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Câncer de língua

O que é o câncer de língua?

O câncer de língua é um tipo de câncer que se desenvolve quando células da língua sofrem uma mutação e passam a crescer e se multiplicar fora de controle.

A língua é um órgão constituído de músculo e revestido de mucosa. Ela faz parte do aparelho digestivo e está relacionada à deglutição, ao paladar e à fala. Os dois terços anteriores da língua estão localizados dentro da boca, enquanto o terço posterior está localizada na faringe. O sulco terminal da língua, região que lembra um V localizada na parte de trás do órgão, divide estas duas porções.

Tanto a porção bucal como a porção faríngea da língua podem ser acometidas pelo câncer. A principal diferença, nesses casos, é que a porção anterior, por ser mais visível, costuma levar a diagnósticos mais precoces do que aqueles localizados na porção posterior, que não são facilmente perceptíveis ao se olhar no espelho..

Quando o câncer se encontra na garganta, ele pode se desenvolver com poucos sinais e sintomas. Assim, esses cânceres costuma ser identificado e tratado apenas em um estágio mais avançado, quando o prognóstico é pior. Muitas vezes, eles são identificados inicialmente durante uma avaliação de rotina feito pelo dentista.

Quais os sinais e sintomas do câncer de língua?

Um dos primeiros sinais de câncer de língua é um caroço ou ferida na lateral da língua que não desaparece. A lesão pode ter coloração esbranquiçada (leucoplástica), avermelhada (eritroplastica), pode ser vegetativa, ulcerada ou ter uma combinação dessas características.

Estas lesões são habitualmente indolores e endurecidas, mas tendem a sangrar mais facilmente ao tocá-la ou mordê-la do que o restante da língua.

As lesões na parte da frente da língua são mais fáceis de serem visualizadas no espelho e tendem a chamar a atenção do paciente para a procura por atendimento especializado. Já as lesões mais profundas são mais difíceis de ver e costumam ser diagnosticada durante uma avaliação de rotina pelo dentista, ou apenas nas fases mais avançadas, por conta dos sintomas.

Fatores de risco

Tabagismo

O tabagismo é o principal fator de risco é o tabagismo, com risco 5 vezes maior em coparação com não fumantes. O prognóstico está associado à quantidade de tabaco e a duração do tabagismo.

Pacientes que seguem fumando durante o tratamento têm pior prognóstico e maior risco de um segundo câncer na cavidade oral comparado com aqueles que abandonaram o tabagismo.

Álcool

O álcool, isoladamente, não é considerado um fatore de risco para o câncer. No entanto, em combinação com o tabagismo, ele aumenta ainda mais o risco para o câncer.

Radiação em cabeça e pescoço

Passoas que fizeram radioterapia devido a um câncer prévio na região do pescoço apresentam risco aumentado para câncer de língua, devido ao dano celular provocado pela radiação.

Alguns casos podem se desenvolver até mesmo em um longo tempo após a radiação.

Bebidas quentes

bebidas muito quentes e o aumento do risco de câncer de boca, língua e esôfago. O perigo não está no tipo de bebida em sí (café, chá, chimarrão), mas sim na temperatura elevada.

Infecção por HPV

A infecção da garganta pelo HPV está relacionada a muitos casos de câncer na parte posterior (faríngea) da língua, sendo menos comum na parte da frente. O subtipo HPV 16 está presente em até 90% dos casos de câncer HPV positivo, com os demais casos estando associados aos subtipos 18, 31 e 33.

O HPV é transmitido principalmente pelo sexo oral com uma pessoa infectada, podendo acometer tanto homens como mulheres. A vacinação contra o HPV é a forma mais eficaz de proteção.

Embora a maioria das infecções por HPV  desapareça sozinha em até dois anos o vírus pode permanecer inativo por longos períodos, levando até 10 a 30 anos para evoluir para o câncer.

O câncer de língua em pessoas infectadas pelo HPV tende a acontecer em uma idade mais precoce, entre 40 e 55 anos de idade, quando comparado com o câncer HPV negativo, que é mais comum entre 50 e 70 anos de idade. Além disso, os casos HPV positivo respondem melhor à quimioterapia e apresentam melhor prognóstico.

Diagnóstico do câncer de língua

Diagnóstico do câncer de língua

O diagnóstico do câncer de língua é feito a partir da identificação de uma lesão suspeita. Lesões na porção bucal da língua podem ser observadas pelo próprio paciente ao se olhar no espelho, geralmente durante a escovação bucal, ou em uma avaliação odontológica de rotina.

Já as lesões mais profundas são mais difíceis de serem visalizadas. embora possam ser identificadas durante a avaliação de rotina feita pelo dentista. Especialmente no caso de pacientes de mais alto risco, é recomendável que ele utilize corantes especiais e/ou luzes para procurar por áreas anormais.

Em muitos casos, as lesões posteriores são diagnosticadas tardiamente, quando o paciente passa a ter queixas relacionadas à deglutição ou fala, o que só acontece em uma fase mais avançada do câncer.

Citologia Esfoliativa

Ao se identificar uma área anormal suspeita, uma citologia esfoliativa poderá ser realizada. Nessa técnica, a lesão ou área suspeita é raspada com uma escova e as células da amostra retiradas são enviadas para estudo histopatológico.

No laboratório, a amostra é tingida com um corante específico, o qual permite a visualização de células cancerígenas ao microscópio. Na presença de células anormais, a região será biopsiada.

Biópsia

O diagnóstico definitivo do câncer é feito por meio da biópsia. Nas lesões bucais, ela é feita com anestesia local. Já nas lesões localizadas na orofaringe, ela poderá ser feita no centro cirúrgico por meio de endoscopia com anestesia geral.

A endoscopia é um exame que utiliza uma pequena câmera para examinar a boca e a garganta, dando acesso à lesão a ser biopsiada.

Pequenas lesões podem ser completamente removidas e encaminhadas ao laboratório. Nesses casos, a biópsia é chamada de excecional e servirá não apenas para diagnóstico, mas também como tratamento da lesão.

Nas lesões maiores, a biópsia retira apenas uma pequena amostra da lesão para análise em laboratório, sendo nesses casos chamada de biópsia incisional.

A biópsia não apenas confirma o diagnóstico do câncer, mas permite também identificar o tipo histológico, a graduação do tumor (indicativo da agressividade do mesmo) e a presença de infecção por HPV.

Estadiamento do câncer de língua – Sistema TNM

Uma vez feito o diagnóstico do câncer de língua, outros exames são indicados para avaliar a extensão do câncer e se ele já se espalhou localmente ou para outras partes do corpo, o que será fundamental para a escolha do tratamento e para determinar o prognóstico. Essa avaliação, chamada de Estadiamento do Câncer, levando em conta três fatores:

  • Tamanho do tumor (T)
  • Acometimento de linfonodos regionais (N)
  • Presença de metástases (M)

O tamanho do tumor é avaliado pela mesma biópsia feita para o diagnóstico do câncer de língua.

O acometimento de linfonodos regionais deve ser avaliado por uma combinação de palpação das cadeias linfonodais, durante o exame físico feito pelo cirurgião de cabeça e pescoço, com exames de imagem, especialmente a tomografia cervical com contraste. Na maior parte das vezes, as metástases acometem os linfonodos cervicais ipsilaterais (mesmo lado da lesão).

Quando há acometimento de linfonodos cervicais, exames adicionais devem ser realizados para buscar eventuais metástases a distância, incluindo tomografia de tórax e abdome, cintilografia óssea e PET-CT.

T: TAMANHO
T Tx O tumor primário não pode ser avaliado.
Tis Carcinoma in situ. É um câncer muito precoce, onde as células cancerígenas são encontradas apenas em uma camada de tecido.
T1 O tumor tem 2 cm ou menos em sua maior dimensão. Pode ter invadido os tecidos próximos a uma profundidade de 5 mm ou menos.
T2 O tumor tem 2 cm ou menos, mas a profundidade da invasão é superior a 5 mm. 

Ou

O tumor tem entre 2 e 4 cm, desde que a profundidade de invasão seja não superior a 10 mm.

T3 Tumor ente 2 cm e 4 cm. A profundidade da invasão é superior a 10 mm. 

Ou

o tumor é maior do que 4cm, desde que a profundidade de invasão seja inferior a 10mm.

T4 Doença localmente mais avançada.
T4a O tumor começou no lábio, mas invadiu o osso ou se espalhou para o nervo alveolar inferior na boca, assoalho da boca ou pele da face.
T4b O tumor é maior que 4 cm e a profundidade da invasão é maior que 10 mm. 

Ou

o tumor invadiu estruturas próximas na boca, como mandíbula, seios nasais ou pele da face.

T4c O tumor invadiu os músculos e ossos que formam a boca ou a base do crânio e/ou envolve as artérias internas.
N: LINFONODOS
N Nx Os gânglios linfáticos regionais não podem ser avaliados.
N0 Não há evidência de câncer nos gânglios linfáticos regionais.
N1 O câncer se espalhou para um único linfonodo do mesmo lado do tumor primário, e o câncer encontrado no linfonodo é de 3 cm ou menor. Não há extensão para fora do linfonodo.
N2 N2a O câncer se espalhou para um único linfonodo do mesmo lado do tumor primário. Ele é maior que 3 cm, mas não maior que 6 cm. Não há extensão para fora do linfonodo.
N2b O câncer se espalhou para mais de um linfonodo do mesmo lado do tumor primário e nenhum mede mais de 6 cm. Não há extensão para fora do linfonodo.
N2c O câncer se espalhou para mais de um linfonodo em ambos os lados do corpo, mas nenhum mede mais de 6 cm. Não há extensão para fora do linfonodo.
N3 N3a O câncer é encontrado em um linfonodo e tem mais de 6 cm. Não há extensão para fora do linfonodo.
N3b Existe extensão para fora do linfonodo, em qualquer linfonodo.
M: METÁSTASES
M M0 Ausência de metástases
M1 Presença de metástases

Estágios do câncer de boca

Com base no sistema TNM, o câncer de boca é dividido em quatro estágios:

Estágios do câncer de boca
Estágio TNM
0 Carcinoma in situ (TisN0M0)
1 T1N0M0
2 T2N0M0
3 T3N0M0, T1 a T3, N1, M0
4 4a T4a, N0 ou N1, M0 ou T1 a T4a, N2, M0
4b Qualquer T, N3, M0 ou T4b, qualquer N, M0
4c Qualquer T, qualquer N, M1

Tratamento do câncer de língua

carcinoma in situ (Estágio 0)
O tratamento é cirúrgico, geralmente por meio da técnica de Mohs.
Neste procedimento, o tumor é removido camada por camada, examinando cada camada sob o microscópio, até que não restem células anormais.
Ele permite que as células cancerígenas sejam removidas sem tomar uma quantidade excessiva de tecido saudável ao redor.
O acompanhamento é importante para observar quaisquer sinais de recorrência do câncer. Caso isso aconteça, a radioterapia pode ser indicada.
Além disso, todos os esforços devem ser feitos no sentido do abandono do tabagismo.

Estágios I e II
A maioria dos pacientes com câncer de língua nos estágios I ou II evolui bem quando tratados com cirurgia e/ou radioterapia.
Em alguns pacientes, a quimioterapia pode ser indicada junto com a radioterapia.
Tanto a cirurgia quanto a radioterapia funcionam igualmente bem no tratamento desses tipos de câncer.
A escolha depende de suas preferências individuais e dos potenciais efeitos colaterais, incluindo como o tratamento pode afetar sua aparência, como você engole e fala.

Estágios III e IVA
O tratamento geralmente envolve a remoção cirúrgica tanto do tumor com de linfonodos regionais.
Geralmente, a cirurgia é seguida por tratamento com radioterapia, com ou sem quimioterapia combinada.

Estágios IVB e IVC
Pessoas com câncer em estágio IVB que não podem ser removidos por cirurgia ou que estão muito fracas para cirurgia podem ser tratadas apenas com radiação.
Em alguns casos, o tratamento pode ser feito com quimioterapia e radioterapia combinada ou com quimioterapia seguido por radioterapia.
Já os cânceres em estágio IVC geralmente são tratados com quimioterapia, imunoterapia ou ambos.
A radiação também pode ser usada, com foco em aliviar os sintomas causados pelo câncer.

Consequêcncias de longo prazo do câncer de língua

Em relação à fala, não é preciso dizer que a língua é essencial para a formação dos sons. Assim, a retirada parcial ou total língua altera a precisão, a velocidade e a clareza da fala.

Pacientes que realizam uma Hemiglossectomia (retirada parcial da língua) têm uma fala compreensível, porém menos clara. Já aqueles que realizam uma Glossectomia total têm a fala muito prejudicada, muitas vezes dependente de comunicação alternativa. Quando indicada, a radiotereapia pode contribuir para o desenvolvimento de fibrose e uma piora ainda maior da fala.

Todas esses consequências na alimentação exigem um acompanhamento multiprofissional de longo prazo, incluindo fonoaudiólogo, nutricionista, otorrino, oncologista, fisioterapeuta, odontologista e psicolólogo.