Artrose no Quadril
O que é a Artrose no Quadril?
A artrose do quadril, também chamada de osteoartrose, é uma doença degenerativa caracterizada pelo desgaste progressivo da articulação. Embora o desgaste da cartilagem seja sua principal característica, a doença também provoca alterações no osso subcondral, no labrum acetabular, na membrana sinovial, na cápsula articular e na musculatura ao redor do quadril.
Essas alterações reduzem a capacidade da articulação de absorver impactos e permitem que os ossos passem a entrar em contato de forma anormal durante os movimentos. Como consequência, surgem sintomas como dor, rigidez e perda progressiva da mobilidade, que podem comprometer atividades simples do dia a dia.
A incidência da artrose aumenta com o avanço da idade, sendo uma das principais causas de dor e incapacidade na população idosa. Estima-se que aproximadamente 10% das pessoas com mais de 65 anos apresentem sinais de artrose do quadril, embora apenas cerca da metade desenvolva sintomas (1)
Em alguns casos, a doença também pode acometer adultos mais jovens, especialmente quando existem alterações anatômicas da articulação, como impacto femoroacetabular ou displasia do quadril, ou ainda em consequência de traumas, doenças inflamatórias e outras condições que aceleram o desgaste articular.
Qual a causa da Artrose no Quadril?
A Artrose no Quadril pode ser caracterizada quanto à sua origem em dois diferentes tipos:
Artrose primária
Representa a maior parte dos casos de Artrose no Quadril. Está associada ao processo de envelhecimento, sendo desta forma mais comum na população idosa.
O desgaste pode ser mais acelerado em algumas pessoas do que em outras. Fatores genéticos, obesidade e atividade profissional ou esportiva podem contribuir para um desgaste mais ou menos acelerado. Além disso, as mulheres são mais acometidas do que os homens.
Artrose secundária
A artrose secundária se desenvolve em consequência de algum outro problema ou doença. Ela pode acometer tanto os idosos como jovens. Diversas causas podem estar implicadas com o desenvolvimento deste tipo de Artrose:
- Displasia do quadril: problema congênito no qual a profundidade do acetábulo (cavidade da bacia que se articula com a cabeça do fêmur) é mais rasa do que o habitual;
- Doença de Legg-Calvé-Perthes: doença que ocorre ainda na infância, caracterizada pela necrose da cabeça femoral. Leva ao achatamento da cabeça do fêmur e a uma incongruência na articulação. O prognóstico de longo prazo é relativamente benigno. No entanto, mais de 50% dos pacientes desenvolverão sinais de osteoartrose entre a 4ª e a 5ª décadas. A esfericidade da cabeça femoral é um importante fator de previsão no desenvolvimento de osteoartrite (2).
- Fratura do acetábulo ou da cabeça do fêmur;
- Reumatismo: doenças autoimunes, especialmente a Artrite Reumatoide, pode levar a uma destruição precoce da articulação do quadril;
- Necrose da cabeça do fêmur: nos adultos, algumas condições levam a uma perda de fluxo de sangue para a cabeça femoral gerando achatamento e deformação da articulação. As causas mais comuns são o uso crônico de medicações corticoesteroides e o alcoolismo.
Sintomas
As queixas do paciente com Artrose no Quadril são bastante variáveis.
Os sintomas da artrose do quadril variam bastante entre os pacientes. Algumas pessoas apresentam desgaste bastante avançado do ponto de vista radiográfico, mas pouca dor e limitação, enquanto outros com achados muito mais leves nos exames podem estar muito mais incapacitados.
Dor
O principal sintoma da Artrose do Quadril é a dor. Ela pode ser percebida na virilha, na parte lateral do quadril, nos glúteos, na face anterior da coxa ou até mesmo irradiar para o joelho.
Nas fases iniciais, a dor geralmente aparece durante caminhadas mais longas, ao subir escadas ou após atividades físicas de maior impacto, melhorando com o repouso. Com a progressão da doença, a dor passa a surgir com esforços cada vez menores e, nos casos mais avançados, pode estar presente mesmo durante o repouso ou à noite, podendo ter impacto significativo na qualidade do sono.
Rigidez articular
Outro sintoma bastante comum é a rigidez do quadril, principalmente após períodos prolongados sentado ou ao levantar-se pela manhã. Essa perda progressiva da mobilidade dificulta movimentos simples do dia a dia, como calçar meias e sapatos, cortar as unhas dos pés, cruzar as pernas, entrar e sair do carro ou levantar-se de cadeiras mais baixas.
Fraqueza e incapacidade funcional
Com o avanço da doença, a capacidade funcional vai sendo comprometida. As caminhadas ficam mais curtas e os exercícios vão sendo deixados de lado.
Essa redução no nível funcional leva a uma perda progressiva da musculatura, o que piora ainda mais a capacidade funcional.
Outras condições relacionadas ao sedentarismo podem se manifestar, como obesidade e piora da capacidade cardiopulmonar.
Crepitação
Alguns pacientes relatam ainda estalidos ou uma sensação de crepitação durante os movimentos, como se houvesse “areia” dentro da articulação. Embora esse sintoma possa estar presente, ele costuma ter menor importância do que a dor e a perda da mobilidade.
Avaliação do paciente com Artrose no Quadril?
O diagnóstico da artrose do quadril começa pela avaliação clínica realizada pelo ortopedista. A história dos sintomas, o exame físico e os exames de imagem devem ser interpretados em conjunto, já que a intensidade da dor nem sempre corresponde ao grau de desgaste observado nas radiografias.
Além de confirmar o diagnóstico, a investigação deve procurar identificar a causa da artrose e eventuais alterações associadas que possam influenciar o tratamento, como impacto femoroacetabular, displasia do quadril, necrose da cabeça do fêmur ou lesões do labrum acetabular.
Radiografias
A radiografia convencional é o principal exame para o diagnóstico da artrose do quadril, sendo geralmente o primeiro exame a ser solicitado.
As radiografias podem demonstrar redução do espaço articular, formação de osteófitos (“bicos de papagaio”), esclerose do osso subcondral, cistos ósseos e deformidades da articulação. Além disso, permitem identificar alterações anatômicas que podem ter contribuído para o desenvolvimento da artrose, como displasia acetabular ou impacto femoroacetabular.
Ressonância Magnética
A ressonância magnética normalmente não é necessária quando a artrose já é evidente nas radiografias. Entretanto, ela pode ser bastante útil nas fases iniciais da doença, quando as alterações radiográficas ainda são discretas ou quando existe dúvida sobre a causa dos sintomas.
Além de detectar alterações precoces da cartilagem articular, a ressonância permite avaliar estruturas que não são visualizadas na radiografia, como o labrum acetabular, os tendões e os músculos ao redor do quadril. Ela é também o principal exame para diagnosticar doenças que podem simular artrose, como a necrose da cabeça do fêmur, fraturas por estresse e algumas doenças inflamatórias.

A imagem (A) mostra uma radiografia normal do quadril; a imagem (B) mostra um quadril com artrose.
Classificação radiográfica da Artrose no Quadril
A gravidade da artrose do quadril pode ser estimada por meio da classificação de Tönnis, baseada nas alterações observadas nas radiografias. Essa classificação auxilia na avaliação da progressão da doença, na escolha do tratamento e na previsão dos resultados de cirurgias preservadoras do quadril.
Grau 0 – Sem artrose
A radiografia apresenta aspecto normal, sem sinais de desgaste da cartilagem ou alterações ósseas.
Grau 1 – Artrose leve
Observa-se um discreto estreitamento do espaço articular, pequenos osteófitos (“bicos de papagaio”) e leve aumento da densidade do osso logo abaixo da cartilagem (esclerose subcondral). Nessa fase, muitos pacientes ainda apresentam poucos sintomas.
Grau 2 – Artrose moderada
Há redução mais evidente do espaço articular, osteófitos maiores, esclerose subcondral mais pronunciada e pequenos cistos ósseos. A cabeça do fêmur pode começar a perder seu formato arredondado. Nesta fase, a dor e a limitação funcional costumam ser mais importantes.
Grau 3 – Artrose grave
Caracteriza-se por estreitamento acentuado ou desaparecimento do espaço articular, grandes osteófitos, cistos ósseos, deformidade importante da cabeça femoral e do acetábulo e intenso remodelamento ósseo. Geralmente corresponde aos pacientes com dor persistente, importante limitação funcional e maior probabilidade de indicação de prótese do quadril.

Tratamento sem cirurgia da Artrose no Quadril
Embora a artrose do quadril seja uma doença crônica e progressiva, a maioria dos pacientes pode obter melhora significativa da dor e da função com o tratamento sem cirurgia.
De fato, a correlação entre a gravidade da artrose e a gravidade dos sintomas não é tão direta. Algumas pessoas com artrose avançada têm pouca dor e um nível funcional satisfatório, enquando outros com artrose bem mais leve podem ter dor muito mais incapacitante.
Com o tratamento sem cirurgia, não se deve esperar uma melhora radiográfica da artrose, mas sim que um paciente com desgaste e dor importante se torne uma pessoa com o mesmo desgaste, mas com pouca dor e limitação funcional.
Modificação das atividades
Em vez de interromper completamente a prática de exercícios, recomenda-se adaptar as atividades para reduzir a sobrecarga sobre o quadril.
Exercícios de baixo impacto, como caminhada em terrenos planos, bicicleta ergométrica, natação e hidroginástica, costumam ser melhor tolerados.
Já as atividades de maior impacto podem precisar ser gerenciadas dentro do conforto de dor. Ainda assim, vale considerar que algumas pessoas com artrose considerável podem ser capazes de manter níveis elevados de atividade física com poucos sintomas, não devendo ser desencorajados a manter suas práticas
Controle do peso
Nos pacientes com excesso de peso, a perda ponderal reduz a carga transmitida ao quadril durante a marcha e pode contribuir para a melhora da dor e da capacidade funcional, além de reduzir o risco de progressão da doença.
Fisioterapia
A fisioterapia é um dos pilares do tratamento conservador. A artrose pode levar a uma redução significativa do movimento funcional do paciente, além de perda de massa muscular por conta do desuso.
A fisioterapia tem por objetivo preservar e, se possível, recuperar parte da mobilidade e da massa muscular perdida.
Medicamentos Orais para a Artrose no Quadril
Analgésicos e anti-inflamatórios
Medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios podem ser utilizados para controle da dor, principalmente durante períodos de piora dos sintomas.
No entanto, o uso prolongado dessas medicações deve ser feito com cautela, especialmente em idosos e pacientes com doenças cardiovasculares, renais ou gastrointestinais. Além de a eficácia desses medicamentos no controle da dor diminuir com o tempo, o risco de efeitos colaterais aumenta.
Antidepressivos e anti-convulsivantes
A dor da artrose do quadril é tradicionalmente interpretada como uma consequência direta do desgaste da cartilagem e da inflamação local, sendo, portanto, predominantemente nociceptiva.
Nesse tipo de dor, terminações nervosas presentes em estruturas como o osso subcondral, sinóvia, cápsula articular, ligamentos e labrum são ativadas por estímulos mecânicos e inflamatórios decorrentes da doença.
Quando essa dor persiste por tempo prolongado, no entanto, alguns pacientes podem desenvolver um processo paralelo de dor denominada de dor nociplástica. Isso acontece quando a dor provoca uma sensibilização do sistema nervoso, que passa a contribuir para a dor de forma independente ao da artrose.
Algumas características que chamam a atenção para a dor nociplástica incluem:
- Dor desproporcional aos achados dos exames: o paciente apresenta dor intensa, mas radiografias ou ressonâncias mostram alterações leves, ou vice-versa.
- Hiperalgesia: resposta exagerada a estímulos normalmente pouco dolorosos, com sensibilidade aumentada à palpação ao redor da articulação. Apertar de pele pode levar a desconforto considerável.
- Alodinia: dor desencadeada por estímulos que normalmente não seriam dolorosos, como toque leve, roupas ou manipulação suave da pele.
- Maior frequência de ansiedade e depressão, que podem coexistir e amplificar a percepção dolorosa.
- Presença de outras síndromes de sensibilização central, como Fibromialgia, cefaleia crônica, Síndrome do Intestino Irritável ou dor pélvica crônica.
O reconhecimento desses mecanismos tem implicações terapêuticas importantes, uma vez que anti-inflamatórios e analgésicos convencionais tendem a apresentar benefício limitado quando a sensibilização central e a dor nociplástica torna-se predominantes.
Nesses casos, medicamentos moduladores da transmissão neural, como os antidepressivos e os anticonvulsivantes, podem ser considerados. Entre os antidepressivos, a duloxetina (Duloxetina) é o fármaco com melhor nível de evidência. Trata-se de um inibidor da recaptação de serotonina e noradrenalina que potencializa as vias descendentes inibitórias da dor.
Em contraste, os anticonvulsivantes amplamente utilizados para dor neuropática, como a Gabapentina e a Pregabalina, apresentam evidências muito mais limitadas na osteoartrose.
É importante ressaltar que a identificação de um componente nociplástico não significa que a dor seja “psicológica” ou menos real; ao contrário, trata-se de um mecanismo biológico reconhecido, envolvendo alterações mensuráveis do processamento da dor pelo sistema nervoso.
Glicosamina e condroitina
O uso da glicosamina e da condroitina para o tratamento da artrose ganhou popularidade principalmente durante os anos 1990, com a publicação de pequenos ensaios clínicos, muitos deles patrocinados pela indústria farmacêutica, que relataram melhora da dor e até possível efeito “condroprotetor”.
A justificativa biológica para seu uso é que ambos são componentes naturais da cartilagem e, teoricamente, poderiam contribuir para a manutenção da matriz cartilaginosa ou reduzir a degradação articular.
No entanto, quando avaliadas em estudos clínicos mais recentes e de alta qualidade, as evidências são muito menos convincentes. Grandes ensaios clínicos e metanálises demonstraram resultados conflitantes, com a maioria dos estudos independentes encontrando benefícios pequenos ou inexistentes sobre dor e função quando comparados ao placebo.
Uma das metanálises mais influentes, publicada no British Medical Journal (BMJ), concluiu que nem a glicosamina, nem a condroitina, nem a combinação das duas produziam melhora clinicamente relevante da dor ou redução da progressão radiográfica da doença.
Por esse motivo, diretrizes de grandes sociedades médicas, como a American College of Rheumatology e a Osteoarthritis Research Society International (OARSI), recomendam contra o uso rotineiro desses suplementos na artrose.
Colágeno tipo II não hidrolisado
O colágeno tipo II não hidrolisado, também conhecido como UC-II® (Undenatured Type II Collagen), é um suplemento nutricional que tem ganhado popularidade no tratamento da artrose.
Diferentemente do colágeno hidrolisado, que é fragmentado em pequenos peptídeos e utilizado principalmente como fonte de aminoácidos, o UC-II mantém preservada a sua estrutura tridimensional original, incluindo regiões antigênicas específicas da molécula.
A hipótese é que essas estruturas intactas ajudem a modular a resposta inflamatória dirigida contra o colágeno presente na cartilagem articular. Teoricamente, isso poderia reduzir a inflamação local e o processo de degradação articular.
Em termos clínicos, os estudos disponíveis sugerem que o UC-II pode proporcionar melhora modesta da dor, da rigidez e da função física em pacientes com artrose leve a moderada. Alguns ensaios clínicos randomizados demonstraram superioridade em relação ao placebo e também em relação à glicosamina associada à condroitina.
O entendimento atual é que o UC-II pode representar uma opção complementar para alguns pacientes com artrose leve a moderada, desde que se esclareça que seu efeito esperado é, no máximo, o alívio parcial dos sintomas e a melhora funcional, sem comprovação de ação condroprotetora ou regenerativa da cartilagem.
Ácido Hialurônico Oral
O ácido hialurônico oral é um suplemento relativamente recente no tratamento da osteoartrose e surgiu como uma alternativa menos invasiva à infiltração intra-articular. O ácido hialurônico é um dos principais componentes do líquido sinovial, contribuindo para a lubrificação, absorção de impacto e proteção das superfícies articulares.
A ideia por trás da formulação oral é que fragmentos de ácido hialurônico absorvidos pelo intestino possam exercer efeitos anti-inflamatórios sistêmicos ou estimular a produção endógena de ácido hialurônico na articulação. Entretanto, esses mecanismos ainda não estão completamente esclarecidos.
Estudos clínicos disponíveis sugerem que o ácido hialurônico oral pode proporcionar pequena melhora da dor e da função em pacientes com artrose leve a moderada, mas a qualidade das evidências é considerada baixa a moderada.
A infiltração intra-articular de ácido hialurônico, por outro lado, consiste na aplicação direta da substância dentro da articulação, com o objetivo de restaurar parcialmente as propriedades viscoelásticas do líquido sinovial. Em comparação com a formulação oral, ela possui uma fundamentação biológica mais sólida, como veremos adiante.
Diacereina
A diacereína é um medicamento que age através da inibição da interleucina-1 beta (IL-1β), uma citocina associada à inflamação e à degradação da cartilagem.
Estudos mostram que ela pode proporcionar uma pequena melhora da dor e da função, com início de ação lento, geralmente após algumas semanas de uso.
Uma revisão da Cochrane concluiu que o benefício sintomático existe, mas é modesto e deve ser ponderado frente ao risco aumentado de diarreia, seu principal efeito adverso.
Em razão desses efeitos gastrointestinais e de relatos de hepatotoxicidade, a Agência Europeia de Medicamentos restringiu seu uso em idosos e recomenda cautela em pacientes com doença hepática.
Atualmente, a diacereína é considerada uma opção de segunda linha em algumas diretrizes europeias, mas não é recomendada rotineiramente pelas diretrizes norte-americanas.
Cúrcuma
A cúrcuma vem sendo proposta como alternativa para o tratamento da artrose por conta de suas propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes.
Em modelos experimentais, ela é capaz de inibir diversas vias envolvidas na inflamação articular, incluindo o fator de transcrição NF-κB, além de reduzir a produção de citocinas inflamatórias, como interleucina-1β (IL-1β), interleucina-6 (IL-6) e fator de necrose tumoral alfa (TNF-α).
Esses mediadores participam tanto da degradação da cartilagem quanto da sensibilização das vias da dor. Teoricamente, portanto, a curcumina poderia atuar não apenas reduzindo a inflamação local, mas também modulando alguns mecanismos envolvidos na cronificação da dor.
Do ponto de vista clínico, as evidências disponíveis são relativamente mais favoráveis do que aquelas observadas para muitos outros nutracêuticos utilizados na artrose. Estudos com qualidade limitada demonstram uma melhora modesta da dor e da função articular, superior ao placebo e, em alguns estudos, comparável à obtida com anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) em curto prazo.
Alguns cuidados são necessários com o uso da cúrcuma. Ela pode interferir com a agregação plaquetária e potencializar o efeito de anticoagulantes e antiagregantes plaquetários. Além disso, também deve ser utilizada com cautela em pacientes com cálculos biliares sintomáticos ou obstrução biliar.
Por fim, vale considerar as principais diretrizes internacionais ainda adotam uma postura cautelosa. Nem o American College of Rheumatology nem a Osteoarthritis Research Society International recomendam rotineiramente o uso da curcumina para tratamento da osteoartrose, principalmente pela ausência de estudos de grande porte e de longa duração.
Colchicina e Hidroxicloroquina
Algumas substâncias já foram investigadas e acabaram sendo abandonadas devido à ausência de eficácia.
Estudos recentes não demonstraram benefício com medicamentos como a hidroxicloroquina ou a colchicina para o tratamento da osteoartrose, motivo pelo qual seu uso não deve ser recomendado de forma rotineira.
Terapias Injetáveis para a Artrose no Quadril
A infiltração consiste na aplicação de uma medicação por injeção diretamente na articulação. Existem duas classes de produtos mais utilizados para o procedimento no quadril: o ácido hialurônico e os corticoides. A seguir, abordaremos as indicações e as evidências em relação ao resultado esperado para cada um deles.
Vale considerar aqui que, por ser uma articulação mais profunda, as infiltrações devem idealmente ser realizadas guiadas por ultrassonografia, ao contrário de articulações mais superficiais, como o joelho, em que a infiltração pode ser realizada na maior parte dos pacientes sem o auxilio de exames de imagem.
Infiltração com corticoesteroides
A infiltração intra-articular com corticosteroides é uma das opções mais eficazes para o controle da dor na osteoartrose, especialmente em pacientes com sinais clínicos de inflamação articular, na artrose mais avançada ou em episódios de piora aguda da dor.
Seu principal objetivo, nesses casos, é reduzir a inflamação da membrana sinovial e, consequentemente, aliviar a dor e melhorar temporariamente a função articular.
O Acetato de Triancinolona é o principal corticoesteroide usado para infiltração articular. Ele é um corticoide de depósito, que apresenta baixa solubilidade e liberação mais lenta no espaço intra-articular. Por esse motivo, tende a proporcionar um efeito mais prolongado, com alívio da dor que pode persistir por 4 a 8 semanas em alguns pacientes. Outros corticoesteroides, embora também sejam eficazes para a melhora sintomática, tendem a ter efeito menos prolongado.
Apesar de sua eficácia no curto prazo, seu uso deve ser feito com cautela. Aplicações muito recorrentes podem estar associadas a efeitos adversos locais, incluindo uma aceleração da perda de cartilagem. A preocupação nesse sentido é menor naqueles pacientes com artrose avançada, onde a prevenção da evolução com perda da cartilagem é uma preocupação menor do que o controle dos sintomas.
Também é preciso cuidado em pessoas com diabetes, já que uma menor parte do corticoide pode ser absorvido e pode ter efeito sistêmico, com elevação temporária da glicemia nos dias subsequentes à infiltração. Esse efeito, no entanto, é bem menor quando comparado ao uso sistêmico dos corticoesteroides (oral ou intramuscular).
Ácido Hialurônico
O ácido hialurônico é uma das terapias injetáveis mais utilizadas no tratamento da osteoartrose. Sua aplicação intra-articular, conhecida como viscossuplementação, tem como objetivo restaurar parcialmente as propriedades do líquido sinovial, melhorando sua capacidade de lubrificação, absorção de impacto e proteção das superfícies articulares.
Na osteoartrose, ocorre redução tanto da concentração quanto do peso molecular do ácido hialurônico naturalmente presente na articulação, tornando o líquido sinovial menos viscoso e menos eficiente em sua função biomecânica. Além do efeito mecânico, acredita-se que o ácido hialurônico também exerça ações biológicas, reduzindo mediadores inflamatórios, modulando receptores envolvidos na dor e estimulando a síntese endógena de ácido hialurônico pelos sinoviócitos.
As formulações disponíveis diferem principalmente em relação ao peso molecular, característica que influencia suas propriedades físicas, tempo de permanência intra-articular e, possivelmente, sua eficácia clínica. De forma geral, elas podem ser classificadas em baixo peso molecular (aproximadamente 500–1.000 kDa), peso molecular intermediário (1.000–3.000 kDa) e alto peso molecular (acima de 3.000 kDa).
As preparações de baixo peso molecular foram as primeiras a serem desenvolvidas e costumam exigir esquemas com três a cinco aplicações semanais. Teoricamente, difundem-se mais facilmente pelos tecidos e podem exercer efeitos biológicos mais pronunciados sobre os receptores celulares.
Já os produtos de alto peso molecular possuem propriedades viscoelásticas mais próximas às do líquido sinovial saudável, permanecem por mais tempo na articulação e frequentemente permitem esquemas mais convenientes, incluindo aplicação única.
Em termos clínicos, a viscossuplementação não costuma proporcionar alívio imediato. Diferentemente dos corticosteroides, cujo efeito geralmente aparece nos primeiros dias, a melhora com o ácido hialurônico tende a surgir gradualmente após 2 a 6 semanas, mas os efeitos podem ser bem mais prolongados.
A resposta tanto em relação à melhora na dor como na duração desse efeito é bastante variável, sendo mais evidente em pacientes com artrose leve a moderada, com boa função do quadril (incluindo mobilidade e força muscular adequadas) e pouca dor no repouso. Já nos indivíduos com destruição articular muito avançada, a resposta tende a ser menos previsível.
Outro benefício do ácido hialurônico é que não existem evidências de que a ele acelere a perda de cartilagem da mesma forma que se discute em relação ao uso repetido de corticosteroides. A regeneração da cartilagem não deve ser esperada, embora existam evidências modestas de que ele possa contribuir para desacelerar a progressão do desgaste articular.
Uma preocupação que se tinha com o ácido hialurônico é que, até pouco tempo atrás, alguns dos principais produtos no mercado tinham origem biológica, feitos a partir da cartilagem aviária. Embora relativamente incomuns, alguns pacientes desenvolviam uma reação autoimune a esses produtos, com dor e inflamação significativos e necessidade de tratamentos específicos. Atualmente, a maior parte dos produtos têm origem sintética, de forma que essas reações são bastante incomuns.
Plasma Rico em Plaquetas (PRP)
O plasma rico em plaquetas (PRP) é uma terapia biológica autóloga, preparada a partir do sangue do próprio paciente, com o objetivo de concentrar plaquetas e fatores de crescimento que poderiam modular inflamação, dor e reparo tecidual.
Na osteoartrose, seu uso é proposto principalmente como tratamento sintomático, não como terapia regenerativa comprovada. A hipótese é que o PRP reduza mediadores inflamatórios intra-articulares, melhore o ambiente sinovial e influencie a atividade de condrócitos e células sinoviais. Apesar disso, não há evidência robusta de que ele regenere cartilagem ou reverta a artrose.
Em relação às evidências clínicas, o PRP apresenta resultados promissores, especialmente na osteoartrose leve a moderada. Diversos estudos e metanálises sugerem melhora de dor e função, muitas vezes superior ao ácido hialurônico em avaliações de médio prazo, como 6 a 12 meses.
Entretanto, a interpretação é limitada pela grande heterogeneidade dos protocolos: há PRP rico ou pobre em leucócitos, diferentes concentrações de plaquetas, volumes distintos e ativação ou não do produto. Essa falta de padronização dificulta transformar os resultados em uma recomendação universal.
Comparado ao ácido hialurônico, alguns estudos sugerem benefício mais prolongado com o PRP, especialmente após múltiplas aplicações. Ainda assim, ambos devem ser entendidos como tratamentos sintomáticos: nenhum deles demonstrou de forma consistente regenerar cartilagem ou impedir a progressão da osteoartrose.
Do ponto de vista regulatório no Brasil, esse é o ponto mais importante: em 2026, o PRP permanece não aprovado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) para uso assistencial rotineiro. A Resolução CFM nº 2.128/2015 considera o uso do PRP como experimental no tratamento de doenças musculoesqueléticas e outras indicações, restringindo sua utilização à pesquisa clínica dentro de protocolos do sistema CEP/CONEP – vale considerar que isso inclui a necessidade de aprovação por comitês de ética em pesquisa e não pode envolver custos seja para o paciente, seja para outras fontes pagadoras indiretas (convênios médicos).
A ANVISA, por sua vez, publicou em 2024 orientações técnicas sobre produção e uso terapêutico do PRP, com foco em segurança, qualidade, boas práticas e rastreabilidade; isso, porém, não equivale à aprovação clínica da eficácia do procedimento para artrose.
A própria ANS, em parecer técnico de 2024, reforçou que o PRP é considerado experimental pelo CFM e que, enquanto permanecer nessa condição, não há obrigatoriedade de cobertura no Rol da saúde suplementar.
Prótese de Quadril
A Prótese de quadril é indicada quando todas as opções de tratamento sem cirurgia tiverem sido tentadas sem sucesso e a dor for um fator limitante para uma vida mais ativa.

A prótese não deve ser indicada para pessoas com desgaste leve, já que nestes casos outras causas ocultas para a dor devem ser investigadas e tratadas.
Também não deve ser indicada para o paciente com artrose grave, mas que esteja funcionalmente bem e com uma dor bem controlada.
A dor do paciente com artrose é oscilante e sempre terá momentos de piora e momentos de melhora. Quanto mais controlada a artrose, menos frequentes e menos intensas serão as crises de dor.
Desta forma, a indicação para Prótese de quadril deve levar em consideração o que o paciente sente ao longo de um período prolongado, de ao menos seis meses. Ela não deve ser feita apenas com base na dor momentânea.
No momento em que a dor começa a interferir de forma significativa na rotina, quando o paciente deixa de fazer atividades do dia a dia por causa da dor ou pelo medo da dor e quando o paciente julga que a dor no quadril é um fator limitante principal para uma vida mais ativa, não mais se justifica ficar adiando a cirurgia indefinidamente.
Em última análise, a indicação para a colocação de prótese no quadril tem muito mais relação com dor e a incapacidade de se tratar esta dor, do que com a idade do paciente ou a gravidade do desgaste.
Recuperação Funcional Pós Prótese de Quadril
O resultado funcional da prótese de quadril depende muito das condições do paciente antes da cirurgia, sendo que pessoas com mobilidade articular e massa muscular preservada tenem a responder melhor.
A melhora da dor costuma ser bastante expressiva. A maioria dos pacientes apresenta alívio importante ou completo da dor causada pela artrose, permitindo voltar a caminhar, subir escadas, entrar e sair do carro, calçar meias e sapatos e realizar outras atividades do cotidiano que antes eram limitadas.
A recuperação da mobilidade também costuma ser significativa, embora nem sempre o quadril volte a apresentar a mesma amplitude de movimento de uma articulação normal. Em pacientes com artrose avançada, que frequentemente já apresentam rigidez importante antes da cirurgia, parte dessa limitação persistirá mesmo após a colocação da prótese.
Além da melhora física, muitos pacientes relatam uma importante recuperação da qualidade de vida. O sono costuma melhorar pela redução da dor noturna, aumenta a disposição para caminhar e praticar exercícios, e há maior independência para realizar tarefas domésticas, atividades de lazer e viagens.
Após a recuperação completa, a maioria dos pacientes pode retornar a caminhadas e atividades físicas de menor impacto, como ciclismo, natação, hidroginástica, musculação ou dança.
Por outro lado, atividades de alto impacto, como corridas de longa distância, saltos repetitivos e esportes de contato precisam ser avaliados caso a caso, considerando as condições físicas pré-cirúrgicas, risco de traumas e experiência prévia na modalidade.