medicina e exercicio

Ansiedade no esporte

A ansiedade no esporte pode representar impactos significativos no desenvolvimento e no rendimento dos atletas. Quando não manejada, pode acarretar problemas emocionais, redução de desempenho e, em casos extremos, pode levar o indivíduo à desistência.

Afinal, quando pensamos em um atleta, não podemos pensar apenas no seu desempenho físico e fisiológico. Muitas outras questões estão envolvidas com o seu rendimento, como no caso das emoções.

Ou seja, nós, seres humanos, não podemos ser divididos em partes. Isso quer dizer que se existir algum desequilíbrio emocional não resolvido, teremos impactos em nosso desempenho corporal também.

Por isso, refletir sobre essa temática é um caminho importante a ser percorrido no campo esportivo. No decorrer deste texto nós descrevemos algumas informações importantes sobre o assunto. Acompanhe.

Impactos da ansiedade no esporte

Os impactos da ansiedade no esporte podem ser variáveis, de acordo com os níveis vividos pelo indivíduo. Alguns atletas podem perceber sintomas ansiosos mais intensos, enquanto outros podem ter menos reações ansiosas no dia a dia de treinos e competições.

Isso se deve ao fato de que muitos fatores estão envolvidos com as percepções que o sujeito tem sobre o que acontece à sua volta. Alguns indivíduos podem enxergar as competições como um caminho extremamente difícil de ser percorrido, enquanto outros podem perceber, na competição em si, uma motivação para “dar o seu melhor”.

A autoestima também pode estar diretamente associada com os níveis de ansiedade vividos no esporte. Por exemplo, se uma pessoa possui uma baixa autoestima, as chances de ela se sentir mais ansiosa, diante do seu adversário, são muito maiores do que no caso de um indivíduo com autoestima equilibrada.

Portanto, os impactos da ansiedade no esporte variam de acordo com a realidade de cada sujeito. Por isso, o trabalho psicológico em casos de ansiedade, assim como a abordagem psicológica no fracasso esportivo, precisa considerar a subjetividade do sujeito, visando um trabalho pautado na particularidade de cada atleta.

A seguir, no entanto, descrevemos alguns dos possíveis impactos da ansiedade no esporte. Encare por um viés informativo, sem deixar de lado a premissa que destacamos acima – de que cada indivíduo pode experimentar esses impactos de forma diferente

1. Comportamento oscilante na atuação esportiva
A ansiedade pode ocasionar um comportamento oscilante na atuação esportiva do atleta. Isso porque tanto os efeitos psicológicos da ansiedade, quanto os físicos, podem desencadear impactos nos movimentos corporais, nos pensamentos diante dos desafios vividos no esporte, etc.
A pessoa pode começar a ter pensamentos repetitivos de que a situação é muito difícil, a ponto de se esquecer de regras importantes que foram treinadas antes da competição, por exemplo.
A oscilação pode ocasionar erros e equívocos que, somados, podem elevar ainda mais o abalo emocional do atleta.
Por isso, pensar em estratégias de redução de estresse no esporte e de minimização da ansiedade é muito importante.

2. Falta de confiança
A falta de confiança também pode estar intimamente relacionada à ansiedade no esporte. A pessoa pode acreditar que não possui os atributos necessários para vencer um adversário “forte”, ancorando a sua concentração e os seus pensamentos apenas nesse ponto de vista.
Isto é, ao invés de levar em conta as suas qualidades e a projeção positiva que pode ter com determinada competição, ela foca apenas no ato de ganhar (como o único resultado que poderia ser encarado como bom) e nas qualidades e forças do adversário.
Tudo isso pode ir minando a visão que a pessoa tem de si e a confiança que teria, dentro do campo, para agir de determinadas maneiras. Isto é, o indivíduo pode se esquivar de momentos decisivos do jogo, como se desistisse, por não se sentir confiante para tentar determinadas estratégias.
Consequentemente, o fracasso esportivo pode se tornar uma realidade emergente em casos de ansiedade excessiva.

3. Pensamentos sabotadores
Os pensamentos sabotadores também costumam aparecer em casos de ansiedade no esporte. O sujeito pode começar a repetir, em sua mente, que é incapaz de ultrapassar determinada situação, e que jamais será bom o bastante para atingir um resultado positivo.
Além disso, pode ancorar os pensamentos na premissa de que só será realmente bom se conseguir ganhar a competição, pressionando a si mesmo de uma forma extremamente intensa.
Os pensamentos podem repetir uma única ideia, como por exemplo, “sou incapaz”, bem como pode ser uma repetição de pensamentos negativos que acabam aumentando a auto pressão que a pessoa provoca em si mesma.

4. Sentimento de frustração
Sem dúvidas, a ansiedade no esporte também pode ser caminho para o sentimento de frustração. A pessoa pode se sentir frustrada ao não conseguir atingir determinados resultados devido às particularidades vividas em crises ansiosas.
Por exemplo, um indivíduo pode passar horas e horas do seu dia treinando determinada coreografia para uma apresentação de ginástica rítmica, a ponto de se abdicar da sua vida pessoal. Porém, no dia da competição, pode se ver extremamente ansioso, não conseguindo colocar em prática nem metade dos resultados que havia obtido no treino.
A consequência desse acontecimento pode ser o sentimento de frustração, impotência, angústia e tristeza, além de haver casos em que o sujeito se sente revoltado com o próprio desempenho, culpando-se e criticando-se de um modo excessivo.

5. Dificuldade para manter o foco e a concentração
A ansiedade pode ocasionar uma série de sintomas físicos e psicológicos. O sujeito pode ficar com medo, angustiado, com sudorese, sensações de mal-estar, tontura, entre outros sintomas característicos do quadro ansioso.
Tudo isso pode atrapalhar, expressivamente, a capacidade de foco e de concentração do sujeito. Sendo assim, é possível que ele acabe tendo um rendimento reduzido nas suas atividades esportivas, devido à dificuldade para manter-se atento ao que está sendo feito.
Logo, alguns equívocos podem começar a aparecer, agravando a sensação de perda de controle e de ansiedade, que podem ocasionar uma verdadeira “bola de neve” de fatores negativos.
Quanto mais ansiedade, menos concentração, mais equívocos podem acontecer, mais ansiedade surge, e assim se forma um ciclo.

Como é possível lidar com a ansiedade no esporte?

Claramente a ansiedade no esporte é uma realidade que merece atenção, uma vez que os impactos desse quadro podem ser bastante importantes. Porém, como estamos diante de uma questão subjetiva, é preciso reconhecer que não existe um processo certo ou errado na hora de agir e lidar com a ansiedade. Existem caminhos que podem contribuir para a sensação de bem-estar e para a minimização do problema, mas o ideal é que o atleta sempre considere o acompanhamento de um psicólogo para atravessar esses momentos.

De qualquer maneira, trouxemos algumas recomendações que podem ser úteis na hora de colocar em prática medidas que minimizem a ansiedade. Veja:

1. Desenvolvimento da inteligência emocional
A inteligência emocional consiste no ato de reconhecer e aprender a lidar com as próprias emoções que são vividas. Muitas vezes, podemos ter crises emocionais, mas há uma dificuldade para colocar em palavras o que estamos sentindo. Quando existe essa dificuldade, também pode ser mais difícil pensar em estratégias que ajudem a minimizar a sensação de mal-estar.
Por exemplo, o atleta pode se atentar para as emoções envolvidas com as competições, tentando nomeá-las e colocá-las em palavras. A ansiedade tem relação com o quê? Com o medo da perda? Com o medo de errar uma estratégia? Ou com o medo do julgamento alheio?
Quando conseguimos compreender melhor a emoção, dando nome e significado para ela, podemos pensar em estratégias.
No caso do medo do julgamento alheio, o atleta poderia pensar que está executando tal atividade em prol de si mesmo e daquilo que ele acredita, e não para mostrar às outras pessoas. Da mesma forma, pode pensar que a perda faz parte do esporte, caso esse seja o medo, pois sempre haverá um ganhador e um perdedor em um jogo.
Todas essas análises e ressignificações podem minimizar os efeitos de algumas emoções negativas, ajudando a manejar o sentimento de ansiedade.

2. Alinhamento de expectativas
Alinhar as expectativas também contribui na hora de reduzir a ansiedade no esporte. Isto é, às vezes criamos metas e objetivos irreais para a nossa vida, o que pode nos colocar diante de desafios que ultrapassam os nossos limites e possibilidades.
Portanto, é preciso praticar o autoconhecimento, reconhecer os próprios limites e traçar metas que criem expectativas mais reais. Caso contrário, tanto a ansiedade, quanto a frustração, poderão se tornar realidades recorrentes.

3. Ressignificação de crenças e pensamentos
Ressignificar crenças e pensamentos pode ajudar a quebrar tabus e estigmas que o próprio atleta pode ter criado, de modo inconsciente, sobre a sua vida enquanto esportista.
É o caso de quebrar com as crenças de que é impossível atingir um resultado positivo diante de outro competidor específico, ou minimizar os pensamentos negativos, buscando formas mais otimistas de pensar sobre as situações.
As ressignificações acerca do significado da perda e do ganho também podem acontecer, evitando que o indivíduo enxergue sucesso apenas no ganho e uma verdadeira punição na perda.

4. Traçar objetivos claros
Assim como alinhar as expectativas é uma forma de reduzir a ansiedade no esporte, traçar objetivos claros também é relevante. O atleta poderá ter uma visão mais clara do que pode ser alcançado, à medida que vai desenvolvendo a sua carreira de esportista.
Por meio das metas, é possível analisar o local no qual o indivíduo permanece hoje, quais os objetivos que ele quer alcançar e quais são os passos de desenvolvimento que devem ser dados até lá, sempre se baseando em metas mensuráveis e reais.

5. Cuidar da saúde mental para além do esporte
A saúde mental não deve ser uma prioridade ancorada apenas no esporte. Afinal, a ansiedade pode ser desencadeada por muitos gatilhos, inclusive por fatores externos ao trabalho no esporte em si.
Por conta disso, buscar cuidar da saúde mental, levando em conta a vida pessoal do sujeito, pode ser uma forma de minimizar a ansiedade vivida no cotidiano. Neste caso, sugerimos a busca pela psicoterapia, a construção de uma rotina saudável, a manutenção dos laços sociais, e assim por diante.

6. Foco na autoestima e na autoconfiança
O foco na autoestima e na autoconfiança deve ser uma das pautas levadas em conta na hora de reduzir a ansiedade no esporte. Como vimos no decorrer deste texto, a falta de confiança em si mesmo pode impactar o rendimento do atleta, que cria, em sua mente, pensamentos sabotadores de que não será capaz de atingir determinado resultado.
Esses pensamentos podem atrapalhar as tomadas de decisão, a concentração, o rendimento como um todo e assim por diante.
Sendo assim, buscar formas de fortalecer a autoestima, refletindo sobre os pontos positivos, comemorando as conquistas, solicitando feedbacks ao treinador, cuidando da mente e do corpo como um todo, são maneiras de se sentir mais confiante diante das competições, treinos e, inclusive, diante das adversidades da vida pessoal.

7. Evitar comparações com outros atletas e times
A comparação não deve acontecer em nenhuma esfera da vida das pessoas. No esporte, não é diferente. A comparação com outros atletas é descolada da realidade e, ainda, injusta. Ninguém atravessa as mesmas situações, ninguém tem as mesmas oportunidades, ninguém caminha a mesma história na vida e, ainda, ninguém tem o mesmo corpo.
Sendo assim, quando o atleta estiver prestes a iniciar uma competição, os pensamentos não devem ser comparativos ao rendimento que acontece do outro lado, mas, sim, podem ser voltados às formas como o atleta pode superar a si mesmo. Aqui, o que importa é o rendimento dele, diante da sua própria história, e não em comparação à história alheia.

8. Acompanhamento psicológico
O acompanhamento psicológico, por meio da psicoterapia, por exemplo, pode resultar em novas visões sobre o dia a dia do atleta e sobre os seus mecanismos de enfrentamento das adversidades.
Isto é, o atleta poderá falar sobre as suas questões pessoais, suas angústias, medos, anseios, revoltas, ideias, etc.
O terapeuta, que age de forma neutra, poderá orientar, questionar e direcionar o indivíduo em suas próprias descobertas e no seu próprio desenvolvimento da inteligência emocional.
Mecanismos pessoais de enfrentamento da ansiedade no esporte poderão ser descobertos durante as sessões, e aprimorados com o propósito de promover um “Treinamento Psicológico” para que o indivíduo transforme as suas percepções, seus pensamentos e suas visões sobre o esporte, elevando a sua qualidade de vida.

9. Reconhecimento dos momentos de ansiedade
Aprender a reconhecer os principais momentos de ansiedade e os gatilhos por trás deles contribui para um manejo mais assertivo do que se vive nessas situações.
Se o atleta consegue reconhecer as situações de ansiedade, percebe os sintomas como decorrentes de determinado gatilho, poderá pensar em formas de minimizar tais pensamentos distorcidos, por exemplo.
É, basicamente, o que mencionamos no tópico de desenvolvimento de inteligência emocional: a pessoa aprende a escutar e a nomear o que sente, buscando mecanismos internos e externos para enfrentar a situação com mais equilíbrio.

10. Técnicas de relaxamento
Por fim, o atleta também pode investir nas técnicas de relaxamento, como meditação, musicoterapia, técnica de Jacobson, respiração diafragmática, etc. Afinal, todas essas atividades e técnicas têm demonstrado resultados satisfatórios quando pensamos na redução de estresse e de ansiedade nos mais diversos contextos sociais.
Assim sendo, no esporte esses benefícios também poderão ser aproveitados de um modo interessante.
Se possível, converse com um psicólogo para aprender um pouco mais sobre as técnicas de relaxamento e assim elevar a efetividade dos processos.

Referências
CNN BRASIL. Saúde mental: como a pressão psicológica pode prejudicar o desempenho de atletas. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esporte/saude-mental-como-a-pressao-psicologica-pode-prejudicar-o-desempenho-de-atletas/. Acesso em 11 nov. 2022.

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