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Atividade Física e Esportiva para Deficientes Visuais

Benefícios da Atividade Física na Deficiência Visual

As limitações impostas pela deficiência visual leva em muitos casos a uma falta de oportunidades para a prática de exercícios, sendo comum que esses indivíduos adotem um estilo de vida mais sedentário.

Muitas das limitações físicas de pessoas com deficiência intelectual não são inerentes à cegueira, mas ao histórico de privação motora. O sedentarismo leva a problemas relacionados à resistência e força muscular, saúde cardiovascular, obesidade e risco para condições crônicas de saúde, como diabetes ou hipertensão arterial. Todas essas condições podem ser melhoradas com a adoção de um estilo de vida mais ativo.

Além disso, o exercício físico regular pode melhorar significativamente várias limitações físicas e psicossociais relacionadas à deficiência visual, incluindo problemas com equilíbrio, coordenação motora, mobilidade e saúde mental.

A prática regular de exercícios estimula e aguça outros sentidos, como o sistema vestibular, a propriocepção, o tato e a audição, compensando a perda visual e auxiliando na percepção do ambiente e na consciência da posição corporal. Além da melhora na qualidade de vida, isso é crucial para prevenir quedas e aumentar a segurança ao caminhar.

A melhora da massa muscular ajuda também no aprimoramento das habilidades de locomoção, provendo maior independência na realização de tarefas cotidianas e na navegação em diferentes ambientes.

Por fim, ela promove a interação social, a construção de amizades e o sentimento de pertencimento, o que, por sua vez, aumenta a autoestima e a autoconfiança.

 

Adaptações no treinamento esportivo para deficientes visuais

No treinamento físico e esportivo para deficientes visuais, o princípio central é a substituição da informação visual por informações táteis, auditivas e proprioceptivas, com maior ênfase em equilíbrio, core e propriocepção.

As Instruções verbais devem ser claras, objetivas e sequenciais, com o uso de referências corporais e do relógio espacial (“a bola vem às 9 horas”).

A organização do ambiente também é fundamental, com melhor delimitação e padronização do ambiente e remoção de obstáculos inesperados. Dependendo da modalidade, o uso de pisos com contraste tátil, cordas guia ou balizas sonoras podem ser usados para a melhora na orientação espacial. Uma vez que a audição assume boa parte do papel de orientação espacial, o controle de ruídos no ambiente é fundamental.

Em modalidades como corrida, triatlo e ciclismo, o atleta guia tem um papel crucial, sendo inclusive determinante no resultado competitivo final. Ele precisa também de treinamento específico para exercer seu papel, que vai além das habilidades no esporte em questão.

Competições paralímpicas para deficientes visuais

A atividade física e esportiva para pessoas com deficiência visual é hoje uma área bem consolidada no Movimento Paralímpico, com alto nível competitivo e impactos funcionais amplos.

Os atletas são separados em três classes esportivas:

  • B1 – Cegueira total ou percepção luminosa mínima
  • B2 – Baixa visão severa
  • B3 – Baixa visão moderada

Em muitas modalidades, atletas B1 competem com venda ocular obrigatória, garantindo equidade.

Modalidades paralímpicas para Deficiência visual

As modalidades paralímpicas para atletas com deficiência visual apresentam especificidades técnicas, regulamentares e organizacionais que garantem segurança e equidade competitiva, sem descaracterizar o desempenho atlético.

Atletismo Paralímpico

A deficiência visual está contemplada em provas de corrida, saltos e lançamentos.

As categorias B1 e B2 nas provas de corrida são adaptadas para a participação do atleta guia. O guia tem o papel de orientar direção e ditar o ritmo da prova, além de garantir o alinhamento na raia.

Dependendo da prova, poderá ser utilizada uma corda curta (30–50 cm) ou contato direto pelo braço/mão.

Ambos devem cruzar a linha de chegada juntos, sendo que o guia não pode chegar antes do atleta cego e não pode puxar ou empurrar o mesmo.

O atleta guia tem papel determinante no desempenho e deve ter treinamento específico para isso, com foco especialmente na sincronização da passada e ajustes finos no comprimento de passada, frequência e postura.

Vale considerar que a diferença de desempenho entre atletas cegos e videntes nas provas de pista estão relacionadas principalmente a uma largada menos eficiente, sendo que a frequência e o comprimento de passada podem ser muito semelhantes.

Essa diferença é maior nas provas de curta distância, sendo que o desempenho se aproxima dos atletas videntes nas provas de longa distância.

Assim, é fundamental que o atleta guia seja muito bem treinado, com condicionamento igual ou superior ao do atleta cego, para que não se torne o fator limitado de resultados.

Nas provas de campo, a comunicação entre atleta e guia (chamador) é feito por meio de estímulos sonoros (palmas, voz, instrumentos sonoros). O chamador se posiciona próximo à tábua de saltos ou próximo ao círculo/setor nas provas de lançamento e não pode dar instruções técnicas, apenas orientação espacial.

A diferença no desempenho em relação a atletas videntes é mais evidente nas provas de salto quando comparado com provas de pista, especialmente relacionados à corrida de aproximação. Nas provas de lançamento, o desempenho é parecido, com alguns atletas alcançando marcas muito próximas às de atletas videntes.

Natação Paralímpica

A natação paralímpica para atletas com deficiência visual (DV) mantém a estrutura técnica da natação convencional, porém incorpora adaptações sensoriais, de segurança e de regulamentação para garantir a segurança e a equidade competitiva.

A principal diferença está relacionada ao uso do Tapper, um bastão com ponta macia (espuma) usado por um auxiliar para “avisar” sobre a aproximação da borda. Essa comunicação entre o atleta e o tapper precisa ser muito bem treinada e pode ser determinante para o resultado.

Além disso, o treino de ritmo deve ser mais rigoroso, especialmente com a contagem de braçadas.

Nas fases iniciais de treinamento, os desvios laterais são comuns, tornando-se um problema menor em atletas de maior desempenho.

 

Futebol para cegos (futebol de cinco)

O futebol de cinco é uma modalidade criada especificamente para atletas com cegueira total ou com visão residual mínima (atletas B1). A lógica central da modalidade envolve a substituição completa da visão pela audição, tato e comunicação verbal, mas mantendo a complexidade tática do futebol.

Todos os jogadores de linha devem obrigatoriamente utilizar vendas oculares, garantindo equidade total.

O goleiro é o único atleta com visão, sendo proibido de sair da área, embora possam orientar seus companheiros.

Os atletas possuem três guias para auxiliá-los: o técnico, o goleiro e um chamador, que fica atrás do gol adversário para sinalizar onde eles devem chutar.

O campo é menor que o convencional, com aproximadamente 40 m × 20 m, medidas similares a uma quadra de futsal. Além disso, ele tem laterais Rígidas (Bandas), para evitar que a bola saia do campo, mantendo o jogo mais dinâmico.

A bola também é adaptada, possuindo guizos internos para que os atletas a localizem pelo som. No entanto, ela é Bola praticamente “invisível” auditivamente, quando está parada.

Devido à importância da audição para o jogo, é fundamental que haja silêncio absoluto da torcida, que está autorizada apenas a aplaudir após os gols ou após paralizações.

Quando o jogador se desloca em direção à bola, ele deve obrigatoriamente gritar “VOY!” (“vou”, em espanhol). Não gritar “voy” é considerado falta no futebol de cinco. Tocar a bola com as mãos, empurrar ou derrubar o adversário também são considerados falta. Cada equipe tem um limite de 5 faltas por tempo, após as quais é concedida uma penalidade de 8m.

O jogo é feito em dois tempos de 20 minutos cada.

 

Judô Paralímpico

O judô para deficientes visuais é uma modalidade relativamente próxima do judô tradicional, justamente porque o judô já nasce como um esporte de contato e de feedback tátil.

A principal diferença é que o combate se inicia com a pegada estabelecida, com cada atleta segurando o kimono do adversário. O árbitro só autoriza o início da luta e cada novo reinício após a pegada correta. Já no judô tradicional, o combate se inicia sem pegada e os atletas se aproximam livremente.

Do ponto de vista técnico, as lutas têm pegadas mais estáveis e prolongada, com uma importância maior para o controle de mangas e o domínio de gola. A fase de “caça à pegada” é menor e menos relevante.

 

Ciclismo Paralímpico

No ciclismo paralímpico, atletas cegos ou com deficiência visual competem exclusivamente na Classe B, utilizando bicicleta tandem (dois lugares), com um piloto vidente na frente e o atleta com deficiência visual atrás.

Ambos pedalam e trabalham em sincronia. Além de ser responsável pela direção, o piloto também deve orientar o atleta cego em relação às mudanças de percurso. Ele deve descrever o terreno, as curvas, as subidas, as descidas e quaisquer instruções necessárias. O atleta deficiente visual contribui com a força da pedalada e coordena seus movimentos com o piloto.

Apesar da importância do piloto para o desempenho, apenas o atleta com deficiência visual é considerado oficial. Já o piloto não é considerado um atleta paraolímpico, mas sim um profissional de apoio técnico. Ele, portanto, não recebe medalha e pode inclusive ser substituído dentro dos prazos oficiais de inscrição (apenas o atleta cego se classifica para a prova).

Na tabela abaixo, descrevemos as provas do ciclismo paraolímpico para deficientes visuais.

Modalidade Prova Tipo
Pista Sprint 1.000 m Velocidade
Pista Perseguição 4.000 m Meio-fundo
Estrada Contrarrelógio individual Resistência
Estrada Prova de estrada Resistência

 

Goalball

O goalball é um esporte paralímpico dinâmico projetado especificamente para atletas com deficiência visual, sem uma modalidade equivalente para pessoas videntes. Ele se baseia na audição e no tato, ao invés da visão, para a localização da bola e dos jogadores.

Os jogadores usam vendas oculares opacas para garantir um campo de jogo justo, independentemente do nível de deficiência visual de cada um. Assim, todos os atletas, inclusive aqueles que possuem alguma visão, jogam em condições de igualdade.

O jogo é disputado por duas equipes de três jogadores em uma quadra retangular com as mesmas dimensões da quadra de vôlei (9m de largura e 18m de comprimento). De cada lado da quadra tem um gol de 9m de largura e 1,3m de altura. A quadra tem marcações táteis elevadas, permitindo que os atletas se orientem pelo toque dos pés.

O objetivo principal é lançar uma bola pesada com um guizo sonoro interno em direção ao gol da equipe adversária. Nos arremessos, a bola deve tocar no chão pelo menos uma vez em cada uma das três zonas de arremesso antes de cruzar a linha da zona de defesa adversária.

Os mesmos atletas atuam no ataque (fazendo os arremessos) e na defesa, se jogando no chão para bloquear a bola com seus corpos. O silêncio da plateia e das equipes fora de campo durante o jogo é crucial, uma vez que os atletas usam o som do guizo para rastrear a bola e a orientação dos adversários.