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Coração do Atleta

O que é o Coração do Atleta?

O “coração do atleta” é um termo usado para se referir às adaptações estruturais e funcionais que ocorre em corações saudáveis, quando submetidos a treinamento físico intenso e regular durante muitos anos. Assim como os músculos dos braços e das pernas se tornam mais fortes com o exercício, o coração também se adapta para atender ao aumento da demanda de sangue e oxigênio durante a atividade física.

Essas adaptações tornam o coração mais eficiente. É comum que atletas apresentem um discreto aumento do tamanho das cavidades cardíacas, espessamento da musculatura do coração e alterações no eletrocardiograma, sem que isso represente qualquer doença.

Por conta dessas adaptações, o coração consegue bombear uma quantidade maior de sangue, permitindo que o organismo suporte esforços intensos com menor frequência cardíaca e menor gasto energético.
O coração do atleta é observado especialmente em atletas de endurance, como corredores, ciclistas, nadadores e remadores, mas também pode ocorrer em praticantes de esportes coletivos e de outras modalidades de alto rendimento. Essas adaptações dependem da intensidade, da duração e dos anos de treinamento, sendo muito menos frequentes em pessoas que praticam atividade física apenas de forma recreativa.

Embora essas adaptações sejam consideradas fisiológicas e não aumentem o risco de complicações cardiovasculares, elas podem eventualmente ser confundidas com algumas doenças cardíacas potencialmente graves, como a cardiomiopatia hipertrófica, ou outras condições associadas à morte súbita durante o exercício.
Diferenciar uma adaptação fisiológica do coração de uma doença cardíaca nem sempre é simples. Considerar uma alteração normal como se fosse uma doença pode levar à realização de exames e tratamentos desnecessários, além do afastamento injustificado da prática esportiva, com impactos físicos, psicológicos, sociais e, em atletas competitivos, até sobre a própria carreira.

Por outro lado, interpretar uma doença cardíaca potencialmente grave como sendo apenas uma adaptação ao treinamento pode impedir o diagnóstico precoce e expor o atleta a complicações graves, incluindo arritmias malignas, insuficiência cardíaca e morte súbita durante o exercício. Por esse motivo, reconhecer as características do coração do atleta e saber quando suspeitar de uma doença cardíaca é um dos principais desafios da cardiologia esportiva.

Como o coração se adapta ao treinamento?

Durante a prática de exercícios físicos, os músculos passam a consumir muito mais oxigênio e nutrientes do que em repouso. Para atender a essa necessidade, o coração precisa bombear uma quantidade muito maior de sangue para todo o organismo.

Nos primeiros treinos, essa adaptação ocorre principalmente pelo aumento da frequência cardíaca. Entretanto, quando o treinamento é intenso e realizado de forma regular durante muitos anos, o coração também passa por adaptações estruturais que o tornam progressivamente mais eficiente.

Hipertrofia de ventrículo esquerdo

Assim como qualquer outro músculo do corpo, o coração responde ao treinamento tornando-se mais forte. A musculatura cardíaca aumenta discretamente de espessura, principalmente no ventrículo esquerdo — a principal câmara responsável por bombear sangue para todo o organismo. Ao mesmo tempo, as cavidades cardíacas também podem aumentar ligeiramente de tamanho, permitindo que uma quantidade maior de sangue seja armazenada entre um batimento e outro.

Bradicardia

Como consequência dessas adaptações, o coração consegue ejetar um volume maior de sangue a cada contração, fenômeno conhecido como aumento do volume sistólico.  Durante o repouso, o coração precisa bater com menor frequência para manter a circulação adequada, o que explica por que atletas costumam apresentar frequência cardíaca mais baixa em repouso.

Além das mudanças anatômicas, o treinamento também modifica o funcionamento do sistema nervoso autônomo. O aumento da atividade do sistema parassimpático (“nervo vago”) e a redução relativa da atividade simpática contribuem para diminuir ainda mais a frequência cardíaca em repouso e favorecer uma recuperação mais rápida após o exercício.

Bloqueio atrioventricular

O bloqueio atrioventricular corresponde a um atraso na condução do impulso elétrico entre os átrios e os ventrículos do coração. Nos atletas, essa alteração geralmente não representa uma doença, mas sim uma consequência das adaptações fisiológicas provocadas pelo treinamento físico intenso.

Além das mudanças estruturais do coração, o exercício regular aumenta a atividade do sistema nervoso parassimpático (nervo vago), responsável por reduzir a frequência cardíaca durante o repouso. Esse aumento do tônus vagal torna a condução elétrica pelo nó atrioventricular mais lenta, favorecendo o aparecimento de pequenos bloqueios de condução que desaparecem durante o exercício ou em situações de maior atividade do sistema nervoso simpático.

O bloqueio atrioventricular de primeiro grau é a alteração mais frequente, sendo observado em aproximadamente 7 a 10% dos atletas no eletrocardiograma de repouso. Quando avaliados por monitorização contínua com Holter de 24 horas, principalmente durante o sono, sua prevalência pode ultrapassar 30%.

Outra alteração relativamente comum é o bloqueio atrioventricular de segundo grau do tipo Mobitz I (fenômeno de Wenckebach), observado em cerca de 10 a 15% dos atletas durante o repouso ou o sono. Assim como a bradicardia, essa alteração costuma desaparecer durante o exercício, quando ocorre redução do tônus vagal e aumento da frequência cardíaca.

Esses achados refletem um coração mais eficiente e fortemente influenciado pelo sistema nervoso parassimpático. Em atletas assintomáticos, sua presença isolada geralmente representa uma adaptação fisiológica ao treinamento.

Extrassístoles

As extrassístoles são batimentos cardíacos que ocorrem antes do momento esperado, provocando a sensação de “falha”, “batimento extra” ou “coração pulando uma batida”. Elas podem ter origem nos átrios ou nos ventrículos e são relativamente frequentes tanto em atletas quanto na população em geral.

Diferentemente da bradicardia ou dos bloqueios atrioventriculares, as extrassístoles não parecem representar uma adaptação direta do coração ao treinamento. Elas podem ocorrer ocasionalmente em indivíduos completamente saudáveis e, na maioria dos atletas, estão relacionadas a mecanismos benignos, como aumento do tônus vagal, maior sensibilidade do sistema de condução cardíaco ou pequenas variações dos eletrólitos e do estado de hidratação.

Estudos mostram que extrassístoles isoladas podem ser identificadas em aproximadamente 1 a 5% dos atletas no eletrocardiograma de repouso. Quando a avaliação é realizada por meio de Holter de 24 horas, batimentos ectópicos isolados tornam-se muito mais frequentes, sendo observados em 20 a 70% dos atletas, dependendo da idade, da modalidade esportiva e da sensibilidade do método utilizado.

Na grande maioria dos casos, essas extrassístoles são pouco numerosas, apresentam sempre o mesmo formato (monomórficas) e desaparecem ou diminuem durante o exercício físico, refletindo um comportamento considerado fisiológico.

Embora a maioria das extrassístoles em atletas seja benigna, sua identificação merece uma avaliação individualizada, principalmente quando são muito frequentes, apresentam diferentes formatos, aumentam durante o exercício ou estão associadas a sintomas. Nesses casos, exames complementares podem ser necessários para excluir doenças cardíacas subjacentes, assunto que será discutido mais adiante neste artigo.