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Depressão no Esporte

Depressão no esporte


A prática de exercícios físicos em moderada intensidade e volume já se mostrou importante tanto para a prevenção como para o tratamento da Depressão e outros aspectos da saúde mental.

Por outro lado, o esporte de alto rendimento e especialmente o esporte profissional pode gerar uma sobrecarga tanto física como emocional que aumentam o risco para transtornos depressivos.

Diversos estudos mostram incidência relativamente semelhante de depressão em atletas ou não atletas, de aproximadamente 10% ao longo de um ano (1).

Em uma equipe com 40 atletas, desta forma, é provável que 4 deles apresentem depressão.

Isso não significa que o esporte não tenha interferência na depressão. Mas, sim, que existe um equilíbrio entre os fatores protetivos e os fatores desencadeantes da depressão.

Subnotificação da depressão no esporte


O mundo do esporte está cheio de exemplos de atletas que estavam no mais alto nível e que de uma hora para outra começaram a falhar e perder rendimento sem uma explicação aparente para isso.

Diversos fatores podem justificar esta queda no rendimento e certamente a Saúde mental do atleta é uma das mais importantes.

A discussão a respeito da saúde mental foi e continua sendo um tabu para muitos atletas.

Entretanto, isso tem mudado gradativamente à medida em que mais e mais esportistas vêm a público falar a respeito da depressão no esporte e outros problemas relacionados à saúde mental.

Apenas para citar alguns nomes:

  • A tenista Naomi Osaka, do Japão, desistiu de competir em Roland Garros e outras competições em 2021 para cuidar de sua saúde mental, quando ocupava a segunda posição no ranking mundial (1);
  • A ginasta Simone Biles, dos Estados Unidos, chegou como principal nome dos Jogos Olímpicos Tóquio-2020 e desistiu de competir em diversas provas também com a alegação de que sua saúde mental estava sendo comprometida (1);
  • O nadador multi-medalhista olímpico dos Estados Unidos, Michael Phelps, revelou recentemente ter sofrido com a depressão ao longo da carreira e ter inclusive pensado em suicídio, após os Jogos Olímpicos Londres -2012, no auge da sua carreira (1);

Depressão e rendimento esportivo


Por mais que a depressão possa impactar no rendimento esportivo, todos os exemplos citados acima são de atletas que revelaram estar ou ter estado com depressão ainda enquanto competiam no mais alto rendimento.

Isso mostra que o impacto no rendimento esportivo pode ser um sinal tardio do comprometimento da saúde mental.

Assim como os atletas listados, muitos outros atletas certamente estão competindo sem ter a ciência do problema ou ao menos sem expor isso, tanto publicamente como reservadamente para sua comissão técnica.

Como o esporte contribui para a depressão?


A depressão e outros problemas de saúde mental são comuns tanto na população geral como em atletas.

Todos os problemas que acometem não atletas podem também acometer o atleta.

Entretanto, algumas especificidades do meio esportivo podem deixar o atleta mais vulnerável para a depressão:

  • Desempenho esportivo: nenhum atleta é capaz de manter o mais alto nível esportivo de forma contínua. Quando por qualquer motivo ele falha em obter o resultado, será cobrado pela imprensa, fãs, equipe técnica e inclusive por ele mesmo;
  • Vulnerabilidade financeira: ao contrário do que muitas pessoas pensam, nem todos os atletas que competem no mais alto nível estão nadando em dinheiro. O retorno financeiro depende muito do desempenho esportivo e, quando o resultado não vem, o dinheiro pode faltar;
  • Relacionamentos interpessoais: muitas pessoas ao redor dos grandes esportistas, mesmo familiares, estão, mesmo que inconscientemente, mais interessado na figura do atleta do que da pessoa por trás do atleta. Muitos atletas sentem falta de pessoas que valorizem sua personalidade além da profissão;
  • Relacionamento com a equipe: especialmente nos esportes de equipe, o atleta precisa conviver diariamente com pessoas com as quais ele não se identifica. Além disso, racismo e problemas relacionados a identidade de gênero são relativamente comuns e nem todos questionam isso abertamente;
  • Ausência da família: a maior parte dos atletas passa grande parte do seu tempo longe de familiares e das pessoas que ama;
  • Falta de privacidade: como figura pública, o atleta de elite muitas vezes não tem direito a ter um relacionamento amoroso ou com amigos longe dos holofotes. Ele não tem direito a “sair do eixo” em nenhum momento sem ser cobrado por isso;
  • Monotonia: o atleta tem hora para treinar, hora para comer e hora para dormir. Ele não tem um momento que deixa o trabalho e vai para casa cuidar da sua vida pessoal. A rotina do atleta em muitos casos é bastante repetitiva e as folgas e férias escassas. Isso é ainda pior em esportes de endurance, como certas modalidades do ciclismo, corrida, natação e triathlon;
  • Estresse físico: o atleta está sempre explorando os limites do seu corpo e isso gera dor e um estresse físico que podem comprometer sua saúde mental;
  • Fim da carreira: a carreira do atleta na maior parte dos esportes é relativamente curta. Ao final da carreira, muitos sentem falta dos holofortes, da bajulação, do glamour e, por que não, do dinheiro do esporte.

Acompanhamento psicológico no esporte


O acompanhamento de equipes esportivas por psicólogos é importante tanto na prevenção como no tratamento de problemas relacionados à saúde mental.

Ter um Médico psiquiatra para referenciamento em caso de necessidade também é importante.

A prevenção é feita por meio da identificação de situações que possam deixar os atletas mais vulneráveis. Algumas medidas podem ser propostas para minimizar estas situações. Elas podem ser adotadas tanto no âmbito coletivo como individual.

A identificação precoce é fundamental. Isso porque, quanto mais precoce o diagnóstico for feito, mais fácil, rápido e eficaz será o tratamento.

Aproximadamente 50% dos casos de depressão ocorrem sem que a pessoa tenha consciência de que sofre com o problema (1). Assim, a conscientização dos atletas ajuda para que eles procurem ajuda mais precocemente.

Sinais e sintomas da Depressão no atleta


A depressão pode se manifestar com diferentes sinais e sintomas em diferentes pessoas. Os sintomas também podem variar na intensidade e frequência.

Algumas apresentam sinais de depressão constantemente. Mas, em outros, ela pode ser intermitente.

Se você ou algum conhecido tiver alguns dos seguintes sinais e sintomas quase todos os dias ao longo de pelo menos 2 semanas, a possibilidade de depressão deve ser considerada:

  • Sentir-se triste, ansioso ou “vazio”;
  • Sentir-se sem esperança, sem valor e pessimista;
  • Chorar muito;
  • Sentir-se incomodado, irritado ou com raiva;
  • Perder o interesse em hobbies ou outras atividades que gostava antes;
  • Diminuir a energia;
  • Sensação de fadiga;
  • Dificuldade em se concentrar ou tomar decisões;
  • Problemas com a memória;
  • Mover-se ou falar mais devagar do que o habitual;
  • Dificuldade para dormir, acordar cedo pela manhã ou dormir demais;
  • Mudanças no apetite ou peso corporal;
  • Dor crônica sem causa clara e que não melhora com o tratamento, incluindo dor de cabeça; dores nas articulações, problemas digestivos ou cólicas;
  • Pensamentos de morte, suicídio, automutilação ou tentativas de suicídio.

Diagnóstico da depressão no atleta


O diagnóstico da depressão deve ser feito por um Médico psiquiatra com base na avaliação clínica do atleta.

Isso porque nem todo sentimento de tristeza se traduz em um quadro de depressão e precisa de tratamento. Embora a depressão e a tristeza compartilhem algumas características, elas não são a mesma coisa.

Depressão é um sentimento de tristeza suficientemente intenso para afetar o desempenho de funções e/ou reduzir o interesse ou o prazer em atividades.

Isso acontece sem uma motivação clara ou de uma forma desproporcional em relação ao acontecimento.

Além disso, este sentimento de tristeza tende a se prolongar além do que seria normal para a situação específica que o desencadeou.

A tristeza sentida após a perda de um ente querido, após uma demissão ou uma separação não apenas é normal como é esperada. Eventos tristes e perturbadores acontecem com todos.

Mas, quando o sentimento de tristeza é constante ou muito frequente, é preciso considerar a possibilidade de um transtorno depressivo.

A forma como a depressão e tristeza se manifestam costuma ser diferente. No luto, por exemplo, os sentimentos alternam emoções positivas e memórias felizes da pessoa perdida com os sentimentos de dor emocional.

No transtorno depressivo maior, os sentimentos de tristeza são constantes.

As pessoas experimentam a depressão de maneiras diferentes. Ela pode interferir no trabalho diário, resultando em perda de tempo e menor produtividade.

Também pode influenciar nos relacionamentos e em algumas condições crônicas de saúde.

Tratamento da depressão no atleta


O tratamento da depressão depende de quais os sintomas apresentados pelo paciente e da gravidade destes sintomas.

Ele deve envolver uma combinação de psicoterapia, adoção de medidas comportamentais apropriadas e, eventualmente, o uso de medicamentos.

Todos os fatores listados acima que contribuem para a depressão no atleta devem ser pesquisados e, quando necessário, tratados.

De outra forma, o tratamento deve seguir as mesmas orientações daquilo que é feito para os não atletas.