Hipopituitarismo
O que é o Hipopituitarismo?
O hipopituitarismo é uma condição em que a hipófise — uma glândula localizada na base do cérebro — passa a produzir quantidades insuficientes de um ou mais hormônios essenciais para o funcionamento do organismo.
Considerando que esses hormônios regulam diversas funções do corpo, incluindo o metabolismo, o crescimento, a função da tireoide, das glândulas suprarrenais e do sistema reprodutivo, sua deficiência pode afetar múltiplos órgãos e sistemas, a depender de qual ou quais os hormônios que se encontram deficientes.
O hipopituitarismo pode provocar sintomas graves, especialmente quando há deficiência de hormônios vitais, como o cortisol, que pode levar a complicações potencialmente fatais se não tratadas adequadamente. O tratamento pode variar de reposição hormonal a cirurgias, dependendo da causa primária da deficiência.
Hipófise e Hormônios hipofisários
A Hipófise é uma glândula do tamanho de uma ervilha localizada na base do cérebro, abaixo do hipotálamo.
Apesar do tamanho, ela produz uma grande quantidade de hormônios fundamentais para a regulação de diversos processos no organismo, como metabolismo, crescimento, desenvolvimento e reprodução.
Entre os principais hormônios produzidos pela hipófise, incluem-se:
Hormônio adrenocorticotrófico (ACTH ou corticotropina)
O ACTH estimula as glândulas supra-renais a produzir cortisol (hormônio do estresse).
O cortisol ajuda a manter a pressão arterial e os níveis de glicose no sangue.
Hormônio antidiurético (ADH ou vasopressina)
O ADH regula o equilíbrio hídrico e os níveis de sódio do corpo.
Hormônio folículo-estimulante (FSH)
O FSH estimula a produção de espermatozóides no homem e estrogênio nas mulheres.
Hormônio do crescimento (GH)
Em crianças, o GH estimula o crescimento. Já nos adultos, ele ajuda a manter músculos e ossos saudáveis e regula o metabolismo.
Hormônio luteinizante (LH)
O LH é outro hormônio sexual que estimula a ovulação nas mulheres e a produção de testosterona no homem.
Ocitocina
Hormônio importante para o trabalho de parto e para. Produção do leite materno.
Prolactina
A prolactina estimula a produção de leite materno após o parto e também na regulação do ciclo menstrual.
Hormônio estimulante da tireoide (TSH)
O TSH estimula a tireoide a produzir hormônios que controlam o metabolismo, a disponibilidade energética e o sistema nervoso.
Quais são os tipos de Hipopituitarismo?
O hipopituitarismo pode envolver uma deficiência de um ou mais hormônios hipofisários. De acordo com um estudo com 773 pacientes (1), as deficiências hormonais mais comumente encontradas foram:
- FSH/LH 84,9%
- TSH 69,3%
- ACTH 52,8%
- GH 50,7%
- ADH 12,6%
Sintomas do Hipopituitarismo
Os sintomas relacionados ao Hipopituitarismo são bastante variados, a depender de qual ou quais hormônios estão em falta.
Além disso, se o hipopituitarismo for causado por um tumor na hipófise (adenoma de hipófise, uma das causas mais comuns), o crescimento desse tumor pode comprimir estruturas vizinhas, com sintomas como dor de cabeça intensa e problemas de visão.
1. Deficiência de Hormônio do Crescimento (GH)
- Em crianças: Baixa estatura e atraso no crescimento ósseo (idade óssea atrasada).
- Em adultos: Aumento da gordura abdominal, diminuição da massa muscular, cansaço crônico e redução da densidade óssea.
2. Deficiência de Gonadotrofinas (LH e FSH)
Afeta a função dos ovários (nas mulheres) e testículos (nos homens):
- Mulheres: Ausência ou irregularidade menstrual (amenorreia), infertilidade, secura vaginal e diminuição do desejo sexual.
- Homens: Perda de pelos faciais e corporais, diminuição da massa muscular, disfunção erétil, infertilidade e redução da libido.
3. Deficiência de TSH
Sintomas de hipotireoidismo secundário, incluindo:
- Intolerância ao frio.
- Ganho de peso inexplicado.
- Constipação intestinal.
- Pele seca e cabelos quebradiços.
- Lentidão de raciocínio e fala.
4. Deficiência de ACTH (Insuficiência Adrenal Secundária)
Esta é a deficiência mais perigosa, pois regula o cortisol, hormônio que entre outras coisas ajuda a regular a pressão arterial.Provoca sintomas relacionados à insuficiência adrenal, incluindo:
- Fadiga severa e fraqueza.
- Pressão arterial baixa (hipotensão).
- Náuseas, vômitos e dor abdominal.
- Perda de apetite e de peso.
5. Deficiência de Prolactina
- Sintoma principal: Incapacidade de amamentar após o parto (muito associada à Síndrome de Sheehan, causada por hemorragia pós-parto).
6. Deficiência de ADH (Diabetes Insipidus)
Ocorre se a parte posterior da hipófise for afetada. Os sintomas incluem:
- Sede excessiva (polidipsia): Desejo incontrolável de beber água.
- Excesso de urina (poliúria): Necessidade de urinar grandes volumes várias vezes, inclusive à noite.
Qual a causa do Hipopituitarismo?
O hipopituitarismo pode ter diferentes causas, relacionadas tanto à hipófise diretamente (causas hipofisárias / primárias) ou por problemas no hipotálamo, a glandula que regula o funcionamento da hipófise (causas hipotalâmicas / secundária). Além disso, é comum que muitos casos fique sem uma causa clara identificada, sendo nesses casos classificada como idiopática.
Entre as principais causas do hipopituitairsmo, incluem-se:
Tumores e Causas Invasivas
Essa é a causa mais comum em adultos. O principal deles é o adenoma de hipófise não funcionante (não produtor de hormônio). Como ele não produz hormônios, ele cresce sem apresentar quaisquer sintomas até que seu efeito compressivo sobre o restante da hipófise comprometa a produção de hormônios. Eventualmente, tumores extra-hipofisários podem também comprimir a hipófise e causar hipopituitarismo, especialmente os craniofaringiomas.
Causas Iatrogênicas (Resultantes de Tratamento)
A deficiência pode também ocorrer como consequência do tratamento de um tumor com retirada da hipófise ou de parte dela (mais comumente um Adennoma de Hipófise). Além disso, o eventual uso de radioterapia na região da cabeça e pescoço pode provocar o hipopituitarismo.
Causas Vasculares
A hipófise é muito sensível a variações de fluxo sanguíneo, de forma que problemas nos vasos sanguíneos hipofisários podem evoluir com necrose da glândula e hipopituitarismo.
- Síndrome de Sheehan: Ocorre em mulheres após um parto com hemorragia grave. A queda súbita da pressão arterial pode levar à necrose da hipófise, que estava aumentada devido à gravidez.
- Apoplexia Hipofisária: Emergência médica oque ocorre por conta de uma hemorragia ou infarto súbito dentro de um tumor de hipófise já existente.
Causas Infiltrativas e Imunológicas
Doenças sistêmicas que invadem e comprimem o tecido hipofisário, incluindo a Sarcoidose, Hemocromatose e outras.
Traumatismo Cranioencefálico (TCE)
Traumatismos cranianos graves podem romper o pedículo hipofisário — a conexão entre o hipotálamo e a hipófise — ou causar hemorragias locais.
Causas Infecciosas
Meningite bacteriana, tuberculose ou infecções fúngicas oportunistas podem atingir a base do cérebro.
Causas genéticas
Algumas crianças nascem com mutações que impedem o desenvolvimento da hipófise ou a produção de hormônios específicos.
Quais as causas mais comuns do Hipopituitarismo?
De acordo com um estudo que incluiu 773 pacientes com hipopituitarismo (2), as causas mais comumente encontradas foram:
- Idiopático: 82 10,6%;
- Adenoma hipofisário não secretor (20,9%): tumor benigno, que pode ou não produzir hormônios. Especialmente no caso de tumores não produtores de hormônio (adenomas não funcionantes), ele pode crescer de forma assintomática e gerar um efeito compressivo sobre o restante da glândula, levando ao hipopituitarismo.
- Síndrome de Sheehan (13,8%): forma rara de hipopituitarismo crônico ou agudo causado pela necrose isquêmica da hipófise anterior, geralmente por conta de hemorragia pós-parto grave e choque hipovolêmico.
- Tumores extra-hipofisários 7,2%: Eventualmente, tumores cerebrais extrahipofisários podem provocar a compressão da hipófise e provocar hipopituitarismo.
Diagnóstico
A avaliação diagnóstica no paciente com suspeita clínica de hipopituitarismo tem dois objetivos principais: avaliar eventuais deficiências hormonais e também se existe uma causa física para os sintomas (como um adenoma de hipófise, por exemplo). Para isso, poderão ser solicitadas dosagens hormonais basais, testes de estímulo e exames de imagem.
Dosagens Hormonais Basais
O primeiro passo é medir os níveis dos hormônios produzidos pela hipófise e pelas glândulas que ela controla. Isso é feito por meio de um exame de sangue, que ] deve ser coletado preferencialmente pela manhã (entre 7h e 9h), quando os níveis hormonais geralmente estão mais elevados.
- Eixo Adrenal (Cortisol e ACTH): Se o cortisol estiver baixo com um ACTH também baixo ou “normal-baixo”, suspeita-se de falha na hipófise.
- Eixo Tireoidiano (T4 Livre e o TSH): tanto o TSH como o T4L estão baixos.
- Eixo Gonadal: Dosagem de Testosterona (homens) ou Estradiol (mulheres), junto com LH e FSH.
- Prolactina: níveis muito baixos indicam hipopituitarismo.
Testes de Estímulo
Os hormônios hipofisários podem variar muito ao longo do dia, o que dificulta o diagnóstico. Quando o resultado por meio das dosagens basais for inconclusivo, realiza-se os testes de estímulo.
Nesses exames, realiza-se um estímulo pré-dosagem para avaliar como a hipófise reage a esses estímulos.
- Teste de Tolerância à Insulina (ITT): Considerado o “padrão-ouro”. Aplica-se insulina como o objetivo de provocar uma hipoglicemia. Em resposta a essa hipoglicemia, uma hipófise normal responde liberando GH e Cortisol. Caso os níveis desses hormônios pós teste não aumente, fica caracterizado o hipopituitarismo.
- Teste de Estímulo do GH: Como o hormônio do crescimento é liberado em pulsos, de forma que níveis baixos do hormônio não indicam pontualmente uma deficiência. Por outro lado, caso a dosagem seja feita após um estímulo com Glucagon ou Arginina, e os níveis de GH permaneçam baixos, a deficiência fica caracterizada.
Exames de Imagem
Uma vez confirmada a deficiência hormonal, a ressonância magnética da Sela Túrsica é o melhor exame para avaliar a hipófise do ponto de vista anatômico. O exame pode identifica se a hipófise encontra-se atrofiada (“sela vazia”), se existe algum tumor hipofisário (especialmente os adenomas de hipófise não funcionantes) ou um tumor extra-hipofisário que esteja encostando no nervo óptico ou na haste que liga a hipófise ao cérebro.
Tratamento
O tratamento do hipopituitarismo é conduzido pelo Médico Endocrinologista.
Ele depende de quais hormônios hipofisários são deficientes e da causa do hipopituitarismo. Por isso, o tratamento é muito individualizado.
Entre as opções de tratamento, incluem-se:
Terapia de reposição hormonal
A terapia de reposição hormonal visa restaurar o(s) hormônio(s) hipofisário(s) deficiente(s) aos níveis normais.
Cirurgia
Pode ser considerada no caso de tumores que estejam comprimindo a hipófise