Vulvovaginite Infantil
O que é a Vulvovaginite Infantil?
A vulvovaginite infantil é uma inflamação da vulva e da vagina que ocorre em meninas antes da puberdade. Trata-se de uma das causas mais comuns de vermelhidão, coceira, dor e corrimento genital nessa faixa etária. É considerada a principal queixa ginecológica da infância, sendo responsável por cerca de metade a três quartos das consultas em ginecologia pediátrica.
A doença é mais comum entre os 2 e os 7 anos de idade, período em que a região genital ainda não sofreu a influência dos hormônios da puberdade. Nessa idade, a pele da vulva é mais fina e delicada, há menor produção de secreções protetoras e a proximidade entre a vagina e o ânus facilita a irritação da região e o contato com bactérias presentes nas fezes.
Apesar da preocupação que costuma causar nos pais, cerca de 70% a 80% dos casos são inespecíficos ou irritativos, ou seja, não são causados por uma infecção. A inflamação geralmente surge pela combinação entre uma pele mais sensível e fatores irritativos do dia a dia, como higiene inadequada ou excessiva, umidade prolongada, uso de sabonetes perfumados, roupas apertadas ou contato com urina e fezes. Infecções por bactérias, fungos ou outros microrganismos representam apenas uma parcela dos casos.
Na maioria das crianças, a vulvovaginite é uma condição benigna e melhora com medidas simples de higiene e cuidados locais. Entretanto, quando os sintomas são intensos, persistentes, recorrentes ou acompanhados de febre, sangramento importante, secreção com mau cheiro ou dor intensa, é fundamental que a menina seja avaliada para identificar a causa e indicar o tratamento mais adequado.
Quais as Causas da Vulvovaginite Infantil?
Antes da puberdade, os níveis de estrogênio são naturalmente baixos. Como consequência, a pele da vulva é mais fina, delicada e menos resistente às agressões do ambiente.
Além disso, existem outras características dessa fase da vida que favorecem a inflamação:
- ausência de pelos pubianos, que oferecem proteção mecânica à região genital;
- menor produção de secreções vaginais, que ajudam a proteger a mucosa contra irritações e microrganismos;
- pH vaginal menos ácido, tornando a flora vaginal diferente daquela observada após a puberdade;
- pequena distância entre o ânus e a vagina, facilitando o contato da vulva com bactérias presentes nas fezes;
- maior dificuldade das crianças em realizar uma higiene íntima adequada.
Irritação da região genital
A irritação da pele da vulva é, de longe, a causa mais frequente da vulvovaginite infantil.
Diversas situações podem provocar essa irritação, entre elas:
- higiene íntima insuficiente;
- limpeza excessiva ou muito vigorosa da região genital;
- uso de sabonetes perfumados, banhos de espuma, perfumes íntimos e lenços umedecidos;
- permanência prolongada com roupa íntima ou biquíni molhados;
- roupas muito apertadas ou tecidos sintéticos;
- contato prolongado da pele com urina ou fezes;
- assaduras e dermatites da região genital.
Infecções
Embora muitas pessoas associem a vulvovaginite a uma infecção, essa não é a causa da maioria dos casos.
As bactérias presentes na pele ou na região anal podem ocasionalmente provocar infecção, principalmente quando existe irritação prévia da vulva. Já as infecções por fungos, como a candidíase, são relativamente raras em meninas saudáveis antes da puberdade e costumam estar associadas a fatores predisponentes, como uso recente de antibióticos, diabetes, imunodeficiências ou uso prolongado de fraldas.
Outros agentes infecciosos, como os oxiúros (Enterobius vermicularis), também podem causar intensa coceira na região anal e genital, favorecendo a inflamação da vulva.
Corpo estranho
Algumas crianças podem introduzir pequenos objetos na vagina durante a exploração natural do próprio corpo. O papel higiênico é, de longe, o corpo estranho mais encontrado.
Nesses casos, é comum haver corrimento persistente, muitas vezes com odor desagradável ou pequeno sangramento, sendo necessária avaliação médica para confirmação do diagnóstico e retirada do objeto.
Outras doenças
Mais raramente, a vulvovaginite pode estar relacionada a outras condições que também causam inflamação da vulva, como o líquen escleroatrófico, uma doença inflamatória crônica da pele que provoca coceira intensa, manchas esbranquiçadas e dor.
Outra condição que pode estar associada é a sinéquia labial, em que os pequenos lábios ficam aderidos entre si. Embora a sinéquia não seja uma causa direta de vulvovaginite, ela pode dificultar a higiene local, favorecer o acúmulo de urina e aumentar o risco de inflamações recorrentes.
Abuso sexual
As doenças sexualmente transmissíveis também podem causar vulvovaginite em crianças, mas essa é uma situação pouco frequente. Sempre que forem identificados sinais sugestivos de infecção por agentes sexualmente transmissíveis, lesões incompatíveis com acidentes habituais ou outras situações que despertem suspeita de violência, a criança deve ser avaliada cuidadosamente por uma equipe especializada, seguindo protocolos específicos de proteção à infância.
Quais os Sintomas da Vulvovaginite Infantil?
Os sintomas mais comuns da vulvovaginite infantil incluem:
- vermelhidão da vulva;
- coceira na região genital;
- ardor ou sensação de queimação;
- dor ou sensibilidade ao toque;
- inchaço dos pequenos lábios;
- corrimento vaginal, que pode deixar manchas na calcinha.
Um dos sintomas que mais preocupa os pais é a dor ao urinar. Na maioria das vezes, porém, isso não significa que a criança tenha uma infecção urinária. O desconforto geralmente ocorre porque a urina entra em contato com a pele inflamada da vulva, causando ardor temporário durante a micção.
Algumas meninas também apresentam sensação de umidade constante na região genital, mau cheiro local ou pequenos episódios de sangramento. Esse sangramento costuma ser discreto e ocorre porque a pele inflamada é muito delicada e pode sofrer pequenas fissuras após coçar ou durante a higiene íntima.
Quando existe uma infecção bacteriana ou um corpo estranho na vagina, o corrimento costuma ser mais abundante e pode apresentar coloração amarelada ou esverdeada, odor desagradável ou estar associado a sangramento persistente. Já nas vulvovaginites irritativas, que representam a maioria dos casos, o corrimento costuma ser pequeno ou até mesmo estar ausente.
Em crianças pequenas, os sintomas nem sempre são fáceis de identificar. Muitas vezes, os pais percebem apenas que a menina passou a coçar a região genital com frequência, evita sentar por causa do desconforto, reclama de dor durante a higiene ou apresenta irritabilidade sem uma causa aparente.
Como é Diagnosticada a Vulvovaginite em Crianças?
Como é feito o diagnóstico da Vulvovaginite Infantil?
Na maioria das crianças, o diagnóstico da vulvovaginite infantil é feito apenas com uma boa conversa com os pais e um exame cuidadoso da região genital. Na maior parte dos casos, não são necessários exames de sangue, ultrassom ou outros exames complementares.
Durante a consulta, o médico procura identificar os principais sintomas, quando eles começaram e se existe algum fator que possa ter desencadeado a inflamação, como uso de sabonetes perfumados, roupas apertadas, higiene inadequada, uso recente de antibióticos ou episódios anteriores de vulvovaginite.
O exame físico também permite avaliar a intensidade da inflamação e procurar sinais que possam indicar uma causa específica, incluindo:
- presença de vermelhidão, inchaço ou lesões na vulva;
- existência de corrimento, sua quantidade, cor e odor;
- sinais de assaduras, dermatites ou outras doenças da pele;
- presença de sinéquia labial;
- sinais sugestivos de corpo estranho ou trauma.
Na maioria das meninas, essas informações são suficientes para confirmar o diagnóstico e iniciar o tratamento.
Exames complementares costumam ser reservados para situações específicas, principalmente quando existe corrimento abundante, secreção purulenta, odor muito intenso, febre, recorrências frequentes ou falha do tratamento inicial.
Nessas situações, o médico pode coletar uma amostra da secreção vaginal com um cotonete para identificar a presença de bactérias ou outros microrganismos e orientar o tratamento mais adequado.
Diagnóstico diferencial
Embora a vulvovaginite irritativa seja a causa mais comum de vermelhidão e coceira genital antes da puberdade, outras doenças podem provocar sintomas parecidos e precisam ser consideradas, especialmente quando o quadro é intenso, recorrente ou não melhora com os cuidados habituais.
Líquen escleroatrófico
O líquen escleroatrófico é uma doença inflamatória crônica da pele que pode causar coceira intensa, dor e manchas esbranquiçadas na vulva. Diferentemente da vulvovaginite irritativa, costuma provocar alterações características da pele e frequentemente necessita de tratamento específico.
Sinéquia labial
A sinéquia labial pode dificultar a higiene da região genital e favorecer episódios repetidos de vulvovaginite. Além disso, algumas meninas apresentam irritação e desconforto relacionados à própria aderência dos pequenos lábios.
Infecção urinária
Algumas crianças apresentam dor ao urinar tanto na infecção urinária quanto na vulvovaginite. Entretanto, na vulvovaginite, a dor geralmente ocorre porque a urina entra em contato com a pele inflamada da vulva, enquanto na infecção urinária a inflamação está localizada no trato urinário. Quando existe dúvida, principalmente se houver febre, o médico poderá solicitar um exame de urina.
Tratamento da Vulvovaginite Infantil
Como é feito o tratamento da Vulvovaginite Infantil?
O tratamento da vulvovaginite infantil depende da causa da inflamação. Como aproximadamente 70% a 80% dos casos são irritativos e não infecciosos, a maioria das meninas melhora apenas com mudanças nos hábitos de higiene e cuidados locais, sem necessidade de antibióticos ou medicamentos antifúngicos.
O principal objetivo do tratamento é reduzir a inflamação da pele, aliviar os sintomas e evitar novos episódios.
Cuidados locais e higiene íntima
Os cuidados com a região genital são a parte mais importante do tratamento e costumam ser suficientes para resolver a maioria dos casos.
As principais orientações incluem:
- lavar a região genital apenas com água ou sabonete suave, sem perfume;
- secar delicadamente a região após o banho, sem esfregar a pele;
- ensinar a limpeza da frente para trás após evacuar, reduzindo o contato da vulva com bactérias presentes nas fezes;
- trocar rapidamente roupas íntimas, fraldas ou roupas de banho molhadas;
- preferir roupas íntimas de algodão e evitar roupas muito apertadas;
- evitar permanecer longos períodos com suor ou umidade na região genital.
Quando existe irritação importante da pele, o médico também pode recomendar pomadas de barreira, como vaselina ou óxido de zinco, que reduzem o atrito, protegem a pele e aliviam o desconforto durante a cicatrização.
Na maioria dos casos de vulvovaginite irritativa, a melhora ocorre dentro de alguns dias após o início dos cuidados locais, com resolução completa em uma a duas semanas.
Medicamentos
Medicamentos só são indicados quando existe uma causa específica identificada.
Nas infecções bacterianas, o tratamento pode incluir antibióticos tópicos ou por via oral, dependendo da bactéria envolvida e da gravidade do quadro.
As infecções por fungos, como a candidíase, são pouco frequentes antes da puberdade. Quando confirmadas, podem ser tratadas com medicamentos antifúngicos, geralmente na forma de cremes vaginais ou pomadas.
Se a causa for oxiurose (Enterobius vermicularis), o tratamento é feito com medicamentos antiparasitários, sendo comum tratar também os demais moradores da casa para reduzir o risco de reinfecção.
Tratamento das causas específicas
Quando existe um motivo específico para a vulvovaginite, o tratamento deve ser direcionado para a causa, o que pode incluir:
- retirada de corpo estranho quando presente;
- tratamento do líquen escleroatrófico com pomadas específicas;
- tratamento da sinéquia labial quando indicada;
- controle de dermatites ou alergias da região genital;
- tratamento de doenças sistêmicas que aumentem o risco de infecções, como diabetes.
Sem corrigir a causa de base, a inflamação tende a reaparecer.
O que não fazer?
Algumas medidas podem atrasar a melhora da vulvovaginite e devem ser evitadas, incluindo:
- utilizar antibióticos ou pomadas por conta própria;
- aplicar pomadas antifúngicas sem orientação médica;
- realizar duchas vaginais ou lavagens internas da vagina;
- esfregar a região genital durante a higiene;
- utilizar sabonetes íntimos, perfumes ou produtos de higiene perfumados;
- insistir em limpezas excessivas da região genital.
Medidas Preventivas
Algumas medidas preventivas devem ser adotadas especialmente por aquelas meninas com histórico de vulvovaginite, para evitar a recorrência da inflamação genital.
Entre elas, incluem-se:
- Evitar produtos irritantes, como banhos de espuma e sabonetes perfumados;
- Limpar-se da frente para trás depois de fazer xixi ou cocô;
- Secar bem a área vaginal depois de urinar;
- Evitar roupas apertadas.