Atividade Física e Esportiva na Deficiência Intelectual
Inteligência Esportiva
A inteligência esportiva é um conceito multidimensional, que descreve a capacidade do atleta de perceber, interpretar, decidir e agir eficazmente em contextos de treino e competição.
Ela é considerada um dos principais diferenciais de rendimento, sobretudo em esportes coletivos e que envolvem tática e tomadas de decisão.
A inteligência esportiva está relacionada a:
- Inteligência perceptiva: capacidade de leitura do jogo, de espaço e do tempo de ação, com adaptação às condições momentâneas de jogo.
- Inteligência tática: escolha da melhor opção possível, considerando não apenas a situação de jogo, mas também fatores como fadiga, dor, estabilidade e risco. Ela é ainda mais decisiva em situações de pressão.
- Inteligência motora funcional: economia de movimento, com uso eficiente de compensações.
- Inteligência emocional e autorregulação: gestão da frustração, controle da ansiedade e resiliência frente à limitação funcional, sendo essencial em ambientes competitivos.
Inteligência Esportiva em diferentes modalidades
A inteligência esportiva tem impacto em praticamente qualquer modalidade esportiva, embora possa comprometer o resultado de maneiras diferentes:
- Esportes coletivos: permite uma melhor leitura de jogo e tomada de decisões;
- Esportes de oposição: permite uma percepção antecipada das ações do adversário.
- Esportes cíclicos: permite uma melhor autogestão do ritmo e melhor estratégia de prova.
Inteligência esportiva X QI
Tanto a Inteligência Esportiva como o QI estão relacionados a processos cognitivos. No entanto, elas medem coisas diferentes, em contextos diferentes e com utilidades distintas.
O QI mede potencial cognitivo geral, enquanto a inteligência esportiva mede a competência funcional no ambiente esportivo. Elas se sobrepõem parcialmente, mas não são equivalentes.
Diferentes pessoas podem desenvolver diferentes tipos de inteligência. Assim, uma pessoa pode ter uma inteligência esportiva excepcional com um QI mediano e outra pode ter um QI excepcional com uma inteligência esportiva limitada.
Treinamento da Inteligência Esportiva
Da mesma forma que um atleta é capaz de melhorar sua capacidade física por meio do treinamento, a inteligência esportiva também pode ser treinada.
Esse treinamento foca no desenvolvimento das capacidades de tomada de decisão rápida e precisa, consciência situacional e visão tática durante o jogo. Isso envolve uma combinação de exercícios práticos em campo e treinamento cognitivo fora dele. No entanto, a melhor forma de desenvolver a inteligência tática é vivenciar situações reais de jogo.
No caso de atletas e competições para deficientes intelectuais, o treinamento cognitivo se mostra ainda mais importante.
Elegibilidade para competições para deficientes intelectuais
Atualmente, o principal sistema de elegibilidade é o da Virtus (World Intellectual Impairment Sport), reconhecido inclusive pelo Comitê Paralímpico Internacional.
Ela não avalia desempenho esportivo, mas sim se o atleta preenche critérios clínicos e funcionais mínimos para caracterizar a deficiência intelectual com impacto relevante no esporte.
Para ser considerado elegível, o atleta deve atender aos três critérios abaixo:
- Limitação significativa no funcionamento intelectual, com QI ≤ 75 de acordo com testes psicométricos padronizados e validados. Estes testes devem ser aplicados por um psicólogo habilitado – ele não é autodeclaratório nem baseado em desempenho escolar.
- Limitação no comportamento adaptativo, com déficits em pelo menos dois dos seguintes domínios:
- Conceitual (comunicação, leitura, escrita)
- Social (interação, regras, autonomia)
- Prático (atividades da vida diária)
- Início antes dos 18 anos: a deficiência deve ser do neurodesenvolvimento, excluindo-se quadros adquiridos na vida adulta (ex.: TCE tardio)
Uma vez elegível, todos competem juntos dentro da mesma classe, sem subdivisão por grau de QI. Por conta disso, a maioria dos atletas com deficiência intelectual apresentam deficiência considerada leve.
Classes funcionais na Deficiência Intelectual
A Deficiência intelectual é classificada pela Virtus (World Intellectual Impairment Sport), sendo essa classificação reconhecida pelo Comitê Paralímpico Internacional / IPC.
Os atletas competem em três categorias diferentes, conforme abaixo:
| Classe | Característica |
| II1 | Deficiência Intelectual |
| II2 | Síndrome de Down |
| II3 | Transtorno do Espectro Autista (sem DI associada) |
Apenas atletas na classe II1 competem nos jogos paraolímpicos, que não tem classe específica para atletas com Síndrome de Down ou TEA. No entanto, essas classes são incluidas nos jogos da VIRTUS.
Deficiência Intelectual nos Jogos Paralímpicos
Nos Jogos Paralímpicos, a deficiência intelectual é contemplada principalmente em três modalidades com classes exclusivas:
- Atletismo (T/F20),
- Natação (S14)
- Tênis de Mesa (TT11)
Nessas modalidades, os atletas competem em provas específicas como corrida, salto em distância, arremesso de peso na pista, e natação de diversas distâncias e estilo.
Uma dificuldade nos jogos paralímpicos é que as competições são feitas apenas na classe II1, sem provas específicas para atletas com Síndrome de Down ou TEA. Isso na prática exclui as pessoas com deficiência intelectual e deficiências adicionais, como é o caso da Síndrome de Down, que também apresentem limitações de desempenho relacionadas à hipotonia muscular, o que torna eles pouco competitivos com outros atletas que apresentam deficiência intelectual exclusiva.
Virtus Global Games
A Virtus – World Intellectual Impairment Sport é a federação internacional responsável pelo esporte de alto rendimento para atletas com deficiência intelectual.
Já o Virtus Global Games é o principal evento multiesportivo para atletas com deficiência intelectual, sendo realizado a cada quatro anos.
A principal diferença em relação ao programa paralímpico é que os atletas competem não apenas em uma categoria geral, mas também em categorias específicas para a Síndrome de Down (classe II2) e para o Transtorno do Espectro Autista (II3). Isso se justifica pelo fato de esses atletas apresentarem limitações físicas que também comprometem o rendimento esportivo, além das limitações intelectuais.
Além disso, diferentes modalidades estão presentes no Virtus, mas não no programa paraolímpico, incluindo:
- Basquete;
- Futebol;
- Ginástica;
- Judô;
- Volei;
- Levantamento de peso Olímpico (LPO).