Deficiência Intelectual – Abordagem Fonoaudiológica
Deficiência intelectual
A deficiência intelectual é considerada um distúrbio do desenvolvimento neurológico.
Os distúrbios de neurodesenvolvimento são condições neurológicas que se manifestam precocemente na infância, geralmente antes da idade escolar, e prejudicam o desenvolvimento do funcionamento pessoal, social, comunicativo, acadêmico e/ou profissional, pois envolvem dificuldades na aquisição, retenção ou aplicação de habilidades ou conjuntos de informações específicas.
Como resultado, as conexões neurológicas não funcionam muito bem, perdendo funções intelectuais importantes. Ou seja, isso resulta em um quociente de inteligência (QI) menor que a média. As disfunções se manifestam nas áreas da atenção, memória, percepção, raciocínio lógico, resolução de problemas, interação social e a linguagem.
As disfunções decorrentes da deficiência intelectual acabam comprometendo a adaptação da pessoa no seu dia a dia.
Por este motivo, muitas crianças e adultos nessa condição são vistas como imaturas.
A deficiência intelectual é caracterizada por limitações nas habilidades mentais gerais. Essas habilidades estão ligadas à inteligência, atividades que envolvem raciocínio, resolução de problemas e planejamento, entre outras.
A inteligência é avaliada por meio do Quociente de Inteligência (QI) obtido por testes padronizados. O resultado de uma pessoa com Transtorno de Desenvolvimento Intelectual nessa avaliação situa-se em 75 ou menos.
Entretanto, existe uma variabilidade de adaptação de cada pessoa à vida, escolaridade, comunicação e vida social, que também deve ser avaliada, independente se o grau de deficiência é leve, moderada, grave ou profunda.
Como consequência ao quadro de atraso global do desenvolvimento, a linguagem também se manifesta com atraso na sua aquisição. A criança ouve, mas não compreende ou demora a aprender a fala, substituindo as palavras por jargões e grunhidos ou usando os gestos como substituição.
Como suspeitar de deficiência intelectual na criança?
De modo geral, a criança com deficiência intelectual tem dificuldade para aprender, entender a linguagem verbal e realizar atividades comuns como as outras crianças da mesma idade. Muitas vezes, ela se comporta como se tivesse menos idade do que realmente tem.
Abaixo, seguem comportamentos que podem ser observados como suspeita da deficiência intelectual:
1- Atraso nos marcos de desenvolvimento nas áreas motoras (demora a sustentar o pescoço, demora a andar), da linguagem (desenvolve a linguagem apenas com 2 ou 3 anos, dificuldades na expressão e compreensão da linguagem, padrões de imitação da fala mantidos por maior tempo, pode babar) e na aprendizagem de ações do dia a dia (comer, vestir, etc.).
2-Desinteresse no mundo ao seu redor. Diferente das demais crianças, elas podem ficar alheias às pessoas ou aos objetos ao seu redor, não demonstrando curiosidade.
3. Isolamento repentino e do nada, sem razão que justifique.
4. Cansaço frequente. Uma fadiga não comum às crianças.
5. Medos inexplicáveis que atrapalham o processo de aprendizagem ou diversão.
6. Irritabilidade com frequência.
7. Alteração repentina de paladar. Comia bem e de repente começa a comer pouco.
8. Regressão de habilidades adquiridas, como, por exemplo, andar de bicicleta, empilhar blocos, coisas que ela já sabia fazer.
9. Dificuldades escolares, incluindo:
- Desinteresse pelas atividades dadas em sala de aula;
- Déficit de atenção;
- Pouca interação com os colegas e com a professora;
- Dificuldade em coordenação motora (grossa e fina);
- Dificuldade para identificar letras, desenvolver a fala de maneira satisfatória;
- Dificuldade em se adaptar aos mais variados ambientes;
- Quando a criança perde ou esquece o que já havia aprendido (e demonstrado habilidade);
- Dificuldade para aprender a ler e a escrever.
Diagnóstico diferencial de deficiência intelectual e outros transtornos
Assim como qualquer transtorno do desenvolvimento nas crianças, as suspeitas dos pais e professores precisam ser confirmadas a partir de um diagnóstico completo que será feito por médicos pediatra, psiquiatra infantil ou neuropediatra.
Como os sintomas de uma deficiência intelectual podem ser confundidos com autismo (TEA), transtorno do desenvolvimento da linguagem, Transtornos mentais e auditivos, é fundamental a participação do psicólogo e fonoaudiólogo na equipe diagnóstica, pois existem características particulares que diferenciam a linguagem e os aspectos emocionais e cognitivos em cada um destes transtornos.
Em crianças com Deficiência Intelectual severa, podem existir outras condições de saúde como convulsões, transtornos do humor (ansiedade, autismo, etc.), deficiência nas habilidades motoras, problemas de visão ou de audição.
Ou seja, muitas vezes a criança é portadora de uma deficiência múltipla e existe a necessidade de avaliação por outros profissionais como o médico otorrinolaringologista, dentista, entre outros.
Causas da deficiência intelectual
Em muitos casos não é possível determinar exatamente qual a causa. No entanto, sabe-se que existem fatores de risco que podem levar à deficiência e estes fatores são: biomédicos, sociais, comportamentais e educacionais.
Eles podem também ser diferenciados como pré-natais (durante a gestação), perinatal (no momento do parto) e pós-natais (após o nascimento).
Fatores Biomédicos
- se relacionam aos processos biológicos:
- Distúrbios cromossômicos e genéticos;
- Síndromes genéticas;
- Distúrbios metabólicos;
- Doenças maternas;
- Prematuridade;
- Distúrbios Neonatais;
- Lesão ao nascimento;
- Lesão cerebral traumática;
- Distúrbios convulsivos, etc.
Existem algumas síndromes relacionadas a anomalias genéticas como:
SÍNDROME DE DOWN-
As características desta síndrome incluem: deficiência intelectual, hipotonia global (criança com os músculos mais “molinhos”, principalmente quando bebês), dismorfias como baixa implantação das orelhas, cabelos lisos, baixa estatura, com tendência à obesidade, alteração nas pregas das mãos e pés, linguagem presente, mas limitada e adquirida com atraso.
SÍNDROME DO X-FRÁGIL.
As pessoas com esta síndrome, apresentam algumas características físico-faciais, como face alongada, orelhas grandes e em abano, testículos aumentados, mas o que mais chama atenção é sua característica comportamental (muito agitado, arredio, com dificuldade de interação e contato com o outro, lembrando um Autismo). É transmitida pelo cromossomo X e afeta preferencialmente os meninos.
SÍNDROME DO CRI-DU-CHAT (miado do gato):
o nome da síndrome deve-se ao choro característicos dos bebês, semelhante ao miado do gato, que é decorrente de malformações da laringe. O comprometimento intelectual pode ser bastante intenso.
SÍNDROME DE PRADER-WILL.
No período neonatal, a criança apresenta severa hipotonia muscular, baixo peso e pequena estatura.
SÍNDROME DE ANGELMAN.
Distúrbio neurológico que causa deficiência intelectual, comprometimento ou ausência de fala, epilepsia, atraso psicomotor, andar desequilibrado, com as pernas afastadas e esticadas, sono entrecortado e difícil, alterações no comportamento, entre outras.
ERROS INATOS DE METABOLISMO. (Fenilcetonúria, Hipotireoidismo congênito, etc.):
alterações metabólicas, em geral, enzimáticas, que normalmente não apresentam sinais nem sintomas sugestivos de doenças.
São detectados pelo Teste do Pezinho, e quando tratados adequadamente, podem prevenir o aparecimento de deficiência intelectual. Alguns achados clínicos ou laboratoriais que sugerem esse tipo de distúrbio metabólico: falha de crescimento adequado, doenças recorrentes e inexplicáveis, convulsões, ataxia, perda de habilidade psicomotora, hipotonia, sonolência anormal ou coma, anormalidade ocular, sexual, de pelos e cabelos, surdez inexplicada, acidose láctea e/ou metabólica, distúrbios de colesterol, entre outros.
Fatores Sociais
Se relacionam com a interação social e familiar, como estimulação e resposta do adulto:
- Má-nutrição materna;
- Pobreza de estímulos;
- Violência doméstica;
- Falta de acesso ao cuidado pré-natal;
- Falta de acesso aos cuidados no nascimento;
- Falta de estimulação adequada;
- Institucionalização, etc.
Fatores educacionais:
Relacionados à disponibilidade de apoios educacionais que promovem o desenvolvimento intelectual, tais como:
Deficiência intelectual dos pais;
Falta de preparação para ser pais;
Diagnóstico tardio;
Serviços educacionais inadequados;
Apoio familiar inadequado;
Falta de encaminhamento para estimulação precoce, etc.
A linguagem na deficiência intelectual e a terapia fonoaudiológica
O diagnóstico precoce e o início de terapias o mais rápido possível como a fonoterapia, a fisioterapia, a terapia ocupacional, terapia psicológica, musicoterapia e outras vão ajudar em seu desenvolvimento e diminuir a diferença entre as crianças com desenvolvimento típico. E ainda impactarão positivamente no futuro destas.
As crianças com deficiência intelectual sempre apresentam atraso na aquisição e no desenvolvimento da linguagem, o que vai depender do grau de acometimento e da qualidade e quantidade de estimulação que recebe dos pais e professores. Ou seja, o déficit de comunicação caracteriza-se por um desvio lento, mas segue as mesmas etapas que o da criança sem atraso ou não consegue completar estas etapas de forma eficiente e na idade esperada.
Elas podem apresentar poucas iniciativas de comunicação, linguagem descontextualizada. Usa a linguagem apenas para usos básicos como a concretização de desejos e necessidades e para atuação sobre o meio. A linguagem não é utilizada para funções mais elaboradas como participação social, para passar informações, para expressar opiniões ou fantasiar, pois estas funções exigem processos mentais superiores mais sofisticados.
A intervenção fonoaudiológica se dará com enfoque na linguagem e comunicação e deverá envolver a família e outros profissionais. O objetivo será o de dar autonomia ao indivíduo para que ele possa participar de diferentes contextos através da comunicação.
Os alcances dependerão principalmente do grau da deficiência, da quantidade/ qualidade dos estímulos recebidos pelos pais e professores e da fase que se iniciou a terapia.
Se não for possível o desenvolvimento das habilidades de linguagem verbal, os fonoaudiólogos poderão usar métodos alternativos complementares como ponteiros, sintetizadores de fala, computadores ou outros. Pode -se utilizar também sinais como piscar de olhos para “sim” ou “não”.