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Atividade Física e Esportiva para Amputados de Membros Inferiores

Benefícios da atividade física para amputados

A atividade física regular tem um papel fundamental na reabilitação de amputados, à medida em que ela restaura a funcionalidade, aumenta a independência e melhora a qualidade de vida.

Amputados tendem a compensar o movimento com o lado oposto do corpo, gerando desequilíbrios posturais, sobrecarga articular e, em última análise, dor e maior risco de lesões. Essas compensações podem ser minimizadas por meio da atividade física.

Mesmo com a utilização da prótese, há uma perda da propriocepção (percepção de posição, movimento e equilíbrio), com maior risco de quedas.

Além disso, a menor eficiência de movimentos faz com que os amputados tenham um maior gasto energético e precisam de mais força muscular para realizar uma mesma atividade, quando comparado a uma pessoa sem amputação. O fortalecimento muscular e os exercícios cardiovasculares, dessa forma, aumentam a independência e a capacidade funcional dos amputados.

Por fim, é preciso considerar também os benefícios sociais e emocionais decorrentes da prática de atividade física, com reconstrução da autoimagem corporal e reintegração social.

Qual a importância do nível de amputação?

Quanto mais baixa for a amputação, menor o gasto energético e maior a eficiência dos movimentos, conforme mostrado na tabela abaixo.

Nível Impactos funcionais
Transtibial Melhor alavanca, menor gasto energético (+10–20%)
Transfemoral Maior gasto energético (+40–60%), maior demanda de estabilidade de tronco
Desarticulação de joelho/quadril Alto custo energético, limitação de velocidade e potência

 

Além do nível da amputação, é preciso considerar também o comprimento e a qualidade do coto, especialmente quando se pensa na protetização.

Em alguns casos, o gasto energético com o uso da prótese pode ser tão alto que o paciente prefere se deslocar com muletas ou mesmo cadeira de rodas.

A qualidade da prótese e da reabilitação, obviamente, tem um papel fundamental em melhorar a funcionalidade e a capacidade para o uso da prótese.

Protetização

A protetização de atletas amputados envolve não apenas a substituição funcional, mas também a otimização biomecânica, energética e esportiva dos atletas. Assim, a regulamentação de próteses pelo IPC (International Paralympic Committee) é um dos temas mais sensíveis e tecnicamente complexos do esporte paralímpico, pois envolve o equilíbrio entre equidade competitiva, segurança e inovação tecnológica.

A tecnologia da prótese deve compensar a deficiência, não otimizar além do fisiológico, provendo vantagem competitiva em relação a atletas sem deficiência ou a outros atletas da mesma classe.

No caso de amputações bilaterais, a altura da prótese deve seguir um padrão baseado em fórmulas antropométricas padronizadas, que têm como referência o Comprimento de segmentos corporais remanescentes.

Diferentemente da prótese de uso diário, a prótese esportiva tem o objetivo principal de maximizar o desempenho (velocidade, potência, eficiência). Assim, o mesmo atleta pode ter uma prótese para uso cotidiano, uma para treino e outra para uso específico em competições. Além disso, as próteses podem ser desenhadas especificamente para uma modalidade esportiva.

Não existe uma prótese única que seja melhor para todos. Assim, a escolha dependerá de fatores como comprimento e qualidade do coto, força e controle do membro residual, modalidade praticada, nível competitivo, volume e intensidade dos treinos.

A protetização é um elemento chave para o desempenho esportivo. Assim, as próteses são regulamentadas pelo IPC e federações específicas, devendo seguir padrões pré-determinados. Avaliações biomecânicas da prótese podem ser exigidas em competições de alto nível

Atletismo Paralímpico

As provas de atletismo para amputados incluem as provas de corrida, saltos e lançamentos. Dependendo do nível de amputação, as competições são feitas nas classes T61 – T64 (pista) e nas classes (F61 – F64 (campo), confome a tabela abaixo.

Classe Prova Descrição funcional
T61 / F61 Pista / Campo Amputação bilateral acima do joelho (ou deficiência funcional equivalente). Uso de duas próteses. Alto custo energético.
T62 / F62 Pista / Campo Amputação unilateral acima do joelho. Uso de uma prótese. Maior instabilidade e assimetria.
T63 / F63 Pista / Campo Amputação bilateral abaixo do joelho. Uso de duas próteses. Alta eficiência mecânica possível.
T64 / F64 Pista / Campo Amputação unilateral abaixo do joelho. Uso de uma prótese. Menor impacto funcional entre amputados de MMII.

Ciclismo Paralímpico

As provas no ciclismo são disputadas em pista (velódromo) ou estrada, com classes para bicicletas convencionais ou handbikes.

Provas de Estrada

As seguintes classes podem incluir os amputados, nas provas de estrada com bicicletas convencionais:

Classe Tipo de prova Prova específica Perfil funcional típico
C4 Estrada Contrarrelógio individual Amputação transfemoral unilateral ou bilateral assimétrica
C4 Estrada Prova de estrada (pelotão) Maior impacto funcional e assimetria
C5 Estrada Contrarrelógio individual Amputação transtibial unilateral
C5 Estrada Prova de estrada (pelotão) Menor impacto funcional entre amputados de MMII
       

Provas de Pista (velódromo)

Classe Tipo de prova Prova específica
C4 Pista Perseguição individual
C5 Pista Perseguição individual
C4 Pista 1 km contrarrelógio (M) / 500 m (F)
C5 Pista 1 km contrarrelógio (M) / 500 m (F)

Handbike

Handbike é destinada a atletas com amputações altas, bilaterais de MMII ou maior limitação funcional para uso de bicicleta convencional, conforme a tabela abaixo.

Classe Tipo de prova Prova específica Perfil funcional típico
H3 Estrada Contrarrelógio individual Amputação bilateral alta de MMII ou combinação complexa
H3 Estrada Prova de estrada Alto comprometimento funcional
H4 Estrada Contrarrelógio individual Amputação transfemoral unilateral ou bilateral
H4 Estrada Prova de estrada Boa capacidade cardiorrespiratória
H5 Estrada Contrarrelógio individual Amputação bilateral transtibial ou funcionalmente menos limitante
H5 Estrada Prova de estrada Maior velocidade média entre handbikes

Natação Paralímpica

A natação paralímpica é uma das modalidades mais versáteis e inclusivas para atletas amputados, uma vez que ela minimiza o impacto do nível da amputação, reduz sobrecargas articulares e permite alto rendimento mesmo em amputações extensas. Fora do nível competitivo / alto rendimento, indivíduos amputados podem tranquilamente treinar junto com seus pares sem amputação.

As principais limitações estão relacionadas a uma menor propulsão de pernada e dificuldades em largadas e viradas. Durante o nado, o maior prejuízo técnico está relacionado ao nado peito. O nado livre e costas tem impacto moderado e o nado borboleta depende muito do nível da amputação.

Classes S (livre, costas e borboleta)

Classe Perfil funcional típico Exemplos de amputação de MMII
S5 Limitação funcional acentuada Amputação bilateral alta de MMII (ex.: transfemoral bilateral) com grande perda de propulsão
S6 Limitação moderada–grave Amputação bilateral transfemoral ou combinações com encurtamentos importantes
S7 Limitação moderada Amputação bilateral transtibial ou amputação alta unilateral com impacto significativo de equilíbrio
S8 Limitação leve–moderada Amputação unilateral transfemoral
S9 Limitação leve Amputação unilateral transtibial
S10 Limitação mínima Amputações distais (pé, antepé, artelhos) ou diferença discreta de comprimento

Classes SB (nado peito)

Classe Perfil funcional típico Exemplos de amputação de MMII
SB4–SB5 Grande limitação de pernada Amputações bilaterais altas
SB6 Limitação moderada Bilateral transtibial
SB7 Limitação leve–moderada Unilateral transfemoral
SB8–SB9 Limitação leve Unilateral transtibial ou distal
Classe Correspondência funcional Observação
SM5–SM6 S5–S6 Medley curto (150 m)
SM7–SM8 S7–S8 Medley 200 m
SM9–SM10 S9–S10 Menor impacto funcional

Triatlo paraolímpico

O Triatlo Paralímpico é disputado na modalidade Sprint Paralímpico, com as seguintes distâncias:

  • 750 m natação
  • 20 km ciclismo
  • 5 km corrida

As classes do triatlo para amputados de membros inferiores são mostradas na tabela abaixo.

Classe Perfil funcional típico Exemplos de amputação
PTS2 Limitação funcional severa Amputação bilateral alta de MMII ou amputações múltiplas
PTS3 Limitação moderada–grave Amputação bilateral transtibial ou transfemoral unilateral
PTS4 Limitação moderada Amputação unilateral transfemoral
PTS5 Limitação leve Amputação unilateral transtibial ou amputação distal

As provas de ciclismo e corrida são feitas com o uso da prótese, enquanto na natação o uso das próteses não é permitido.

Da mesma forma que no triatlo convencional, a prova é contínua, com transições adaptadas (T1 e T2), mas sem auxilio externo.

Na transição da natação para o ciclismo, o atleta sai da água sem a prótese e deve se deslocar da água até a zona de transição sem assistência. Para isso, ele pode correr, caminhar, engatinhar ou se apoiar nos membros superiores (amputações altas). A colocação da prótese deve também ser feita sem o auxílio de terceiros.

Alguns atletas usam uma prótese híbrida que serve tanto para o ciclismo como para a corrida. Mas, no alto rendimento, a maioria realizada a troca da prótese na segunda transição.

Em cada uma das etapas do Triatlo, muito do que discutimos em relação às disputas e ao treinamento para a corrida, bicicleta e natação são válidos também para o Triatlo.

Modalidades em cadeira de rodas

Pacientes com amputações altas, especialmente quando bilaterais, podem disputar provas destinadas a cadeirantes. Discutimos essas provas em um artigo específco.