características corporais típicas da masculinidade, como engrossamento da voz, crescimento de pelos faciais e corporais, além da redistribuição de gordura corporal. A testosterona também ajuda a suprimir características feminilizantes, como a menstruação.
- Mulheres trans fazem uso de estrogênio exógeno, que contribui para o desenvolvimento de características femininas, como aumento dos seios e suavização da pele. Além disso, são utilizados antiandrógenos como adjuvantes para suprimir os efeitos dos hormônios masculinos.
Apesar dos potenciais benefícios, é importante estar ciente de possíveis efeitos colaterais indesejados. A terapia hormonal pode impactar a saúde óssea e saúde cardiovascular, especialmente em tratamentos de longo prazo. Também tem efeitos na saúde mental e na saúde sexual, entre outros problemas. Por isso, o acompanhamento médico especializado é fundamental para garantir a segurança e o equilíbrio hormonal adequado.
Mudanças nas diretrizes sobre o início do tratamento hormonal
Anteriormente, diretrizes médicas exigiam que pacientes trans passassem por um chamado “teste de vida real” antes de iniciar a terapia hormonal. Isso significava viver em tempo integral com o gênero autoafirmado por, no mínimo, 12 meses, antes de receber a prescrição hormonal.
Hoje, no entanto, as principais organizações internacionais — como a World Professional Association for Transgender Health (WPATH) e a Endocrine Society — não recomendam mais essa exigência (7, 8).
A razão para a mudança é que a exigência do “teste de vida real” pode ser contraproducente. Transicionar socialmente sem alterações físicas visíveis pode ser extremamente desafiador e aumentar o risco de estigmatização, violência ou sofrimento psicológico.
As diretrizes atuais recomendam que, quando houver desejo da pessoa e indicação clínica, a transição social e hormonal possa ocorrer de forma conjunta, respeitando o tempo e as necessidades individuais de cada paciente.
Cirurgia para Afirmação de Gênero
A cirurgia de afirmação de gênero — também conhecida como “cirurgia de redesignação sexual” — é uma das possíveis etapas do processo de transição. Esses procedimentos têm como objetivo alinhar características corporais com a identidade de gênero da pessoa trans.
A cirurgia é uma escolha individual
É importante destacar que nem todas as pessoas trans desejam ou precisam realizar cirurgias como parte de sua transição. Para algumas, mudanças sociais e/ou hormonais já são suficientes para promover bem-estar e alívio da disforia de gênero.
Para outros, a cirurgia representa um marco fundamental no processo de autoafirmação. Quando realizada com indicação e apoio adequados, ela pode oferecer benefícios significativos para o bem-estar emocional, autoestima, funcionalidade sexual e qualidade de vida.
Estudos indicam que a realização de cirurgias varia bastante:
- Cerca de 54% dos homens trans optam por algum tipo de cirurgia de afirmação de gênero.
- Entre mulheres trans, esse número gira em torno de 28% (9).
Esses dados reforçam que a experiência trans é diversa e que cada pessoa deve ser respeitada em suas escolhas sobre o próprio corpo e identidade.
Cirurgia exige avaliação criteriosa e acompanhamento
Por se tratar de um procedimento irreversível, a cirurgia de afirmação de gênero requer cuidados especiais. É essencial que a pessoa interessada passe por uma avaliação psicológica ou psiquiátrica com profissionais experientes no cuidado de pessoas trans e no tratamento da disforia de gênero.
Além disso, o procedimento deve ser planejado e acompanhado por uma equipe multidisciplinar, incluindo profissionais da saúde mental, endocrinologia, urologia, ginecologia e cirurgia plástica, dependendo do tipo de cirurgia a ser realizada.
Critérios para indicação da cirurgia
Os critérios podem variar conforme o tipo de cirurgia:
- Para cirurgias genitais, geralmente é necessário um acompanhamento por pelo menos dois anos com uma equipe especializada, além da concordância dos profissionais envolvidos.
- Já para cirurgias mamárias (mastectomia ou implantes mamários), costuma-se exigir um acompanhamento de, no mínimo, um ano.
Esses critérios têm o objetivo de garantir que a decisão seja tomada de forma consciente, segura e alinhada com o bem-estar da pessoa.
Com qual idade é possível fazer a transição de gênero?
A transição de gênero é um processo que pode incluir diferentes etapas — social, hormonal e cirúrgica — e cada uma delas tem critérios específicos de idade e autorização, especialmente no contexto brasileiro.
Transição social: possível desde a infância
Durante a infância, é possível realizar a transição social, que envolve mudanças na forma como a pessoa se apresenta ao mundo, como o uso de nome social, pronomes, vestimenta e corte de cabelo.
No Brasil, qualquer pessoa — independentemente da idade — tem direito a utilizar o nome social em documentos oficiais. No caso de pessoas menores de 18 anos, é necessária a autorização dos responsáveis legais.
Bloqueadores hormonais: a partir do início da puberdade
Antes da adolescência, e quando os primeiros sinais da puberdade surgem (geralmente nos estágios Tanner 2 ou 3), pode-se iniciar o bloqueio hormonal da puberdade. Essa medida é reversível e visa oferecer tempo para que a pessoa explore sua identidade de gênero com menos sofrimento relacionado às mudanças corporais indesejadas.
No Brasil, esse tipo de tratamento ainda está restrito a centros universitários e serviços especializados, o que pode limitar o acesso.
Caso a pessoa desista da transição, o bloqueio pode ser interrompido, e o desenvolvimento puberal retorna ao padrão esperado do sexo atribuído ao nascimento, sem efeitos permanentes.
Transição hormonal cruzada: a partir dos 16 anos
A terapia hormonal cruzada — com testosterona ou estrogênio — só é permitida a partir dos 16 anos no Brasil. Nessa idade, é necessário ter o consentimento dos responsáveis e o acompanhamento por profissionais da saúde.
Diferentemente dos bloqueadores, o tratamento hormonal leva a mudanças corporais permanentes, como desenvolvimento mamário ou engrossamento da voz, sendo uma decisão que deve ser tomada com muito cuidado e acompanhamento médico especializado.
Cirurgia de afirmação de gênero: permitida a partir dos 18 anos
A cirurgia de afirmação de gênero só é autorizada a partir dos 18 anos, e apenas após pelo menos dois anos de acompanhamento por uma equipe multidisciplinar, que deve incluir profissionais da saúde mental, endocrinologia e cirurgia.
Essa exigência busca garantir que a pessoa esteja plenamente informada, segura e acolhida em sua decisão.