Deficiência de Magnésio (Hipomagnesemia)
Deficiência de magnésio
O magnésio é um mineral que participa de diversas reações bioquímicas no corpo. Cerca de 60% dele está armazenado nos ossos e 39% dentro das células. Apenas 1% encontra-se circulando no sangue e fluidos extracelulares. Com isso, ele ajuda a manter as funções de nervos, músculos, coração e sistema imunológico, entre outros.
A incidência de hipomagnesemia é estimada entre 2% a 3% na população geral, mas sobe para cerca de 11% em pacientes internados e até 65% em unidades de terapia intensiva. Ela pode acontecer por baixo consumo dietético, má absorção (geralmente por conta de problemas gastrointestinais) ou por perda excessiva (geralmente secundário a problemas renais).
Qual a função do magnésio
Entre as funções do magnésio, devemos considerar que ele:
- Participa do mecanismo de contração muscular
- Produz hormônios que aumentam a deposição de cálcio nos ossos;
- Regula os níveis de glicose no sangue, sendo importante para o controle do diabetes;
- Diminui o acúmulo de placas de gordura nos vasos sanguíneos, o que diminui o risco de Doença Arterial
- Coronariana e outras doenças cardíacas;
- Alivia a azia e a má digestão, especialmente quando usado na forma de hidróxido de magnésio;
- Controla a pressão arterial, especialmente em mulheres grávidas;
- Participa da produção de serotonina, um neurotransmissor que ajuda a diminuir a ansiedade, manter a saúde mental e a controlar as variações de humor.
Qual a causa da deficiência de magnésio?
A deficiência de magnésio pode acontecer por baixo consumo dietético, má absorção ou por perda excessiva.
Ingestão Dietética Insuficiente
Entre os alimentos ricos em magnésio, incluem-se:
- Sementes (semente de linhaça, semente de gergelim)
- Grãos integrais (arroz integral)
- Oleaginosas (castanhas, amendoim)
- Vegetais com folhas verdes (espinafre, couve)
- Laticínios (leite, iogurte, queijos)
- Frutas ricas em fibra (figo, kiwi, abacate, banana)
O magnésio está no centro da molécula de clorofila. Se o alimento não é “verde” ou integral, as chances de ele ser pobre em magnésio são altas.
A dieta moderna, rica em alimentos processados, açúcar, refrigerantes e refinados reduz o aporte de magnésio, pois esses alimentos contêm pouco ou nenhum desse mineral. O refinamento de grãos (como transformar trigo integral em farinha branca ou arroz integral em arroz branco) remove até 80% do magnésio.
Outro fator relevante é que o uso intensivo de fertilizantes à base de potássio e fósforo dificulta a absorção de magnésio pelas plantas, resultando em vegetais com menor densidade nutricional do que se tinha no passado.
Por fim, certas doenças associadas a dificuldades com a alimentação, incluindo alcoolismo, Anorexia nervosa ou câncer terminal também estão associadas a consumo insuficiente de magnésio.
Má Absorção Gastrointestinal
Mesmo com um aporte dietético adequado, o magnésio pode não ser absorvido adequadamente, de forma que ele é eliminado em excesso pelas fezes ou por conta de vômitos.
Entre as condições associadas a má absorção do magnésio, incluem-se:
- Doenças Gastrointestinais crônicas: Doenças Inflamatórias Intestinais (Doença de Crohn ou Retocolite Ulcerativa), Doença Celíaca ou outras condições gastrointestinais provocam inflamação das vilosidades intestinais, reduzindo a área disponível para absorção.
- Uso Crônico de Inibidores da Bomba de Protons (Omeprazol e similares): Esses medicamentos reduzem a acidez gástrica e podem alterar os transportadores de magnésio no intestino.
- Consumo Excessivo de Álcool: O álcool provoca inflamação da mucosa intestinal, dificultando a absorção do potássio.
- Outras condições associadas a vômitos frequentes.
Perda Excessiva (Excreção)
Em alguns casos, o magnésio está presente na dieta, é adequadamente absorvido no intestino mas é eliminado em excesso pelos rins. Isso acontece especialmente nas seguintes condições:
- Diabetes Mellitus descompensada: Quando a glicose no sangue está alta (hiperglicemia), ela é eliminada pela urina e carrega o magnésio junto (diurese osmótica). Esse é o motivo pelo qual muitos diabéticos sofrem de cãibras constantes.
- Medicamentos Diuréticos: Remédios para pressão alta (como a Furosemida ou Tiazídicos) aumentam a eliminação de magnésio pela urina.
- Drogas Nefrotóxicas (Cisplatina): Alguns medicamentos, especialmente quimioterápicos, podem causar um dano tubular renal que impede o rim de “segurar” o magnésio de volta. Esse dano pode persistir por longa data e, em alguns casos, a hipomagnesemia pode ser o primeiro sinal da doença renal.
Quais os sintomas da deficiência de magnésio?
O principal efeito da falta do magnésio está relacionado a hiperexcitabilidade neuromuscular. O magnésio funciona como um “freio” da atividade neuromuscular, de forma que, quando ausente, os nervos e músculos ficam excessivamente excitado, com efeitos em diferentes áreas do corpo, incluindo o sistema musculoesquelético, o cérebro e o coração.
Efeitos musculoesqueléticos:
- Fasciculações e Espasmos: O sinal clássico é o tremor involuntário na pálpebra (mioquimia) ou pequenos “pulos” involuntários nos músculos das coxas ou braços em repouso.
- Cãibras Noturnas: Especialmente aquelas que não melhoram apenas com hidratação ou potássio (banana).
- Parestesias: Formigamentos ou dormência nas mãos e pés sem causa compressiva óbvia.
Efeitos no Sistema Nervoso Central
O magnésio regula o funcionamento de neurotransmissores como o GABA (o calmante natural do cérebro). Sem ele, o cérebro fica hiperexcitado. Os sintomas poderão incluir:
- Sensibilidade ao Ruído: Um sinal curioso é o susto exagerado com sons repentinos.
- Ansiedade e Irritabilidade: O paciente permanece em “alerta constante” ou nervoso sem motivo aparente.
- Insônia: Dificuldade em relaxar o corpo para iniciar no sono, muitas vezes acompanhada da Síndrome das Pernas Inquietas.
- Névoa Mental (Brain Fog): Dificuldade de concentração e fadiga mental persistente.
Efeitos Cardiovasculares
Em estágios mais avançados, a hiperexcitabilidade do músculo cardíaco pode porovocar arritmia cardíaca e palpitações. Além disso, a hiperexcitabilidade dos músculos que envolvem os vasos sanguíneos pode levar a uma piora da hipertensão arterial.
Diagnóstico da Deficiência de magnésio
O diagnóstico da deficiência de magnésio pode ser bastante desafiador, já que a dosagem no sangue só fica alterado em casos mais avançados. O diagnóstico dessa forma deve envolver a identificação de grupos de risco, a presença de sintomas característicos, exame físico e exames laboratoriais.
Exame Físico
Na presença de sintomas característicos, dois testes clínicos podem ajudar no diagnóstico da hipomagnesemia:
- Sinal de Trousseau: Um manguito de pressão arterial é inflado no braço acima da pressão sistólica por 3 minutos. A contração dolorosa dos músculos das mãos e punhos sugere deficiência. Esse teste clínico tem alta sensibilidade e especificidade, o que significa que a maior parte dos pacientes com déficit de potássio terá o sinal de Trousseau positivo, e a maioria dos pacientes com o teste positivo terá a deficiência do magnésio.
- Sinal de Chvostek: O médico toca levemente o nervo facial (na frente da orelha). Se o lábio ou o nariz do paciente sofrer uma contração involuntária, é um sinal positivo de hipomagnesemia ou hipocalcemia. É um teste com sensibilidade baixa, já que ele será positivo em apenas 30% dos pacientes com hipomagnesemia.
Exames Laboratoriais
A avaliação laboratorial do magnésio pode envolver a dosagem de magnésio sérico, magnésio eritrocitário e exame de urina de 24h.
Magnésio Sérico
O exame mais simples é a dosagem do magnésio no sangue. No entanto, é um teste pouco sensível, que só estará alterado em caso de deficiências mais avançada. Isso acontece porque apenas 1% do magnésio corporal está no sangue, enquanto 99% está nos óssos ou dentro das células. Na falta de magnésio, ele pode estar em falta dentro das células (o que está ligado aos sintomas da deficiência), mas mantendo os dosagens no sangue em valores normais.
Magnésio Eritrocitário (Mais preciso)
O magnésio eritrocitário avalia a quantidade de magnésio dentro das células sanguíneas (glóbulos vermelhos).
Esse exame reflete melhor o estoque real do corpo do que o sérico e tem uma melhor correlação com os sintomas. Se este estiver baixo e o sérico estiver normal, você provavelmente tem uma deficiência crônica.
Exame de Excreção Urinária de 24h
O exame de urina de 24 mede a quantidade de magnésio que está sendo eliminando na urina ao longo de um dia inteiro.
Esse exame busca avaliar a causa da deficiência. Se o magnésio no sangue está baixo e a excreção na urina está alta, a causa da deficiência é a perda excessiva do magnésio na urina. Já a excreção baixa indica que o corpo está tentando poupar o mineral, sendo a deficiência decorrente da baixa ingestão ou má absorção intestinal.
Tratamento da Deficiência de magnésio
Uma vez que se idenfique a deficiência de magnésio, a história clínica e o exame de urina de 24h ajuda a caracterizar a causa da deficiência. Sempre que possível, a causa deve ser tratada.
O passo seguinte é o aumento na ingestão de produtos ricos em magnésio, como espinafre, sementes (abóbora, girassol), amêndoas, aveia, banana, feijão e leite.
Nos casos de deficiência leve, a suplementação geralmente é feita porvia oral. A reposição intravenosa ou intramuscular do magnésio pode ser considerada nos casos de deficiência mais grave ou quando há algum problema que impessa a absorção adequada do mineral.
Intoxicação por Suplementos de magnésio
Suplementos de magnésio devem idealmente ser usados baseados em uma deficiência clinicamente e laboratorialmente diagnosticada, já que o uso indiscriminado pode provocar um excesso de magnésio, com sintomas de intoxicação.
Em concentrações até 3,6 mg/dL, a hipermagnesemia é geralmente assintomática. Quando a concentração sérica de magnésio encontra-se em torno de 7,2 mg/dL, pode ocorrer perda dos reflexos tendíneos musculares profundos. Concentrações acima deste nível podem ocasionar paralisia respiratória, hipotensão, anormalidades de condução cardíaca e perda de consciência.