Gestalt-terapia
A Gestalt-terapia é uma das abordagens psicológicas utilizadas por profissionais da psicologia que atuam na clínica ou em instituições como escolas, hospitais, organizações, etc.
Trata-se de uma forma de avaliar e intervir nas questões psíquicas dos sujeitos, com base nos fundamentos teóricos desenvolvidos por Fritz Perls, Paul Goodman e Ralph Hefferline.
Sua visão foca, primordialmente, no contexto e no aqui e agora, retratando a importância do presente e da autoconsciência dos indivíduos.
Neste conteúdo, abordamos alguns dos principais conceitos da Gestalt-terapia para que você possa compreendê-la um pouco melhor. Acompanhe!
O que é a Gestalt-terapia?
A Gestalt-terapia é uma abordagem psicológica que foca na pessoa, ou seja, no paciente/cliente, e não apenas no que acontece à sua volta.
Na Gestalt-terapia, a percepção do indivíduo é avaliada e analisada de acordo com o contexto no qual ele está inserido, ou seja, na relação indivíduo-meio.
Dessa maneira, é possível desenvolver estratégias que promovam autoconhecimento e autoconsciência por parte do cliente.
Durante a terapia, os indivíduos tendem a se tornar mais conscientes do que sentem, vivem e da forma como reagem nas mais diversas situações, fortalecendo, assim, a autorresponsabilidade – importante premissa tratada por essa corrente teórica.
Além disso, a Gestalt-terapia também foca na totalidade do indivíduo, considerando a sua mente, seu corpo e sua espiritualidade. Essa visão permite que as pessoas “mergulhem” mais profundamente nas suas próprias personalidades, compreendendo melhor o que acontece dentro de si e de que forma é possível projetar atuações mais saudáveis para o futuro.
Sendo assim, a Gestalt-terapia também visa auxiliar o cliente na projeção de planos para o futuro, focando no que se tem hoje. Ou seja, pensa-se em quais passos podem ser seguidos a partir de agora, a fim de aumentar a qualidade de vida e o bem-estar no caminhar do sujeito.
O significado e a percepção que o indivíduo tem sobre o que acontece à sua volta é outro ponto analisado com bastante cuidado nessa terapia. Afinal, muito além da veracidade vivida, a forma como a pessoa enxerga a situação é que, realmente, irá ditar a maneira como ela poderá se portar diante disso.
Por exemplo, perder um ente querido é algo universalmente considerado como negativo e doloroso, mas cada indivíduo percebe e vive esta perda de uma forma única. Alguns podem vivenciá-la entendendo que a vida não tem mais sentido para nada, outros podem compreender que a morte faz parte da existência humana, e assim por diante. Logo, a maneira como a pessoa percebe e lida com os efeitos dessa percepção faz toda a diferença, e por isso esse ponto é muito trabalhado na Gestalt-terapia.
Vale destacar, ainda, que a Gestalt-terapia é considerada uma abordagem de cunho humanista, ou seja, tem uma visão humanista dos fenômenos psicológicos e da existência humana de forma geral.
Veja também: Psicologia humanista.
Alguns aspectos importantes da Gestalt-terapia
Apesar de haver dezenas de conceitos importantes dentro da Gestalt-terapia, assim como ocorre em qualquer abordagem psicológica, buscamos trazer alguns dos principais para que você possa dar os seus primeiros passos na aquisição de conhecimentos sobre essa teoria psicológica. Confira abaixo:
1. Foco no aqui e agora
O ser humano, em muitos momentos, pode ancorar seus sentimentos, emoções e pensamentos em eventos que ocorreram no passado ou que estão sendo planejados para o futuro. Esse tipo de postura pode resultar em momentos de extrema ansiedade e angústia, além de fazer com que a pessoa acabe perdendo o seu “presente” por ancorar a sua mente em algo que já aconteceu ou que sequer existe ainda.
Sendo assim, a Gestalt-terapia foca em trabalhar o presente do indivíduo, dando a ele as possibilidades de pensar no seu hoje, no que se tem e no que pode ser feito com base no agora. A atenção plena começa a ser desenvolvida, aumentando a qualidade de vida do indivíduo e auxiliando na redução de crises de ansiedade, por exemplo.
Além disso, o foco no presente é o que traz mais autoconhecimento e autoconsciência para a pessoa, já que ela poderá perceber com mais clareza como os eventos do hoje as impactam e como ela pode se proteger ou reagir a determinadas situações.
O presente tem um papel fundamental em nossas vidas. Tudo que é passado, em algum momento, foi o presente. Por isso, dar atenção para o agora, despertando uma visão mais focada no contexto atual é extremamente importante para que o indivíduo adquira mais independência e autonomia frente ao que ocorre em sua vida. Além do mais, o foco no presente também fornece mais autocontrole: sabemos o que estamos fazendo agora e paramos de ancorar tanto o pensamento no “se”, ou seja, paramos de nos ancorar em pensamentos como “se acontecer x, o que eu farei?”.
Além dessa visão, trabalha-se a capacidade de o sujeito lidar com o presente como forma de implementar mudanças no hoje que contribuam para um futuro mais feliz. Ou seja, ao invés de lamentar a possível perda de um emprego, o indivíduo aprende que tem o poder de dar o seu melhor no hoje, com o que está ao seu alcance.
Vale ressaltar, ainda, que embora o foco seja no presente, isso não quer dizer que o passado e o histórico do paciente sejam desconsiderados. Suas vivências são importantes, mas a forma como elas afetam o presente pode ser um dos questionamentos trazidos pelo terapeuta. Por exemplo: Por que tal situação do passado veio à mente e permanece presente na sua vida?
Obviamente, o foco no aqui e agora poderia ser destrinchado com muito mais descrições e conceituações, mas seria impossível esgotarmos este conceito em um conteúdo, apenas.
2. Contexto do indivíduo
O contexto do indivíduo, ou seja, aquele no qual ele está inserido, também é uma peça-chave na Gestalt-terapia.
Afinal, o contexto que estamos e interagimos pode impactar nossas percepções e atuações de diversas maneiras. Embora somos seres responsáveis por quem realmente somos, o que acontece à nossa volta e o modo como percebemos esses acontecimentos pode nos levar a comportamentos diversos, que, consequentemente, trazem efeitos para a vida.
Por exemplo, uma pessoa em contexto de desemprego pode ter uma visão sobre a vida econômica, agindo com base nessas percepções. Na Gestalt-terapia, portanto, ela começa a ter mais consciência da forma como ela tem percebido a sua vida e o contexto que está inserida, buscando ferramentas que possam dar a ela mais autonomia e auxiliá-la no seu crescimento pessoal mais saudável.
3. Integração do indivíduo
Na Gestalt-terapia, a pessoa é vista como um ser integral, e não em partes. Sua mente, seu corpo e seu “espírito” são vistos como uma só unidade, que reage e percebe a vida de forma bastante singular. Dessa maneira, não podemos dividir a pessoa em partes para compreender as suas questões emocionais e psíquicas, mas, sim, devemos considerar todas as suas partes, como peças que interdependem da existência uma da outra.
Um exemplo seria uma pessoa que está sentindo muito estresse. Não podemos focar, limitadamente, no estresse em si. Devemos compreender todas as esferas do indivíduo: como o contexto interfere no estresse? Quais as fontes de estresse? Quais os comportamentos que são desencadeados pelo estresse? Como o corpo reage a esse estresse, e como a mente reage às reações do corpo?
Perceba que por mais complexo que possa parecer, a Gestalt-terapia foca no indivíduo como um ser inteiro, único e singular, que não pode ser “desmontado” em sua existência.
4. Ser de relação
O ser humano também é visto como um ser de relação, ou seja, um ser que relaciona-se com os outros e consigo mesmo. Essas relações têm um papel importante na vida da pessoa, sendo mola propulsora de conflitos, percepções, e muitos outros fatores imprescindíveis da existência humana.
Além disso, o ser de relação também se associa com o fato de que o ser humano também se relaciona com o mundo, percebendo-o e reagindo a ele.
5. Autorregulação
A autorregulação, como o próprio nome sugere, tem relação com a capacidade de o indivíduo se autorregular de acordo com a sua vivência atual. É o caso de mudar atitudes, ações e formas de lidar com a vida, à medida que esta vai mudando e transformando o que acontece à volta do sujeito.
Assim, o ser humano é considerado um todo inteiro capaz de se adaptar e se autorregular de acordo com o que começa a acontecer em sua vida, cotidianamente. Ter consciência dessa capacidade e desenvolver uma autorregulação saudável são pontos que podem ser trabalhados na Gestalt-terapia.
6. Indivíduo-meio
O indivíduo-meio consiste em um conceito que traz à tona a ideia de que o ser humano está constantemente interagindo com os limites sociais e ambientais, moldando-se a eles com base em sua própria percepção e maneira de enxergar a vida.
Assim sendo, o ser humano não é imutável e jamais poderá ser entendido e conhecido em sua totalidade, uma vez que à medida que sua interação ocorre com o mundo, novas formas de ver e viver a vida podem fazer parte do repertório psíquico do indivíduo.
Por isso, o sujeito é visto como alguém que sempre se reorganiza de acordo com as suas necessidades, demonstrando complexidades que nem sempre podem ser “eternas”.
7. Responsabilidade
A autorresponsabilidade do sujeito é outro ponto muito importante e considerado na Gestalt-terapia. O sujeito, que é dono de si mesmo e capaz de pensar e refletir, é autorresponsável por suas atitudes e deve trazer para si essa responsabilidade se deseja implementar mudanças que possam ser relevantes em sua vida.
Ou seja, quebra-se a ideia de que todas as coisas ruins têm apenas relação com o contexto. Embora, obviamente, o que acontece à nossa volta impacte quem somos, a forma como reagimos às situações dependem exclusivamente da nossa responsabilidade e tomadas de decisão.
Isso não significa que seja fácil compreender que temos responsabilidade, inclusive, por efeitos negativos em nossas vidas – em alguns casos. Por isso, o processo pode ser demorado, mas extremamente enriquecedor à medida que aceitamos a nossa própria responsabilidade frente ao que ocorre conosco – reduzindo a ideia de deixar a nossa própria vida nas “mãos alheias”.
Além desses conceitos da Gestalt-terapia, poderíamos listar dezenas de outros. No entanto, seria impossível deixar todos os conceitos claros em apenas um artigo. Por isso, sugerimos que você busque mais informações sobre essa corrente teórica, a fim de compreender todas as características interessantes da Gestalt-terapia.
Benefícios da Gestalt-terapia
A Gestalt-terapia pode promover benefícios para os indivíduos que se engajam com esse tipo de tratamento psicoterapêutico. No entanto, é importante ter a consciência de que cada caso é único e, por isso, cada indivíduo pode ter o seu próprio tempo de evolução para experimentar os efeitos interessantes da terapia.
Além disso, a disposição do sujeito em participar das atividades e exercícios propostos pelo psicólogo é extremamente importante para que a terapia seja guiada por caminhos mais promissores.
Portanto, tudo depende de uma série de fatores: qualificação do terapeuta, engajamento do cliente, etc. Dito isso, vejamos os possíveis caminhos positivos que podem ser alcançados por meio da Gestalt-terapia:
1. Autoconhecimento
O processo terapêutico por meio da Gestalt-terapia promove autoconhecimento para o indivíduo que tem a oportunidade de escutar mais a si mesmo, compreendendo suas emoções, suas angústias, percepções, etc.
Dessa maneira, aumenta-se a emancipação desse sujeito que, ao entender melhor como funciona o próprio pensamento e as próprias emoções, pode lidar com as adversidades com mais responsabilidade e consciência do que é relevante para ele.
2. Autocontrole
O autocontrole, ao compreender os próprios pontos de vista e reações que vêm sendo adotadas nas mais diversas situações da vida, pode ser explorado na Gestalt-terapia.
O sujeito aprende a compreender melhor como lida com suas situações cotidianas, nas mais diversas ocasiões, aprendendo mais sobre como pode agir de modo que respeite a si mesmo e promova mais saúde mental.
3. Inteligência emocional
A inteligência emocional também pode ser explorada à medida que a consciência emocional é atingida. Ou seja, o sujeito começa a escutar melhor as próprias emoções, entendendo o que elas têm a dizer e quais ferramentas podem ser usadas ao seu favor para lidar com essas sensações vividas no cotidiano.
4. Foco no presente e atenção plena
A atenção plena e foco nas ferramentas que o sujeito tem no presente, para desenvolver a sua vida de forma saudável, é outro dos benefícios que podem ser atingidos por meio da Gestalt-terapia.
O presente é visto como o local no qual as modificações podem acontecer, projetando uma vida mais saudável e equilibrada para o indivíduo.
A percepção do presente pode mudar, dando margem para novas tomadas de decisão e mudanças que tragam saúde, bem-estar e realização ao sujeito.
5. Crescimento pessoal
O crescimento pessoal também pode ser um dos benefícios da Gestalt-terapia. Afinal, durante todo o processo terapêutico, o autoconhecimento, o autocontrole, a consciência de si mesmo e o foco em modificações saudáveis podem resultar em um crescimento pessoal bastante interessante.
Para quem a Gestalt-terapia é indicada?
A Gestalt-terapia pode ser uma excelente ferramenta terapêutica para indivíduos que estão atravessando conflitos emocionais, sofrimento psíquico ou, inclusive, desejando mais autoconhecimento e equilíbrio entre a vida emocional, psicológica e física.
Sendo assim, não existe distinção de quem pode ou não fazer terapia com base em Gestalt-terapia. Se você se identifica com a proposta da terapia, pode procurar um profissional da área para dar início ao seu processo terapêutico.
Por conta disso, indivíduos tanto com transtornos mentais ou pessoas quanto com ausência de diagnósticos podem procurar um profissional da Gestalt-terapia. Isto é, não existe para quem é “melhor” ou “pior” o tratamento com base nessa abordagem teórica.
Por isso, o ideal é conversar com um profissional e, caso você se identifique e sinta-se à vontade, seguir com o seu tratamento psicológico dentro dessa abordagem.
Gostou de saber mais sobre Gestalt-terapia? Lembre-se de que essa corrente teórica possui muito mais conceituações importantes. Se for do seu interesse, aprofunde-se no tema e veja o quanto essa abordagem é rica em conhecimentos interessantes.
Referências
BROTTO, T. F. Gestalt Terapia: o que é e como funciona. Disponível em: https://www.psicologoeterapia.com.br/blog/gestalt-terapia/. Acesso em 19 jan. 2023.
PIMENTA, T. Gestalt: conceito, princípios e exercícios usados na terapia. Disponível em: https://www.vittude.com/blog/gestalt/. Acesso em 19 jan. 2023.
PINTO, E. B. Alguns Aspectos da História e da Fundamentação da Gestalt-terapia. Disponível em: https://www.eniobritopinto.com.br/2018/09/18/alguns-aspectos-da-historia-e-da-fundamentacao-da-gestalt-terapia/. Acesso em 19 jan. 2023.